Mostrar mensagens com a etiqueta Açores. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Açores. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Outra vez Jardim e a independência

O Público traz hoje uma notícia dizendo que o referendo escocês vinha despertar o independentismo ilhéu, coisa de que duvido. Conheço bem ambos os arquipélagos e não noto por lá qualquer sentimento independentista, excepto entre um pequeno grupo madeirense – fortemente ligado ao governo – que o usa instrumentalmente, para chantagem política.
O independentismo dos Açores e da Madeira foi gigante com pés de barro e sempre coisa artificial e instrumental em relação à política nacional. Nos Açores, durou até ao 25 de Novembro, como expressão local do anticomunismo do verão quente e do receio americano de perderem a base das Lajes. Na Madeira, existe apenas no discurso de Jardim e dos seus rapazes, quando querem chantagear o governo central.
Um dos argumentos mais usados é de natureza orçamental e fiscal, mas não tem qualquer fundamento. As regiões autónomas retêm todos os impostos devidos pelos seus residentes e beneficiam de IVA com taxas mais baixas. Também recebem avultadas transferências do orçamento de Estado e não contribuem pra as despesas gerais da soberania (despesas dos órgãos de estado, forças armadas, diplomacia). Eu entendo que isto é correcto, como forma de compensação pelos acréscimos de custo de vida devidos às telecomunicações e aos transportes, mas nada mais oposto do que Jardim e outros virem falar de colonialismo.
Sou favorável ao direito à autodeterminação das nações, mas nada na filosofia ou na ciência política identifica os Açores ou a Madeira como nações. Falamos a mesma língua, partilhamos a história, inclusive os seus “mitos”, temos grandes raízes identitárias e de cultura popular e tradicional comum, embora com diferenças, mas não mais do que entre Minho e Alentejo. Aliás, este pequeno país está marcado por regionalismos vincados. Leia-se, por exemplo, a magnífica comparação que Aquilino faz no Guia de Portugal, entre minhotos e transmontanos.
Açorianos, temos orgulho em terem sido açorianos os dois primeiros presidentes e não nos passa pela cabeça que os Corte-Reais, Gaspar Frutuoso, Antero (este até internacionalista), Nemésio, Natália, não fossem genuinamente portugueses.
E obviamente que a batalha da Salga e o apoio ao Prior não foram uma luta anticolonial contra Portugal…
Outra coisa é defender a autonomia. Durante três séculos, vigoraram os direitos senhoriais, com um estado arcaico, sem verdadeira administração pública. Pombal, com os capitães-generais, avança um pouco, mas os Açores só se modernizam administrativamente primeiro com a extinção dos direitos senhoriais por Mouzinho e depois com o decreto da autonomia e dos distritos autónomos, de 2 de Março de 1895. Óbvio para quem comparar as leis, essa autonomia é de grau reduzidíssimo comparada com a autonomia conferida pelo 25 de Abril.
Desculpe-se uma nota pessoal, coisa que gosto muito de dizer: eu sou muito açoriano porque sou muito português e sou muito português porque sou muito açoriano.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Açoriano me confesso


Os romeiros de S. Miguel, em semana de penitência de andarilho de volta à ilha, com crença ancestral, do povoamento e do medo dos vulcões e sismos, crença que não tenho mas de que partilho com eles o sentido do profundo, do mistério, da transcendência. É a minha gente, rude como basalto negro e duro, firme de aprendizagem de aguentar com as ondas, sublime de espiritualidade alimentada pelo horizonte tão distante, mar a perder de vista. Ilhéus toscos! ("private joke" que me é muito querida).

Quem quiser saber mais alguma coisa sobre este património cultural único em Portugal pode ler uma descrição minha e outra da minha mãe.

A latere - nestes dois últimos dias, estive num congresso em Espanha. No jantar de ontem, conversei muito com duas colegas que se apresentaram como vindas de uma certa região, a que eu respondi logo "ah, macaronésias como eu". Depois, excelente conversa de ilhéus toscos, elas canarinas, eu açoriano.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Pode não haver pão, desde que haja futebol

Isto é o tal "viver acima das posses". Não é tanto o coitado do Zé, mas ele tem culpa quando clubaliza a sua alienação e, sendo adepto, como os do Marítimo na Madeira, permite isto: "A SAD do Santa Clara, clube da II Liga de futebol, anunciou ter regularizado o pagamento dos salários aos jogadores, após ter recebido verbas do Governo regional dos Açores."

Com consciência dos riscos de vindicta política, de falta de isenção no julgamento, começo a pensar se atos irresponsáveis, contra a bolsa dos contribuintes, por parte dos dirigentes políticos só devem ser julgados politicamente, em eleições, ou se não devem mesmo ser julgados criminalmente.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

In memoriam

Soube pelo nosso amigo comum, José Medeiros Ferreira, da morte de António Borges Coutinho. Homem esquecido, porque os Açores estão distantes e os anos 60s ainda mais, ou só para serem perversamente invocados, como geração hoje instalada no poder (!), por Helena Matos e, ontem ou anteontem, por José Manuel Fernandes, nesse jornal de referência que é o Público.

Já não via o António há bastantes anos, desde a cerimónia de condecorações, que também me coube, em que, com toda a justiça, ele recebeu a Ordem da Liberdade. Voltei a vê-lo então com a analogia que ele sempre me despertou, a de La Fayette, o aristocrata que, contra as regras da casta, sobreleva a mentalidade e a ética do revolucionário, do progressista. Muitas reuniões políticas houve por volta de 1969 e das CDEs. Em casas ricas e pobres. Mas certamente muito poucas em solares de marqueses, como o da R. Marquês da Praia em Ponta Delgada.

Do António amigo, meu "patrono" no Gil, com Melo Antunes - e os já mais introduzidos, como o Medeiros Ferreira, aka Zé das barbas - não digo nada, é coisa privada. Do Borges Coutinho público, falou bem Medeiros Ferreira. Saravá, Borges Coutinho!

Nota - por falar em aristocracia e democracia, especificamente 1969, lembro que a primeira reunião em que participei em 1969, na criação das CDE, foi em S. Domingos de Benfica, no palácio Fronteira, rodeado e controlado pela Pide, com notável atitude de coragem do anfitrião, Fernando Mascarenhas. Homem a quem eu, plebeu e republicano, faço a homenagem excecional de tratar por Marquês de Fronteira, não por herança mas pelo que ele vale.