Mostrar mensagens com a etiqueta fascismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fascismo. Mostrar todas as mensagens

sábado, 31 de agosto de 2013

Lixo na net

Já muitas vezes aqui escrevi que tenho uma relação de amor-ódio com a net. Muito manifesta quando o poder de imposição do botão “send” obscurece toda a capacidade de análise. Uma pessoa que me dizem ser saudavelmente contestatário, eventualmente de esquerda, não deve fazer mais nada e envia-me diariamente dezenas de mensagens, muitas a meu ver agudas e sensatas, outras inconcebíveis de má qualidade, por vezes difamação e baixeza. Em regra, com forte dose de populismo, coisa que hoje substitui a luta política de nível e que passa à frente do mínimo de sentido crítico e de rigor intelectual.

Há dias, recebi dele uma mensagem com base no estafado documento de Cavaco a pedir à Pide acesso à consulta de documentos Nato reservados. Simplesmente, a mensagem transformava isto em prova de Cavaco ter sido colaborador (informador?) da Pide: “Após uma investigação aos arquivos da ex-PIDE depositados na Torre do Tombo em Lisboa, eis a cópia do original do Formulário Pessoal Pormenorizado do senhor Cavaco Silva, no qual, em 1967, o mesmo declarou a sua intenção em integrar a ex-PIDE da ditadura salazarista.” Qualquer meu leitor sabe que não tenho qualquer simpatia política por Cavaco. Nem sequer pessoal, quando todos os dias nos cruzávamos no Instituto Gulbenkian. Mas isto que recebi é abjecto e desqualifica moralmente quem difunde coisas destas.

É preciso deixar claro que um excremento destes não é de gente de esquerda. Propus a este meu correspondente traçar o caminho da mensagem em sentido oposto, com desmontagem da calúnia, até o autor ver que nem sempre a podridão compensa. Não o fez, o que me permite escrever aqui isto.

Ainda uma nota. Nessa mensagem, diz-se que “em 1964 o Silva ainda não era um PIDE seria só em 1967”. A referência a 1964 tem a ver com a legenda, feita pelo autor anónimo (mas por que responsabilizo legitimamente o meu correspondente) de uma fotografia de Cavaco como alferes em Moçambique, dizendo “rapaz de armas do exército português". Note-se que o termo "rapaz", neste contexto pejorativo, é retintamente colonialista (fascismo, colonialismo, populismo neofascismo, andam hoje de braço dado). Eu fui firme opositor da guerra colonial mas não insulto assim as centenas de milhar de jovens a quem o fascismo prejudicou tanto, enviando-os para a guerra. E quem escreveu este nojo de texto se calhar até, com a mentalidade fascistoide que ele revela, é que é apologista tardio da guerra colonial.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Velhos e novos fascistas?

José Manuel Correia Pinto, no seu imperdível Politeia, cunhou hoje um novo termo para Gaspares e canalhada: novos fascistas. Pode parecer um chavão, mas JMCP nunca escreve nada sem grande rigor conceptual e histórico.
Em poucas palavras é este, para começar, o projecto que o FMI tentará pôr em prática em Portugal para “refundar o Estado”. Mas o ataque neoliberal não se fica por aqui. É preciso também destruir o Estado de direito nalgumas das manifestações mais eminentes dos princípios que dele decorrem. É neste sentido que devem ser interpretadas as intervenções dos “novos fascistas” (terminologia que doravante utilizaremos para caracterizar os corifeus deste ataque bem como os seus apaniguados e que um dia tentaremos fundamentar teoricamente para que o termo não pareça uma simples aberração retórica) contra a Constituição, relativamente a questões que nada tem a ver com o Estado social, nomeadamente a propósito da eventual ou hipotética declaração de inconstitucionalidade de normas orçamentais.

Meu caro, não sei bem se partilharei contigo o uso deste apodo "novos fascistas". É verdade que estamos em presença de uma nova direita (ou, porque não, de uma nova extrema-direita?), qualitativamente diferente daquelas que temos visto nas últimas décadas, incluindo o CDS. E até todos os boys Goldman-Sachs têm ido é para o PSD, muito mais albergue espanhol do que o CDS, honra valha a este.

São os prosélitos fanáticos de uma religião que faz cerimónia-mor em Davos, enquanto manobra diariamente nas sacristias dos bancos e nas cúrias episcopais das burocracias financeiras internacionais e manda missionários estilo meninos de Deus nas troikas que nos invadem.

Não há dúvida de que tens razão em caracterizá-los teoricamente como (novos) fascistas. Têm uma ideologia totalitária, desprezo pelas normas básicas da democracia e da "ética republicana", culto do poder (antes militar, hoje económico), total subvalorização de um povo concreto em relação a um "ente social" abstrato portador de um destino histórico (neste caso, agora, uma camada superior de grandes do capital financeiro, seguida de uma camada de tecnocratas serventuários que eles próprios personificam). Já não encenam o domínio das massas mas fazem-no de forma subtil, manipulando a opinião pública. E servem-se desta manipulação para que lhes dêem aceitação para a destruição do estado de direito. O recuo revolucionário de 25 de Novembro foi uma brincadeira comparado com isto.

Em termos de referências nacionais, não me parece haver dúvidas de que esta gente se encaixaria de alma e coração no salazarismo. Simplesmente, isto remete-nos para uma velha questão teórica: o salazarismo foi uma forma de fascismo? Em termos de uma reflexão marxista sobre as relações de poder e de classes nos fascismos mais espectacularmente típicos e brutais, mas também de muitas outras ditaduras de direita na Europa dos anos 30, julgo que sim, talvez na versão de Graciliano, "o nosso pequenino fascismo tupinmambá". Valem menos, para mim, como caracterizadores, os aspectos operáticos.

Mas como os historiadores modernos, mesmo os de esquerda, para não falar de Rui Ramos, Filipe Ribeiro Menezes e outros revisionistas, fazem guerra em "desconfundir" salazarismo e fascismo, com algum sucesso, acho que não devemos dar cera para tão ruim defunto.

Lembrei-me de que toda a gente que perfilha uma ideologia socialista é apodado de socialista. A identificação é ideológica e política. Pelo contrário, e os nossos clássicos têm alguma culpa, o termo capitalista refere-se à propriedade e à classe, sem conotação ideológica imediata. Já é tempo de acabar isto, até porque a figura típica do capitalista individual já se diluiu até certo ponto. E, com esta crise, adquiriu conotações negativas.

Portanto, capitalista tanto deve servir para designar o detentor de capital como o que defende o capitalismo como a ordem social que deseja e em que não consegue deixar de ver o mundo e a sociedade (deles). Claro que há muitos graus. Assim, para Gaspares, Moedas, Borges, Barrosos, só para dar exemplo de lusofalantes, proponho "ultracapitalistas". Fica de fora Passos Coelho, noutra categoria, a dos "tontocapitalistas".

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Lumpen não, obrigado

Anda pela net, e já vários amigos meus mo enviaram, um texto de protesto contra a intolerável carga policial na última manifestação, com prisões que se estenderam de S. Bento até ao Cais do Sodré. Até não deixa de ser curioso o contraste entre esta atuação e o autocontrolo impecável da polícia em 15 de setembro. Obviamente que concordo com este protesto, mas quis esperar pelo esclarecimento da minha posição, nesta entrada, para subscrever.

Não quero confundir-me com muitos que se têm solidarizado com os marginais que se destacaram nos desacatos nem sequer confundir-me com amigos que têm tido posições a meu ver ambíguas. Note-se que não me estou a referir a estes amigos promotores do protesto de que falei. Há companheiros de lutas que me vão criticar, como me criticaram quando manifestei a minha total falta de solidariedade com os arruaceiros dos tumultos de Londres. Não há nada de revolucionário nessa gente, só prejudicam a revolução e o movimento popular. Dizer que eles são uma forma particular de revolta popular é racionalmente abusivo e é politicamente perigoso.

É certo que são produto de toda uma sociedade, tal como os gangs dos bairros degradados, os hooligans, os seguranças de discoteca peritos e amantes da violência e, já agora, porque não? os viciados em drogas, todos “produtos sociais”. Aliás, muitos dos desordeiros encapuçados de S. Bento também são tudo isso. Começam de pequeninos. São os que assaltam os colegas de escola para lhes roubarem os ténis de marca, os que fazem "bullying", os que gozam a filmar uma miúda a ser espancada por duas galdérias da mesma idade, os que estragam um prédio novo com grafitis, os que rasgam a canivete os estofos do metro, os que riscam a todo o comprimento a pintura do meu carro. Mais ou menos jovens, são sociopatas. Coitadinhos, porque são uma esperança revolucionária?

Que sejam "pobres e inocentes produtos" da sociedade – ou do sistema, coisa ainda mais vaga e mais desculpabilizante – não chega nada para eu simpatizar. Seria determinismo primário e tonto eu considerar que as influências sociais, que não enjeito, anulam por inteiro as responsabilidades morais e cívicas individuais. Atenuante é atenuante, nunca anula o crime.

Essa gente é lumpen. Só já não digo "lumpenproletariat", à Marx, porque saem é da burguesia, mesmo muitos, se calhar, produtos de “boas famílias”. E nunca o lumpen foi revolucionário ou aprovado pelos grandes pensadores políticos de esquerda. Pelo contrário, o que sempre deram, na mudança política, foram agentes de mão e de cacete dos fascismos. Isto hoje é especialmente nefasto porque estamos, nesta crise, numa fase de grande ambiguidade política dos cidadãos, de oscilação. O que estão a sofrer puxa-os para uma política alternativa, mas coisas destas enquistam-nos nos seus valores ordeiros e tradicionais.

Repito que vou subscrever o protesto, mas deixo claro que o faria com muito maior gosto se nele lesse isto.

E estas coisas não dão tanto jeito ao governo e aos comandos mais conservadores da polícia? Porque é que os agentes à paisana da PSP, aqueles que podiam identificar e prender logo os vândalos, foram mandados retirar logo que Arménio Carlos abandonou a praça, sabendo-se bem que só então, sem a segurança da CGTP, é que se agravariam as provocações?

Mais umas notas pontuais.

Parece-me que a experiência recente aconselha a que não se convoquem manifestações para S. Bento. É verdade que o espaço tem grande simbologia política, mas grandes inconvenientes práticos. É pequeno e dá logo para a escadaria, considerada já terreno proibido, o que torna em fator de risco qualquer derrube de barreira. Os polícias estão obrigatoriamente muito próximos, a 10 metros ou menos. Manifestantes pacíficos e desordeiros estão quase que obrigatoriamente misturados. Sá há três canais de fuga: a D. Carlos, a Calçada da Estrela com grande inclinação para quem foge, a subir, e a R. S. Bento, estreita e com fácil atuação em tenaz de um corpo de polícia vindo do Rato.

A residência do primeiro ministro é outra que tal, com a agravante de que nem sequer os protestos têm visibilidade televisiva, por a polícia cortar a rua. Já Belém é diferente. Há um terreno neutro largo (toda a largura da rua), muito espaço na Praça Afonso de Albuquerque, muita fuga, que limita a ação da polícia de choque, e toda aquele conjunto de canteiros de jardim que impede uma frente compacta de polícia. Todavia, dar ênfase a Belém é exagerar o papel político do PR, o que, sem servir para desculpar a sua ambiguidade (o menos que posso dizer), também tem riscos de estímulo a qualquer cesarismo.

Isto são também memórias velhas. Ao contrário dos 1º de maio na baixa, cheia de caminhos de fuga e de lojas abertas que nos acolhiam a comprar retrozelos, a manifestação em que mais “porrada” apanhamos foi tecnicamente uma estupidez (também minha, dirigente estudantil): contra a guerra do Vietnam – de facto contra a nossa guerra colonial – frente à embaixada dos EUA, na Duque de Loulé. Avenida estreita, com carga policial vinda simultaneamente de cima e de baixo. À frente, a polícia de choque e os cães,  a fazerem-nos cair, atrás a “brigada de recolha”, os pides e os seus VW pretos. A partir desse dia, comecei a ter presente que tudo isto tem muito de técnica. Passei a saber muito bem onde me colocar.

Também me parece que é ilusório e perigoso ir-se a S. Bento para tentar controlar as coisas. Viu-se que é impossível. Aquela gente não é controlável, assim como os adeptos dos clubes que assistem pacificamente ao jogo do seu clube não controlam as claques. Pura e simplesmente, essa gente tem de ser isolada e deixada ao seu destino (nessa altura, se calhar desaparecem ou a polícia não lhes bate). Quanto ao seu “protesto político”, reparem que essa gente, bem identificável até por estilo pessoal, indumentária, tatuagens violentas e adereços grupais, não vai nas manifestações, só aparece em S. Bento.

Lumpen não, obrigado.

NOTA – Num bom texto no Arrastão, com que que concordo, Daniel Oliveira fala daqueles desordeiros como uma “minoria de idiotas”. Minoria sem dúvida, mas de que sejam simples idiotas é que duvido. Uma organização clandestina e difusa de mão-de-obra para toda a violência, política, clubística, de negócios escuros, de vida noturna, até de simples prazer pessoal e grupal, estilo "Laranja mecânica"? E com rede internacional? Dirão que é teoria da conspiração. "No creo en brujas, pero que las hay, hay!".

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Sem palavras

Tem circulado largamente, com indignação, a notícia do julgamento dos autores e encenadores de uma peça de teatro sobre Silva Pais, o longa e derradeiramente diretor da PIDE, depois rebatizada. O julgamento decorre de uma queixa por difamação feita por dois sobrinhos do esbirro. Uma ingénua mas respeitável honestidade mental poderia justificar que alguém não comentasse tal notícia sem primeiro saber qual a razão da queixa. Se fosse evidente difamação sobre as qualidades do major em termos de fidelidade conjugal ou de respeito pela carteira do alheio, era pelo menos matéria de discussão (admito que discussão, porque o privado de uma figura pública é coisa elástica). Mas não. A peça limita-se a considerar que essa sinistra figura foi co-autor moral do assassínio do general Delgado. Ao que chegámos!