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domingo, 20 de outubro de 2013

A verdadeira unidade

Dizia-se que as manifestações da CGTP eram tipicamente de gente cinquentona ou mais, com “sinais exteriores” de níveis económicos e sociais relativamente baixos. Na manifestação do 12 de Março, salientou-se a diferença de composição, gente mais jovem e aparentemente com maiores habilitações, com provável situação de precariedade e de desvalorização dessas qualificações. O que tenho visto nas manifestações posteriores, concretamente desde o 15 de Setembro, foi a clara aproximação desses dois tipos de manifestantes, se é que essa distinção não é um pouco esquemática.

Cada vez mais ouço pessoas a dizer que vão a ambas, que não ligam muito a quem as convoca e fico muito satisfeito com isso. Pode-se então perguntar porque não se dá um passo em frente na demonstração da unidade, fazendo sempre convocatórias conjuntas.

É certo que haveria vantagens políticas, como fortes factores de entusiasmo na luta e maiores perspectivas reais de alternativa política – como se disse muito ontem, expressão muito feliz, “política alternativa e soberana”. No entanto, apesar da tendência que referi, provavelmente ainda parte significativa dos manifestantes é mais moblizável por uma ou outra convocação. Também se obsta à estranheza que podia causar a repetição de manifestações convocadas em conjunto em datas muito próximas, como agora. Claro que também – não sou ingénuo – as organizações como a CGTP tiram efeitos de imagem, coesão organizativa e impacto político quando organizam sozinhas uma manifestação como a de ontem, coisa menos importante para um movimento inorgânico como o “Que se lixe a troika”.

Em relação à especificidade de cada convocação, note-se, por exemplo, que a intervenção de Arménio Carlos (muito bem articulada) incidiu com óbvia ênfase prioritária na luta contra a política de degradação da situação económica dos trabalhadores e dos reformados. Insistiu menos no desemprego, e muito menos na situação política, no quadro geral da crise, das responsabilidades do grande capital, na aberração desta Europa. Compreensivelmente, falou directo e simples para quem sente que lhe estão a ir ao bolso.

A política institucional é importante mas limitada. A afirmação na rua também. Ambas, com mais outras manifestações de poder do movimento popular e das forças do trabalho, da justiça, do progresso e patrióticas, são um imenso poder, é certo que ainda relativamente adormecido e com bastante por revelar nesta crise.

O contributo institucional, no que se refere aos partidos, para que seja coerente e consequente, deve ir com o movimento popular e patriótico, dialecticamente, tanto em sintonia com as aspirações como em impulso influenciador. O PS tem rejeitado o que podia ser o seu lugar nessa frente partidária, incompatível com a deriva neoliberal da social-democracia europeia.

Muito diferente é o caso de certamente muitos e muitos milhares de eleitores, simpatizantes e mesmo militantes do PS que não se revêem no seu partido. Infelizmente, nem numa qualquer ala de esquerda do PS, que não se vislumbra, podem ter esperança. Estão é a participar – já vemos alguns – em iniciativas congregadoras, como o Congresso Democrático das Alternativas ou a Auditoria Cidadã à Dívida. E, principalmente, a engrossar a grande mole que sai para a rua. Esta é que é a verdadeira unidade com o PS.

Até sábado!

sábado, 2 de março de 2013

Será agora?


Uma centena de milhar? Duas? É difícil calcular, mas o importante é que foi uma grande manifestação, com cálculo prejudicado por desde cedo haver quase igual fluxo de entrada e saída do Terreiro do Paço. Principalmente, não foi menor, ao que me pareceu, do que a de 15 de setembro. Em quase seis meses, não houve desmobilização. Escreverei algumas reflexões sobre esta jornada, mas desde já ficam algumas notas soltas.
  • Apesar do lema apelativo e mediático “que se lixe a troika”, o alvo principal era claramente o governo.
  • Havia gente de todas as idades, incluindo uma boa percentagem de terceira-idadistas e de jovens auto-identificados como sem emprego.
  • A julgar pelos “sinais exteriores”, grande parte dos manifestantes era de classe média ou, em outros termos, de pequena e média burguesia.
  • A imaginação e criatividade de palavras de ordem, cartazes e até adereços deram colorido e humor à manifestação, que não deve ser obrigatoriamente sisuda como muitas vezes era antes.
  • A motivação era bem ilustrada por um número significativo de manifestantes em cadeira de rodas ou de jovens casais levando carrinhos de bebé ao longo de quase dois quilómetros ou, pior ainda, com uma criança ao colo e outra pela mão.
O povo começa a dar sinais de que não está para brincadeiras. Agora o que de politicamente eficaz pode vir daí é coisa de que falaremos amanhã ou depois.

sábado, 29 de setembro de 2012

Assim é que é! (II)

Escrevi antes que "Hoje foi o primeiro dia". Hoje foi o segundo dia. Talvez até o terceiro, porque não pude estar presente e avaliar a jornada em Belém, no dia 21. Vai haver a tendência natural para comparar as manifestações de 15 e 29 de Setembro. Em relação a números, tenho a minha opinião (ou melhor, o meu cálculo aritmético), partilhada por muitos amigos com quem falei hoje, mas não vou entrar na guerra dos números, não vou satisfazer os meus adversários no que menos importa. Em ambos os casos, foi muito povo na rua. Já outras coisas talvez mereçam comentário, para todos aprendermos.

Posso estar a ser injusto, mas pareceu-me ver hoje mais gente “inorgânica”, os que vi na rua no dia 15, do que vi nesse dia 15 todos aqueles, muitos, que hoje iam em grupos organizados, com bandeiras da CGTP. De qualquer modo, como já aqui escrevi, que todos se tivessem juntado foi ótimo, mas ainda há muitas barreiras a vencer. O povo unido...

O povo na rua não deve ser condicionado por quem o chama (claro que sem pensar em grupos provocadores ou amalucados a convocar à invasão da Assembleia da República). Estas duas últimas manifestações já foram um primeiro passo. Diga-se em justiça que foi muito mais claro o apelo a hoje por parte do movimento “Não à troika” do que a atitude ambígua e de última hora da CGTP em relação à manifestação de há duas semanas.

Era visível que muita gente agora a iniciar-se na rua, os que até levam criancinhas, estava um pouco perplexa, aquilo não era a festa revolucionária de há duas semanas. Andamos por ali, contando gente, falando com amigos, olhando para toda aquela gente com olhos de sociólogos amadores, mas afinal numa razoável atitude política, cientificamente objetica, não sectária. 

Entretanto, Arménio Carlos era ruído de fundo. Discurso longuíssimo, chato, sem sequer a qualidade e a plasticidade intelectual de Carvalho da Silva, nem uma proposta de reflexão a fazer pensar. Milhentas bandeiras sindicais. Como se sente com isto quem é hoje apenas pessoa independente, homem do povo na rua?

Mas o que mais me impressionou foi o estilo. Há duas semanas, alegria no protesto, porque alegria da camaradagem, humor, espontaneidade, cartazes de fazer partir de rir. Hoje, tudo previsível, disciplinado, abandeirado, só o tal chato discurso, nem uma canção, nem uma palavra de ordem com piada, tudo coisa para gente enquadrada. Assim não se vai lá. A revolução sempre foi imaginação (mesmo no fracassado maio de 68), até quando elegeu como símbolo, na comuna, umas canção romântica, nada política, Le Temps des Cérises.

Ainda algumas notas pontuais, técnicas, que me surpreendem quando se compara a inexperiência dos promotores da manifestação do “não à troika” com o traquejo da CGTP. 

A ênfase na concentração num local parece-me falhada. Começa logo pelos números. Ao contrário de uma manifestação de percurso longo, a concentração num único espaço (é certo que tendo de contar com as ruas adjacentes, como hoje) permite facilmente o cálculo de tantos metros quadrados (hoje, com o Google maps, é fácil) vezes tantas pessoas por metro quadrado (não vou dizer quantas, experimentem). Já no caso de uma manifestação em cortejo, os métodos são outros, por exemplo o número de pessoas que passam por minuto vezes o tempo total de passagem. Mas não vou entrar nisto. Em ambos os casos, foi o povo na rua.

Mas ainda sobre números e sobre a opção pela concentração num local, ainda uma nota. Estive em locais em que podia aperceber-me do fluxo de pessoas. Nunca o terreiro ficou cheio, mas durante o longuíssimo discurso, durante uma hora, parece-me que foram muitos milhares de pessoas, simultaneamente, a entrar e a sair. Como manifestantes, devemos contar a soma de ambos os fluxos. Mas porque entravam e saiam tantas pessoas? Pela minha parte, direi que porque nada me atraia, missão cumprida, a ficar ali.

Pequeno pormenor, não percebo a decisão da hora, 15 horas. Num sábado à tarde, ainda praia, almoço tardio e compras, tempo para deixar as criancinhas, as 17 horas de há duas semanas foram acertadas. Hoje, quando entrei no metro às 16, eram multidões já com uma hora de atraso. Já eram quase 17, estava eu à saída da Sul e Sueste, ainda havia muita gente a chegar, mas quase outras tantas a ir para casa, tinham cumprido o seu dever. Onde está a máquina eficiente da CGTP?

Diferença ainda mais importante foi a distribuição geográfica. Hoje foi só manifestação “nacional” em Lisboa. A CGTP anunciou centenas de autocarros. Muito bem, mas cada autocarro são 50 pessoas, logo a participação extra-Lisboa foi menor do que as manifestações locais do dia 15, que ainda por cima foram sentidas como sair à rua na sua terra. Onde ficaram os bem 100.000 manifestantes do Porto? 

Há forma de vencer estes obstáculos a manifestações congregadors, ainda que eu pense que, felizmente, se estão a atenuar? Penso que sim, se conseguirmos uma plataforma comum. Por isto estarei no dia 5 no Congresso Democrático das Alternativas.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Assim é que é!

“Manifestantes de 15 de Setembro apelam à participação maciça no protesto da CGTP”, é notícia hoje no Público:
Os subscritores do manifesto “Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!”, que convocaram as manifestações que levaram centenas de milhares de pessoas às ruas a 15 de Setembro, pedem aos portugueses que “esqueçam eventuais e pontuais divergências e se unam”. No imediato, isto significa participar na manifestação da CGTP convocada para este sábado, em Lisboa. 
A construção de uma “frente de resistência comum” é uma preocupação dos 29 activistas que assinaram o documento original e que, nesta segunda-feira, emitiram um comunicado conjunto a apelar a uma “participação maciça” no protesto do próximo sábado.
No dia 15, devem ter estado na rua muitos apoiantes da CGTP. No dia 29, estarão no Terreiro do Paço muitos manifestantes do dia 15, mesmo que não se revejam na CGTP. Assim é que é. Lá nos encontraremos.

No sábado 15, reencontrei passado ao ouvir tanta gente voltar a gritar “o povo unido jamais será vencido”. Muitos não saberiam que o slogan não foi nosso, herdámo-lo do Chile. Simplesmente, lá, ele foi sabotado por grupos sectários e dogmáticos que tudo fizeram para, em nome da revolução que queriam só deles, torpedearem a unidade de esquerda em torno de Allende e abrirem as portas ao pinochetazo. 

Cá, também foi um pouco o mesmo, com o esquerdismo (e a otelopatetice) a sabotar o que podia ter sido a última possibilidade de unidade, depois da cisão entre gonçalvistas e os nove. Pior ainda, porque ao menos, no Chile, PC e PS estavam bem unidos, o que não se passava cá. Não permitamos mais isto.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A jornada de 15 de setembro

Há sempre a guerra dos números. Desde há muitos anos que aprendi a medir manifestações, normalmente sempre muito por baixo do que depois apregoavam os organizadores. Na velha manifestação da fumaça, um milhão a encher o Terreiro do Paço que, no máximo dos máximos, apertados, 3 pessoas por metro quadrado, leva 150.000 pessoas. Um milhão de peregrinos em Fátima, segundo a Igreja, num recinto com capacidade para 300.000 pessoas. Outra técnica é a da amostragem de quantas pessoas passam por minuto e depois multiplicar pelo tempo de passagem da manifestação. Com tudo isto, para mim, e dividindo metodologias de cálculo com a minha mulher, tentando sermos objetivos, a manifestação de Lisboa, sábado, envolveu cerca de 200.000 pessoas.

Mas interessa mais ter uma ideia qualitativa. Saíram à rua muitas e muitas famílias com crianças ao colo e carrinhos de bebé. Coisa desconfortável, sinal de nem terem meios para contratar a entrega das crianças, exige forte motivação. Viam-se pessoas - principalmente com alguma idade - vestidos modestamente, outras notoriamente de burguesia até agora relativamente protegida. Via-se gente de todas as idades. Via-se gente com hábito de manifestações, respondendo sempre às palavras de ordem, muitos outros com um não sei quê de atitude que dava a entender ser a primeira manifestação a que iam. Via-se espontaneidade, no humor de muitos pequenos cartazes que cada um preparou em casa.

Principalmente notório, o caráter inorgânico da manifestação. Nenhuma “cabeça” com notáveis organizadores, apenas meia dúzia de anónimos com a bandeira portuguesa. Na praça de Espanha, nem havia o tradicional palco para os discursos finais. Houve-os, mas sem que eu conseguisse perceber quem os proferia. Dois colegas meus, ontem, diziam-me como comentário mais importante para eles: “lá estivemos, sem ser à ordem de partidos”. Quantos eleitores do arco troikiano, os tais 80%, estarão hoje a dizer o mesmo?

Não é difícil ter uma ideia. Nas últimas eleições, os que votaram protestando foram 20%, 1,5 milhões. Se em Lisboa saíram à rua 200.000, não é abuso pensar que, em todo o país, foram 400.000. Também não me parece irrazoável pensar que, da grande massa um pouco amorfa de descontentes, só saem à rua 1/8 ou 1/10. Significa que a rejeição sociológica da certeza da política do governo e da troika passou de 1,5 milhões para cerca de 3 ou 4 milhões, metade do eleitorado. O país está dividido a meio. E sempre que se passou isto, veio uma revolução ou, pelo menos, uma crise insurrecional.

Onde está já a legitimidade democrática do apoio acrítico à política de austeridade, até para além troika? Na votação de 2011? Como o tempo passa depressa!

O PSD e até o CDS não percebem que estiveram na rua muitos dos seus eleitores? E o PS não percebe que muitos dos seus eleitores que estiveram na rua quiseram dizer “a troika que se lixe”, querem uma alternativa à política do memorando que o PS subscreveu e que continua a não renegar? E alguma coisa pode mudar na enorme inércia da outra esquerda, PCP e BE? Fica para a próxima entrada.

domingo, 16 de setembro de 2012

E continua

O movimento inorgânico “Que se lixe a troika” convocou nova manifestação para o dia 21, em Belém, às 17 horas, por ocasião do Conselho de Estado. Nenhum dos conselheiros ou dos assessores presidenciais deixará de dar uma olhadela pela janela (vejam o vídeo ao lado, “Ça ira”) e de deixar uma alusão nas suas intervenções. Portanto, como objetivo acertado da manifestação, nada a dizer.

Mas é uma aposta arriscada. Dias depois do enorme impacto da manifestação de ontem, não pode haver “flops”. Há muita gente que ontem foi pela primeira vez na vida a uma manifestação, precisam de pausa para outra. E viram quanta gente levava crianças? Era sábado. Numa sexta à tarde, onde as vão deixar para ir a Belém?

Com isto, não estou a ser pessimista nem derrotista. Pelo contrário, o que quero dizer é que estas prováveis dificuldades nos exigem o máximo de esforço de mobilização, sem descansar sobre os louros de sábado. É o que estou a tentar fazer aqui. E a pedir que todos façam.

sábado, 15 de setembro de 2012

O povo disse "não!"



Os próximos tempos vão trazer muitas surpresas. Não digo que seja a revolução, seria profecia sem ainda suficiente fundamento. Mas - não sei bem de quê - hoje foi o primeiro dia.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Que medo!...

Veremos amanhã, mas tudo me leva a crer que as manifestações, principalmente a de Lisboa - claro que lá estaremos - vão ser um sucesso. Depois comentarei. Para já, uma breve nota. É de calcular que o governo, acossado por todos os lados, com a própria coligação a ameaçar rotura, tenha o realismo mínimo de não se refugiar numa atitude sobranceira de desvalorização da rua, contrapondo a sua legitimidade eleitoral (quanto vale ela hoje?).

Por isto, denotando preocupação, lá vem hoje com coisa já velha no grupo político de Passos Coelho. Lembram-se da manifestação dos pregos, de Ângelo Correia, tutor do nosso primeiro? Já se começa a ventilar para amanhã o risco de violência, de infiltrações de grupos ninguém sabe quais, que a polícia vai fazer sair o corpo de intervenção, etc.

O mais triste é que um jornal - tanto quanto vejo um só - tido ou autoconsiderado como de referência, o Público, dê cobertura destacada a esta manipulação. Veja-se o título, “Manifestações de sábado em todo o país motivam receios de violência” e a notícia, que, digo em abono da verdade, até nem corresponde ao alarmismo do título.

sábado, 19 de março de 2011

12/3 (IV)

Vi in loco a manifestação de hoje, convocada pela CGTP. Não vi a de sábado passado, não posso comparar. Pelas reportagens, a de 12/3 foi muito grande, dezenas de milhares de pessoas. A de hoje, pela minha estimativa, outro tanto.

Mas diferentes, e tenho pena. Hoje, visivelmente uma idade média mais elevada, outro aspeto, outro estilo, creio que não os mesmos de 12/3. Como escrevi, esperava que os manifestantes de 12/3 não tivessem entrado em pousio, que voltassem hoje novamente à rua, independentemente de a manifestação ter sido convocada, mais convencionalmente, de fora do seu mundo da rede social. Parece-me que fizeram rápido demais a guinada para um fórum de debate polítco, ainda pobre, para que não estão ainda preparados. A força do 12/3 é a rua.

Na rua, todos juntos. Não é preciso saber muita física para se ter a noção do que é a necessidade de massa crítica para a grande explosão.