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sábado, 5 de novembro de 2011

Oliveira de Figueira, até na literatura

Há poucas semanas, a Pastoral da Cultura, pela pena de Tolentino de Mendonça, sacerdote católico e bom poeta, criticou o último “romance” do nosso “guy des gares” (ainda se lembram do que isto significa?) José Rodrigues dos Santos (JRS), “O Último Segredo”. Voltam hoje à estacada, na revista P2 do Público, dois meus estimados autores (para mim, incréu!), Carreira das Neves e Anselmo Borges, ambos sacerdotes católicos.
Acho que estão a dar um tiro no pé. O “autor” não merece e, reconhecendo os seus oponentes que a Igreja, na sua ação catequística de rotina, não discute estes problemas de exegese difícil, remetendo-os, como é compreensível, para o terreno académico e da investigação, reforçam a tese de JRS de que ele é que está a esclarecer com verdades absolutas e definitivas os milhões de crentes que da sua religião só conhecem a tradição básica consagrada e os ensinamentos do aparelho eclesiástico.
Mas não é disto que quero fazer esta entrada. É de, com tudo isto, se estar a sobrevalorizar o próprio valor literário do “romance”. Começo por dizer, honestamente, que não o li e não o vou ler, mas tudo o que sobre ele li e, principalmente, as declarações do próprio autor, me permitem escrever alguma coisa.
JRS é um imitador, eventualmente com talento, mas é um simples imitador, sem génio criativo, sem uma ideia própria. Nada do que escreve mostra um projeto literário novo, uma nova abordagem da escrita, da conceção de um romance, mesmo que sem romper com uma linha de sucesso, a dos romances “históricos” temperados com ação à argumento cinematográfico e com alguma erudição questionante. O suprassumo é o "Nome da Rosa", e outros de Umberto Eco. Mais rudimentares, mas eficazes, embora muito repetitivos, são os de Dan Brown.
E é aqui que quero chegar. Pelo que tenho lido e por muito que folheei na livraria - sem pagar! que não dou para todos os peditórios - os “best sellers” de JRS parecem-me uma escandalosa, desavergonhada cópia do estilo e da estrutura narrativa de Dan Brown. Tudo é toscamente desenhado com base num padrão elementar. Veja-se:
Um académico perito numa área que em si é científica mas que descamba facilmente para o esotérico. Uma senhora que mistura intelecto e físico e que obviamente demonstra na cama tudo isto, no final (já vem das “Bond girls”, embora estas não tivessem massa cinzenta). Poderes ocultos como os que o novo Messias anuncia no “Avante”. Teses “sérias” postas na boca do tal académico, afinal mistura de fantasias do autor com coisas velhas e revelhas lidas apressadamente em publicações sensacionalistas, como no meu tempo já havia numa série de publicações francesas de pseudo-ciência cujo nome esqueci (alguém me recorda, coisas sobre OVNI, segredos das pirâmides, alquimia, etc.?). Cultura elementar a “épater le bourgeois” sobre museus franceses, obras de arte e arquitetura religiosa medieval. Mesmo que aproveitando a incapacidade do leitor médio para desmontar o ridículo absurdo de coisas "científicas" como uma bomba de antimatéria.
Até certa altura, achei graça a ler isto em Dan Brown, até me irritar com a repetição e a ideia de que eu estava a contribuir, na caixa da livraria, para uma bem engenhada operação de sucesso. Mas, afinal, era o que se tinha passado comigo na infância, com Salgari e coisas do género. Até Dumas!
Agora JRS é coisa diferente. É a indigência à portuguesa, é a diferença entre o produto de qualidade americano e o pechisbeque do Sr. Oliveira de Figueira. Afinal, Dan Brown nunca se lembrou de  descrever uma sopa de peixe regada “in loco et in hora” com leite de mulher mamudamente notável. Mas, afinal, tendo criticado os estimáveis padres, não estou eu também a gastar cera com tão ruim defunto?

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Cadernos

Escreve-me um amigo do peito:
“Devias mudar de moleskine para Galocha, os óptimos cadernos que são feitos à mão na Emilio Braga, e que, se preferidos como merecem, sempre trazem trabalho ao proletariado luso.”
Confesso que não conhecia esses Galocha, mas vou por ele, porque o Jorge é magnificamente antiquado/moderno, é "very British", amante de coisas refinadas mas nunca na moda vulgar, especialista em canetas de tinta permanente, enfim, um snob como eu :-)
Hei-de ir à Emílio Braga. Mas mudar o nome deste “blogue”, mesmo que o Jorge tenha razão e contra a minha defesa da produção nacional e das nossas exportações, é coisa pouco prática. É como, meu caro Jorge, termo-nos conhecido à sombra de Kierkegaard (“private joke”), também é coisa pouco prática.