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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Um vigarista até me pode fazer sorrir

O caso Artur Baptista da Silva, para mim, é principalmente divertido. Confesso que com alguma simpatia infantil, para quem leu Arsène Lupin ou achava que os truques toscos dos ilusionistas dos raros circos que iam à minha terra eram uma transgressão magnífica das regras certinhas em que era educado.

O homem não é um burlão, não ganhou dinheiro com as entrevistas ou com a conferência no Grémio. Aldrabão lá isso é, e aldrabou um jornalista que eu gosto de ler, Nicolau Santos, mas também com o efeito positivo de nos fazer sermos muito críticos em relação à comunicação social, como aqui tantas vezes tenho dito. 

E convenhamos que, se Nicolau Santos se deixou levar por ele, tanto numa crónica de jornal como num programa de TV, ou se uma assistência seleta o ouviu no Grémio sem desconfiar, é porque o homem deve ter um discurso económico e político consistente. Ou julgam que Alves dos Reis não teria sido melhor banqueiro do que Inocêncio Camacho, cuja assinatura conseguiu com o truque mais incrivelmente infantil, o da última página só com data e assinatura?

Agora o mais estranho é que, nesta “estória”, ainda ninguém tenha discutido o que o homem de facto disse. Veja-se uma das suas intervenções, que por acaso gravei e fui rever agora. O essencial é que o homem diz verdades! Como escreveu um comentador do vídeo, "o mais irónico nisto tudo é que um impostor tenha mais razão e perceba melhor a situação do que os nossos governantes". Talvez seja isto, afinal, que não lhe perdoam. Será que já chegamos ao ponto – claro que eticamente inadmissível – de se forjar toda uma história para se poder exprimir as suas ideias?

É muito pior do que os poemas ridículos e lamechas, de pé quebrado, que põem na net assinados por Pessoa, ou, vindos do outro lado do oceano, também por Carlos Drummond? Ou as cartas ditas de João Ubaldo ou, em Portugal, de Eduardo Prado Coelho, como se já tivesse desaparecido a capacidade mínima de identificar estilos e arquétipos mentais? Este vigarista, ao menos, gozou – e usou bem – este meio inculto em que vivemos, crédulo e acrítico, apesar das suas certezas com pergaminhos “académicos”. “It’s the press/TV/net, stupid!”

domingo, 22 de maio de 2011

Eu sou mais africano do que tu

Até em termos de campanhas eleitorais estou a ficar velho. Onde já vão os grandes comícios? Hoje vi de relance - porque TV para mim é coisa triste que só de relance - apenas um comício do PS em Évora. Ando tão longe destas coisas que fiquei embasbacado por o jornalista ter dito que hoje era desafio para os partidos fazer um comício condigno na pequena praça do Giraldo. De facto, o comício do PS não teria mais do que duas ou três centenas de pessoas.
Até aqui, nada de especial. O notável neste caso é que quase toda a assistência era de origem africana. A coisa é primária, politicamente rupestre. Passos Coelho afirmou que era o mais africano dos políticos portugueses, por ser casado com uma guineense. Coisa lamentável, usar para fins eleitorais uma situação privada, ainda por cima politicamente irrelevante. Claro que, igualmente deselegante, houve logo aproveitamento bloguístico dos escribas na net comandados pelo aparelho socrático. 
Gabe-se o sentido de dever dos manifestantes. Todos bem arregimentados, organizados por autocarros, T-shirt e boné de uniforme, saco de plástico com o lanche fornecido, mas cumprindo bem o seu dever de gritos e slogans. Gente honesta, mais cumpridora do que nossos patrícios que tenho visto igualmente mobilizados para coisas destas. 
Pior foi ter ouvido, com estes ouvidos que ainda não me falham, um manifestante, de nacionalidade moçambicana, afirmar ingenuamente que tinha sido recrutado pela sua embaixada. Quero acreditar que é engano, que o homem ao dizer embaixada está a falar em alguém que ele conhece da embaixada e que está a colaborar com o PS nesta arregimentação tropical. Mas é coisa suficientemente séria para questionar formalmente tanto o PS como a embaixada de Moçambique: está a haver alguma relação entre o PS e a embaixada de Moçambique nesta campanha?

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Melhor do que se esperava?


"Melhor do que se esperava". "Não consideravelmente pior do que o PEC 4". Não estou a perceber. É o que anda a dizer hoje toda a gente mesmo na franja da santíssima trindade interna: Soares, Alegre, Ferro Rodrigues, António Costa, Maria de Belém, mais outra gente da "esquerda" do PS, alinhando com o discurso do querido líder, ecoado por Assis e Silva Pereira. Curiosamente, destoa, mas por raiva com uma esquerda que lhe retribui o ódio de estimação, Vital Moreira, que no seu blogue afirma, contra corrente oficial do seu ídolo, que o acordo é muito pior do que o PEC 4, "vejam lá, não votaram com o meu querido líder, agora lixaram-se".
Melhor do que se esperava em relação a quê? Objetivamente, em relação aos outros resgates, Grécia e Irlanda? Não vale. A Irlanda é um caso particular de resgate indireto dos bancos, pelos quais o Estado pôs a corda na garganta. A Grécia é "estudo de caso" de tal asneira que os financiadores não podiam deixar de ter em conta para não repetir a asneira no caso português (e, no essencial, até acho que repetiram, em termos de ideologia austeritária cega), com riscos mais que discutidos para a segurança de todo o sistema do euro (já esqueceram Kissinger e a sua teoria do dominó?).
Não é esta a comparação que os opinadores estão a fazer, é mais aberrantemente irracional, mais infantilmente engulidora da isca socrática e do seu aparelho antidemocrático de propaganda e de manipulação orwelliana. Afinal, o que é que se esperava? Com que fundamentos objetivos e racionais? Esperava-se apenas porque se escreveu repetidamente na comunicação social, porque os economistas de serviço debitaram todas as noites nos canais de notícias? Iam ser cortadas pensões de 400 euros, ia ser passado a títulos o subsídio de Natal, ia ser completamente desregulado o regime de trabalho, ia ser nacionalizada a CGD. Quem provou que isto estava em discussão, que era realista e lógico pensar que tipos inteligentes como os da "troika" pensassem em tão estúpida coisa, eles que também sabem, mesmo que tecnocratas, o que é o fator de risco de uma convulsão social a mexer com os seus esquemas? Quem plantou tudo isso na comunicação social? Anote-se que o catastrofismo da esquerda radical também ajudou à festa.
Sócrates veio apresentar como sua vitória ter conseguido que nada disso se passasse. E toda a gente se congratula com esta vitória! Está tudo doido? Ou a paixão político-partidária já chegou a ponto de turvar completamente o mínimo de discernimento de mentes educadas? Ou de independentes inteligentes mas louvavelmente incapazes de perceberem coisa tão alheia ao seu mais elementar sentido de rigor que é esta desavergonhada manipulação?
Usando a minha imagem de ontem, plantou-se na opinião pública que tinha fugido o leão do circo, que andava pela baixa a abocanhar velhinhas. Afinal, o leão não tinha fugido e toda a gente se prostra em graças por o leão não ter morto muita gente. Este país é de loucos irracionais, para além de irresponsáveis gastadores como os irracionais igualmente (ou muito mais) loucos gastadores, mas mais iluminados e arrogantes, andam a proclamar?
Isto (claro que em abstrato!) foi hoje tema da minha aula, numa disciplina inteletual e formativamente muito desafiadora para quem se sente professor, de seu nome "Racionalidade científica". O tema era o da impossibilidade racional da discussão de tipo "se tivesse sido assim...". Claro que é impossível demonstrar uma tese negativa e da mesma forma não se pode deduzir nada de uma situação que não aconteceu. Ninguém pode demonstrar que não existem OVNIs, pode-se demonstrar é que tudo se pode explicar sem ser necessário ter de aceitar a sua existência. Nenhum ateísta militante pode demonstrar a inexistência de Deus, mas não é obrigatório que a alternativa seja um agnosticismo virtuosamente inútil, porque se pode demonstrar que nada no cosmos exige a existência de Deus. É a versão científica e não militante do ateísmo. Mas já estou a desvariar.
Sem que se tenha minimamente falado em política, o que seria abusivo numa aula, os meus alunos perceberam bem, discutindo entre eles e comigo, que discutir o que teria sido "se não..." (digo eu agora aqui, não na aula, por exemplo, "se não tivesse sido chumbado o PEC 4") é coisa que só faz sentido nos filmes "Regresso ao futuro". Muito menos sentido faz inventar cenários que ninguém pode comprovar e com eles comparar, como melhor ou pior, a situação real posterior.
Claro que não estou a fazer processos de intenção, de desonestidade por parte dos que se deixam manipular, por mais senadores ou poetas eminentes que sejam. Fazem objetivamente o jogo de quem atua com sempre gabada inteligência. Com alguma dificuldade minha de aferir o que é inteligência: "performance", cumprimento de objetivos, sucesso de vários tipos? Ou rigor inteletual, elegância e luminosidade de raciocínio, domínio da lógica, formal ou dialética?
É difícil discutir isto, que podia dar conversa estimulante, mas que está contaminada por coisa evidente por parte dos manipuladores: pura e simples aldrabice espertinha. Quando esperteza e inteligência se confundem, fico doente. Ou é rigorismo meu?

P. S. - Vejo agora que o meu querido amigo JMCP do Politeia escreveu coisa muito coincidente com isto. "Les bons esprits se rencontrent".

P. S. 2 - E mais um no mesmo sentido, de Daniel Oliveira.

terça-feira, 22 de março de 2011

Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo

Se isto fosse escrito científico, como tantos que escrevi, teria de incluir referências bibliográficas exatas. Não tenho agora tempo, mas creio que não irei contra a informação segura que os meus leitores acumularam nas últimas semanas, mesmo que não tenhamos na ponta da língua datas e horas.
Recorde-se. De surpresa, na véspera da reunião europeia de 10.3, Sócrates (JS), pela voz do ministro das Finanças, anuncia o PEC 4, que vai apresentar em Bruxelas no dia seguinte. A presidência da República diz não ter sido informada, os partidos da oposição idem. O PSD, que estava vinculado ao seu compromisso infantil com o PEC 3, sente-se traído. E tudo isto parece inegável, porque é o próprio JS que vem explicar o secretismo, por questões de calendário - posse do PR, moção de censura do BE.
Vendo que tudo isto resultava na crise política - e agora nem discuto se desejada ou não pelo PS/JS - ele tem de antecipar o que vai ser a sua campanha eleitoral, de vitimização, de quem não teve nada a ver com a crise, muito menos com a sua consequência - que seria inevitável mesmo sem a crise - a intervenção externa. Põe a cereja neste bolo desonesto, que afinal não eram nada medidas decididas, eram linhas orientadoras, sempre abertas à discussão parlamentar.
Entretanto, sábado, já o Expresso tinha divulgado cartas para Bruxelas que deixavam muitas dúvidas sobre tudo isto. Também se noticiava por toda a parte que, nos dias anteriores, uma missão a Portugal da CE e do BCE tinha fechado negociações com o governo, nos termos anunciados logo a seguir como PEC 4. E ainda, com boa razão, se pensava já antes que tudo tinha começado por imposições da Sra. Merkel, na ida vassálica de JS a berlim.
Hoje, com a brutalidade arrogante de quem verdadeiramente manda na UE, e a negar a possibilidade de JS tentar reapresentar modificações ao PEC 4, veio Juncker afirmar, inequivocamente, que houve mesmo um compromisso definitivo de JS. Aprovámos o programa de ajustamento tal como nos foi proposto pelo governo português [e] que foi avalizado tanto pela Comissão Europeia como pelo Banco Central Europeu”. Claríssimo: “aprovámos”, foi uma proposta para aprovação pelo conselho, não linhas de orientação; tinha sido avalizada previamente, às escondidas. Vinte e cinco poucas palavras para arrumar definitivamente JS como aquilo que hoje todo Portugal lhe chama: aldrabão, desonesto, mentiroso. Nunca, desde Costa Cabral e um pouco João Franco, alguém tinha sido tão visceralmente detestado pela enorme maioria dos portugueses, independentemente da sua simpatia partidária. Porque já não só está em causa a política, já é o carácter e a moral.
Vai haver eleições e terei muita dificuldade em decidir do meu voto. Depois aqui escreverei, a despertar debate com os meus amigos. Julgo ter suficientemente discernimento político para nunca ir votar no mano jota da outra etiqueta. Mas o voto não é só racional, também é ético. Eu teria vergonha de dizer aos filhos que eduquei que tinha votado num mentiroso e aldrabão.
Nota final - Tão amigos que nós somos, “porreiro, pá”, afinal um porta-voz de Barroso vem dizer que as declarações de Juncker não são bem assim. Também os parceiros sociais (claro que sem a CGTP) se preparam para grande encenação, com Sócrates, assinando um acordo na linha do PEC 4. Nada disto me parece que seja encomendado por JS para ainda tentar evitar o chumbo do PEC 4, é tudo já campanha eleitoral, da pobre vítima.


P. S. (21:08) - Acabei de ouvir Fernando Rosas a dizer que o que se vai passar agora é o normal funcionamento das instituições. Posso estar a ser baço, mas não vislumbrei sombra de ironia. Ouço mais, "dar lugar ao voto é a democracia, aliás vem provar a razão do BE e da sua moção de censura". Neste momento, com o povo aos berros e a encher a rua, o BE, pela voz de um dos seus principais dirigentes, tem este discurso estritamente institucional? E eu ainda a pensar que era uma hipótese minha de voto...