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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Populismo

O termo populismo teve outrora um significado preciso, ligado ao trabalhismo sul-americano dos anos 30. Foi um sistema político bem exemplificado pelo peronismo argentino e pelo getulismo brasileiro.
Essencialmente, era uma mistura de trabalhismo, apoio a uma camada socialmente pouco definida de pobres, e desenvolvimentismo nacionalista. O termo mais popularizado ligado ao populismo era o célebre “descamisados” argentinos.
No entanto, foi um movimento muito contraditório e ideologicamente muito pobre. Por exemplo, no Brasil do Estado Novo getuliano, nos anos 30, houve enorme repressão ao partido comunista e às centrais sindicais, como conta bem Graciliano Ramos nas suas “Memórias do Cárcere”. E foi Getúlio que entregou à Gestapo a mulher grávida, alemã, de Luís Carlos Prestes.
No entanto, a política de Getúlio, de certa forma continuada com o desenvolvimentismo de Juscelino, foi progressista, nacionalizante (Petrobras), anti-imperialista. E levou-o ao suicídio perante a força da classe oligarca. E também deixou um legado trabalhista, com expoente posterior em Brizola e no seu partido, hoje bastante desvirtuado.
É coisa que temos de ter em conta na América latina: os herdeiros ainda fortíssimos da sociedade colonial e esclavagista, hoje os oligarcas que detêm a hegemonia cultural e ideológica, principalmente pelo domínio de uma comunicação social, que, entrando nas casas com a telenovelas, instila também a desinformação noticiosa.
Numa recente visita ao Brasil, onde tive de ter muito contacto com uma média burguesia de quadros técnicos, e que quis contrapor com o máximo que me foi possível de visões populares, vi como o Brasil está dividido visceralmente por um racismo que se mistura com um espírito de velho colono, de uma rejeição do pobre. 
A categoria pobre nem é uma classe, é um paradigma de estratificação social. É o que dá o coxinha, o casal branco que vai à manifestação pro-golpe com a babá negra atrás a levar o carrinho do bebé.
É esta experiência real de populismo que é corretamente teorizada por Laclau, concorde-se ou não.
Entretanto, na Europa, há todo um uso abusivo do termo pela comunicação social e alguns “teóricos” pouco rigorosos.
Populismo passa a ser tudo o que se dirige às massas populares, seja em que sentido for, desde que não intermediado pelo sistema democrático institucional e tradicional. Ou com alguma demagogia e caciquismo do populismo sul-americano ou, novidade! tudo que de radical, antissistema, confronta a ordem estabelecida e apela à revolta popular. 
Claro que assim, definindo-se populismo como significando a oposição ao pântano, é fácil misturar extrema esquerda e extrema direita, com o novo aforismo de que “os extremos tocam-se”. Intelectualmente é uma aberração que nem vale a pena discutir.
Na mesma linha, aprofundou.-se a falácia ligando-a à UE. Quantas vezes os leitores já leram que populismo é tudo o que enfrenta o consenso cultural ideológico, hegemónico, da inevitabilidade da UE? São tão “populistas” Farage e Le Pen como o PCP. Querem fazer-nos de parvos?

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Os equívocos do populismo

Tinha-me comprometido a escrever sobre o Podemos, um fenómeno político que me deixa perplexo, por vezes desagradado e ao mesmo tempo me suscita reflexões interessantes e instrutivas. Foi o que se passou, por exemplo, na última sexta feira, na sessão organizada pelo BE.
No entanto, antes de escrever sobre o Podemos, parece-me útil limpar algum mato que tem contaminado a discussão, misturando, a propósito e a despropósito, um termo muito ambíguo, o populismo. Não gosto dele. Ao longo de dezenas de anos, vi usá-lo com significados diferentes, que confundem. E, agora, até o vejo referido, bipolarmente, a uma situação particular, a da União Europeia. É difícil entendermo-nos.
Passando rapidamente, ao longo da história, pelos poíticos que governaram, com respeito pelas regras dos seus sistemas, mas a favor do povo, contra a aristocracia, como os romanos Públio, Druso, Rufo, Catilina, Mário, César, chegamos aos que, o fizeram com base em poder pessoal e ditatorial. Na Europa, um exemplo é o reformismo napoleónico ou bismarkiano, mas mais frequentemente intitulado (leia-se Marx) de bonapartismo. O poder legislativo perde poder para o executivo, mas este procura construir uma imagem carismática de um representante popular.
Próximo desta concepção – e era o exemplo que tínhamos em mente na minha juventude – foi o populismo latino-americano, fundamentalmente o Estado Novo de Getúlio e o peronismo. O elemento central da sua definição é uma relação indissociável de autoritarismo demagógico e carismático (e francas simpatias com os fascismos europeus) com um suporte de progressismo e de medidas sociais de cariz popular – mas também não foi o que fizeram os fascismo europeus?. Quem lê Graciliano Ramos horroriza-se com o “Tarrafal” getuliano onde estavam os presos comunistas do Getúlio. Também nos lembramos da entrega aos nazis, para ser morta, da mulher do secretário geral comunista, Luís Carlos Prestes.
No entanto, restaurada a democracia depois da guerra, Getulio foi eleito esmagadoramente, promoveu reformas sociais importantes (férias pagas, salário mínimo) e nacionalizações e, com isto, foi impiedosamente perseguido pelos interesses oligárquicos e pela imprensa, que o acossaram até ao suicídio.
(Tenho um estimado amigo brasileiro com quem partilho grandes afinidades da nossa juventude coetânea. Na universidade, andou, com responsabilidades, pelos meios comunistas. Andou na resistência ao golpe militar de 64. Depois.muito próximo de Brizola, foi cofundador do PDT, mas de que já é crítico pela esquerda. Tem grande admiração pelo Getúlio do pós-guerra. Mas nunca me conseguiu explicar como situa o Estado Novo. Será com a provocação deste “post”?) 
Nesta confusão, eram os próprios populistas que se apresentavam como desafiadoras da democracia clássica, com uma representividade fundamentadada diferentemente: a democracia encarna-se num movimento político que demonstre representar os interesses das classes populares – e por elas seja reconhecido como tal na rua e na movimentação social –, sem as limitações formais clássicas e poliárquicas da democracia liberal, afinal sujeita, de uma forma ou outra, à imposição de uma minoria económica à “classe política”.
Os governos e movimentos progressistas actuais (a Venezuela, o Equador, a Bolívia, o Uruguai, menos o Brasil, no futuro talvez a Argentina e o Chile) são herdeiros directos desse populismo? Creio que só vestigialmente. Em primeiro lugar, são governos legalistas que, apesar do que diz a imprensa, só reprimem uma oposição muito forte por medidas estritamente legais. Em segundo lugar, porque têm de lutar com aspectos novos do imperialismo – globalização, predação, dívida. Em terceiro lugar, porque ainda é frágil a teorização que dê coerência a essa acção políica progressista e anti-imperialista. O chamado “Socialismo de século XXI" está cheio de contradições e o seu ideólogo, o alemão Heinz Dieterich, marxista e estudioso crítico do fim da União Soviética, acabou por cortar as relações de colaboração com Hugo Chávez.
No entanto, sendo progressistas, não os podemos considera ainda como socialistas. As suas políicas sociais avançadas não têm posto em causa a estratificação social, a enorme disparidade da distribuição da riqueza, a não apropriação estatal da propriedade de sectores estratégicos. O caso exemplar é o do Brasil, em que o inegável progresso do nível de vida das classes populares mais desfavorecidas não foi acompanhado por uma revolução do sistema económico.
Como se classificam estes países? Ditaduras populistas, como são apodados por toda a máquina comunicacional ao serviço dos interesses dos poderosos? Ou novas construções de poder popular? Não sendo socialistas, prefiro chamar-lhe “países progressistas anti-imperialistas” ou regimes anti-oligárquicos.
Isto também marca outra diferença, também terminológica. Na Europa. o termo populista está associado a governos que não estão no poder, que não mostraram ainda esse eventual carácter ”populista”, sem medidas a favor do povo já concretizadas. Casos exemplares são o 5 estralas italiano e, com mais ênfase na denúncia demagógica de podridão do Estado,mas sem alternativas, como tudo o que venha a ser, em Portugal, a corte de Marinho (e) Pinto. Não têm um programa coerente, não se lhes vê facilmente o posicionamento em relação às questões económicas e sociais, usam os aspectos mais epidérmicos do descontentamento (corrupção, escândalos, benefícios) para ganhar votos. A isto, em vez de populismo, prefiro chamar demagogismo.
Aliás, não faz sentido falar em populismo, ou melhor demagogismo, de esquerda e de direita. O demagogismo é um método poliico de manipulação, por natureza avesso ao debate que caracteriza as ideologias e assenta fundamentalmente no carisma e na capacidade oratória e persuasiva dos líderes. Nos tempos modernos, só dispensa as camisas castanhas ou pretas.
O populismo apresenta obras que lhe ganham apoio real. O demagogismo faz discursos, que lhe ganham votos iliusórios.
Mais desrazoável é outra atribuição do termo populismo, em termos de oposição à União europeia e ao euro. Não consigo descortinar a razão. A consequência, a acrescentar a confusão, é ter de se distinguir o “populismo” de esquerda do grupo parlamentar GUE/NGL, a que pertencem os eurodeputados do PCP, do BE, do Syriza, do Podemos; e os “populistas” de direita, fascisantes e xenófobos, como a Frente Nacional francesa e o UKIP inglês.
Continuemos na Europa. A crise que atravessa o sistema político tradicional de democracia parlamentar representativa já vem detrás. No fim dos anos 80, apareceram os partidos alternativos, entre os quais, em Portugal, o renascido MDP, de que já bastante tenho falado. No entanto, a crise ainda era larvar, escrevia que “a alternatividade partidária ainda ainda se define principalmente pela negativa, em oposição aos partidos tradicionais. Podemos tentar alinhar algumas possíveis caracterizações parcelares da “alternatividade”: a) ênfase na democracia participada, na vida comunitária, na discussão e tratamento dos problemas locais; b) empenho nos movimentos sociais; c) privilégio a um largo e difuso campo de acções de resposta a “novos problemas” (releve-se a imprecisão do termo), tais como a defesa de minorias, do ambiente, a luta anti-militarista, ou algumas formas de lutas feministas; d) maior flexibilidade na abordagem dos problemas políticos, mais liberta de rigidez e preconceitos ideológicos; e) características organizativas de flexibilidade, com recusa de demasiada hierarquização.”
Ainda hoje, com base nisto, costumo dizer que, mais do que ”um novo partido”, precisamos de “um partido novo”.
Hoje, já estamos perante uma crise da representação política, de uma crise do sistema democrático parlamentar. 
As pessoas não se sentem representadas, têm vergonha de quem elegeram mas não puderam fazer outra coisa, vêem as maioria dos políticos afogados num pântano de incompetência da formação nas jotas, de carreirismo, de paralelismo e clientelismo no partido, de falta de ética, de promiscuidade com os negócios.
Vêem que os milhões de pessoas simples, honestas, trabalhadoras, estão dominadas por uma oligarquia que se autoprotege, que dirige a vida pública e governa os bens nacionais, que vão todos aos clubes internacionais mais ou menos secretos que governam o mundo, que uma vez um outra vez outro vão deixar a mão de Merkel e outros que tal. É a oligarquia, que Podemos popularizou agora com o nome de “casta”.
É sintomática a preocupação de muitos políticos, a cada escândalo, em afirmar “que os políticos não são todos iguais”. Também eu o disse muitas vezes, por considerar que essa afirmação contra a “classe política” era típica do demagogismo antidemocrático, com o qual não alinho. Penando melhor, não devo ter tantos escrúpulos. Em vez dessa proclamação, os deputados honestos têm o dever é de corrigir o sistema, a começar pelos vícios do seu próprio partido, a falta de elaboração ideológica, de reflexão.
A democracia representativa está em crise, mas devo admitir que não vislumbro bem o que poderão ser, no concreto, as suas alternativas – democracia participativa, democracia com forte componente de democracia directa, democracia assente nos corpos intermédios? Sei que todas têm vantagens e também inconvenientes, até grandes limitações práticas. 
Essencial é que o poder seja devolvido ao povo e que a oligarquia deixe de sequestrar a democracia.
E dito tudo isto, e vindo tudo a propósito do Podemos, o que é o Podemos? Populista? Demagogista? Progressista? Neo-socialista? Alternativo?
Fica para a próxima.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Populismo e degenerescência partidária

Tenho alguma dificuldade em entender-me no largo uso que se está a fazer do termo populismo. Comecei por o conhecer principalmente em relação ao peronismo, significando um movimento caudilhismo, com alguma ultrapassagem do sistema institucional e com ligação próxima do líder e do povo com base em propostas de cativação dos “descamisados”. Por tudo isto, algum proto-fascismo, como as boas relações de Peron com o nazi-fascismo.
O termo entra na literatura teórica socialista e comunista como referindo-se a movimentos e políticas progresistas, favorecendo as camadas populares, mas sem terem como objectivo final o derrube do capitalismo. Os movimentos populismos, como hoje os regimes progressistas da América latina, reivindicam uma legitimidade “de facto”, de representação das classes populares, sem as limitações de uma democracia formal dominada pela minoria económica da classe política oligárquica.
Reaparece-nos agora o termo na Europa, em duas acepções: a rejeição da UE com fundamentos nacionalistas, xenófobos e anti-imigração; e políticas internas com base na crítica generalizada aos sistemas político-partidários e aos que deles beneficiam.
Para combatermos adequadamente essas perversões políticas, é bom que nos entendamos e distingamos coisas diferentes.
Não vou discutir o termo populista em termos europeus, que me parece uma mistificação misturando no mesmo saco Le Pen, Farage, os eurocríticos de esquerda, tais como os partidos representados no grupo europarlamentar Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde. Só não seriam populistas os respeitadores da cartilha ideológica, económica e imperialista da UE.
A marca mais significativa do populismo europeu (fora o “europopulismo”) é o desvio do discurso político de um discurso de classe, com forte centragem nas questões económicas e sociais, para um novo discurso não classista, dirigido a um “povo” amorfo e indefinido e centrado na decadência da democracia, na corrupção generalizada de todos os partidos, considerados como que de uma nova classe social (?), a “casta”. Também, muito caracteristicamente, grande dependência de um líder carismático e autoritário. Os dois casos mais manifestos são o 5 Estrelas, de Beppe Grillo, em Itália, e o Podemos, de Pablo Iglesias, na Espanha.
Esta concepção populista tem uma extensão mais primária, justicialista e trauliteira, à Marinho (e) Pinto, e uma de “nova democracia”, elaborada e pretendo fundamentação de filosofia política moderna e cosmopolita, à Rui Tavares (e, vamos a ver, Ana Drago e Daniel Oliveira). São as primárias directas que servem para eleger o líder que toda a gente já sabia que ia ser, a ciberdemocracia, as “novidades” dos amigos estrangeiros que já conheço há anos, agora apresentadas como inovações, etc. Estes casos são os de populismo à europeia. Não concordo com que, como se tem escrito, a actuação de Seguro e Costa nesta sua campanha seja populista. A meu ver, é um exemplo, como muitos antes, de há muito, de uma degradação da vida democrática institucional, a que tenho chamado a “melancolia da democracia”.
O que está em causa é a captação da cidadania, da democracia participativa, pela democracia formal. É o aparelhismo partidário, feito de carreirismo, de “jotismo”, de profissionalização precoce na política, com desconhecimento de outras actividades sociais e profissionais. É a desvalorização, nessas lutas aparelhísticas, do debate ideológico e da oferta programática aos eleitores. São os truques demagógicos, o desviar a conversa, o não se comprometer ou fazer promessas fáceis de esquecer..
Todo o populismo é demagógico, mas nem toda a demagogia é populista. Na prática, acho que, como ameaça ao regime e, mais especificamente, como ameaça de esvaziamento da esquerda, o populismo deve ser combatido. O aparelhismo partidocrático há-de apodrecer por si.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Os partidos ucranianos

Numa situação tão propícia a análises ligeiras ou a informações enviesadas, como esta crise na Ucrânia, convém ir-se um pouco mais fundo. Por exemplo, tentando saber alguma coisa sobre os actores da peça. Não é fácil, à distância e com poucas fontes, mas pode-se recorrer, por exemplo, à Wikipedia. Não franzam o nariz, que não é fonte de que se deva desconfiar por princípio, muito pelo contrário.

Nas eleições de 2012, os principais partidos foram o Partido das Regiões (30%) do agora deposto presidente Yukanovitch, o Partido da Pátria (25,6%) da antiga primeira ministra Yulia Timochenko, a UDAR (14%) do ex-pugilista e benquisto de Angela Merkel Vitaly Klychko, o partido Liberdade (Svoboda) (10,4%) de Tyahnybok – o que tanto veste fato e gravata como camuflado com Kalachnikov. Fora do sistema, o Partido Comunista, com 5,4%, dirigido por P. Symonenko, agora em risco de ilegalizarão, depois de já ter visto a sua sede vandalizada.

É interessante – e preocupante – observar a diferença em relação às eleições anteriores, em 2008. Então, a UDAR não concorreu e, junto com a subida de 9,6% do Liberdade entre 2008 e 2012, este novo bloco rouba quase 24% aos partidos anteriores, o da Pátria e o das Regiões, que polarizavam a política ucraniana.

Não me parece clara a relação entre os partidos e os grupos violentos de milícias fascistas. Creio que nada indica que os fascistas tenham alguma coisa a ver com os partidos das Regiões, da Pátria e a UDAR. Por outro lado, há vários grupos fascistas que não têm ligação a partidos e que os acusam de moleza. Sem margem para dúvidas parece ser o caso do Liberdade, que actua tanto no parlamento, com a face civilizada, como na rua, com a face mascarada do fascismo.

Se formos aos programas, a situação é bastante estranha para nós. Enquanto que estamos habituados a diferentes gradações da política económica e social, lá parece ser principalmente uma questão de gradação do nacionalismo. A mais, o Pátria foca o pró-europeismo de cor ordoliberal e o Partido das Regiões alguma influência social-democrática, mas discreta. O Liberdade é retintamente fascista, anti-semita, xenófobo, anti-russo.

Mais interessante é o programa da UDAR, aparentemente o partido favorito da União Europeia, que resumo:
  • Preocupação principal com assuntos “populares”, como emprego para os cidadãos ucranianos à frente dos estrangeiros, luta contra a corrupção, contra a pobreza, contra o excessivo domínio do Estado.
  • A favor da associação à União Europeia e da entrada na NATO.
  • Sistema educativo de padrão europeu, com autonomia institucional e sistema de Bolonha.
  • Criação de uma agência independente anti-corrupção.
  • Diminuição do número de organismos públicos.
  • Exclusivo da propriedade de terras agrícolas para os ucranianos.
  • Abolição das regalias dos políticos.
  • Instituição de um sistema eleitoral de listas abertas e de referendos e iniciativas populares.
É uma mistura incongruente de tópicos, que entre nós cabem, uns num programa partidário, outros noutro. Só não é incongruente porque definida por alguma coisa que ainda não conhecemos, a nível partidário;: o populismo. Mas não estamos a receber diariamente mensagens com posições deste género?

À custa dos partidos iniciais, que de certa forma significavam uma bipolaridade tradicional, a segunda geração, UDAR e Liberdade, representam populismo e nacionalismo extremo. Nacionalismo e populismo foram o meio de cultura dos fascismos.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Realidades e símbolos em política

Por toda a parte em que se degrada a democracia, como em Portugal, cresce o populismo. O termo é de definição complexa, mas vou entendê-lo agora, com algum esquematismo, como o populismo exemplificado por experiências latino-americanas, tipicamente o peronismo. Em primeiro lugar, atitude de desconfiança em relação à democracia institucional, responsabilizando principalmente os políticos (com tendência para “todos os políticos), como carreiristas, medíocres, porventura corruptos.

Acresce a emergência de um caudilho que pode nem dar, imediatamente, a imagem de ditador. Pode ser um velho professor de finanças, com antigas responsabilidades governativas que agora se esquecem, e a massacrar, via televisão, com a mensagem anti-políticos. Finalmente, propostas demagógicas, ou por não exequíveis ou, mais frequentemente, por não terem significado objectivo ou importância real, por serem, como se costuma dizer, amendoins. 

À primeira vista, um bom exemplo seria o corte de 15% nas subvenções vitalícias pagas aos políticos, como noticia o Público. Vai cair bem, mas, depois da extinção dessas subvenções pelo governo Sócrates, em 2005, o universo atingido é residual, de cerca de 400 pessoas, correspondendo a uma despesa de cerca de 9 milhões de euros e sendo que, assim, o corte representa cerca de 1,35 milhões de euros.

Quando se fala tanto do compromisso do governo face à troika de reduzir o défice em 4000 milhões de euros, quando a anunciada redução das pensões de sobrevivência significará uma redução de despesa de cerca de 100 milhões de euros, quando nada se cortou ainda nas PPP, nem sequer nos consumos intermédios da administração pública (vamos discutir as despesas de representação e os cartões de crédito? ou julgam que são só os deputados?) este pouco mais de um milhão de euros é mesmo amendoim, tal como as grandes mordomias que são, por exemplo, um computador em cada posto no plenário para, como dizem as pessoas, os deputados jogarem às cartas ou uma remuneração de titular de órgão de soberania que, se não me engano, é inferior à de um director geral.

A aceitação popular de medidas como esta é grande e é legítimo pensar-se que o governo só a decide, sabendo que ela não tem significado real, por demagogia e cumplicidade com esse populismo. No entanto, a questão não se esgota nestes dois aspectos – significado real (económico) e impacto populista. Há também outro plano importante, o simbólico, com grande impacto na confiança das pessoas na ética republicana e nos valores da democracia. É considerando este plano, embora denunciando o oportunismo demagógico do governo, que concordo com esta decisão.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Sobre o populismo - os descamisados na net


Há dias, publicou-se um estudo que revelava que só 56% dos portugueses confiam ou valorizam como essencial a democracia. Felizmente, ao que penso, isto não significa que os restantes anseiem por uma ditadura. Nem esta, muito menos por manu militari, me parece ameaça próxima. Já não digo o mesmo de velha doença degenerativa da democracia, tão vulgar quando ela perde alma e caráter, que é a demagogia, nos tempos modernos bem exemplificada pelo populismo.
Começo por um exemplo de comentário de hoje a uma notícia de jornal, que até só era indireta, sobre o risco de incumprimento da nossa dívida. Vai como publicada, toda em maiúsculas (não tenho pachorra para passar para grafia decente), a forma netiana de berrar, com aquela “sabedoria” provinciana de que quem acaba por ter razão é quem berra mais (ou, também na net, a disfarçar os erros de gramática, muitas cores, muito “bold”, muitos tipos de letra em grande tamanho).
ACABEM, FECHEM TUDO O QUE SERVE AOS DEPUTADOS E POLÍTICOS PARA "SACAR" E NO FINAL AINDA VAI SOBRAR DINHEIRO PARA EMPRESTAR Á "EUROPA" A JUROS SUPERIORES AO QUE NOS EMPRESTAM A NÓS E ACABEM COM OS LADRÕES DE REFORMADOS E DE QUEM TRABALHA, INCLUINDO OS ALDRABÕES DE CRIANÇAS !!! ASSIM : 
NÃO É COM O CAPITALISMO QUE É PRECISO ACABAR...É PRECISO ACABAR COM A GANÂNCIA, PARTIDOS POLÍTICOS E PRINCIPALMENTE COM LADRÕES DE REFORMADOS E DE QUEM TRABALHA...ENTÃO SIM O MUNDO SERÁ PRÓSPERO E A HUMANIDADE VIVERÁ FELIZ !!! ACABAR COM VENCIMENTOS DE MILHARES DE "PENTELHOS" EM TODOS OS SECTORES DE ACTIVIDADE, LIMITAR AS PENSÕES A POR EX. 2000 € / MENSAIS, ACABAR COM AS PENSÕES DE DEPUTADOS QUE NÃO TRABALHAM 40 ANOS, ACABAR COM INDEMINIZAÇÕES A DEPUTADOS PARA VOLTAREM AO ACTIVO NO PRIVADO UMA VEZ QUE QUANDO SÃO DEPUTADOS ESTÃO A TRABALHAR NO...PRIVADO, TRANSFORMANDO A POCILGA DA REPÚBLICA NUM ESCRITÓRIO DE INTERESSES INSTALADOS !!! QUE NINGUÉM GANHE MENSALMENTE MAIS DO QUE O P.R. (NÃO ESTE! ), QUE A JUSTIÇA FUNCIONE, QUE OS EX-PRESIDENTES SE LIMITEM Á SUA PENSÃO E NÃO A CUSTAREM 300.000 EUROS ANUAIS AO POVO, ETC, ETC.
Este texto reproduz, no essencial, as centenas ou milhares que todos os dias se publicam, com a mesma indigência mental e política. Por exemplo, coisas elementares suscitadas por este texto. Se acabasse o “sacanço” dos políticos, que percentagem do PIB se pouparia? O que têm a ver os pedófilos com a dívida? Acabando-se com os partidos, não é preciso acabar com o capitalismo?! Um teto de rendimento de 2000 euros é coisa revolucionária, certamente inspirada na Coreia do Norte? Desde quando um ex-PR custa 300.000 euros por ano? Etc.
As pessoas estão zangadas, e com razão. Se, pelo tipo de educação que temos e da cultura que temos interiorizada, não sentimos muita tendência para o pensamento crítico, muito mais quando, sendo a zanga má conselheira, ficamos irracionais. 
Pior é o alinhamento com isto, alimentador, de uma mistura perversa de jornalistas, professores (principalmente de economia), opinadores e gurus. Ainda há dias um amigo me dizia que eu não tenho razão em denunciar a ação malévola (estou convencido de que é consciente) de Medina Carreira, parece que opinador arguto para muita gente de responsabilidade. Isto levou-me a ver a sua última participação, até porque o tema era a saúde, que julgo dominar minimamente. Percebi que ele agrade a gente evoluída e culta porque lhes excita o tradicionalismo político da crítica verrina entre clubistas, não de futebol.

Não há uma observação fatual que não venha embrulhada no ataque generalizado aos políticos (como se ele nunca tivesse sido). Parece que os "políticos", mesmo não encartados, gostam disso. Os simpatizantes do PS acham que ele está a criticar o PSD, vice-versa. A arraia miúda acha e bem que ele está a malhar em todos, como quem atira barro à parede.
Mas fiquei a perguntar-me como é possível que não se perceba que todas as suas observações “atraentes” contra a corrupção, o estatismo, a irresponsabilidade vão sempre cair em “se queremos saúde e educação, então temos de cortar nos salários e na segurança social, porque não há dinheiro”. Num só programa, esta mensagem foi repetida meia dúzia de vezes. Não se está a assistir hoje a uma espécie de “sado-psicopatologia” sobre o empobrecimento dos outros? Estarei porventura a ser delirante, mas é o que me vem à cabeça quando vejo pessoas a babarem-se de gozo com a austeridade, principalmente quando é para os outros. Há algum neoliberal fanático que ganhe menos do que os tais razoáveis 2000 euros por mês a que se referia o comentarista da notícia?
Já nem falo dos célebres gráficos, porque talvez seja preciso um pouco de domínio da estatística - minha obrigação profissional - para se perceber logo que aquilo não tem qualquer rigor, chegando até ao ponto de usar só valores nominais e não valores reais. O homem ou é senil ou é desonesto. Escolham.
Também me preocupa que este tipo de reação populista que invade a net e as conversas de café ou de mercado seja acarinhada por um outro tipo sofisticado de populismo (sei que vou apanhar por dizer isto), o de políticos que avalizam todo este discurso irracional de zanga quando expresso por novos “movimentos”, espontâneos, populares (?). Quando declaram o nascimento de uma nova democracia numa praça de Lisboa. 
É claro que não me passa pela cabeça que a esquerda, o caminho da revolução, se faça só na biblioteca do British Museum. Mas fez-se muito aí! A questão é como enquadrar a zanga, a revolta, num quadro ideológico consequente e racional. E como impedir que os pensadores, os políticos mais experientes e com maior reflexão, resistam a esta terrível tendência atual para a sua infantilização e auto-degradação no populismo, mesmo que muito disfarçado de crítica superior e de nova sociologia.
Nada disto é verdadeiramente esquerda. Nada que seja inteletualmente viciado, mentalmente desonesto, pode validar uma ação política com futuro para além da pequenina vida dos profissionais da política. Vem-me à cabeça a dúvida sobre se Marx, que tanto discutiu o papel nefasto do “lumpen”, não acharia que hoje o “lumpen” tem computador, acesso à internet e possibilidade de malhar como sempre fez no verdadeiro proletariado a soldo da polícia, agora como escrita a soldo do sistema.
NOTA - Referi Marx, mas sobre este tema, sobre a construção das ideias feitas, da manipulação das mentes, de como se fazem as ideologias, de como isso se articula com os determinantes económicos estruturais do processo histórico, é imprescindível lembrar Gramsci e toda a sua discussão da hegemonia.
(Ilustração - Padre Malagrida)