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quinta-feira, 18 de abril de 2013

O caso Reinhart-Rogoff

Faltam-me credenciais para falar do caso Reinhart-Rogoff do ponto de vista económico mas não do ponto de vista científico ou político. A história está bem descrita num artigo simples mas elucidativo publicado anteontem por Mike Koncsal no blogue do Instituto Roosevelt, “Next New Deal” e noutro artigo de Chris Cook no Finantial Times de ontem.

Muito resumidamente, R-R são autores de um trabalho, “Growth in a Time of Debt” muito utilizado como texto cientificamente fundamentador de políticas austeritárias. A conclusão é de que a dívida pública igual ou superior a 90% leva à queda do crescimento económico. Daí o objetivo político primordial de redução da dívida. Agora, outros três economistas americanos, professores da Univ. Massachusetts, T. Herndon, M. Ash e R. Pollin, dissecam o trabalho, recorrendo aos dados originais não publicados e mostram erros clamorosos de análise e de provas estatísticas. 

R-R reponderam mas não posso discutir tecnicamente em que termos. Destaco apenas uma das suas afirmações essenciais:  “we were only arguing association, not causality” (“estávamos só a discutir associação, não causalidade”). De facto, mesmo que a análise dos dados tivesse sido correta, mostrando correlação positiva, nunca se podia dizer que A era causa de B ou se B era causa de A.

Por coincidência, ainda hoje conversava com os meus alunos sobre a situação epistemológica das chamadas ciências sociais (CS). Para alguém, como eu, educado nas ciências experimentais, as ciências sociais cumprem os requisitos para serem ciências? O recurso a métodos matemáticos, com relevo para a estatística, é suficiente? Idem quanto ao rigor mental de análise? E são sujeitáveis a falsificação (no sentido de Popper)? Tudo isto extravasa esta nota mas tenho de focar dois aspetos.

Uma característica patente de muitas ou todas as CS é a constituição de escolas, com correspondente teoria, muitas vezes com fraca base de evidência empírica, quando não é a teoria que vem primeiro e a procura de dados é “confirmativa”. Está-se frequentemente perante ideologias e não ciências. É fácil ouvirmos as pessoas ficarem perplexas quando são bombardeadas com debates, comentários televisivos, etc., em que economistas apresentados com credenciais do mesmo nível se digladiam com opiniões contrárias, invocando teorias ou modelos “científicos” opostos. As pessoas sabem que têm alta probabilidade de dois médicos lhes diagnosticarem e tratarem da mesma forma a sua doença e não percebem porque é que os “médicos da doença económica” não acertam.

No entanto, não se estabelece com clareza a distinção e o trabalho académico acaba por ser instrumentalizado pela política, a priori ou a posteriori. Esta e os seus agentes precisam de uma legitimação que, estando todos nós reféns da pós-democracia, já não lhes é dada só politicamente, por via democrática, mas antes facultada pela aparência ou renome bem ou mal feito de qualidade académica, científica ou técnica, de Gaspares e outros, afinal tecnocratas sem cultura democrática.

A reduzida certeza (certeza, claro, no sentido relativo em que deve ser tida a “certeza” científica a cada momento) das CS e a sua apropriação pelos poderes, político e outros, está também relacionada com a frequente falta de deontologia e de responsabilidade social de alguns domínios das CS muito próximos do poder, das suas benesses. Mesmo à nossa pequena escala, os casos são mais do que muitos e todos conhecemos a corte dos economistas e analistas de serviço, de braço dado também com a comunicação social. 

Um bom exemplo, cínico, da cumplicidade entre “cientistas” e políticos, mesmo que encoberta, é a frase de R-R que reproduzi acima. Talvez seja verdade que não estavam de serviço. Mas alguém pode acreditar que eles desconheciam que são largamente usados pelos governos e troikas deste mundo ultraliberal como fundamentos da política austeritária? Alguma vez chamaram a atenção para o erro (para fim político) de falar em causalidade em vez de associação?

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O prazer perverso dos economistas

A satisfação profissional é um grande prazer de vida. Gostar de se exercer a profissão que se escolheu é ótimo, só sendo pena que não seja coisa mais vulgar. O que complica as coisas é que, para quem observa de fora, pode ser difícil definir o que é que determina esse prazer profissional. Num médico é simples. Curar doentes, prevenir doenças, melhorar a saúde. Num professor, idealmente, formar gente que, depois, vai ser mais sabedora e mais competente do que o professor. Mas isto é linear, não tem muito de idealismo? No curso da vida, com o vir à tona de cada vez mais frustração e cinismo, não será também muito o sucesso, o bem estar, a riqueza?

E também a felicidade profissional tida como cumprimento/satisfação dos objetivos pretendidos não tem muito a ver com aquilo que em muito influencia a determinação desses objetivos, isto é os valores pessoais, as conceções de vida, a ética, afinal a ideologia?

Esta deambulação talvez pernóstica tem a ver com o caso particular dos economistas. Claro que da “massa dominante” dos economistas, com muito respeito por tantas e tão excelentes exceções. Falo dos “economistas de serviço”. Descontando a política, que não quero (“hélas”!) considerar como profissão, não há hoje profissão mais determinada ideologicamente do que a dos economistas e/ou gestores (já foi o Direito, hoje muito menos).

Dê-se o benefício da dúvida de que Gaspares, Álvaros, Duques, Cantigas, acima deles Trichet e Constâncio, mais as eminências pardas de Merkel, os homens da “troika”, e todos os cinzentos economistas robôs de Wall Street até Frankfurt, são honestos, tecnicamente motivados e informados e até felizes no seu trabalho, no cumprimento dos objetivos profissionais para que foram preparados. Mas este é que é o problema: para que foram preparados!

É inegável que hoje a política mudou radicalmente de discurso. Curiosamente, foi este o tema do primeiro “post” deste blogue. O discurso político tradicional é hoje irrelevante sem fundamentação na economia política. Com isto, foi-se ao exagero de bastante apropriação do debate político pelos economistas. O que obriga os não especialistas, como eu, a um grande esforço de estudo, mas sempre com a dúvida do amador inseguro.

No entanto, esta apropriação da política, manifesta na comunicação social, esconde-se na falácia da competência técnica, da informação especializada, do raciocínio “científico”, quando essa apropriação resulta de facto, essencialmente, de um pensamento ideológico, no caso enquadrável no que podemos chamar de “neoliberalismo”.
“O peso do Estado deve ser mínimo. O funcionalismo público é uma cambada de privilegiados, com emprego para a vida, incompetentes, sugador dos nossos impostos. A escola privada é muito melhor do que a pública. Nada deve ficar fora da privatização, água, energia, indústrias de defesa, até prisões, um dia destes a polícia e as forças armadas. A competição é muito maior fator de enriquecimento do que a solidariedade e a motivação social. Deve haver uma grande flexibilidade para coisas tidas tradicionalmente como imorais (por exemplo, a agiotagem, juros de 130%! a um ano, à grega; pecado de usura que nem é do cristianismo, já vem no Velho Testamento); flexibilidade aceitadora porque são coisas que se enquadram no “sistema”. E este “sistema” é indiscutível, principalmente depois do fim do pseudo-comunismo. O estado social contribui para a preguiça, para o parasitismo. A economia deve favorecer os audazes, num novo circo romano. As empresas e principalmente os bancos são intocáveis, porque sem elas e eles vai-se a “economia nacional” e, com ela, a “economia doméstica” de nós todos, que devemos ajoelharmo-nos aos benfeitores do futuro dos nossos filhos, ainda por cima bons exemplos de virtudes, os banqueiros, gente fina.”
Descontando a caricatura, não é isto que os “economistas” apresentam como indiscutível, como se houvesse alguma coisa "indiscutível" para além de axiomas e postulados? E isso tem alguma sustentação racional, é economia “científica” ou é pura e simples ideologia? E, transmitindo-se pela máquina de produzir opinião, não é isto que faz a tal “razão” da maioria dos 80% de votantes na “troika” interna marioneta da “troika” externa? Isto chama-se, pura e simplesmente, ideologia neo-liberal, estado hoje mais avançado do capitalismo. Não é um sistema económico racional, cientificamente estruturado (“porque não?”), é simples ideologia, “porque sim”.

Uma visão porventura um pouco redutora faria dizer que boa parte dos economistas que por aí vemos, a todos os níveis, com exceções gratificantes, mas minoritárias e com influência reduzida (por agora!), são os homens de mão do capital, ou mesmo, pessoalizando, dos grandes capitalistas. Não é bem assim, é mais complicado. São produtos de uma formatação ideológica que não conseguem criticar, são criaturas de um sistema que não se aguenta só a nível infra e estrutural (seria visão esquemática do marxismo), mas hoje, cada vez mais, também a nível superestrutural, do pensamento, dos valores incutidos, da ideologia. Isto é a hegemonia.

Só assim compreendo que os economistas “chapa-um” possam ser felizes, com a felicidade que se lhes vê na cara quando defendem coisas que a qualquer pessoa bem formada fazem pensar “estes homens são sádicos”. Como é que se pode sentir profissionalmente útil e feliz alguém que está a propor e a levar à prática a miséria de muita gente, o desemprego, a redução da proteção social, o corte de salários da função pública, a diminuição do rendimento dos mais vulneráveis - os reformados? Pode-se dizer que o fazem por obrigação, até para evitar males maiores. Mas a impressão que deixam, por todas as formas de expressão, até facial, é que também o fazem com algum prazer. Talvez isto seja exagero, mas ao menos parece inegável que, não sendo porventura prazer, é pelo menos insensibilidade  e frieza desumana e tecnocrática.

Admito que esta nota seja um bom exemplo de “economia moral”, pelo lado esquerdo, talvez tão criticável como a “economia moral” hoje dominante, do tipo “não podemos ser caloteiros”. Admito, mas não me arrependo de a escrever. Há uma dimensão ética na política sem a qual ela fica exercício cínico e desgostante.

Finalmente, uma nota de professor. Se esta atitude da “classe económica” tem muito a ver com o “para que foram preparados”, escrito acima, então há que olhar bem a sério para as escolas de economia. Já houve tempos em que foram ambiente fértil de debate, de confronto de escolas de pensamento económico - e, inevitavelmente, político. O confronto era estimulante para os estudantes, favorecia-lhes o gosto pela reflexão e pela análise.

Hoje, parecem cada vez mais padronizadas e são sem dúvida um aval do pensamento único ou hegemónico que está a fazer uma opinião pública (com reflexos eleitorais) também padronizada. Como universitário que contata bastante com jovens, noto muito mais variedade de opiniões, de mundivivências, entre universitários de outras áreas do que entre os mais “formatados” estudantes de economia e gestão. Pode-se recear que se esteja perante um mecanismo formatador auto-alimentado e permanente: os professores de hoje preparam os estudantes que serão os professores seus sucessores.

NOTA - Um pouco a despropósito, ou talvez não. Vejam-se os “sites” das mais celebradas escolas de economia portuguesa e as suas designações oficiais, embora não estatutárias. Já foram Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa e Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica Portuguesa. Hoje são NOVA School of Business and Economics e Catolica-Lisbon School of Business & Economics. Repare-se que não são traduções para uso em documentos redigidos em inglês; são as designações agora oficiais, em documentos em português! Não é ridículo, pretensioso, novo-rico? Não consigo encontrar coisa equivalente em universidades espanholas, francesas, alemãs. “Esta é a ditosa pátria minha amada”, mas é pena que lhe falte coluna vertebral.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Em tempo de crise, os polos afastam-se

Um amigo meu enviou hoje para a Time este comentário sobre um artigo arrogante de um finlandês:
Sirs, 
I think that you will probably consider my comment (on a comment…) outdated at this moment and, thus, I understand if you discard it, simply. However, on my view it may have some relevance.
In fact, when Mr. Leif Lukander uses the term 'selfishness' he recalls the very core of the issue, which has nothing to do with a certain moral. If any common territory inside borders is worth the name of 'country', nobody talks about 'help' when referring to the co-natural solidarity that term implies. It's constitutional solidarity, it's matter of governance, paragraph. 
With Europe there are a few equivocal things and that is the biggest problem. The contradiction between national sovereign powers and convergence without the institutional tools will lead to the end of Europe and rebirth of dangerous nationalisms, unless the so-called 'better-run' countries have memory and the intelligence to understand that their well-succeeded market is fed in a large measure by the near insolvent member States of a just monetary union. 
Thank you. 
Subscrevo este comentário. Mas, entretanto, não há muita gente a dizer coisas opostas: mas o que nos impede de exportarmos para o norte, não sabemos é produzir riqueza? E os países ricos, disciplinados, trabalhadores, têm de pagar os nossos erros? E haviam de deixar de exportar para nós? E os cidadãos pagantes desses países o que hão-de pensar? Não chega já de dizer que na Europa há os mauzões do centro e norte que produzem mas à custa dos do sul, e os pobres inocentes e vítimas do sul que são explorados pelos outros?
É o discurso hegemónico (ah, Gramsci!). Mais o da diabolização de qualquer défice, da maldade inata do Estado, da virtude do “mercado eficaz”, da veneração das figuras inacessivelmente aristocráticas dos banqueiros ("gente fina é outra coisa": viram o “Inside Job”?), da menorização da soberania (nunca o poder de reestruturação da dívida, mesmo da odiosa), da sujeição sabuja aos credores/exploradores, da aceitação da primazia do capital financeiro sobre o industrial - o fundiário há muito que se foi à vida -, da caricatura dos trabalhadores como preguiçosos e exploradores do Estado social, da aceitação acrítica do sistema económico considerado como dogma ou o "fim da história", muito mais. É em decorrência o discurso “big brother” dos economistas e ideólogos de serviço, “não podemos ser caloteiros”, “a economia política é como a economia doméstica de gente honrada”, “não há remédio senão a austeridade”, “quem nos ajuda é que manda”, “se não cumprirmos os memorandos, os mercados destroem-nos”, “cuidado com o nervosismo dos mercados”. Viva a troika! Mais, à ministro “nerd”, bom é ser mais troikista do que a troika. E tudo isto são os tais 80% de eleitores manipulados que, democraticamente, indiscutivelmente que têm razão.
Responderia com alguns factos básicos. Tão básicos que, não sendo eu economista, penso não andar muito longe da verdade ao enumerá-los. Isto quanto aos pontos 1-6. Os seguintes são de teor político, e aí eu cidadão não preciso de ter especialização académica em ciência política.
1. Na criação do euro, foram logo enviesadas as condições de concorrência. O marco e o franco foram desvalorizados, o escudo, a peseta, o dracma, a lira menos, foram sobrevalorizados. Foi o preço que a Alemanha exigiu, entre outros, para o negócio de aceitação pela França e outros da reunificação alemã (a meter algum medo, pensando no passado) e de aceitação pela Alemanha do fim do marco. Mas a Alemanha ganhou ainda mais. Um BCE à medida do Deutsche Bank, o triunfo das regras monetaristas de Maastricht aplicadas ao euro e ao BCE, de forma arbitrária (porquê o défice máximo de 3% do PIB e não 4%, como acabou por ter a própria Alemanha? E que também falsificou contas, como a Grécia, quando foi da reunificação). Também, nos dogmas neoliberais que impôs, a desregulação dos mercados financeiros, o pavor da inflação, a recusa de qualquer perspetiva keynesiana, a impossibilidade de monetarização da dívida (embora na prática o BCE tenha tido agora de comprar dívida dos PIGS no mercado secundário), etc.
2. Com isto, a pergunta sobre o porquê dos sulistas não exportarem para o norte fica em boa parte respondida. Além disso, grande parte da riqueza do sul foi destruída pela imposição política dos ricos, com a PAC e a política de pescas, inclusive o desmantelamento de frotas pesqueiras (porque é que a Noruega nunca quis entrar na CEE e depois UE? Para além de ter petróleo) e, por consequência, de boa parte do nosso setor secundário, com forte componente agro-alimentar. Lembram-se do que era a importância da nossa exportação de polpa de tomate? E os laticínios açorianos, hoje a jogar às escondidas com as quotas europeias?
3. A maior parte das exportações alemães são de indústria pesada e aí a Alemanha tem fatores históricos favoráveis. Um capitalismo industrial antigo e sólido (ou “O Capital” não tivesse sido escrito por um alemão, que nem sonhava que o “socialismo” nasceria aberrantemente num país de economia de “modo asiático”), mão de obra com mentalidade de exército, acima de tudo matérias primas, carvão e aço. Não se esqueça de que Jean Monet e os seus pares começaram por tentar equilibrar as coisas na Europa foi com a CECA, do carvão e do aço, antes da CEE.
4. Mais recentemente, a produtividade alemã e a competitividade nas exportações têm dependido fortemente de desvalorizações internas. Como não podem desvalorizar a moeda comum, desvalorizam o preço do trabalho, com os sindicatos a irem nisso. Aumento da idade de reforma, maior horário de trabalho, prestações e serviços sociais menos acessíveis. Os trabalhadores do sul, a meu ver, têm razão em não querer alimentar os seus tipos do Inside Job com esses sacrifícios. Pelo menos a resistirem enquanto podem.
5. A Finlândia é simplesmente a Nokia. A Holanda nem isso, um dia destes acorda atrelada à Alemanha, a viver só de outro tipo de competição com que a Irlanda se lixou, a desvalorização fiscal, em relação às empresas. Sabem quantas empresas portuguesas, a começar pelos bancos, Sonae, etc., têm sucursais na Holanda para circulação taxfree de capitais? Vamos ver como é, daqui a poucos anos.
6. Depois, todas as bocas sobre um euro do norte e um euro do sul, sobre a pressão para a Grécia (para já) sair do euro, etc., são mesmo só isso, bocas. Ou então ignorância crassa de políticos economicamente primários que desconhecem o que é a globalização, desde logo a nível europeu. Todo o sistema do euro está interligado, mesmo que com fios muito fracos, a ameaçar rotura. Mas se os PIGS romperem, vai-se à vida a estabilidade económica e financeira dos AAA. Cada vez mais economistas até agora servis ao sistema, gente do BCE ou dos bancos centrais, articulistas de jornal tão ortodoxo como é o Finantial Times, começa a dizer isto, como forma de protegerem o seu bom nome profissional e académico da burrice dos políticos.
7. E não vale só a economia. Também a política, talvez mais. O que se está a ver dos nortenhos, com sulistas a ajudarem de baraço ao pescoço, é um perigosíssimo nacionalismo, xenofobia, que se até agora era, já detestavelmente, contra o não-europeu, agora divide a Europa e abre portas sei lá a que aventuras neo-nazis (não digo que a Sra Merkel seja nazi, claro que não, mas da forma como isto vai… primeiro foram os comunistas, dizia Brecht, um dia serão os CDUs).  O que têm sido os resultados eleitorais nos últimos anos, nos países AAA? Eu tenho uns primos alemães que andam aterrados.

8. E também vale a ética, a gratidão, o reconhecimento. É certo que por interesse, lembrando-se das consequências de Versalhes, mas afinal os aliados é que reconstruiram a Alemanha do pós-guerra. Os malfadados gregos nunca conseguiram indemnizações de guerra, nem sequer a devolução do seu ouro confiscado (e em boa parte mandado para Salazar, para pagamento de volfrâmio). O mito do esforço alemão é isso, mito. Depois 1953 e a ponte de Berlim, uma fortuna. Depois, a reunificação, que desviou para a Alemanha rica uma parte muito considerável dos fundos estruturais de que tanto precisava a coesão europeia.
9. Finalmente, não aceito bem que pessoas de nível favorecido, como o meu, vivendo confortavelmente, desconhecendo o que são os sacrifícios dos milhões que estão agora a sofrer duramente a austeridade (eu ainda só minimamente, nada que já me tenha feito mudar os padrões de vida) venham lançar culpas sobre “os portugueses” que vivem acima das suas posses, ao contrário dos exemplares AAA. É injusto e é submisso. 
Injusto porque se toda essa gente se endividou, endividando o país, foi com crédito publicitariamente quase imposto dado pela banca com dinheiro que ela foi buscar a crédito mais barato aos AAA e conseguindo os lucros escandalosos de que nos lembramos, na década até à crise. Porque, entre muitos fatores de projeção psicológica ou de “standing” que não nego, esses portugueses (e esses gregos, e esses irlandeses, e esses espanhóis, e a coisa não ficará por aqui) tiveram que comprar a crédito a casa por não haver mercado de arrendamento ou o carro por a rede de transportes públicos ser terceiromundista. Claro que também compraram a TV gigante e as férias em Cancun, mas isto levava-nos longe, para uma discussão sobre os motins de Londres (que não desculpo de todo, mas que quero perceber, “cientificamente”).
E é submisso porque o cosmopolitismo, a vivência internacional, de uma certa camada  intelectual, académica e de quadros bem colocados está a levar para a tal projeção psicológica, agora a nível do padrão de “desenvolvimento e civilização”, do que não é "vergonhosamente" o provincianismo português. De certa forma, queirozianamente; porque os "vencidos" eram bastante snobs e não sei se, nesta crise, não alinhariam pelo "estrangeiro civilizado", que não é "esta choldra". Mas, ao menos o meu co-ilhéu Fradique tinha nível, bom gosto e boas maneiras. Todavia, no momento da verdade, os meninos tentarão apanhar o elétrico, enquanto a choldra vai sair à rua. Dito isto, há muita coisa que detesto no meu povo e não vou agora repentinamente virar "tuga". Não vou em patrioteirismos ao estilo anti-Moody’s, mas algum brio de identidade como povo não nos faz nada mal.

NOTA - E nunca um novaiorquino ou um californiano se atreve a falar de um arkansiano, seu "american fellow", como hoje fala um alemão de um grego. Aí está uma grande diferença, muito para além da diferença entre o dólar e o euro. É que, ao contrário do célebre dito de Clinton, não é verdade que "it's the economy, stupid!"

P. S. (13.9.2011, 00:25) - Descuidadamente, fui injusto para com Leif Lukander, o finlandês a quem o meu amigo JL respondeu. Faltou-me ler a sua última frase, essencial. Afinal, num comentário a um artigo da Time, "It’s Time to Admit the Euro Has Failed ", ele estava a defender, sob a forma de uma pergunta, exatamente o que nós dizemos: “What is now being tested is the solidarity among member states. How far will the better-run countries be willing to go to help their weaker brethen nations? Let’s hope that selfishness does not get the upper hand”. Let’s hope, dear Leif!