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segunda-feira, 15 de abril de 2013

Títulos, pompa e circunstância

Outro caso, depois dos plágios de teses de doutoramento de dois ministros da Sra. Merkel e do caso Relvas. “O presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, acaba de retirar do currículo um mestrado em Economia Empresarial, pela University College Cork (UCC), que nunca existiu naquela instituição.” (Público, hoje).

Ser político dá jeito, dá poder, dá muito mais coisas, mas nada como ter dourados académicos. Ou as duas coisas, mesmo que com aldrabice. E já parece uma doença contagiosa. Parece também haver uma certa hierarquia: na Alemanha são doutoramentos, na Holanda um mestrado e em Portugal uma banal licenciatura.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Malefícios da net?

De vez em quando, há um tsunami na net que nos invade o computador. São dezenas de mensagens ou referências a uma mesma mensagem, amplificada porque parece bem, mesmo que sem confirmação da sua veracidade. Aconteceu hoje, mesmo em blogues ou facebooks sérios e rigorosos, com a “carta aberta aos povos europeus”, de Mikis Theodorakis. 
Talvez por dedicar algum tempo, com os meus alunos, a exercitar o rigor de crítica da informação, tenho algum cheiro para fraudes da net. Neste caso, cheirou-me mal. Toda a gente copiava o mesmo texto. Todos referiam a mesma origem. Ninguém referia o original, só o texto em português. O texto era truncado, pobrezinho, tosco. Pareceu-me claramente uma daquelas coisas típicas em que alguém se esconde atrás de um nome respeitável, como já houve textos célebres da “autoria” de Pessoa, Drummond, João Ubaldo, Mia Couto.
Da forma mais elementar nestas coisas, googlei. Sempre a mesma coisa, sempre a mesma origem. Passei para inglês, nome do MT, “letter”, mais algumas palavras chave do texto, passadas para inglês em várias versões, nada! Finalmente, fui ao sítio de MT. Nada!
Estou enganado? Admito sempre esta hipótese, mas peço que me mostrem que estou. Entrem nos comentários.

P. S. (7.11.2011) - Como se vê no comentário de hoje, de José Carlos dos Santos, estava enganado. Obrigado pela correção.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Os futuros juizes

O caso da fraude num exame do Centro de Estudos Judiciários é tão tristemente eloquente que não estava a pensar falar sobre ele. Falei, sim, com os meus alunos, que estavam surpreendidos: “são os juízes que me podem vir a julgar?”. “Se eu fizer isto aqui na universidade chumbo”. E até aceitam, embora com alguma desadequação à brandura dos nossos costumes, que tal coisa resulte, na cultura universitária anglo-saxónica, em expulsão da universidade.
No CEJ, resultou na “brutal penalização” de serem corridos a 10 valores, mas obviamente aprovados. Hoje, depois de todo o alarido de protesto que por aí anda, ouço que afinal parece que o exame vai ser repetido. Isto é, todos esses aldrabões (nem sequer jovens estudantes, porque já todos licenciados ou mestres em Direito) vão ter uma segunda oportunidade de se apresentarem a exame e eventualmente passarem. Dirão os ingénuos que isto salvaguarda a justiça para com os que não copiaram. Quanto a isto, convém esclarecer alguns aspetos técnicos, embora eu não disponha de todos os dados.
A prova foi de escolha múltipla, os chamados, impropriamente, testes americanos. Por norma, não é possível copiar, pela simples razão de que é regra elementar que eles são diferentes. O conteúdo é o mesmo, mas varia a ordem das perguntas e a ordem das respostas a cada pergunta. Perguntar ao vizinho qual a resposta à pergunta x é quase certo receber informação errada. Se o CEJ não fez isto, então o problema é de ser supinamente incompetente, pedagogicamente.
Por outro lado, ao contrário do que se escreve, não parece tratar-se de copianço, que de forma alguma explica quase 100% de coincidência de respostas certas a perguntas difíceis e de respostas erradas a perguntas muito fáceis (o que significa que alguém, ao divulgar a chave, errou e difundiu o erro). Essa coincidência total indica que se conheceu previamente o teste e que todos tiveram acesso à resposta elaborada por alguém. Contra o copianço joga também o facto de os alunos estarem distribuídos por várias salas, relativamente afastados e vigiados por várias pessoas.
Portanto, das duas uma: ou todos são culpados, o que parece provável, ou alguns, não tendo beneficiado mas, num grupo pequeno, certamente tendo conhecimento da fraude, não a denunciaram. Por outro lado, parece óbvio que houve corrupção, com alguém, eventualmente de serviços académicos ou de reprografia, a passar o ponto aos alunos. Tem de haver um inquérito rigoroso a todo este caso lamentável.
A meu ver, os que ouvi hoje, desde o PGR até ao conhecido observador da justiça portuguesa, ao defenderem a solução da repetição do exame, estão a pregar mais um prego no caixão em que está a ser enterrada, pelos seus filhos e amigos, a moribunda justiça portuguesa. Também este caso parece demonstrar que o problema não é abstratamente sistémico. É, como sempre, humano, de gente que vai julgar os erros e crimes da sociedade mas que reflete já, em cultura, ética e comportamento videirinho, o que de pior tem esta sociedade. Não tenho qualquer dúvida em defender que, neste caso, este curso do CEJ devia ser pura e simplesmente expulso.
NOTA - A propósito disto, ouvi hoje um professor universitário, tido como muito progressista, afirmar que as provas de escolha múltipla não são um bom processo de avaliação e que nada chega a uma tradicional prova oral, com assistência de público. Como é possível?!