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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O que quer a Alemanha?

O Bundesbank, o Buba (banco central alemão) propôs que os países que entrarem em dificuldade financeira ou com risco de insolvência, antes de serem abrangidos por resgates europeus, devem começar por aplicar uma taxa interna sobre o património dos seus cidadãos (one-off tax). É a generalização da regra imposta a Chipre, de taxação dos depositantes dos bancos (“bail in”).

Referindo-se a isto, Yanis Varoufakis interroga-se se essa gente não é idiota e não ignoram o que seria somar uma corrida aos bancos à crise do euro. Não sendo idiotas, acha YV que a atitude do Buba, assim como a queixa do seu presidente ao tribunal constitucional alemão sobre a política de Draghi de “salvação do euro”, podem significar uma vontade assumida de reengenharia do espaço do euro, para sua circunscrição à Europa central e do norte, o que também significaria um enorme afluo a essa zona de capitais do sul em fuga dos seus bancos.

Mas também há outras formas de ver essa “idiotice”, aliás cumulativas. Por um lado, assim como Gaspar era tudo menos estúpido e académico ignorante, essa centena de econocratas sentados em Bruxelas/Francoforte/Berlim que hoje dominam a Europa têm um umbigo do tamanho do Terreiro do Paço e tudo fazem para não admitirem um erro, mesmo quando isso obrigue a desonestidades intelectuais e, pior, sacrifício das pessoas e das riquezas nacionais. Com a cumplicidade interessada dos gauleiters “nacionais”, estão prontos a gastarem rios de dinheiro para que os seus programas sejam um sucesso.

Por outro lado, estão a obedecer a uma agenda ideológica, que pode exigir alguma destruição dos alicerces da construção europeia, feita numa fase inicial da hegemonia do neoliberalismo. Pode custar dinheiro e abalar o sistema financeiro, mas será para essa gente o preço útil a pagar pela destruição definitiva do para eles odiado estado do bem-estar e da justiça social (mesmo que justiça ainda longe das aspirações populares). 

Neste sentido, a sua política de austeridade só falha em termos de racionalidade económica, não de cumprimento de um objectivo político bem definido e estrategicamente desenhado.

(Na foto, Jens Weidemann, ex-conselheiro de Merkel, "jovem génio" dos top econocratas e hoje presidente do Buba)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Euro-utópicos e euro-realistas

RESUMO: Na sequência das eleições alemãs, um artigo longo  sobre o euro-utopismo. Desenvolvo três aspectos fundamentais: 1. a concepção idealista da UE como entidade agregadora de estados iguais, quando, de facto, é uma comunidade sujeita a um “hegemónio benévolo”, a Alemanha; 2. a sobrevalorização euro-utópica da aplicação à Europa actual de formas tradicionais de luta política, que não consideram a hegemonia e o enorme peso estrutural do neoliberalismo, bem como a subordinação dos governos à ideologia alemã; 3. o idealismo romântico (?) dos projectos federativos. 

* * * * *

Discorrendo sobre as eleições alemãs, dois comentadores bem conhecidos, Rui Tavares e Daniel Oliveira, escrevem ontem artigos sobre a influência que elas têm na política nacional e o que se pode esperar delas. Em ambos os casos, por razões diferentes, dão motivo para nos questionarmos sobre concepções políticas baseadas na crença na fada europeia, na exaltação de uma eurofilia utópica e paralisante.

Para esses euro-utopistas que andam por toda a UE, a crise da Europa tem razões principalmente políticas, de défice e não de avanço voluntarista na união, e, por consequência, o terreno principal da luda de esquerda é a nível europeu.

Pelo contrário, a crise da construção europeia não está no défice formal de democracia, de colaboração entre os estados, de participação dos povos europeus, na burocracia centralizadora que desconhece o princípio da subsidariedade. Tudo isto existe mas, para o comum do cidadão dos países europeus (nem me lembro de dizer “cidadão europeu”), tudo isto é fado, tudo isto lhe é estranho. É conversa de uma elite que se converteu a uma globalização cultural que é uma caricatura de cosmopolitização solidamente enraizada em realidades nacionais e regionais com significado bem estabelecido.

A crise está numa disfuncionalidade intrínseca dos princípios e critérios de união económica (o resto são cantigas), com contradições insanáveis, como, por exemplo, a concorrência total num mercado único, com liberdade de movimentação de capitais, e a proclamada solidariedade. Está na aventura do euro sem condições de “zona monetária óptima”. Está na contradição máxima de, para salvar o euro, precisar de avançar para uma federação e ninguém o querer (nem eu, na modesta parte de cidadão que me toca).

A União Europeia (UE) não é uma união ou confederação de estados iguais, nem politicamente nem economicamente. A diferenças de facto vieram juntar-se, com os resgates à Grécia, a Portugal e à Irlanda imposições que significam verdadeira limitação da soberania. Alemanha desempenha hoje na Europa um papel de “hegemónio benévolo”, como os Estados Unidos à escala mundial, depois do colapso da URSS. São características típicas do “hegemónio benévolo” –  nova forma de potência imperial – por exemplo, grande poder económico, controlo organizacional da sociedade, grande poder tecnológico, reconhecimento pelos estados satélites do seu papel de líder, poder militar.

A Alemanha só não tem esse poder militar, mas, numa época em que a guerra se faz com a economia, ele não é essencial para a capacidade alemã de se assumir e impor como “hegemónio benévolo”. Então, se a real politik ainda vale alguma coisa, como é que os europeístas fantasistas pensam que a Alemanha vai prescindir desse estatuto de facto, sujeitar-se a ser mais um igual entre iguais na UE e mormente onde as coisas doem mais, na eurozona? Como é que os seus governos vão deixar de atender ao desejo dos alemães de assumirem esse papel internacional (com algum revanchismo?). Mais. Com a reunificação alemã e com a entrada na UE de um bom número de países tradicionalmente na órbita de influência alemã (não obstante as muitas guerras entre eles), a tendência centrípeta do eixo franco-alemão dos pais fundadores da CEE inverteu-se e abre-se uma brecha entre um bloco germano-leste e um bloco latino (com o Reino Unido a assistir).

O domínio das concepções alemãs na construção europeia e do euro é o reflexo da vitória da concertação  de uma ideologia e de uma prática economico-política com ela intimamente relacionada. O neoliberalismo esteve no núcleo do projecto europeu, no seu desenvolvimento a partir do acto único e mais acentuadamente de Maastricht. Reclamar, nestas condições, a democratização do projecto, como fazem os euro-utopistas, é não perceber que ambas as coisas estão associadas e que não se pode eliminar a superestrutura tecnocrática e de “especialistas” (e comissários) sem cultura democrática sem se destruir a ideologia neoliberal, que só sobrevive, hegemonicamente (vide Gramsci), por se sustentar necessariamente nesse aparelho cultural e de manipulação mental.

O euro, no quadro da financeirização da economia, é o compromisso de solução entre a dificuldade de não ser sustentado por um estado único com orçamento comum e um banco central politicamente dependente e com poder na política monetária; e ter de respeitar um mínimo de equilíbrio entre as diversas economias (o que não faz, desde o início com distorções na definição de paridades, a causar excedentes e défices, movimentos de capitais para crédito fácil, tudo a explodir em bolhas financeiras).

Como o euro foi coisa difícil de aceitar pela Alemanha (e pelos seus eleitores), que certamente preferia que a reunificação e a integração dos países de leste na UE tivesse sido feita sob o peso do marco, Mitterrand pagou o preço de definir o euro à imagem e semelhança do marco: moeda forte, controlada por um banco central independente, com objectivo exclusivo de garantir a estabilidade dos preços. 

Afinal, isto nem é só novidade do neoliberalismo europeu à Thatcher. Já vem inscrito no velho ordoliberalismo alemão da primeira metade do século XX, que sempre influenciou a democracia cristã, diferindo apenas do neoliberalismo por defender maior papel regulador do Estado, mas sempre a bem do mercado. Impregnado na mentalidade alemã, vê-se agora reforçado pela sua tendência para a “economia moral”, como norma de sociedades de formigas, trabalhadoras e responsáveis, que não têm de ajudar as sociedades de cigarras, gastadoras e irresponsáveis. A tristeza está em ouvirmos tantos portugueses a concordarem com isto.

O imobilismo da posição alemã está portanto inscrito no seu “código genético”, independentemente de haver ou não eleições como as de domingo passado. É sintomática a recusa alemã em considerar qualquer correcção da sua visão dogmática, mesmo quando todos os dados reais o exigem. Só aceitou o tratado orçamental, que se encaixa perfeitamente na sua visão, mas rejeita intransigentemente as obrigações europeias de dívida mutualizada, o alargamento de poderes do BCE, uma verdadeira união bancária abrangendo também os bancos alemães, o fundo de reestruturação bancária e, obviamente, a taxa Tobin. Só não recusa os 41 mM de euros que já lucrou em juros dos empréstimos de resgate dos países periféricos, Portugal incluído.

Pensar que todo este quadro político, ideológico e económico, extremamente entrosado e complexo, se resolve em termos de luta política tradicional agora apenas com mudança de terreno de batalha, para a Europa, como pretendem os euro-utopistas, é “wishful thinking” perigoso, que pode paralisar a esquerda dos países europeus.

Passemos agora para outra questão, estrutural e institucional. Goste-se ou não, é possível argumentar, em teoria, que muitas disfuncionalidades do euro poderiam ser resolvidas pela construção de uma zona monetária óptima, que a história mostra que só é viável como uma federação. É sintomático que, chegados a este ponto de dedo na ferida, os euro-utopistas começam as voltas, sabendo bem como a ideia não é apoiada pela generalidade dos europeus e, portanto, não tem a sustentação democrática que eles tanto defendem como o principal défice da UE.

Vou esquecer agora a diferença entre confederações e federações porque o que importa, em termos comparativos, são as federações actuais, principalmente as que passaram de um estadio a outro por razões financeiras e de necessidade de moeda comum e dívida mutualizada, como aconteceu com os EUA depois de Adams.

Em primeiro lugar, não me estou a lembrar de nenhuma federação bem sucedida que não tenha sido formada por vontade comum “contra” qualquer coisa (Estados Unidos, Brasil, de certa forma a Suíça) ou por imposição de um poder imperial ou seu sucessor (URSS) ou de um projecto político conduzido por um poder central forte, à Bismark (novamente a Alemanha!). Outros casos, de estados quase federativos (Canadá, Austrália, África do Sul), reúnem comunidades muito recentes, em experiências de expansão que exigem compromisso entre individualidade e a utilização de recursos comuns, principalmente as vias de comunicação e transportes. Outra coisa essencial, com excepção da Suíça e do Canadá, é a forte coesão cultural expressa pela existência de uma língua única.

A Suíça é caso único, pela diversidade de factores que, ao longo dos séculos, desde os três cantões alpinos iniciais até às adesões pós-napoleónicas, justificaram a expansão da confederação. Também a constituição de algumas federações não foi linear. Por exemplo, a seguir a Ipiranga, houve quase guerra civil por alguns estados brasileiros terem apoiado a velha monarquia. Mesmo a adesão dos estados americanos à guerra contra o colonialismo britânico não foi unânime.

Assim, qual é o projecto federalista dos euro-utopistas, em que se baseia, como se configura na prática, como garante a solidariedade, o equilíbrio de poderes federais e nacionais? Não me venham com a tese, que já li, de que tudo correrá bem pelo reconhecimento de que a diversidade é um factor histórico de enriquecimento. A Europa criou problemas demais, a terem de ser resolvidos, para agora se meter em mais aventuras voluntaristas, utópicas e embaladoras do ego de algumas elites bem pensantes, contra o realismo dos povos que sentem os seus problemas do dia-a-dia. O complicado é que, não avançando mais e mais nesta corrida para o abismo em que se lançou, há que regressar ao início e refundar todo o projecto, euro incluído. Mas qual é o mal?

A transposição para a dimensão europeia da luta popular e de esquerda é um mito perigoso. Parte do princípio, não demonstrado, antes pelo contrário, de que há mais forças a este nível e menor capacidade das forças conservadoras. É falso, porque foi principalmente à escala europeia que o neoliberalismo construiu um sistema ideológico, institucional e económico de que os nacionais são reflexo.

Ainda é ao nível nacional que se reúnem os factores de luta que são as experiências históricas consolidadas, as identificações partidárias, com os sindicatos e outros corpos intermédios, que há uma cultura política e tradição mobilizadora, que (paradoxalmente) há melhores condições e mais flexíveis para acções internacionais comuns. E, principalmente, é o nível a que, pela diversidade de condições económicas e sociais e relação específica entre efeitos da crise e da política central europeia, por um lado, e da reacção popular, por outro, surgirão condições revolucionárias para um assalto e outro depois ao Palácio de Inverno central europeu (passe a alegoria). Esperar pelo levantamento europeu geral e recusar a luta num só país é mesmo o que se pode esperar de trotsquistas serôdios…

P. S. (25.9.2013, 10:15) – Esta versão tem diferenças significativas em relação ao artigo original, publicado ontem. Reduzi a discussão dos artigos de RT e DO, a que os leitores têm acesso e centrei-me na minha própria posição sobre o tema da eurofilia utópica e dos seus perigos.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Alto e baixo

Quando Paul Krugman veio a Portugal receber o seu honoris causa, afirmou que há uma diferença de 20% entre os custos unitários de trabalho entre Portugal e a Alemanha, problema que é necessário resolver para que a nossa economia ganhe competitividade. A tese, para alguns economistas que tenho lido, não é tão linear, mas eu leigo vou admitir nesta nota o argumento de autoridade, que Krugman tem razão.

Como provavelmente recordam, isto foi interpretado como um apoio de Krugman à desvalorização interna. A direita política e económica e os seus acólitos da comunicação embandeiraram em arco: “veem, não dizíamos? O que é preciso é reduzir os custos de trabalho (salários, segurança social, etc.) para o nível alemão”.

Claro que não é bem assim. Uma relação é sempre bidirecional. O exemplo a seguir parece parvo ou simplório, mas olhem que não. Eu posso ter uma mesa com 70 cm de altura e o meu colega de escritório, ao lado, ter uma de 80 cm. Elas fazem diferença de 10 cm, 13,3% em relação à média. Mas é a minha mesa que é mais baixa ou a do meu colega que é mais alta? E para que fiquem da mesma altura, tanto posso acrescentar 10 cm aos pés da minha mesa como o meu colega cortar 10 cm à dele. Ou até eu aumentar 5 cm e ele cortar outro tanto.

É isto que agora Krugman vem lembrar, num “post” recente (tradução minha).
“Quando se diz que ‘os salários nominais portugueses são demasiado altos’ tem de se explicar ‘relativos a quê?’. A resposta, claro, é ‘relativos aos salários alemães’. (…) Mas Portugal não compete assim tanto com a Alemanha. Hum! Suponha que eu podia agitar uma varinha mágica (ou tocar umas notas numa flauta mágica) e fazer aumentar subitamente em 20% os salários alemães. O que pensa que aconteceria ao valor do euro contra o dólar e outras moedas? Cairia bastante, não é? E as exportações portuguesas ficariam muito mais competitivas em toda a parte, incluindo os destinos não-alemães ou, mais geralmente, não-europeus. 
(…) A diferença crucial entre as relações económicas entre a Alemanha e Portugal e, por exemplo, entre os EUA e El Salvador é que a Alemanha e Portugal partilham a mesma moeda. Isto cria obrigações à Alemanha, goste ela ou não. “ 
NOTA – Talvez haja quem pense que tudo o que há de “mau alemão” nesta crise tem marca da Senhora Merkel. Quanto à desvalorização interna que ocorreu na Alemanha na primeira década deste século, não é verdade. Para vergonha da social-democracia alemã (mas o Sr. Blair e tudo o que foi terceira via na Europa também fizeram o mesmo) a degradação da situação salarial e social dos trabalhadores deve-se à Agenda 2010 do governo Schroeder, de coligação entre o SPD e Os Verdes. Primeiro foram as leis imaginadas pelo guru de Schroeder, Peter Harz, principalmente a famigerada lei Harz IV, depois todos os acordos sociais em que os sindicatos se puseram a jeito, resultando tudo num grande “dumping” salarial.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A viragem alemã...

Vi-me hoje na obrigação de comprar o Público, que já há bastante tempo deixei de assinar. No espaço de acesso livre da página online li o título surpreendente “Alemanha junta-se ao coro de críticas contra a austeridade das troikas”. No pequeno texto acessível escreve Isabel Arriaga e Cunha, em Berlim, que “Responsáveis alemães demarcam-se da austeridade imposta aos países periféricos. Críticas são particularmente duras contra a Comissão Europeia e o seu presidente, Durão Barroso.” 

Adiante, “Já não é só em Portugal, Grécia ou Irlanda que as receitas de austeridade impostas pelas troikas de credores internacionais estão a ser criticadas: na Alemanha, as equipas da Comissão Europeia, Banco Central Europeu (BCE) e Fundo Monetário Internacional (FMI) também são acusadas de impor receitas erradas aos países sob programa de ajuda externa. Mais de três anos passados desde o início da crise da dívida europeia, os responsáveis alemães já estão mais do que habituados, e mesmo resignados, a serem apontados como os responsáveis pelas dificuldades vividas pelos países periféricos. Esta resignação não os impede, no entanto, de se demarcarem muito claramente do mantra da austeridade a todo o vapor que tem imperado na Europa desde 2010.

Tive dificuldade em acreditar e fui ler o artigo completo. 

– É certo que cresce o coro dos que põem em dúvida a razoabilidade político-social e a sustentação económica – teórica e empírica – da tese do austeritarismo gerador de crescimento ("austeridade expansionista") e redutor das dívidas, externa e pública. 
– É certo que já não são só economistas americanos que, na tradição europeia, chamaríamos de esquerda, que publicam diariamente artigos ou “posts” a alertar para o perigo que o austeritarismo representa para a Europa. 
– É certo que os gurus dessa tese neoliberal estão a ser questionados cientificamente, como Alesina e Ardagna ou Reinhart e Rogoff, estes últimos autores do livro apresentado por Gaspar, no meio de mais uma vaia. 
– É certo que o enorme coro doméstico do pensamento dominante batutado pela troika e por quem está por detrás dela ainda continua hegemónico, mas cada vez mais desafinado.
– É certo que mesmo Durão Barroso, ao contrário da notícia, já tem a lata de alertar para os riscos de uma austeridade que não deve ser excessiva (o que é uma austeridade não excessiva?) e que só se mantém fanaticamente nos carris da CE aquele senhor finlandês muito amigo de Gaspar e com expressão de baixa velocidade das ligações neuronais.

Mas a Alemanha, senhores? Não é só o governo, nem a Alternativa para a Alemanha, nem o apoio dos cidadãos a tudo o que seja postura egoista de “não pagamos para esses preguiçosos”. No extremo, o fervor neoliberal (ou ordoliberal, se preferirem) do Bundesbank e do seu jovem presidente Jens Weidmann põe em causa todo o sistema do euro quando sujeita ao Tribunal constitucional alemão a constitucionalidade do programa “outright monetary transactions” do BCE de Draghi (não é que eu ache que do OMT venha milagre, mas já ajudou alguma coisa).

O artigo fala de mil e uma expressões de crítica à troika e especialmemnte à CE por parte de responsáveis, dirigentes, ou só “Berlim”, sem alguma vez referir um nome. Não obstante, ficamos a saber que “os alemães” ou “a Alemanha” está em desacordo com a austeridade excessiva, que não perdoa a Barroso a hipocrisia de também a criticar, sendo o maior responsável, que está contra a taxa de IVA imposta à restauração grega e portuguesa, que apoia derrogações dos tratados para os países periféricos defenderem as suas exportações não competitivas, que critica a falta de avanço da união bancária (JVC - que a Alemanha tem protelado!), que apoia regras de facilitação do uso dos fundos estruturais para promover o crescimento da economia portuguesa, etc.

A mais poderosa economia europeia, potência regional indiscutível à boa maneira imperial, desavergonhada nos seus "diktats", está contra tudo isso ou apoia tudo aquilo, contra a troika e a CE, e é impotente para impor as suas posições? Como diz muito tipicamente um animador de festas que eu conheço, "estamos a brincar ou quê?".

Cada vez leio menos a imprensa portuguesa. Se calhar fico mal informado, porque o conteúdo deste artigo nunca o li no NYT, no Guardian, no Le Monde ou no El Pais. Cada jornalista tem as fontes que tem. Ou a capacidade crítica que tem.

P. S. (23:21) – Paulo Portas declarou hoje na Câmara de Comércio Luso-Alemã que “conseguimos” (quem?) não ceder à troika, que há limites e que a taxa sobre as pensões não será um objetivo estrutural. Conversa entre Portas e alemães, no dia do artigo do Público. Coincidência? Um novo amigo para Merkel? 

P. S. (15.5) – Um artigo de hoje no iOnline vai ao encontro da notícia do Público, dizendo que declarações nesse sentido foram proferidas pelo ministro Schäuble, o que, no entanto, é desmentido pela chancelaria. Na Alemanha, os ratos já começam a deixar o navio?

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O jovem alemão

Tem sido vastíssima a discussão sobre a eventualidade de abandono do euro por parte dos países da periferia em dificuldades, assim como sobre as prováveis ou possíveis consequências (certas, ninguém sabe) dessa saída para esses países, para a zona euro e, logo, para os restantes países da eurozona. Tudo isto por se considerar a dificuldade, senão impossibilidade, de coexistência, com a mesma moeda, de economias excedentárias, como a alemã e economias deficitárias e não competitivas, como as dos países periféricos.

Mas se não podem estar juntos na mesma casa, tem de ser obrigatoriamente o Sul a sair? Ou, teoricamente, o mesmo efeito não é obtido pela saída da Alemanha? Pode parecer brincadeira, mas é tese desde há algum tempo defendida pelo especulador financeiro George Soros. Igualmente, é a principal base programática do novo partido alemão “Alternativa para a Alemanha” (AfD), “credibilizado” pelos seus reputados economistas fundadores.

Essa falta do sentido de simetria, mesmo que como simples exercício argumentativo, tem a ver também com a discussão que houve entre nós quando a direita rejubilou com a opinião de Paul Krugman de que havia uma indesejável diferença de 20% entre os custos unitários de trabalho de Portugal e da Alemanha. Temos de os diminuir em Portugal, disse o coro de economistas e opinadores de serviço. Mas porque não deve ser a Alemanha a aumentar os seus? Claro que não estou a falar com realismo, mas de qualquer forma fica a pergunta, que nem é tola de todo: a Alemanha não beneficia a prazo de um reequilíbrio das economias europeias?

Dir-me-ão que não há risco de a Alemanha sair do euro e, com isso, provavelmente destrui-lo (ou não? pelo contrário, salvá-lo, a um euro então desvalorizado). É o que se depreende de todas as firmes declarações de fé da chanceler e dos principais políticos alemães. No entanto, há sinais preocupantes. Em primeiro lugar, esse apego alemão ao euro passa obviamente pela sujeição de toda a restante Europa, até da França, aos ditames alemães: obrigação da regra de ouro e do pacto orçamental, negação até agora da compra direta de dívida pelo BCE e fortíssimas restrições e penalização às operações de OMT, recusa de medidas do BCE que possam ser consideradas inflacionárias, resistência à descida das taxas de juro, etc.

Neste quadro, estranha-se que não tenha tido muito eco entre nós a última iniciativa alemã contra o euro, objetivamente, descrita e comentada no blogue de Yanis Varoufakis. Como se sabe, o banco central alemão, o Bundesbank, na gíria o Buba, é muitas vezes mais papista do que o papa, neste caso, a Sra Merkel e o seu governo. Não se esqueça que o anterior presidente, Axel Weber, se demitiu por discordância com a “moleza” do BCE e que o seu sucessor, Jens Weidmann, é o “wonder boy” do mais retinto ordoliberalismo-austeritarismo alemão.

Em resumo, segundo as informações e considerações de Varoufakis, que, como leigo, não vou discutir, o Buba impugnou junto do Tribunal Constitucional alemão a legalidade do programa de OMT que permitiu no verão passado aliviar transitoriamente a pressão sobre a economia do euro. Mesmo que o Tribunal não venha a corresponder totalmente à posição do Buba, poderá amarrar de tal forma o plano Draghi com condicionalismos que o podem tornar ineficaz. Para se ver até que ponto surrealista vai a visão fundamentalista do Buba – e falamos nós do dogmatismo fanático de Gaspar! – a impugnação inclui aspetos tão inesperados como considerar que não compete ao BCE preservar a integridade do euro; que o programa de OMT foi invalidado por o governo grego ter utilizado o seu próprio banco central; que, ao contrário da queixa de Draghi, é positivo que se tenha perdido a possibilidade de passagem à periferia das reduções da taxa de juro de refinanciamento.

Conclui Varoufakis: “O Sr. Weidman pode ver muito bem o que é apresentar esta deposição no campo constitucional, conscientemente e como parte de uma estratégia que leva o euro a uma morte por mil golpes quase silenciosos. Faça a sua escolha, caro leitor: vemos um grande erro do Bundesbank ou uma grande estratégia, cujo objetivo é trazer uma nova moeda forte a leste do Reno e ao norte dos Alpes, livre dos países deficitários e da França? Eu sei qual a interpretação em que eu iria apostar o meu dinheiro”.

NOTA – OMT, sigla de "outright monetary transactions": compra pelo BCE, no mercado secundário, de títulos de dívida pública emitidos pelos estados e sob condicionalismos penalizadores do tipo dos atuais resgates.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Um simples gráfico, um gráfico eloquente



Há coisas bem eloquentes, como este gráfico publicado por Paul Krugman. O sucesso alemão é o da austeridade, é verdade; aceitemos embora como simplificação, entendendo austeridade como o necessário para cumprimento dos limites religiosos aos três pecados, o défice, a dívida, a inflação. Por isto nos querem impô-la, como “prova” do sucesso da ideologia neo-liberal (aliás, por falar em Alemanha, anteriormente já a germânica ideologia ordo-liberal). 
Mas qual foi o preço que, arrebanhadamente, e com a cumplicidade dos seus sindicatos-empresa (dos maiores expoentes da economia e da finança alemã) eles aceitaram passivamente, para poderem ter o superavit que nos destruiu as economias periféricas? Vejam o gráfico. E os bancos e empresas alemães tiveram correspondente baixa de resultados económicos?
Continua muito boa gente a dizer que eles são melhores do que nós (e dos aldrabões e preguiçosos dos gregos nem se fala!) só porque são mais trabalhadores, mais "sérios", não gastam mais do que podem, são disciplinados, tudo exemplo do que "afinal sempre foram exemplo ao longo da história" (será mesmo que foi assim a história?... Lutero, Gutenberg, Leibnitz, Kant, Marx e Einstein - que eram judeus; e os muitos tiranos, Bismarck, os generais de Guilherme II, Hitler, etc., a história nunca é linear). 

Para esta muita gente que me custa a pensar que são meus compatriotas, este recente germanismo contrapõe-se a uma espécie de "marca genética" dos portugueses (e gregos, e italianos, e espanhóis, um dia destes franceses) que ainda provoca o novo e atual exercício masoquista da crítica das Farpas, que não leio. O tempo de hoje já não é para brilhantes exercícios literários de diletantes.

Vejam bem o gráfico. Eles diferem de nós é por, em uma década, terem consentido numa "desvalorização interna" (baixa do custo do trabalho) porque não podem ganhar competitividade pela desvalorização da moeda comum.
Diz um primo meu, alemão (eles não são todos iguais, obviamente, como se vê por este meu primo) que a história alemã alterna fases de estarem de joelhos ou de cavalgarem os outros, nunca têm meio termo. O gráfico mostra que o U. não tem obrigatoriamente razão. Há períodos, como o atual, em que cavalgam os outros porque, entre eles, se puseram de joelhos (os trabalhadores, claro).

NOTA - Sobre os mitos de "caracterização genética dos povos", ainda ontem tive a experiência curiosa de alguns amigos me manifestarem a sua certeza de que nunca em Portugal vai haver revolta nas ruas, coisas terríveis como delapidar bancos ou atirar pedras à polícia, porque somos diferentes, um povo de bons costumes. Como é possível dizer-se isto quase quatro décadas depois desta típica propaganda salazarista? As lutas violentas, fratricidas, entre os bandos de nobreza, reis, infantes e infantas, na primeira dinastia? E 1383 e o bispo defenestrado? E as muitas "jacqueries" que aconteceram na nossa história? E o massacre de 1506? E os autos de fé? E as lutas civis liberais-absolutistas? E a Patuleia? E o regicídio? E a violência da República (que o diga Machado dos Santos)? E o assassinato de Sidónio? E até o Malhadinhas, como figura típica, embora ficcionada?

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Economia de alcoólicos


O presidente do banco central alemão, o Bundesbank, Jens Weidmann, comparou hoje os países endividados às pessoas que têm problemas com a bebida
Questionado sobre se o BCE (Banco Central Europeu) está disposto a aumentar a compra de dívida soberana para ajudar os Estados-membros do euro com problemas, Weidmann indicou que isso seria o mesmo que dar um último trago a um alcoólico, refere a agência Efe.
"É como um alcoólico dizer que a partir de amanhã vai estar sóbrio e a respeitar as regras, mas que esta noite precisa de beber", salientou o mesmo responsável, citado pela Reuters. "Não creio que seja bom dar uma garrafa a um alcoólico. Não servirá para o ajudar a resolver o seu problema", acrescentou.
Ao que chegou a indigência mental da “economia moral”! Será que há pessoas, gente honesta mas simples, que vêm a economia nos termos herdados do salazarismo, “pobrinhos mas honrados”, que ainda vão nisto?
É isto hoje a Europa da teorização política de Maquiavel, da filosofia das luzes, do socialismo, do racionalismo, da história dos grandes homens de Estado?
NOTA - E esta cara seráfica e em estado de graça não lembra os zombies fanáticos que vemos por aí como missionários mórmons?

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Protetorado Helénico


Há coisas tão aberrantes, gerando tal convergência de críticas que se poderia dizer que não adianta escrever mais. Mas é mais uma voz. É o caso da proposta germânica de obrigar o governo grego à tutela de um “comissário de orçamento”, de nomeação europeia, com poder de veto sobre qualquer decisão de execução orçamental (impostos e despesas) - como se houvesse muito mais de ação de governo que não ficasse abrangida por isto. Se não, é rejeitado o segundo pedido grego de “ajuda”.
Foi notícia do Finantial Times não desmentida, mesmo confirmada  hoje pela própria Sra Merkel, com a supina hipocrisia de que se trata de uma ajuda amiga e generosa à Grécia. 
A proposta alemã inclui também a obrigação de a Grécia aprovar uma lei em que se fixe a obrigação de afetar a receita do Estado “primeiro e com maior importância” ao serviço da dívida. Só depois é que o governo pode gastar em funcionamento normal do Estado.
O governo grego rejeitou com indignação esta imposição. “Quem põe um povo perante um dilema entre a ajuda financeira e a dignidade nacional, ignora as lições históricas fundamentais”, disse o ministro das Finanças grego, Evangelos Venizelos. Mas tem credibilidade para que  se leve a sério essa indignação? Como bem escreveu Yanis Varoufakis, “que raio se esperava?  Quando um país aceita a lógica de empréstimos enormes sob condição de austeridade, vem sempre o momento em que os credores internacionais exigem poder executivo. Em linguagem de negócios, é custódia (“receivership”). Os políticos gregos assinaram todos esses diversos acordos, pelo que a sua atitude de agora estica a corda da credibilidade”.
Até em Portugal o ministro Portas manifestou publicamente a sua discordância com a proposta alemã. Pudera. Alguém garante que isto não chegará a Portugal, talvez mais cedo do que se pensa? Claro que Portugal não é a Grécia! (será que acreditam que ainda haja quem acredite nisto?)
Iluminado pela fé na austeridade, irracional como é toda a fé, o ministro Gaspar já jura pela próxima saída da crise. O ministro Álvaro também a anunciou para o fim deste ano, mas agora está mais prudente, diz que em economia há sempre imponderáveis e fatores externos. Para já, é tabu falar-se sequer na hipótese de segundo resgate. Seria demasiado cheiro a grego. Afinal, temos sido tão bem comportados, mais troikianos do que a troika! “Eppur”, os injustos mercados não nos baixam os juros… Malvados, não se faz isto aos melhores servidores da sacralidade dos tais mercados.
Afinal, o projeto de novo tratado, que está a ser preparado a mata cavalos, não prenunciava já  este espírito autoritário, arrogante, imperial, que a Alemanha agora mostra com total descaramento? E, como os outros 25 mais, o governo português vai aprová-lo e fazer tudo para a sua já praticamente garantida ratificação. Eu defendo um referendo, mesmo com o risco de aparente validação democrática do tratado, mas não parece que, em tão curto prazo, me valha a pena ignorar o distanciamento das forças políticas em relação a esta possibilidade.
E não se diga que o que se está a passar vai na lógica do espírito da construção da União Europeia. A proposta alemã em relação à Grécia, se for aprovada (espero para ver até amanhã, fim da cimeira, mas não aposto que não seja aprovada) institui coisa bem conhecida da história, um protetorado. Era coisa que fazia pensar em Marrocos, no Uganda, no Egito, na Pérsia, no Afeganistão ou nas Filipinas. Não me lembro de alguma vez ter havido um protetorado na Europa.

Ou melhor, houve situações de certa forma semelhantes no 3º Reich (curioso, outra vez a Alemanha a vir à baila neste escrito). Não falo dos países ocupados, mas do caso, por exemplo, da Eslováquia do monsenhor Tiso. Tenho curiosidade em saber como vai votar hoje ou amanhã o governo eslovaco acerca desta "agressão" à Grécia.
NOTA - Varoufakis também se dirige aos alemães, no mesmo “post”: “Conscientemente e com força, impuseram (…) condições de austeridade que mirraram a economia social grega. (…) Impuseram à Grécia uma política errada, bem como à periferia europeia em geral. Agora, têm de suportar as consequências.” Parafraseando uma coisa célebre, é preciso que se diga dos devedores abusados "no pagarán!"

P. S. (19:37) - “Estou firmemente contra a ideia de impor um comissário com essa missão só para a Grécia. Isso não é aceitável”, disse o presidente do Eurogrupo, o luxemburguês Jean-Claude Juncker, em declarações aos jornalistas à chegada ao Conselho Europeu que decorre em Bruxelas. (Público). Será que a Alemanha já começa a não ser o que era?...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

"Eu quero ser alemã?"

A meu pedido, uma amiga muito querida passou a escrito uma conversa que tínhamos tido. Aqui vai.
"Não sou primariamente anti-alemã e sabes como até uso o exemplo do meu primo U…, de quem gostas tanto, que andou nas lutas de 68 e ainda hoje até é criticado pela minha prima como homem que não vive fora da sua esquerda. Mas parece-me que os alemães estão a fazer tudo para nos obrigar a responder à pergunta “eu quero ser alemã?”. Eu portuguesa, com gosto pela alegria de vida, não obrigada não quero ser disciplinada, submissa, a ceder os meus direitos individuais cegamente a favor da grande pátria, mesmo que me sentisse arrogante e orgulhosa.
Às vezes falas-me da grandeza alemã, dos músicos de que tanto gostamos e dos filósofos ou do teu querido Marx. Mas afinal que povo é esse que deu ao mundo toda essa grandeza mas também coisas horrorosas? E o Hitler foi eleito, tinha milhões de gente a apoiá-lo, depois da guerra ninguém da gente da rua fez a sua penitência. Os da RDA se calhar ainda foram piores e a Merkel vem de lá.
Não há dúvida é que eles são patriotas e se calhar nós temos vergonha de ser, por complexo do salazarismo. Como é que é possível estarmos a aceitar isto? Acho que tu também, quando entramos na Europa, pensavas que era um sonho bonito, a nossa cultura comum e a solidariedade. Que solidariedade é esta, só de egoismo, de rivalidades económicas, de desprezo do norte pelo sul que não tem nada de se envergonhar como civilização?
Se calhar nunca houve a solidariedade que pensavamos no tempo das ajudas europeias. Afinal, foi quando os interesses já fizeram a destruição da nossa agricultura e da nossa pesca e não percebemos que já era perdermos independência. O que nunca houve foi esta coisa incrível de até quererem mexer na nossa constituição. Eu era muito mais jovem do que tu na constituinte, mas lembro-me muito bem do que foi a ideia de ter uma constituição. Como lês muita história, diz-me lá se te lembras de alguma vez na história alguém ter imposto a outro povo a mudança da sua constituição.
Mas vamos ver bem, esta Europa é possível? Não é uma fantasia de uns iluminados? Os povos europeus nunca foram iguais e sem serem iguais podem fazer uma união artificial contra a história?"

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Em tempo de crise, os polos afastam-se

Um amigo meu enviou hoje para a Time este comentário sobre um artigo arrogante de um finlandês:
Sirs, 
I think that you will probably consider my comment (on a comment…) outdated at this moment and, thus, I understand if you discard it, simply. However, on my view it may have some relevance.
In fact, when Mr. Leif Lukander uses the term 'selfishness' he recalls the very core of the issue, which has nothing to do with a certain moral. If any common territory inside borders is worth the name of 'country', nobody talks about 'help' when referring to the co-natural solidarity that term implies. It's constitutional solidarity, it's matter of governance, paragraph. 
With Europe there are a few equivocal things and that is the biggest problem. The contradiction between national sovereign powers and convergence without the institutional tools will lead to the end of Europe and rebirth of dangerous nationalisms, unless the so-called 'better-run' countries have memory and the intelligence to understand that their well-succeeded market is fed in a large measure by the near insolvent member States of a just monetary union. 
Thank you. 
Subscrevo este comentário. Mas, entretanto, não há muita gente a dizer coisas opostas: mas o que nos impede de exportarmos para o norte, não sabemos é produzir riqueza? E os países ricos, disciplinados, trabalhadores, têm de pagar os nossos erros? E haviam de deixar de exportar para nós? E os cidadãos pagantes desses países o que hão-de pensar? Não chega já de dizer que na Europa há os mauzões do centro e norte que produzem mas à custa dos do sul, e os pobres inocentes e vítimas do sul que são explorados pelos outros?
É o discurso hegemónico (ah, Gramsci!). Mais o da diabolização de qualquer défice, da maldade inata do Estado, da virtude do “mercado eficaz”, da veneração das figuras inacessivelmente aristocráticas dos banqueiros ("gente fina é outra coisa": viram o “Inside Job”?), da menorização da soberania (nunca o poder de reestruturação da dívida, mesmo da odiosa), da sujeição sabuja aos credores/exploradores, da aceitação da primazia do capital financeiro sobre o industrial - o fundiário há muito que se foi à vida -, da caricatura dos trabalhadores como preguiçosos e exploradores do Estado social, da aceitação acrítica do sistema económico considerado como dogma ou o "fim da história", muito mais. É em decorrência o discurso “big brother” dos economistas e ideólogos de serviço, “não podemos ser caloteiros”, “a economia política é como a economia doméstica de gente honrada”, “não há remédio senão a austeridade”, “quem nos ajuda é que manda”, “se não cumprirmos os memorandos, os mercados destroem-nos”, “cuidado com o nervosismo dos mercados”. Viva a troika! Mais, à ministro “nerd”, bom é ser mais troikista do que a troika. E tudo isto são os tais 80% de eleitores manipulados que, democraticamente, indiscutivelmente que têm razão.
Responderia com alguns factos básicos. Tão básicos que, não sendo eu economista, penso não andar muito longe da verdade ao enumerá-los. Isto quanto aos pontos 1-6. Os seguintes são de teor político, e aí eu cidadão não preciso de ter especialização académica em ciência política.
1. Na criação do euro, foram logo enviesadas as condições de concorrência. O marco e o franco foram desvalorizados, o escudo, a peseta, o dracma, a lira menos, foram sobrevalorizados. Foi o preço que a Alemanha exigiu, entre outros, para o negócio de aceitação pela França e outros da reunificação alemã (a meter algum medo, pensando no passado) e de aceitação pela Alemanha do fim do marco. Mas a Alemanha ganhou ainda mais. Um BCE à medida do Deutsche Bank, o triunfo das regras monetaristas de Maastricht aplicadas ao euro e ao BCE, de forma arbitrária (porquê o défice máximo de 3% do PIB e não 4%, como acabou por ter a própria Alemanha? E que também falsificou contas, como a Grécia, quando foi da reunificação). Também, nos dogmas neoliberais que impôs, a desregulação dos mercados financeiros, o pavor da inflação, a recusa de qualquer perspetiva keynesiana, a impossibilidade de monetarização da dívida (embora na prática o BCE tenha tido agora de comprar dívida dos PIGS no mercado secundário), etc.
2. Com isto, a pergunta sobre o porquê dos sulistas não exportarem para o norte fica em boa parte respondida. Além disso, grande parte da riqueza do sul foi destruída pela imposição política dos ricos, com a PAC e a política de pescas, inclusive o desmantelamento de frotas pesqueiras (porque é que a Noruega nunca quis entrar na CEE e depois UE? Para além de ter petróleo) e, por consequência, de boa parte do nosso setor secundário, com forte componente agro-alimentar. Lembram-se do que era a importância da nossa exportação de polpa de tomate? E os laticínios açorianos, hoje a jogar às escondidas com as quotas europeias?
3. A maior parte das exportações alemães são de indústria pesada e aí a Alemanha tem fatores históricos favoráveis. Um capitalismo industrial antigo e sólido (ou “O Capital” não tivesse sido escrito por um alemão, que nem sonhava que o “socialismo” nasceria aberrantemente num país de economia de “modo asiático”), mão de obra com mentalidade de exército, acima de tudo matérias primas, carvão e aço. Não se esqueça de que Jean Monet e os seus pares começaram por tentar equilibrar as coisas na Europa foi com a CECA, do carvão e do aço, antes da CEE.
4. Mais recentemente, a produtividade alemã e a competitividade nas exportações têm dependido fortemente de desvalorizações internas. Como não podem desvalorizar a moeda comum, desvalorizam o preço do trabalho, com os sindicatos a irem nisso. Aumento da idade de reforma, maior horário de trabalho, prestações e serviços sociais menos acessíveis. Os trabalhadores do sul, a meu ver, têm razão em não querer alimentar os seus tipos do Inside Job com esses sacrifícios. Pelo menos a resistirem enquanto podem.
5. A Finlândia é simplesmente a Nokia. A Holanda nem isso, um dia destes acorda atrelada à Alemanha, a viver só de outro tipo de competição com que a Irlanda se lixou, a desvalorização fiscal, em relação às empresas. Sabem quantas empresas portuguesas, a começar pelos bancos, Sonae, etc., têm sucursais na Holanda para circulação taxfree de capitais? Vamos ver como é, daqui a poucos anos.
6. Depois, todas as bocas sobre um euro do norte e um euro do sul, sobre a pressão para a Grécia (para já) sair do euro, etc., são mesmo só isso, bocas. Ou então ignorância crassa de políticos economicamente primários que desconhecem o que é a globalização, desde logo a nível europeu. Todo o sistema do euro está interligado, mesmo que com fios muito fracos, a ameaçar rotura. Mas se os PIGS romperem, vai-se à vida a estabilidade económica e financeira dos AAA. Cada vez mais economistas até agora servis ao sistema, gente do BCE ou dos bancos centrais, articulistas de jornal tão ortodoxo como é o Finantial Times, começa a dizer isto, como forma de protegerem o seu bom nome profissional e académico da burrice dos políticos.
7. E não vale só a economia. Também a política, talvez mais. O que se está a ver dos nortenhos, com sulistas a ajudarem de baraço ao pescoço, é um perigosíssimo nacionalismo, xenofobia, que se até agora era, já detestavelmente, contra o não-europeu, agora divide a Europa e abre portas sei lá a que aventuras neo-nazis (não digo que a Sra Merkel seja nazi, claro que não, mas da forma como isto vai… primeiro foram os comunistas, dizia Brecht, um dia serão os CDUs).  O que têm sido os resultados eleitorais nos últimos anos, nos países AAA? Eu tenho uns primos alemães que andam aterrados.

8. E também vale a ética, a gratidão, o reconhecimento. É certo que por interesse, lembrando-se das consequências de Versalhes, mas afinal os aliados é que reconstruiram a Alemanha do pós-guerra. Os malfadados gregos nunca conseguiram indemnizações de guerra, nem sequer a devolução do seu ouro confiscado (e em boa parte mandado para Salazar, para pagamento de volfrâmio). O mito do esforço alemão é isso, mito. Depois 1953 e a ponte de Berlim, uma fortuna. Depois, a reunificação, que desviou para a Alemanha rica uma parte muito considerável dos fundos estruturais de que tanto precisava a coesão europeia.
9. Finalmente, não aceito bem que pessoas de nível favorecido, como o meu, vivendo confortavelmente, desconhecendo o que são os sacrifícios dos milhões que estão agora a sofrer duramente a austeridade (eu ainda só minimamente, nada que já me tenha feito mudar os padrões de vida) venham lançar culpas sobre “os portugueses” que vivem acima das suas posses, ao contrário dos exemplares AAA. É injusto e é submisso. 
Injusto porque se toda essa gente se endividou, endividando o país, foi com crédito publicitariamente quase imposto dado pela banca com dinheiro que ela foi buscar a crédito mais barato aos AAA e conseguindo os lucros escandalosos de que nos lembramos, na década até à crise. Porque, entre muitos fatores de projeção psicológica ou de “standing” que não nego, esses portugueses (e esses gregos, e esses irlandeses, e esses espanhóis, e a coisa não ficará por aqui) tiveram que comprar a crédito a casa por não haver mercado de arrendamento ou o carro por a rede de transportes públicos ser terceiromundista. Claro que também compraram a TV gigante e as férias em Cancun, mas isto levava-nos longe, para uma discussão sobre os motins de Londres (que não desculpo de todo, mas que quero perceber, “cientificamente”).
E é submisso porque o cosmopolitismo, a vivência internacional, de uma certa camada  intelectual, académica e de quadros bem colocados está a levar para a tal projeção psicológica, agora a nível do padrão de “desenvolvimento e civilização”, do que não é "vergonhosamente" o provincianismo português. De certa forma, queirozianamente; porque os "vencidos" eram bastante snobs e não sei se, nesta crise, não alinhariam pelo "estrangeiro civilizado", que não é "esta choldra". Mas, ao menos o meu co-ilhéu Fradique tinha nível, bom gosto e boas maneiras. Todavia, no momento da verdade, os meninos tentarão apanhar o elétrico, enquanto a choldra vai sair à rua. Dito isto, há muita coisa que detesto no meu povo e não vou agora repentinamente virar "tuga". Não vou em patrioteirismos ao estilo anti-Moody’s, mas algum brio de identidade como povo não nos faz nada mal.

NOTA - E nunca um novaiorquino ou um californiano se atreve a falar de um arkansiano, seu "american fellow", como hoje fala um alemão de um grego. Aí está uma grande diferença, muito para além da diferença entre o dólar e o euro. É que, ao contrário do célebre dito de Clinton, não é verdade que "it's the economy, stupid!"

P. S. (13.9.2011, 00:25) - Descuidadamente, fui injusto para com Leif Lukander, o finlandês a quem o meu amigo JL respondeu. Faltou-me ler a sua última frase, essencial. Afinal, num comentário a um artigo da Time, "It’s Time to Admit the Euro Has Failed "ele estava a defender, sob a forma de uma pergunta, exatamente o que nós dizemos: “What is now being tested is the solidarity among member states. How far will the better-run countries be willing to go to help their weaker brethen nations? Let’s hope that selfishness does not get the upper hand”. Let’s hope, dear Leif! 

domingo, 17 de julho de 2011

A “ajuda” é bom negócio

Estou atrasado na prometida conclusão da série de entradas “A maioria tem razão?”. É que, dia-a-dia, aquilo que eu queria discutir, as alternativas ao que a maioria aceita piedosamente, está a mudar, com a frente ideológica do neoliberalismo e da conceção germanocêntrica da Europa a alterar-se aceleradamente. Vejam só o que se segue, recolhido hoje no DN:
“Os resgates das dívidas de Portugal e da Irlanda têm sido um bom negócio para os países que lhes concederam garantias. Até hoje, só houve ganhos para os alemães, porque recebemos da Irlanda e de Portugal juros acima dos refinanciamentos que fizemos, e a diferença reverte a favor do orçamento alemão". (…) É o prémio pelas garantias que a Alemanha, dá, só que os contribuintes alemães não acreditam".
Quem foi o perigoso anti-europeu ou economista heterodoxo que disse isto? Chama-se Klaus Regling, é alemão e  presidente do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF). Diria, sem ofensa aos bichos, que os ratos estão a sair deste navio que a comandanta prussiana - ou coisa de leste que a valha - teima em atirar contra as rochas, enquanto que os oficiais subalternos, a começar por Barroso, ouvem a orquestra de bordo tocar a “Ramona”.
E Regling até dissipou receios de que a situação se altere, se Dublin e Lisboa deixarem de poder pagar as suas dívidas, incluindo os juros (omite Atenas, porque obviamente, para ele, já não é caso de “se”). Se os países devedores deixarem de pagar os juros, os ricos vão pedir o dinheiro a quem deu garantias. Afirmou também que o FEEF não tem tido dificuldade em conseguir os fundos para os resgates. "Os investidores asiáticos compraram cerca de 40 por cento dos títulos, nas três emissões que fizemos". A juros que não conhecemos mas que, como diz Regling, são inferiores aos que pagamos pelo empréstimo do FEEF. 

E lembram-se de que os juros exigidos pelo FEEF e pelo BCE são consideravelmente mais altos do que os do execrado FMI? É que este não tem por objetivo, à alemã, ganhar sem baixas as guerras que perdeu antes. Sabem também que, quando foi perdoada à RFA a dívida das indemnizações de guerra, só houve um país que protestou e pretendeu ir para os tribunais internacionais? Ironia do destino, a Grécia!
A senhora que se cuide, porque este homem é bem capaz de a apear. É muito mais hábil politicamente, sabe convencer melhor os eleitores alemães, que na prática andam a ser afagados pela senhora no seu egoísmo xenófobo.
Com tudo isto, um dia destes, os 80% de eleitores portugueses que encarreiraram na solução única vão ficar confusos, porque a "realpolitik" - que, com os "diktats" dos banqueiros, acaba sempre por vencer o esquematismo ideológico - vai abalar essa certeza e, mesmo que mantendo ou acrescendo o seu caráter errático, vai-lhes mostrar que afinal há muitas outras soluções. Então, vão começar a perguntar se era mesmo preciso pagar meio subsídio de Natal, coisa que a hegemonia dos fazedores de opinião ainda não lhes permite entrar nas cabeças, mas logo veremos. 
Será que daqui a alguns meses ainda ouvirei, como hoje, gente da rua a responder “custa muito, não vai haver prendas, mas que se há-de fazer, é a única forma de ajudarmos o nosso país”?
(Foto do DN)

P. S. - Acaba de me escrever uma pessoa inteligente, interessada mas, para todos os efeitos, exemplo de "homem da rua". Votou regularmente num partido do sistema, zangou-se, votou agora no outro. E pergunta-me "quer que eu vote no PCP ou no BE?". Triste situação a que chegou a esquerda portuguesa, com tal clivagem deslocada, porque devia ser entre o PS aliado no seu campo natural (?) e o conjunto PSD-CDS. No entanto, há ainda uma hipótese. Votar branco. É um voto com grande significado político, embora sem efeitos institucionais. Há gente muito minha querida que vota assim.

sábado, 2 de abril de 2011

Antigermanismo?

Já mais do que um amigo - daqueles, próximos, que bem preferem falar diretamente a deixarem comentário no “post” - considerou eu estar a incorrer em algum simplismo, dirigindo muito enfaticamente críticas, responsabilidades, entraves a novas políticas, à Sra. Merkel. Será que estou mesmo a ser antigermanista, acrítico? Há pouco, ouvi as seguintes declarações, de dois políticos que certamente não perfilham as minhas posições políticas. Todavia, isto não impede algumas convergências significativas. Disse o primeiro:
Hoje quem manda é a senhora Merkel e um pouco o senhor Sarkozy, porque ela precisa do Sarkozy e o Sarkozy obedece. (…) A senhora Merkel é a economia mais próspera da Europa e por isso é quem manda. (…) E quem é que fez a unidade alemã senão toda a Europa que entrou com dinheiro para permitir que a Alemanha se unisse - e ainda bem que se uniu -, mas não para vir agora mandar na Europa ou ser dona da Europa, porque isso levanta-nos logo uma situação terrível que é a de começarmos a pensar 'mas estes alemães já nos levaram a duas guerras mundiais. Vamos para outra?'
Disse o segundo:
Os especuladores não estão diretamente interessados em Portugal, mas antes em testar a vontade de Angela Merkel em defender o euro. Se isso for assim, a especulação contra Portugal não vai parar. (…) Este [é] o momento para travar o comportamento político da chanceler alemã, que no seu Parlamento criticou os deputados portugueses. (…) Merkel só foi eleita por 40 por cento do povo alemão, mas não foi eleita chanceler da Europa. Caso a chanceler alemã pretender que os outros países concretizem a sua visão política, (…) que aceite o federalismo político (…), que vá a eleições e se for Chanceler da Europa cá estamos para lhe obedecer. (…) Angela Merkel vai até onde a deixarem ir, mas nunca irá mais além. Quando surgir alguém a dizer basta, parará. Acho que está na altura de alguém dizer basta.
O primeiro texto é de Mário Soares, o segundo de Freitas do Amaral. Alguém os julga políticos irrefletidos, levianos, anti-europeus, defensores de uma rotura na lógica da construção europeia e do euro? Mas não estão a ser também, como me diz respeito, “antigermanistas primários”?

sábado, 19 de março de 2011

Desvalorização pelos salários


Vou, como aqui tanta vez escrevi, pela opinião dos economistas (principalmente americanos, porque infelizmente os europeus ainda vão maioritariamente pelo toque de corneta prussiana) que acham que a competitividade da economia alemã - e dos seus apêndices - se deve, na impossibilidade de utilização dos instrumentos cambiais, à desvalorização do fator trabalho. Será isto posição de antigermanismo primário, de que já me acusaram? Será que essa desvalorização interna não é verdade?
O quadro acima, que fui buscar a Paul Krugman, é eloquente. Alguém fica com dúvidas sobre a evolução dos custos do trabalho (tendo em conta o fator desemprego)? Ou o Nobel conferido a Krugman premiou um idiota neo-keynesiano e anti-ultraliberalismo? 
Há uma coisa comum entre a mitologia económica alemã e coisa deles mais próxima de mim biólogo, o remorso e o medo irracional do passado. Quanto à biologia, refiro-me a toda a visceral objeção alemã à inovação biotecnológica, à aprovação pela UE de meios comprovadamente seguros, testados já em todo o mundo, para resolução do grave problema alimentar que ameaça o mundo, principalmente o mundo mais pobre. É o complexo da “eugenia”, da genética nazi, que lhes ficou. Quanto à economia, a memória pânica do pesadelo da inflação de milhares por cento ao ano, nos tempos de Weimar.
Por isto, o BCE, que de independente nada tem e também marcha em ordem unida, avisou logo de um aumento da taxa de juro ao primeiro sinal de risco de um pequeno aumento da taxa de inflação. Quanto vamos pagar, os periféricos, por esse aumento da taxa de juro? E, para manter a competitividade, como vai evoluir com isto a curva mostrada por Krugman?

Nota final - Não sei compreender os dados de 2008 e 2009. Alguém versado em economia me explica e aos meus leitores?