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quinta-feira, 6 de junho de 2013

It's politics, stupid (II)

Continuando o texto de ontem, sobre as relações por vezes complicadas ou menos transparentes entre a política e a economia: encontrei um “post” recente de Krugman em que, com o título que usei por coincidência, “It’s The Policy, Stupid”, em que ele escreve (tradução minha)
“Como provavelmente vamos ter uma data de histórias sobre economistas em luta e tudo o mais, só uma nota: não se trata de coisas pessoais. Trata-se da volta desastrosamente errada que levou a acção política em 2010, em todo o mundo desenvolvido. Os economistas só contam até ao ponto em que ajudaram e foram cúmplices com essa mudança errada. As suas opiniões (e as minhas) não interessam nada.”
Igualmente frontal é Dani Rodrik, outro de Harvard, ao escrever “The Tyrany of Political Economy” no portal do Project Syndicate
“Houve um tempo em que nós, economistas, nos mantínhamos longe da política. Para nós, o nosso trabalho era descrever como funcionam as economias de mercado, quando falham, e como as políticas bem planeadas podem aumentar a eficiência. Analisávamos os ‘trade-offs’ entre os objectivos concorrentes (digamos, a equidade versus a eficiência) e recomendávamos políticas que atendessem os resultados económicos desejados, incluindo a redistribuição. Cabia aos políticos aceitarem o nosso conselho (ou não) e aos burocratas pô-lo em prática. 
Foi então que alguns de nós se tornaram mais ambiciosos. Frustrados com a realidade de grande parte dos nossos conselhos ter sido ignorada (tantas soluções para o mercado livre ainda à espera de serem tomadas!), desviámos o nosso jogo de ferramentas analítico para o próprio comportamento dos políticos e dos burocratas. Começámos a analisar o comportamento político utilizando a mesma estrutura conceptual que utilizamos para as decisões dos consumidores e dos produtores numa economia de mercado. Os políticos tornaram-se nos fornecedores que maximizam o rendimento dos favores políticos; os cidadãos tornaram-se nos lóbis dos lucros monopolistas e em interesses especiais; e os sistemas políticos tornaram-se nos mercados onde os votos e a influência política são negociados para benefícios económicos.”
“(…) Uma coisa que os especialistas sabem e que os não-especialistas ignoram, é que a extensão do seu conhecimento é mais limitada do que os não-especialistas pensam. As implicações vão além de não sobrevalorizar o resultado de uma determinada investigação. A autoridade e precisão que os jornalistas, os políticos e o público em geral têm tendência para atribuir ao que é dito pelos economistas é superior àquela que os próprios economistas deveriam realmente aceitar. Infelizmente, os economistas raramente são humildes, especialmente em público. 
Existe ainda outro pormenor relativamente aos economistas que o público deveria conhecer: a progressão na carreira dos economistas académicos é feita por meio da astúcia e não da sabedoria. Actualmente, os professores das melhores universidades distinguem-se, não por estarem certos a respeito do mundo real, mas por criarem deturpações teóricas fantasiosas ou por desenvolverem novas evidências. Se estas competências os tornarem igualmente em observadores perspicazes das sociedades reais e lhes propiciarem uma sólida capacidade de discernimento, não será certamente resultado de uma intenção nesse sentido.”
No lugar que ocupa, Gaspar não é um economista errado, é um político e ideólogo ultra-reaccionário e antipopular, e em nenhum dos casos é um louco inimputável. Da mesma forma, a UE não é a academia da ciência política, é (novamente o humor de Krugman) o Rehn do terror político.

P. S. (7.6.2013) – Sobre este tema, um artigo apanhado hoje que me pareceu interessante embora, como leigo, não o possa criticar devidamente: D. Acemoglu e J. A. Robinson, "Economics versus Politics: Pitfalls of Policy Advice" (pdf, descarregável).

(Imagem de Paul Lachine)

terça-feira, 4 de junho de 2013

It's politics, stupid

RESUMO. No início da crise, chamei aqui a atenção para a necessidade de um novo discurso político bem alicerçado em estudos económicos. Hoje talvez esteja a acontecer um pouco o contrário. Uma parte considerável dos blogues, dos textos de opinião e dos manifestos políticos são de natureza predominantemente económica e da autoria de economistas que, principalmente à esquerda, têm tido assinalável protagonismo político (ninguém pode levar isso a mal), como independentes ou como membros conhecidos de um partido. Ao contrário do que se podia entender erradamente que defendia antes, como predomínio da necessidade de uma grande reflexão económica, creio que ela deve ser condicionada à política e, para o cidadão comum, espelhar-se em propostas políticas. A discussão económica é fundamental, como é fundamental a informação dos cidadãos. Mas não dispensa a mensagem de que a solução é sempre, no fim, política e social. Social também no sentido de que não se esgota na política institucional e partidária. Estão em causa – e com riscos – grandes bandeiras das lutas populares e da esquerda, e as suas conquistas.

*  *  *  *  *

No primeiro texto deste blogue, “Escrever à esquerda, hoje”, em 5.1.2011, escrevi que 
“(…) um ano que promete muito pouco. E que vai ser, palpita-me, o primeiro de um ciclo de anos “en la calle”, novo ciclo de 1848. Por isto, um enorme desafio à esquerda, que entre nós - veja-se o tom do debate presidencial - continua a ter um discurso tradicional. Veja-se a quantidade de gente do meu tempo que anda a escrever posts em blogues no mais velho estilo de política retórica. Ainda não perceberam que hoje o discurso político domina bem a economia política ou não tem credibilidade contra esse horroroso emprenhamento pelos ouvidos que os "economistas" de serviço estão a fazer?”
E, sobre os economistas e opinadores de serviço que já então formavam (ou deformavam) a informação:
“O que está aqui em causa, nesta enorme coligação de mediocridade e cobardia política, de submissão aos poderosos - desde os banqueiros a nível local até à chancelerina a nível europeu - é pura e simples aldrabice descarada, em que tudo o que há de pior na qualidade intelectual e ética se mistura: falta de sentido ético e da solidariedade social, conservadorismo, interesses pessoais e grupais, deslumbramento com a riqueza, mentalidade de escudeiro (à Gil Vicente), falta de rigor e de profundidade de pensamento, ir com a moda, cobardia, chico-espertismo.”
Assim, repetidamente chamei a atenção para a necessidade de a esquerda ter posições bem fundamentadas cientificamente na economia política, vendo-se que era a área de malabarismo retórico da direita, tirando partido da falta de informação da maioria das pessoas. A grande maioria dos blogues políticos descurava a abordagem de problemas económicos, quando não os menosprezavam abertamente. Também é sintomático, pelo que me toca, que este blogue tenha inserido desde o início, na barra lateral, uma coleção de ligações a sítios e blogues de economia, parodiando (com sentido diferente) a célebre frase de Clinton, “it’s the economy, stupid”.

Talvez tenha havido uma viragem exagerada. Com a agudização da crise, a discussão política à esquerda passou a ter um conteúdo cada vez mais económico, centrado na crise e no combate à política austeritária. Mesmo no que a política tem de mais essencial, a sua base programática, o que está hoje em confronto é a escolha entre duas propostas marcadamente económicas, de tal forma que até podemos usar uma nomenclatura económica para opor os dois lados: monetaristas ou neoliberais de um lado; neokeynesianos, marxianos e outros, no outro terreno. Com isto, uma parte considerável dos blogues, dos textos de opinião e dos manifestos políticos são de natureza predominantemente económica e da autoria de economistas que, principalmente à esquerda, têm tido assinalável protagonismo político (ninguém pode levar isso a mal), como independentes ou como membros conhecidos de um partido.

Note-se que, como acontecia com o debate político tradicional, pré-crise, a direita é mais homogénea do que a esquerda. Difere em pequenos aspectos tácticos, mas nada que se compare com escolhas tão radicalmente opostas, à esquerda, como o europeismo utópico com manutenção numa eurolândia recuperada e a denúncia do memorando com risco de eventual saída do euro. A supervalorização, natural, do económico levou também à diminuição do debate “das políticas”. Quando há considerável diminuição e desmotivação dos recursos humanos, quando há corte de 10%, a eito, nos consumos intermédios, imagina-se que a dimensão e qualidade da prestação de serviços não se ressinta, nos hospitais, nas escolas, nos transportes, nas infra-estruturas? No entanto, tudo isto que enchia jornais banalizou-se porque, obviamente, mesmo para os sindicatos e outras forças que lutavam por essa qualidade, há hoje prioridades sistémicas muito mais agudas.

Por isto mesmo, ao contrário do que se podia entender erradamente que eu defendia antes, como predomínio da necessidade de uma grande reflexão económica, creio que ela deve ser condicionada à política e, para o cidadão comum, espelhar-se em propostas políticas. Veja-se um exemplo: propor a saída do euro tem a oposição clara de cerca de 60% dos inquiridos. É natural, quando bombardeados com o anúncio por especialistas de todas as desgraças que daí virão, quando todos esses inquiridos não fazem a mínima ideia do problema. Mas terão de ser eles a decidir, directa ou indirectamente, para o que o contributo esclarecedor dos economistas de esquerda é imprescindível mas de forma alguma dominante, nem sequer por via da influência interna nos seus partidos.

Ressalve-se que a discussão económico-política à esquerda é, a meu ver, mais honesta do que à direita. Neste segundo campo, a economia, apresentada quase que dogmaticamente ou como uma cadeia de fatalidades, escamoteia a ideologia política. A austeridade é apresentada como uma política financeira e orçamental para redução da dívida (principalmente pública) e do défice orçamental, tidos como a principal causa da recessão (veja-se o recente caso Reinhart-Rogoff). Não é assim. Muito mais do que uma política económica, é uma ideologia política, que impregna difusamente a formação académica dos economistas modernos, como entre nós na forma(ta)ção na Nova e na Católica. 

O neoliberalismo (e a sua variante alemã, o ordoliberalismo) não é apenas a visão económica da supremacia absoluta dos mecanismos de mercado, tidos como “inteligentes”, a defesa da total liberdade do mercado, com intervenção reguladora mínima do estado. De facto, e como claramente defendido pela escola austríaca, com Hayek como expoente, é uma filosofia política, uma ideologia e um programa, concebidos como contraponto ao “welfare state”, estabelecido em Inglaterra e nos países escandinavos, com influências do keynesianismo. A versão americana do neoliberalismo, levada para o palco político por Reagan (assim como por Thatcher no Reino Unido) é personificada por Milton Friedman e escola de Chicago, os que ajudaram a implantação da política económica de Pinochet.

À defesa da total liberdade dos mercados é inerente a correspondente redução do papel do estado, com apropriação privada de tudo o que é essencial ao estado social (o “welfare state”): educação, saúde, segurança social, rendimento mínimo, protecção ambiental, garantia dos recursos naturais e das fontes de energia, etc. Ninguém mais claramente o afirmou do que o próprio Hayek. A vitória trabalhista depois da II Guerra retomou o relatório Beveridge, propondo um conjunto de leis fundadoras do estado social – educação, serviço nacional de saúde e segurança social. Contra o programa trabalhista, escreveu Hayek, no seu livro principal, “O Caminho da Servidão”, que o programa levaria a civilização ao colapso, à perda da liberdade, à submissão ao Estado e até ao caminho para o nazismo! Repito: não são posições exclusivamente baseadas na economia científica – aliás posta em causa nesta crise – antes incorporam, essencialmente, um grande componente político-ideológico.

Não quero carpir, não quero induzir em desânimo, quero pelo contrário transmitir o entusiasmo, talvez ingénuo, que desde jovem me moveu. Mas com lucidez. Nunca, desde o fim da II Guerra, o capitalismo (sem eufemismos; deixo a “sociedade de mercado” para quem não tem coragem de chamar os nomes aos bois) foi tão ofensivo, tão arrogante e também tão hegemónico, alienando (outra das tais palavras) as pessoas, roubando-lhes a cidadania, estiolando a democracia, nesta pós-democracia. A canga dos sacrifícios, o medo de perder recursos vitais mínimos, a incerteza do futuro, está a fazer temer, 30 anos depois do ficcionado ano de 1984, uma sociedade de zombies, anestesiados, desesperançados, desanimados.

A discussão económica é fundamental, como é fundamental a informação dos cidadãos. Mas não dispensa a mensagem de que a solução, no fim, é sempre política e social. Social também no sentido de que não se esgota na política institucional e partidária. Estão em causa – e com riscos – grandes bandeiras das lutas populares e da esquerda, e as suas conquistas: os direitos dos trabalhadores, desempregados e reformados, a justiça social, a garantia de subsistência e benefício dos direitos sociais e económicos, a luta contra as desigualdades, a garantia do exercício da cidadania, a solidariedade intergeracional, a inclusividade social, o respeito pelos direitos da mulher e das minorias, e até a dignidade nacional.

Isto é a democracia, é o programa mínimo de esquerda. Mas que meios para o concretizar? Como pescadinha de rabo na boca neste “post”, entra aqui novamente a economia, também no quadro de um programa político de esquerda. Voltaremos a isso.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Velhos e novos fascistas?

José Manuel Correia Pinto, no seu imperdível Politeia, cunhou hoje um novo termo para Gaspares e canalhada: novos fascistas. Pode parecer um chavão, mas JMCP nunca escreve nada sem grande rigor conceptual e histórico.
Em poucas palavras é este, para começar, o projecto que o FMI tentará pôr em prática em Portugal para “refundar o Estado”. Mas o ataque neoliberal não se fica por aqui. É preciso também destruir o Estado de direito nalgumas das manifestações mais eminentes dos princípios que dele decorrem. É neste sentido que devem ser interpretadas as intervenções dos “novos fascistas” (terminologia que doravante utilizaremos para caracterizar os corifeus deste ataque bem como os seus apaniguados e que um dia tentaremos fundamentar teoricamente para que o termo não pareça uma simples aberração retórica) contra a Constituição, relativamente a questões que nada tem a ver com o Estado social, nomeadamente a propósito da eventual ou hipotética declaração de inconstitucionalidade de normas orçamentais.

Meu caro, não sei bem se partilharei contigo o uso deste apodo "novos fascistas". É verdade que estamos em presença de uma nova direita (ou, porque não, de uma nova extrema-direita?), qualitativamente diferente daquelas que temos visto nas últimas décadas, incluindo o CDS. E até todos os boys Goldman-Sachs têm ido é para o PSD, muito mais albergue espanhol do que o CDS, honra valha a este.

São os prosélitos fanáticos de uma religião que faz cerimónia-mor em Davos, enquanto manobra diariamente nas sacristias dos bancos e nas cúrias episcopais das burocracias financeiras internacionais e manda missionários estilo meninos de Deus nas troikas que nos invadem.

Não há dúvida de que tens razão em caracterizá-los teoricamente como (novos) fascistas. Têm uma ideologia totalitária, desprezo pelas normas básicas da democracia e da "ética republicana", culto do poder (antes militar, hoje económico), total subvalorização de um povo concreto em relação a um "ente social" abstrato portador de um destino histórico (neste caso, agora, uma camada superior de grandes do capital financeiro, seguida de uma camada de tecnocratas serventuários que eles próprios personificam). Já não encenam o domínio das massas mas fazem-no de forma subtil, manipulando a opinião pública. E servem-se desta manipulação para que lhes dêem aceitação para a destruição do estado de direito. O recuo revolucionário de 25 de Novembro foi uma brincadeira comparado com isto.

Em termos de referências nacionais, não me parece haver dúvidas de que esta gente se encaixaria de alma e coração no salazarismo. Simplesmente, isto remete-nos para uma velha questão teórica: o salazarismo foi uma forma de fascismo? Em termos de uma reflexão marxista sobre as relações de poder e de classes nos fascismos mais espectacularmente típicos e brutais, mas também de muitas outras ditaduras de direita na Europa dos anos 30, julgo que sim, talvez na versão de Graciliano, "o nosso pequenino fascismo tupinmambá". Valem menos, para mim, como caracterizadores, os aspectos operáticos.

Mas como os historiadores modernos, mesmo os de esquerda, para não falar de Rui Ramos, Filipe Ribeiro Menezes e outros revisionistas, fazem guerra em "desconfundir" salazarismo e fascismo, com algum sucesso, acho que não devemos dar cera para tão ruim defunto.

Lembrei-me de que toda a gente que perfilha uma ideologia socialista é apodado de socialista. A identificação é ideológica e política. Pelo contrário, e os nossos clássicos têm alguma culpa, o termo capitalista refere-se à propriedade e à classe, sem conotação ideológica imediata. Já é tempo de acabar isto, até porque a figura típica do capitalista individual já se diluiu até certo ponto. E, com esta crise, adquiriu conotações negativas.

Portanto, capitalista tanto deve servir para designar o detentor de capital como o que defende o capitalismo como a ordem social que deseja e em que não consegue deixar de ver o mundo e a sociedade (deles). Claro que há muitos graus. Assim, para Gaspares, Moedas, Borges, Barrosos, só para dar exemplo de lusofalantes, proponho "ultracapitalistas". Fica de fora Passos Coelho, noutra categoria, a dos "tontocapitalistas".

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Alcácer Quibir

Estudos anteriores do Banco de Portugal e outros, até apoiados pelo grão-”nerd”, indicavam que a mexida na TSU era ineficaz ou mesmo perigosa. Tanto quanto sei, não quantificavam os efeitos no emprego.

Um estudo recente que ninguém conhece e que ele não divulga, lá do seu círculo pseudo-académico de iluminados, diz o contrário e ele, sem mais ponderação, sem comparação crítica dos dois estudos, apenas com a fé dos fanáticos que o move, inverteu o rumo. Anuncia efeitos no emprego: criação de 50.000 novos postos de trabalho.

Hoje, um grupo de professores portugueses de economia (pelo menos um dos quais, Luís Aguiar-Conraria, doutorado nos EUA - vejam o seu blogue, “A Destreza das Dúvidas”), publicou no sítio da U. Minho um estudo de contradita, “Emprego e TSU - O impacto no emprego das alterações nas contribuições dos trabalhadores e das empresas”. Anuncia efeitos no emprego: destruição de 68.000 postos de trabalho.

Em que ficamos?

Não sou economista, não sei quem tem razão, embora o meu senso comum me diga que o excedente de tesouraria com que vão ficar as empresas não vai ser aplicado em criação de emprego. Com ou sem mexida na TSU, qual é o empresário que arrisca contratar novos trabalhadores em época de tal crise? E em que é que essa mexida altera a situação das empresas, a maioria, que produzem para o mercado interno, um mercado em depressão? Vão baixar preços, para compradores que viram proporcionalmente muito mais agravado pelo mesmo processo o seu poder de compra? Afinal, a economia é coisa muito difícil de entender?

O que vejo é que esta medida de economista louco e à Frankenstein, posta em prática pelo seu chefe governante pouco dotado e inculto, não tem obviamente fundamentação técnica, que nunca foi experimentada, que é contradita por estudos científicos como este de hoje.

Gaspar é um fanático, talvez mais desviante do que isto, um homem que usa o poder para experimentações de “comprovação” da sua fé, vendo só números no que todos chamamos gente. Nunca um tresloucado teve tal poder em Portugal, desde D. Sebastião. Vamos outra vez para Alcácer Quibir? 

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Um simples gráfico, um gráfico eloquente



Há coisas bem eloquentes, como este gráfico publicado por Paul Krugman. O sucesso alemão é o da austeridade, é verdade; aceitemos embora como simplificação, entendendo austeridade como o necessário para cumprimento dos limites religiosos aos três pecados, o défice, a dívida, a inflação. Por isto nos querem impô-la, como “prova” do sucesso da ideologia neo-liberal (aliás, por falar em Alemanha, anteriormente já a germânica ideologia ordo-liberal). 
Mas qual foi o preço que, arrebanhadamente, e com a cumplicidade dos seus sindicatos-empresa (dos maiores expoentes da economia e da finança alemã) eles aceitaram passivamente, para poderem ter o superavit que nos destruiu as economias periféricas? Vejam o gráfico. E os bancos e empresas alemães tiveram correspondente baixa de resultados económicos?
Continua muito boa gente a dizer que eles são melhores do que nós (e dos aldrabões e preguiçosos dos gregos nem se fala!) só porque são mais trabalhadores, mais "sérios", não gastam mais do que podem, são disciplinados, tudo exemplo do que "afinal sempre foram exemplo ao longo da história" (será mesmo que foi assim a história?... Lutero, Gutenberg, Leibnitz, Kant, Marx e Einstein - que eram judeus; e os muitos tiranos, Bismarck, os generais de Guilherme II, Hitler, etc., a história nunca é linear). 

Para esta muita gente que me custa a pensar que são meus compatriotas, este recente germanismo contrapõe-se a uma espécie de "marca genética" dos portugueses (e gregos, e italianos, e espanhóis, um dia destes franceses) que ainda provoca o novo e atual exercício masoquista da crítica das Farpas, que não leio. O tempo de hoje já não é para brilhantes exercícios literários de diletantes.

Vejam bem o gráfico. Eles diferem de nós é por, em uma década, terem consentido numa "desvalorização interna" (baixa do custo do trabalho) porque não podem ganhar competitividade pela desvalorização da moeda comum.
Diz um primo meu, alemão (eles não são todos iguais, obviamente, como se vê por este meu primo) que a história alemã alterna fases de estarem de joelhos ou de cavalgarem os outros, nunca têm meio termo. O gráfico mostra que o U. não tem obrigatoriamente razão. Há períodos, como o atual, em que cavalgam os outros porque, entre eles, se puseram de joelhos (os trabalhadores, claro).

NOTA - Sobre os mitos de "caracterização genética dos povos", ainda ontem tive a experiência curiosa de alguns amigos me manifestarem a sua certeza de que nunca em Portugal vai haver revolta nas ruas, coisas terríveis como delapidar bancos ou atirar pedras à polícia, porque somos diferentes, um povo de bons costumes. Como é possível dizer-se isto quase quatro décadas depois desta típica propaganda salazarista? As lutas violentas, fratricidas, entre os bandos de nobreza, reis, infantes e infantas, na primeira dinastia? E 1383 e o bispo defenestrado? E as muitas "jacqueries" que aconteceram na nossa história? E o massacre de 1506? E os autos de fé? E as lutas civis liberais-absolutistas? E a Patuleia? E o regicídio? E a violência da República (que o diga Machado dos Santos)? E o assassinato de Sidónio? E até o Malhadinhas, como figura típica, embora ficcionada?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Há alturas em que é bonito ver chorar


A política pode ser a mesma. O dogma da austeridade ser o mesmo. A sujeição ao sistema neoliberal ser a mesma. A crença na infalibilidade do dogma económico dominante ser a mesma. A marcha ao som dos tambores prussianos e dos pequenos pífaros franceses ter o mesmo passo. Os ministros das finanças tenderem a ser uns “nerds” fanáticos e economopatas, messias compulsivos da transformação do mundo segundo os seus aprendimentos das escolas de economia. Mas é confortante, faz-nos sentir mais humanos, ver estas lágrimas - embora os mais cínicos possam dizer que a senhora Ministra das Finanças italiana tem é de se demitir e ir chorar para casa.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Um murro dói, mas puseram-se a jeito

Já aqui escrevi e é nem é nada de novo que os provérbios dizem muito sobre a cultura geral. Com amigos falantes diferentemente, acho graça a que, quase sempre, eles me dizem a sua versão nacional de um provérbio português. Todavia, para minha tristeza, acho que nunca vingou na nossa cultura ancestral um velho provérbio inglês: You can't have the cake and eat it. Não se pode ter o bolo e comê-lo.

Hoje, desde os títulos dos jornais até aos protestos dos homerns da rua que participam nos debates da rádio, desde os grandes gestores e economistas de serviço até ao PR, toda a gente clama contra a Moody’s e o "murro no estômago" que deu a Passos Coelho. Acho muito bem o protesto, claro que alinho, declaro solenemente que para mim é criminosa tal manipulação do sacrossanto mercado, mas é coerente este coro de protesto?
Todos estes protestos vêm da esmagadora maioria que nem discute a inevitabilidade do que nos está a acontecer, com o acordo com a "troika" e que vai acontecer cada vez mais gravemente e cada vez mais previsivelmente. Estamos com toneladas de dívidas às costas, temos de pagar porque não somos caloteiros, não há outra solução senão a das duas troikas, a externa e a interna. A dívida cresce com os juros, tivemos de pedir “ajuda”aos “amigos” porque os juros eram incomportáveis, embora os dos amigos não sejam muito menos. Os bancos ajudaram à crise, receberam a 1 e cobraram-nos a 10, mas os bancos são intocáveis, são o coração da economia. Os terríveis e invisíveis mercados, sem nome, nem têm muita culpa, porque os governos e principalmente os povos (quem manda ao zé beber uisque caro, comer caviar e vestir Armani, bem diz o arquiteto Saraiva?) é que são irresponsáveis despesistas. Neoliberalismo, o que é isso senão a "ordem natural das coisas", como Deus manda? O que se sabe é que não há que piar, porque felizmente “os russos já não vêm aí”, portanto a ordem vencedora venceu e tem de ser acatada e se toda a Europa vai a passo marcado (comecei por escrever passo de ganso, mas admito que era exagero) está muito bem, porque a maioria tem sempre razão. E em quem vamos votar, se todos (?!) os partidos defendem o mesmo? Etc., etc.
Com tudo isto, não faz parte natural do sistema que a “regulação” seja nula ou viciosa, como é este poder escandaloso das agências de “rating”? Que elas façam batota e dêem murros contra as regras quando o outro lado, os governos, os bancos, UE, BCE, FMI, etc., fazem batota de desinformação em relação aos cidadãos? Onde é que há "fair play" neste campeonato violento e selvagem da finança internacional? Onde é que há algum valor ético, sentido social, até dignidade (embora eu não goste de termos morais ligados à política) e até mesmo pragmatismo de noção da necessidade objetiva de regulação, como em qualquer sistema, onde é que há tudo isso no desvario desta fase última do capitalismo em que a riqueza é grandemente virtual, em que o capital financeiro domina largamente o capital industrial e a criação de riqueza real

Quem protestou antes contra este absurdo de a regulação ser feita por três empresas privadas sem qualquer transparência e certamente com interesses estreitamente dependentes dos próprios resultados dessa “regulação”? Alguém jura que não há por lá “inside trading”? E Durão Barroso, hoje a protestar, ou os nossos dirigentes políticos, fizeram alguma coisa, nestes três últimos anos, para a criação de uma agência europeia de “rating”, tanto quanto possível escrutinável democraticamente?

Não me basta que muita gente proteste contra um peão do jogo porque os interesses dessa gente foram atingidos por esse peão. Quero é que digam que o jogo é inaceitável e que é preciso derrubar todos os seus peões, para o lixo com tabuleiro e tudo.
Depois, protesta-se à nossa maneira, de lado, com "indignação virtuosa". Ainda não ouvi refutar objetivamente as justificações da Moody´s, que, só por razões de argumento!, vou considerar que “tem razão”: Portugal, mesmo com o resgate, não vai poder voltar aos mercados em prazo razoável; provavelmente, o resgate vai ter de ser reforçado, como na Grécia; os bancos estão afogados; a recessão vai agravar cada vez mais o défice, sendo duvidoso que se possa reduzir o défice; vai ser necessária a participação dos credores na atenuação da dívida ou em futuros empréstimos; não há perspetivas de crescimento. Afinal, não é isto o que se contrapõe ao acordo do resgate mas sempre negado pela grande maioria? Quero ver irem discutir isto com as agências. Quando muito, ouvi a queixa de que a agência não tinha contado com a “nossa” diligência de bem comportado, do imposto dito sobre o subsídio de Natal, da corrida para ultrapassar a própria trindade externa. A Moody’s diz que contou, em que ficamos? E se amanhã for a S&P, depois de amanhã a Fitch?

Não deixa de ser irónico que quem, como eu, tentou argumentar nas últimas entradas, esta e esta, contra a aceitação acrítica das posições trinitárias possa agora pura e simplesmente dizer "vão discutir isso com as agências de rating" (embora eu não goste nada de usar as razões dos meus adversários, mas quando valem...)? Apesar de tudo, é problemático, porque agora vai entrar em jogo o patrioteirismo primário, açulado por quem nada tem de patriota.
A Moody’s deu-vos (-nos) um murro no estômago? Se querem ser coerentes, aguentem, que eu e muitos também estamos a aguentar (mas com a coluna direita) a vossa vassalagem ao sistema dominante. Lamentavelmente, também a da grande maioria do povo português, de forma passiva. Espero é que, com coisas destas, comecem a ver, antes que nos “vejamos gregos”.
À margem - Disse hoje o ministro espanhol Alfredo Pérez Rubalcaba: “Não somos Portugal, não somos a Grécia, não somos a Irlanda”. Não previ que ia ouvir isto? Lembram-se do célebre poema de Brecht, em que “Primeiro levaram os comunistas, / Mas eu não me importei / Porque não era nada comigo. (…)”?

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O lado norte do Mediterrânio está politicamente velho

Tenho dois queridos amigos que - também comigo e com outro membro de um quarteto de memórias, gostos e maneira de estar, mais alguém que agora transformou o quarteto em quinteto - que, dizia, têm posicionamento político muito próximo. Por posicionamento, claro que quero dizer coisa muito mais importante do que simpatia partidária, maneira de reagir ao pequeno acontecimento político. Falo de ideais, de princípios, de coisas que constroem durante muito anos o que somos nos 60s.
No entanto, divergem em coisa que não deixa de ser importante, o ponto de focagem do essencial da análise e crítica política. Creio que isto reflete, em relação a duas pessoas de alta qualidade, a grande mudança a que se está a assistir no pensamento político de esquerda, infelizmente sem tradução orgânica e de proposta de alternativa a curto prazo, no quadro institucional vigente.
Um dos meus amigos clama que toda a gente devia fazer como ele, gastar quase todo o seu tempo atual de reformado a estudar economia e a reler Ricardo. Porque hoje “it’s the economy, stupid”. Porque a política nacional anda à volta de tristes figuras, Dupont e Dupond, que nada decidem, que nem sequer conseguem fazer uma frente comum do sul contra a “camponesa da Saxónia” - eu costumo ser mais bruto, “a sargenta prussiana” - e o seu factotum gendarme Sarkosy. Porque se todos tivermos de exportar, à alemã, é preciso que todos possamos comprar. Porque a “ajuda” aos desgraçados devedores periféricos é ajuda aos banqueiros alemães e franceses que lhes possuem os títulos de dívida. Porque tudo isto é um sistema, o sistema aberrante, anti-económico do euro, fruto mais exuberante do monetarismo, austeritarismo, a reforçar o fundo essencial de neoliberalismo.
Contra esta visão de “culpa sistemática”, reage o outro meu amigo, muito influenciado, e muito bem, por toda uma longa experiência de luta política tradicional. Para ele, ainda sobreleva a política nacional, as lutas à dimensão da nossa esfera de informação e discussão. Atacar Merkel cheira-lhe a desculpabilizar Sócrates. Argumenta vivamente com o “endividámo-nos demais”, como arma de arremesso político, como se o endividamento tivesse nome (digo eu: Sócrates? Barroso? Guterres? O betão de Cavaco? O “compra, compra” da oferta agressiva da banca?). Louvavelmente, reagindo culturalmente contra as generalizações esquemáticas, cheira-lhe a que um antigermanismo é nova versão do antiamericanismo dos tempos simplistas do maniqueismo político da guerra fria.
Não estou certo de estar certo, mas desafiei-os a conversarmos daqui a um mês, com base no que penso que vai ser a “unificação” de ambas as atitudes. Primeiro o Ecofin, depois o conselho europeu, vão discutir a proposta franco-alemã de “flexibilização” do fundo europeu de “ajuda”, provavelmente agravada pela derrota eleitoral em Hamburgo e pelo receio de novas derrotas no ciclo eleitoral alemão.
Mesmo com possível aumento da capacidade financeira do fundo, vai-se reforçar a lógica egoísta imposta pela Alemanha, não vai haver “eurobonds”, não vai haver um orçamento europeu de transferências, não vai haver “europeização” das dívidas nacionais, os juros da "ajuda" serão próximos dos do mercado, Rompuy ou Barroso nunca serão Obama. O meu primeiro amigo vai dizer “eu não tinha razão?”.
Mas vai haver obrigatoriedade de constitucionalização por todos os países das regras alemães derramadas para Maastricht, de limites arbitrários ao défice e à dívida, vai haver a generalização da política alemã da competitividade por via do embaratecimento do trabalho, da elevação da idade da reforma, etc. Então, o meu segundo amigo vai dizer “eu não tinha razão? É a política que manda, contra isto sim, vai-se lutar, porque é política, e nacional porque o nosso governo é um lacaio”.
Os meus amigos vão-se entender, mas também em coisa muito elementar: nenhum, nem eu, vai poder usar eficazmente, perante oferta efetiva, aquilo que é hoje o nosso único poder de cidadão, o voto. Dupont ou Dupond?

P. S. - Acabo de ouvir uma notícia espantosa: "Sócrates foi chamado a Berlim para Angela Merkel lhe explicar o plano de reforma do fundo europeu". Chamado a Berlim, o primeiro ministro português, uma expressão de típica linguagem diplomática, "chamar um embaixador às Necessidades"? Não quero acreditar. Deve ser asneira de jovem jornalista cretino.