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domingo, 16 de fevereiro de 2014

Carta aberta aos coordenadores do CDA e do 3D

Há dias, deixei escritas algumas questões que se me colocam sobre as relações entre o Manifesto pela Dignidade, pela Democracia e pelo Desenvolvimento (3D) e o Congresso Democrático das Alternativas (CDA). Não voltaria ao assunto se não tivesse recebido notícia de um novo documento do CDA, “O fim da troika, o regresso aos mercados, o programa cautelar... e outros mitos”, com que concordo inteiramente e que não destoa da declaração original do CDA.

Simplesmente, pensava, talvez ingenuamente, que o 3D levaria o CDA ao adormecimento, pela forte identidade das suas figuras mais conhecidas e intervenientes. O texto de agora parece mostrar que não e suscita a questão da lógica da coexistência do CDA e do 3D. Como apoiante inicial do CDA e votante da sua declaração, creio ser legítimo que me interrogue, bem como os 1600 votantes da declaração, sobre o que ele é hoje, como forma de intervenção política. Quando e em que condições é que uma posição política, como agora, vai ser tomada pelo CDA – a que pertenço – ou pelo 3D – a que não pertenço – quando, com boa probabilidade, os redactores serão os mesmos?

Certamente que os organizadores do CDA não duvidam de que o CDA “pertence” a todos os que nele se reviram e tomaram como sua a declaração. A meu ver, a declaração, ao contrário de outros manifestos diversos anteriores, ambíguos ou recuados, é um documento que vai ao encontro das ideias e vontade política de um grande número de pessoas de esquerda consequente. Julgo ter sido esta a razão do sucesso do CDA, mau grado um certo arrefecimento posterior. Pessoalmente, por não acreditar em fadas, discordo de iniciativas inconsequentes com sobrevalorização de uma salvífica convergência não se sabe para que programa. Mas mantenho o meu apoio ao CDA e desejaria ver mais força na sua continuação. E não considero que o 3D seja continuação lógica do CDA.

Os objectivos fundamentais de uma alternativa, seguindo a declaração rio CDA, eram “a) Retirar a economia e a sociedade do sufoco da austeridade e da dívida: denunciar o Memorando; b) Desenvolver a economia para reduzir a dependência externa, valorizando o trabalho e salvaguardando o ambiente; c) Defender o Estado Social e reduzir as desigualdades; d) Construir uma democracia plena, participada e transparente; e) Dar voz a Portugal na Europa e no mundo.”

De entre as muitas propostas extensamente apresentadas, desenvolvendo e concretizando esses objectivos fundamentais, destaco a que, provavelmente, mais demarcou a posição em relação a propostas recuadas do PS e até, nessa altura, da direcção do BE. Refiro-me a “denúncia do Memorando e abertura de um processo negocial com a CE, o BCE e o FMI a partir de uma posição determinada, ancorada no reconhecimento de que os pressupostos do Memorando estão errados e na reivindicação do direito ao desenvolvimento; Reestruturação da dívida colocada no topo da agenda das negociações; Preparação para os cenários adversos que podem resultar de uma atitude negativa da troika, traduzida numa suspensão do financiamento internacional (incluindo a necessidade de declarar uma moratória ao serviço da dívida).”

Embora de forma não tão explícita, creio que o 3D não contraria esta posição firme do CDA, mas gostava de ver isto mais esclarecido. Então porquê o 3D? Será uma diferença de plano e forma de intervenção? Parece que sim, por várias razões. Em primeiro lugar, há uma recomposição dos promotores de ambas as iniciativas, embora se mantenha um grande núcleo de pessoas muito conhecidas, independentes. No CDA havia um forte envolvimento do BE e um pequeno núcleo do PS, no 3D não. Pelo contrário, aparecem no 3D membros da direcção da Renovação Comunista, que me parecem ter estado ausentes do CDA.

Em segundo lugar, tudo parece apontar para uma marcada diferença nas propostas de intervenção política, em relação às que fizeram consenso no CDA. Neste, aprovou-se:

“8.6.1 A defesa de um compromisso comum de convergência, que ajude a viabilizar uma governação alternativa em torno de princípios abrangentes e claros como os sugeridos nesta resolução, por parte das forças políticas democráticas que decidam apresentar-se a eleições;
8.6.2 A organização e mobilização em todo o país dos apoiantes do Congresso com vista à divulgação e prosseguimento do debate no espaço público das propostas desta resolução, ao seu enriquecimento e desenvolvimento participativo e à promoção da iniciativa cidadã em defesa das causas e dos objetivos aprovados;
8.6.3 A consolidação e alargamento da base plural de apoio ao Congresso;
8.6.4 O diálogo com forças políticas, instituições e movimentos sociais, nacionais e internacionais, inspirado pelo propósito de estimular dinâmicas de convergência na ação e de construir denominadores comuns para as necessárias alternativas políticas.”

Estas posições reflectem uma perspectiva unitária, abrangente e inclusiva, bem como distante de qualquer intervenção partidária ou para-partidária com fins imediatamente eleitorais. Pelo contrário, o 3D, tanto no manifesto como em declarações de seus membros notáveis, “entende que (…) não têm de esperar por entendimentos entre toda a oposição democrática”, privilegia uma intervenção imediata no plano eleitoral, tendo “como objectivo construir um movimento político que seja o mais amplo possível”, mas afastando desde logo qualquer acção conjunta com o PCP e o PS. Como se sabe, a perspectiva, esperadamente fracassada, era a de instrumentalização da capacidade eleitoral passiva do BE, como partido, numa lista circunscrita ao BE, ao 3D e ao Livre.

Apoiei o CDA, mas não o 3D. Só vou em iniciativas e movimentações políticas pelas suas ideias e propostas, feitas de forma clara. Não vou apenas pela notoriedade dos proponentes, principalmente quando isto hoje se liga tanto ao protagonismo no círculo mediático. É assim que entendo que o manifesto 3D, com propostas não operacionais, apresentadas só na generalidade, já tenha, ao que se diz, recolhido milhares de apoios (até que ponto sobreponíveis aos do CDA, ou desviando do CDA? E com a escassa chamada a participação dos do CDA?)

As fórmulas começam a ficar estafadas, pelo afã do menor múltiplo comum da convergência. É ao posicionamento e declarações dos promotores mais em evidência que me socorro quando procuro chegar a uma conclusão, para mim próprio, do que se está a passar nesta área confusa da esquerda não partidária e na sua relação com os partidos. Não tenho dados para avaliar bem se há ou não contradição entre dirigir simultaneamente o CDA e o 3D, se as agendas pessoais são isentamente compagináveis com a participação em ambos, a nível dirigente. Como apoiante do CDA, e não duvidando da vossa seriedade política e do vosso empenhamento na dinamização da esquerda, podiam esclarecer-me? Ou sou eu que sou incoerente, apoiando o CDA (forum de debate e mobilização) e não o 3D (proto ou para-partido)?

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O Manifesto 3D e o Congresso Dermocrático das Alternativas

É estranho que não se tenha comparado o que têm em comum – ou não – a recente iniciativa do Manifesto 3D e o mais antigo Congresso Democrático das Alternativas (CDA). É coisa que me interessa, até como explicação de posição pessoal. Bem sei que “ninguém dá um cêntimo para saber o que comi ao pequeno almoço”, mas lá vai a nota de que aderi com muito interesse ao CDA e não subscrevi o manifesto 3D. Já escrevi sobre o manifesto, mas não nesta perspectiva.

É que me parece que sem se relacionar ambas as coisas – e, já agora, também com o eventual partido Livre – não se percebe a iniciativa do manifesto 3D. Ou melhor, talvez toda a gente, os seus já muitos subscritores, estejam a perceber, e o problema seja meu.

Há uma grande sobreposição entre os promotores, e depois os subscritores, de ambas as iniciativas. É certo que no manifesto estão em relevo ex-comunistas, renovadores e outros, que não apareciam tão em evidência no CDA (embora tenha visto alguns ). Em contrapartida, os muitos bloquistas do CDA, bem como um grupo muito interveniente de socialistas, assim como Rui Tavares e alguns seus companheiros, estiveram no CDA e não aparecem agora no manifesto. Fora isto, então porque é que um grupo de notáveis não partidários quase que se repete nas duas coisas, Manifesto 3D e CDA?

Talvez os promotores do manifesto tenham considerado que o CDA perdeu fôlego e que não consegue corresponder ao desejo emotivo e um pouco acrítico que muita gente manifesta a favor de um entendimento de esquerda, desde a esquerda em sentido real até ao centro-esquerda do PS. No entanto, tem havido iniciativas com algum sucesso, produção de documentos e actividade no “site”.

Ou os promotores do manifesto entraram em corrida com Rui Tavares, jogando no seu campo, ou vice-versa? Seria mau sinal, de oportunismo e pequena política por parte de quem sempre invoca grandes princípios, mas não é hipótese a excluir, quando se diz que Rui Tavares participou da discussão do manifesto, afastando-se para lançar o Livre. 

Afinal, mesmo tendo em conta o erro de comparação pela grande vacuidade e generalidade de ambas as posições, há muita semelhança entre o Manifesto 3D e os princípios do Livre, tudo coisas a representar a plataforma cada vez mais estreita e reduzida a banalidades de possível encontro entre a esquerda “radical” e a social-democracia pós-terceira via. Quando muito, nota-se que o manifesto não vai pelo descaminho da utopia europeia de Rui Tavares. Em todo o caso, fica a léguas da concretização de objectivos e propostas que figuram na declaração do CDA. Creio que isto é significativo. Lá iremos.

Outra hipótese: o grupo do manifesto quer uma maior intervenção eleitoral do que a definida pelo CDA e, para isso, tem de reconfigurar o seu grupo central e secundarizar o seu papel de promotor de convergência – aparentemente, ao que se vê pela adesão que proclama, sem que isso defrauda o desejo de convergência de esquerda de muita gente. Com efeito, a declaração do CDA apelava ao diálogo de toda a oposição à política neoliberal ou de “novo fascismo”, enquanto que o manifesto 3D é vago quanto a entendimentos e alianças, falando em “juntar forças”, mas afirmando que quem o quiser fazer desde já não deve esperar pela convergência de todos.

O manifesto é transparente, neste aspecto: significa o lançamento de um movimento político o mais amplo possível, mas de cidadãos e cidadãs sem filiação partidária. Parecem assim excluídos os militantes de partidos que participaram no CDA. Cheira muito a novo partido escondido com o rabo de fora. Também me parece sinal de subalternizarão da perspectiva congregadora – os os muitos subscritores estão a vê-la, não sei eu como? – que se afaste liminarmente o entendimento a curto prazo com o PCP e o PS, sob pretexto de que estes partidos vão certamente concorrer sozinhos (é verdade) e provavelmente com aumento de votação.

Mas então as preocupações do grupo do manifesto são prioritariamente eleitorais, para as europeias? Não é difícil comprová-lo pela simples leitura: “desenvolver um movimento político amplo que no imediato sustente uma candidatura convergente a submeter a sufrágio nas próximas eleições para o Parlamento Europeu”.

Começa a parecer-me que a palavra “convergência” está a ficar prostituída. Para o Manifesto, PCP e PS ficam de fora, para já (e terá sequer havido conversas prévias com eles?). O Livre ainda não há. Portanto, ou o Manifesto vira partido – o que é negado pelos seus promotores – ou está a pensar usar o BE, sem o dizer. E não parece conversa de gente séria, como são, dizer que importante é o conteúdo da plataforma política, depois se vendo a forma sob a qual irão concorrer às europeias, quando se sabe que a lei proíbe que concorram como movimento. Parece haver demasiada coisa estranha logo no início deste manifesto.

Também acho sintomático do estado de “carência” política que muita gente vive o grau de adesão ao manifesto. Em que fundamentam as suas expectativas? Numa lista de pessoas? Em 7-sete-7 linhas de propostas? Deve-se estranhar a omissão de referência a um processo de discussão e proposição de um programa mobilizador. Talvez esteja aí a principal diferença para o CDA e a sua declaração, coisa estranha quando há tanta gente em comum na promoção de ambas as iniciativas. Já sei que me virão com a moda de que agora ninguém lê mais do que uma página, nunca a dúzia de páginas da declaração da CDA. Não quererão também reduzir a Constituição a uma página A4? (A propósito: quem diz que a dos EUA é assim, com as suas emendas, é porque nunca a leu).

Palpita-me que o ponto nevrálgico de tudo isto é uma proposta muito específica e concreta da declaração do CDA: a denúncia do memorando e a reestruturação da dívida com preparação para os cenários adversos que daí podem advir (sendo obviamente um destes cenários a saída do euro). À primeira vista, poderia pensar-se que a omissão é questão táctica por parte dos promotores do manifesto, olhando para o PS, ou mesmo para potenciais apoiastes e eleitores. Mas também há a hipótese de não ser só posição táctica.

NOTA – Ninguém acredita em grupos dirigentes (sem sentido pejorativo) de dezenas de pessoas. Têm certamente um núcleo duro que as pessoas provavelmente gostariam de conhecer. Ao menos no Livre sabe-se que é Rui Tavares, Rui Tavares e Rui Tavares. No caso do Manifesto 3D aparecem 65 promotores, no CDA 53. Afinal, quem é quem?

terça-feira, 16 de outubro de 2012

O Congresso Democrático das Alternativas (XI)

“Em quem vou votar desta vez?”, pergunta-se o Zé.

Como escrevi em entrada anterior, reproduzindo uma intervenção minha no CDA, estamos confrontados com um problema político de contradição de dinâmicas e de tempo: o do movimento social e o da política convencional, eleitoral. Claro que se influenciam mutuamente mas a uma escala de tempo – embora a história seja uma  brincalhona que gosta de surpresas – que não é adequada à resolução atempada da referida contradição.

Quanto ao primeiro termo, o da movimentação social, da informação, da conquista das consciências, enfim da hegemonia, já muito se disse, já muito se viu na rua. A evolução da crise pode augurar uma situação pelo menos pré-revolucionária. Podem aparecer propostas até de mudança significativa do sistema político, pelo menos de pressão determinante para correção dos seus maiores vícios, quando até os seus próprios agentes compreenderem o risco que correm com o exponencialmente crescente descrédito da “classe política” (o pior é que a democracia também pode correr riscos).

Mas também me preocupa o curto prazo, até porque a falta de soluções a essa escala pode enfraquecer o movimento estratégico, causando desânimo, remetendo para casa e para defesa imediata dos legítimos interesses tão violentados, muitos dos que estão a engrossar o “povo na rua”. Há casos em que a pressão popular mudou revolucionariamente o sistema “de dentro para fora”, como Praga-1948 (que muitos consideram, contra minha opinião, apenas um golpe de estado por um partido), mas não são a regra. Não perfilhando o leninismo, não quero as consequências de uma revolução feita por uma vanguarda, salvo exceções como o 25 de abril, em que o povo rapidamente enquadrou a vanguarda, nesse caso militar.

A curto prazo, digamos que até ao fim desta legislatura, se não antes,  há vetores objetivos a considerar. Degradação crescente da base de apoio do governo, contradições na coligação, conflitos entre poderes formais e fáticos, propostas para alternativas “vindas de dentro” do sistema, etc. Interessam-me mais agora as subjetivas, essencialmente tudo o que tem a ver com o sentimento do eleitorado, muitos mais milhões do que o milhão que sai à rua.

Não é garantido que dessas tensões resulte que a necessária queda do governo conduza a eleições antecipadas. Mas é a solução democrática e que evita coisas perigosas, como reforços de poder de quem não tem confiança popular indiscutível, ou predomínio da tecnocracia sobre a política. Por isto, vou basear-me, confiando, na previsão de eleições antecipadas.

Os que saem à rua, os que assumem militância política, os responsáveis por organizações e movimentos políticos, têm de dar resposta urgente a esta pergunta básica do Zé eleitor: “votei contra o Sócrates por ser aldrabão, não quero votar outra vez neste gatuno Coelho. Em quem vou votar?”.

Antes do mais, prevenção contra algumas ilusões. Uma, que parece influenciar em particular o BE oficial, é o mimetismo com a Syriza. As situações são muito diferentes, até na rua. Na Grécia, o PASOK foi cilindrado, ultrapassado pela Syriza. Em Portugal está longe de se passar isto com o PS, que beneficia de, apesar de ter assinado o compromisso com a troika, não o ter executado e sofrido as consequências, ao contrário do PASOK. A Syriza competia eleitoralmente era com a Nova Democracia, taco a taco (2% de diferença, contra 23% cá entre PS e BE) e beneficiando o vencedor do bónus de 50 deputados. Ora o BE está em recuo – vejam-se as eleições nos Açores – e muito longe de, só por si, ao contrário da Syriza, poder ser o eixo de uma alternativa de governo.

Segunda ilusão, a da conquista fácil de parte significativa dos tais 80% de apoio à troika. Na Grécia, muito eleitorado – não estou a falar só de manifestantes – já diz não aos dogmas que lhes têm impingido e que as pessoas compreendem já que são a causa da sua desgraça. Não é assim em Portugal. 

Muita gente com quem falo e que não sabe nada de finanças nem tem biblioteca está zangada, queixa-se (diante da televisão), mas continua a pensar em termos morais provincianos – que temos de pagar as dívidas porque somos honrados, que reestruturá-la era ficar sem financiamento para pagar salários e pensões, que mesmo tentar mudar prazos e taxas é perigoso. Muito mais, claro, pensar sequer em coisas mais radicais. Estão é perplexos. Sabem que não querem mais este governo e o que lhes roubam, mas não veem alternativa à política de austeridade e ao cumprimento rigoroso dos compromissos.

Não nos iludamos, porque no momento do voto próximo, os tais 80%, talvez reduzidos a 70%, talvez até 60%, mas sempre maioria, continuarão a oscilar de voto mas sempre no âmbito do “grupo respeitável”. O beneficiário desta situação, obviamente, é o PS, que até poderá ter maioria absoluta em próximas eleições.

Também poderá beneficiar do efeito de subjetividade que se viu nas últimas eleições. É certo que Passos Coelho não parecia ir fazer o que tem feito, mas certamente toda a gente sabia, pelo menos, é que era mais à direita, mais conservador (ou as pessoas do centrão não ligam a isto) do que Sócrates. O que derrotou Sócrates não foi a sua política (até nem má de todo) mas o caráter vicioso, a aldrabice, a mentira. No caso atual, para além do descontentamento com a política, também jogará a rejeição do extremismo sectário, do fanatismo gaspariano, de que o Zé não gosta.

O voto no PS será portanto de alternância, mas por razões não totalmente políticas e programáticas, e por isto não um voto de alternativa. Como estou a referir-me ao CDA e a toda muita gente que  tem uma posição radicalmente oposta ao “grupo respeitável”, é errado traduzir como alternativa de esquerda, em termos de curto prazo, uma alternância personificada pelo PS. Não faço a injustiça de pensar que o PS oficial governaria sem diferenças em relação a este governo de fanáticos ultra-neoliberais, mas, em menor grau, o PS adota a perspetiva austeritarista e os pressupostos básicos da escola de economia dominante.

Obviamente que isto não quer dizer que, como consensual no CDA, um objetivo imediato essencial, a par da movimentação social e da pedagogia política, não seja o de tentar ajudar a uma plataforma comum eleitoral PS-PCP-BE. No entanto, como se viu no congresso, posições consensuais dos participantes, nomeadamente a denúncia do memorando e a reestruturação da dívida, vão obviamente contra a posição do PS oficial e até de socialistas participantes do congresso.

O que me parece mais provável – e não creio ser preciso ter muitos dotes divinatórios – é uma evolução em dois ciclos, à grega. O PS (e não só o PS) não corresponderá ao esforço de convergência em que o CDA se empenhará, ganhará as eleições ou com maioria absoluta ou coligado com o CDS ou eventualmente com o BE (se este tiver vocação suicida). Como na Grécia, haverá a seguir um ciclo eleitoral de implosão do PS, com uma desejável diferença importante: na Grécia não houve evolução ou cisão dentro do PASOK, o que pode acontecer com um PS em frangalhos por uma próxima governação mais ou menos obediente à troika e ao “establishment” europeu.

Por isto, estou certo de que a sabedoria do CDA e da sua comissão vai privilegiar, desde já, é o diálogo e a convergência com as margens do PS. É preciso é que elas também se afirmem.

Também a questão de um novo partido. Por tudo o que já aqui tanto escrevi, creio que é indispensável, mas não me parece hipótese de trabalho para próximas eleições. Para as seguintes, já entramos em zona crepuscular, de incerteza. Muita água passará entretanto debaixo da ponte, talvez em inundação. 

O que me parece fácil de entender é que a atual movimentação social, com destaque particular para um CDA que, entretanto, certamente crescerá e se afirmará - mais tarde direi porque estou convencido - é um novo enquadramento facilitador, até em termos de condições estruturais, financeiras, etc., da criação de um novo partido.

A ideia não foi aprovada pelo congresso, mas porque apresentada em termos de vinculação imediata. Eu próprio também votei contra isso, mas com a certeza de que uma coisa não significa outra, que o CDA nunca se comprometa com isso. Hoje é hoje, amanhã é amanhã.

E seria curiosa a inversão do que é vulgar, um partido criar uma frente ou movimento. Aqui seria uma frente a criar um partido. Mas não é caso único. Lembremo-nos da Índia ou da África do Sul.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O Congresso Democrático das Alternativas (X)

Sugestão à comissão de redação do CDA, sabendo que é coisa muito difícil: resumo da declaração num manifesto de duas páginas, no máximo. E centrado no essencial: política austeritarista à seita gaspariana ou política alternativa?

Afinal, são as ideias demarcantes: denúncia do acordo com a troika, reestruturação da dívida, preparação de uma alternativa, confronto dos partidos de esquerda com as suas responsabilidades na falta de uma alternativa eleitoral.

O resto, a definição de uma democracia alternativa e participativa, a política social, a política de inclusão, o lugar de Portugal, está tudo dito e redito. A agenda de hoje é "it's the ecomomy, stupid!"

O Congresso Democrático das Alternativas (IX)

Propostas polémicas

A proposta de declaração do CDA refletia os apoios ao texto inicial da convocatória, aos textos mais ou menos desenvolvidos enviados antes do congresso, à convergência verificada nas reuniões preparatórias. No entanto, é óbvio que qualquer congressista tinha o direito de apresentar propostas que se afastavam desse consenso. 

Não me refiro a centenas de propostas de emenda formais ou de aperfeiçoamento do texto, que foram aceites e incluídas no texto final, mas sim a propostas que rompiam a opinião largamente maioritária. Viu-se, pela sua rejeição, com muito poucos votos contra a posição da comissão de redação (que fez um ótimo trabalho, contra-relógio).

Vou tentar lembrar-me das principais e explicar porque, em todos os casos, votei contra elas. A razão geral foi a de não querer prejudicar, com radicalizações e acusações, um esforço visível de unidade ou convergência. Creio que foi a razão dos que votaram contra essas propostas respeitáveis mas marginais, não por comodismo ou seguidismo em relação à organização do congresso.

Por comodidade, sem lhes querer chamar de mais à esquerda ou mais à direita, vou separar entre propostas mais conservadoras e propostas mais radicais.

De entre as primeiras, quase só consigo identificar a de Ana Gomes, que já aqui discuti. Ao recusar a denúncia do memorando da troika, ao insistir no cumprimento dos “nossos” compromissos, ao pôr todas as expetativas numa esperançada solução europeia, estava claramente fora daquele baralho.

Só foi aplaudida por um setor da assistência bem localizado, e só aquando da sua acalorada recusa de saída do euro. Este foi outro tema polémico. Apesar de eu ter falado sobre ele na sessão paralela, votei contra a sua inclusão na declaração, porque já lá vinha quanto baste e não valia a pena abrir fraturas. Gostava que a declaração fosse um pouco mais longe e comprometesse o CDA com um estudo sério das vantagens e desvantagens da saída do euro. É um dos principais temas de aterrorização das pessoas pela seita neoliberal e exige resposta.

Mas ficaria por aqui, agendar a discussão. Não votei propostas mais radicais de compromisso do CDA com esta possibilidade, afinal ainda uma possibilidade entre outras, por mais que eu a ache muito provável.

Outras propostas polémicas diziam respeito à suspensão imediata da dívida (não percebi se do pagamento da dívida se do seu serviço). Novamente, é mais do que provável que, no processo que todos defendemos no congresso, a denúncia do acordo com a troika e a reestruturação da dívida, a questão se vai pôr inevitavelmente. Neste momento, até já temos resultado positivo do saldo orçamental primário, estamos é afogados pela perspetiva ordoliberal, neoliberal e quejandas no que entra em conta com o serviço da dívida, agora agravado pelo pagamento de juros agiotas da “ajuda” do resgate troikiano.

Compreendo a posição dos que defenderam que a denúncia do pacto com a troika só é eficaz se acompanhada de medidas firmes e simbólicas, como a suspensão dos compromissos da dívida (afinal, sejamos claros, declararmos incumprimento, falência, bancarrota, “default”, o que se quiser chamar). Mas vou pela muito mais subtil e inteligente estratégia gradualista, dialética, bem exposta, com grande sintonia, pelos intervenientes da sessão específica, João Ferreira do Amaral, Ricardo Cabral e Jorge Bateira, infelizmente não relatada adequadamente na sessão plenária. Negociar sempre com coragem; ter sempre previsto o passo seguinte, de aprofundamento da conquista anterior ou de nova exigência; esclarecer sempre e mobilizar a opinião pública sobre as consequências das propostas, ganhar o seu apoio. Conquistar a hegemonia!

Também afloraram algumas posições de defesa da suspensão da dívida, mas só da dívida ilegítima. Coisa típica das auditorias da dívida, inconsequentes, como aqui preveni, na altura. O que é dívida ilegítima? A política faz-se com juízos morais? Por exemplo, e para fazer de advogado do diabo, a dívida com os submarinos é ilegítima? É preciso demonstrar primeiro que a decisão foi politicamente errada, com intenção dolosa (e vamos começar a julgar moralmente as decisões políticas? Esperem pela nossa vez). Mais, que houve corrupção.

A outra grande polémica foi a da passagem imediata do CDA a associação política e desde logo com a perspetiva de formação de um novo partido. Sabem todos os meus leitores habituais que muito tenho defendido a criação de um novo partido. Mas vou propor isto a uma enorme assembleia cheia de gente militante nos atuais partidos? O caminho faz-se caminhando, escreveu António Machado. E os primeiros passos são forçosamente de criança, passos pequenos, inseguros, cuidadosos.

Finalmente, o que não foi dito. Não foi dito, a não ser quanto referi, que devemos respeitar os compromissos, sujeitarmo-nos à troika, apenas minorar (como, nessa lógica?) o austeritarismo deste governo. Não estava no CDA ninguém com essa opinião. No entanto, é a base da política do PS, partido sem o qual cai pela base a esperança de alternativa eleitoral a curto prazo do CDA. O que não quer dizer que eu defenda, nisto, abater bandeiras. Sempre na vida lutei por coisas inglórias. E algumas vezes até ganhei!

Mas também falei há pouco de um setor bem definido e organizado dos congressistas que nem quer ouvir falar em roturas no projeto europeu, em implosão do sistema do euro. Velhas doenças de internacionalismo, histórias a terminar em picador de gelo, mas eram jovens, vão ter tempo de pensar. No entanto, não houve uma única proposta, sequer uma intervenção, a discutir o que, apesar de tudo, podem ser “propostas modestas”. Nenhum eurofilico se apresentou a discutir os “eurobonds”, o “novo” papel do BCE, a "regra de ouro" constitucionalizada, o pacto orçamental, a proposta bruxelense de sistema bancário europeu. Fica aberto para isto este blogue. Vou gostar da discussão.

Vai ser curioso, intelectualmente, assistir à evolução ideológica, programática - e aos golpes de rins - dos partidos de esquerda. O PCP se calhar não precisa, limita-se a pôr na mesa, com alguma "brutalidade" política, o que vale em gente, organização, militância. Do PS não espero qualquer reflexão, a não ser em pequenos círculos marginais e irrelevantes, por muito que me agrade receber notícia dos seus "arroubos de alma". Quanto ao BE, principalmente nesta fase próxima de substituição da direção, tenho muita curiosidade.

Mas, se vamos para eleições, o que fazer com esta gente? Continua...

O Congresso Democrático das Alternativas (VIII)

Falta de informação, imaginação ou coisa intencional? Pedro Tadeu refere hoje, no DN, "o domínio da reunião por personalidades do PS, um partido que defende o memorando da troika." Há limites para a asneira!

domingo, 7 de outubro de 2012

O Congresso Democrático das Alternativas (VII)

Os contestatários no PS 

O que se pode esperar da sua ação? Não vou citar nomes, até porque quase todos são meus amigos pessoais, mas é coisa essencial no contexto destas conversas sobre o CDA. Desde logo, começo por dizer que tive pena de não os ver lá.

Em relação ao PS, é claro que o CDA foi uma comédia de enganos. O congresso apelou à unidade de esquerda. O congresso proclamou a urgência de eleições antecipadas. O congresso teve como posição firme que a alternativa de esquerda a sair dessas eleições devia comprometer-se com a denúncia do acordo com a troika e com a renegociação imediata da dívida.

Entretanto, na véspera, Seguro tinha afirmado perentoriamente que o PS nunca poria em causa os compromissos com a troika, nem a permanência no euro, nem o compromisso da dívida. E o PS não apoiou as moções de censura.

Então qual é a alternativa eleitoral, dentro de um ano ou dois? 

Claro que há uma resposta ambígua, incerta, mas verdadeira para quem perfilha um sentido dialético da história. Estamos a viver um processo muito acelerado de mudança das relações políticas, do confronto entre política convencional e política de massas. A própria hegemonia, até há pouco dominante da direita, está a abrir brechas, até por personalidades eminentes de direita. Quem sabe se disto tudo nascerá em breve coisa nova? Se da convergência da rua e de iniciativas como o CDA não emergerá qualquer coisa?

Até pode acontecer que as coisas evolvam faseadamente. Um dos cenários que me parece provável é que, em próximas eleições provavelmente antecipadas, ganhe o PS. Como provavelmente será sem maioria absoluta, fará compromissos com a direita e irá alegremente pelo caminho do PASOK. Então, serão as eleições seguintes, também provavelmente antecipadas, à grega, a dizer alguma coisa, depois de toda uma grande agitação social por o nosso PASOK só ter agravado a crise, por cobardia genética.

Alternativa? Um novo partido? Aqui é que penso nos nossos marginais do PS. Com características diferentes, houve duas grandes surpresas no quadro recente europeu dos partidos: a Esquerda Democrática grega e o Partido de Esquerda francês. Característica comum é terem sido feitos a partir de dissidências de gente com posições importantes, influência, meios financeiros e técnicos, de deputados.

Em Portugal, os meus amigos PS contestatários remeteram-se ao papel de figuras intelectuais, simbólicas, respeitadas, mas sem meios. O aparelho ri-se deles. Mesmo Manuel Alegre não conseguiu mobilizar forças organizadas e eficazes no PS, caindo na dependência do BE.

No entanto, este CDA trouxe-me uma surpresa. Uma excelente intervenção de Pedro Delgado Alves, socialista, deputado. Atenção, não é qualquer um, é o dirigente máximo da JS! Vamos ficar atentos. Seguro que se cuide.

O Congresso Democrático das Alternativas (VI)

Das sessões paralelas do CDA, escolhi para participar a que me pareceu mais fértil em polémica e também a de maior importância no quadro político atual: “Desafios da denúncia do memorando da troika”. Para além de João Rodrigues, de que falarei depois, intervieram como convidados João Ferreira do Amaral, Jorge Bateira e Ricardo Cabral. Depois, embora com tempo muito limitado, um bom número de participantes, eu incluído.

O ponto de partida já era importante, as propostas da declaração, que tinham reunido amplo consenso em muitas reuniões de preparação do congresso. Tão importantes que, provavelmente para muita gente, como eu, foram fator decisivo de apoio ao CDA e que afinal, de forma mais elaborada, dão eco ao grito de 15 de setembro, “fora com a troika, queremos a nossa vida”.
Denúncia do Memorando e abertura de um processo negocial com a UE, o BCE e o FMI a partir de uma posição determinada, ancorada no reconhecimento de que os pressupostos do memorando estão errados; 
Reestruturação da dívida colocada no topo da agenda das negociações; 
Preparação para os cenários adversos que podem resultar de uma atitude negativa da troika, traduzida numa suspensão do financiamento internacional (incluindo a necessidade de declarar uma moratória ao serviço da dívida);
Como bem explicado pelos conferencistas, isto é tudo viável, não viola nenhum dogma dos proclamados pelos apóstolos tipo Gaspar e seus amigos da seita ultra-neo-liberal. E nem é nada de radical, pode ser faseado, envolvendo sempre um processo negocial mas corajoso, em que, a cada passo, já está preparado o segundo, os adversários sabem que há coragem de avançar para ele e o povo está bem elucidado sobre as consequências. É tudo uma questão de coluna vertebral!

Nem toda a gente concordou com todas as propostas concretas. Alguns manifestaram dúvidas. Outros queriam ir mais longe. Muito bem, é natural, mostra que há muito trabalho de estudo e debate pela frente. Mas numa coisa estavam todos de acordo: não à intoxicação dos “economistas iluminados” de que não há alternativas à política austeritária e neoliberal, fase suprema atual do capitalismo.

A única voz discordante foi da eurodeputada Ana Gomes, numa intervenção histriónica e desequilibrada, berradamente oposta a tudo o que fosse violação “jurídica” (palavra dela) dos nossos compromissos, e com fé - tanta como a de Gaspar mas sobre outra coisa - de que tudo se resolverá no quadro europeu, aquele em que ela se move e é justificação da sua vida. 

Não foi bonito que tivesse sido apupada, mas mereceu. Só uma tonta é que, sem prejuízo do seu direito de expressão, vai dizer ali coisas tão opostas ao que qualquer pessoa politicamente responsável percebia que era o sentimento comum que ali tinha congregado tanta gente. No entanto, quando ela disse explicitamente que nem podia pensar na saída do euro, foi muito aplaudida por um setor da sala, maioritariamente jovem, que identifico facilmente - sei alguma coisas de política. E não eram PS!

Ficaram em aberto duas questões, a meu ver bem porque seriam fraturantes e há tempo na evolução do CDA para as discutir. Em primeiro lugar, a proposta de suspensão imediata do pagamento da dívida (não percebi bem se quem o propunha estava a falar da dívida ou do serviço da dívida). Mais importante é a eventualidade da saída do euro. 

Para quem acha que o CDA foi uma espécie de estados gerais do BE, este último ponto é pedra de toque. Como se sabe, a questão do euro é tabu para o BE, pelo menos para a sua linha louçã-dominante, aliás como defende a sua inspiradora Syriza. Pelo contrário, o debate dessa sessão do CDA, a começar pelas intervenções da mesa, admitiu perfeitamente a saída do euro, obviamente não como tese à cabeça, mas como uma possibilidade como outras, a estudar no momento, no decurso do nosso processo de libertação da política troikiana, externa e interna.

Isto já vinha na proposta de declaração do congresso, de forma para mim talvez fracamente assertiva, mas há que fazer compromissos unitários:
 “A saída do euro é a ameaça sempre exibida logo que a denúncia do memorando é sugerida. O objetivo é assustar, paralisar, bloquear a necessária discussão acerca do conjunto de alternativas em presença. Na realidade, uma saída unilateral do euro teria certamente consequências pesadas, mas ninguém sabe, ou pode, calcular com rigor os custos e benefícios de uma tal opção face a outras alternativas.”
Eu propus que figurasse explicitamente na declaração que era urgente estudar as consequências de tal medida, mandatando para isto a comissão organizadora do CDA. Por razões de ocupação profissional, não tinha feito regulamentarmente a proposta, a seu tempo. Não importa, estou convencido de que ela se vai impor na prática, a curto prazo.

À margem - na sessão da tarde, fiquei surpreendido por ouvir uma intervenção de João Rodrigues, “relator” do tema, completamente ao arrepio do que se tinha discutido. Devo confessar que, para dentro de mim, o acusei de manipulação partidária. Afinal, só depois percebi que o seu papel era o de apresentar um texto preparado anteriormente e que eu não conhecia, que não foi referido, muito menos discutido. Se isto se passou com os outros “relatores” na sessão plenária (como o aplaudidíssimo José Manuel Pureza, com o seu texto muito bonito mas panfletário), se eram intervenções antecipadamente preparadas, como me disseram, lamento, porque não ficou conhecido o teor das discussões setoriais da manhã, certamente tão ricas como foi na minha. Foi decisão um pouco "à antiga sovieto ou trotsquista" da organização. Curiosamente, Pureza e Rodrigues, etc... Meu caro Marcelo, vou estar atento.

O Congresso Democrático das Alternativas (V)

Ontem e hoje, alguns jornais só noticiam o que disseram "ao congresso" Manuel Alegre, Francisco Louçã, outros notáveis. O que esses jornais dizem foi aquilo que eu vi, esses políticos a falarem para as câmaras, fora dos trabalhos do congresso.

E até acho bem que não tenham falado no congresso. Simplesmente, os jornalistas não conseguem perceber como um congresso daqueles é diferente da vida política "normal", só de personalidades mediáticas. Eles querem lá saber quem eram aqueles quase dois milhares de pessoas a debaterem, a lançarem ideias ou apenas, mas muito bem, a manifestarem os seus desabafos.

É o "quarto poder", talvez ainda mais medíocre do que os outros poderes convencionais.

sábado, 6 de outubro de 2012

O Congresso Democrático das Alternativas (IV)

Notas soltas.

1. Excelente trabalho da mesa da sessão final, dirigida por Manuela Mendonça, com firmeza simpática. Não a conhecia. Dizem-me que é dirigente sindical, dos professores. Vê-se que tem muito traquejo, coisa de que falo frequentemente a propósito de iniciativas muito bem intencionadas mas fracassadas por falta de experiência.

2. Ótimo serviço técnico de sala e de receção aos participantes.

3. Bagunça na ordenação das inscrições para intervenção na sessão plenária. Fui dos primeiros a inscreverem-se, fui dos últimos a falarem e só porque reclamei.

4. Nenhum dos muitos restaurantes ou snacks à volta esperava esta afluência. A organização devia tê-los prevenido.

5. A merecer entrada especial, a questão do horário e da pontualidade. É cultural. Na Inglaterra ou nos EUA, é questão de civismo elementar, de respeito para com os outros. Quando, na minha universidade, ouço invocar o "quarto de hora académico", fico horrorizado. Tenho no meu currículo dezenas de reuniões, organizadas por mim ou por outros. Começam à hora, esteja quem estiver. Quem se atrasar, não fala e diz-se porquê. Quem intervem, treina bem o tempo da sua intervenção, para o que hoje até há bons utensílios técnicos (mas tudo se faz à ligeira, ninguém faz trabalho de casa, muito menos os notáveis). Não mete "buchas" que gastam muito tempo. Não tem a arrogância de quem pode dizer tudo o que quer como se a sessão fosse propriedade privada. A falta de pontualidade, neste sentido alargado, é uma alarvice intelectual e é um desrespeito por toda a gente. Pode ser uma pessoa muito "respeitável", mas para mim fica desqualificada.

6. Na sessão de encerramento, uma intervenção destacada de Pilar del Rio. A que propósito? É pessoa que alguma vez tenha tido posição na discussão da política portuguesa ou europeia? Nem sequer é promotora da iniciativa do CDA. Será porque a Fundação Saramago deu dinheiro para o congresso? Mau sinal.

O Congresso Democrático das Alternativas (III)


Um pouco à margem da série anterior de entradas, e não relacionado diretamente com o que se passou no CDA, vou para uma de carácter mais geral, mas relacionada com o que escrevi sobre a dificuldade de importantes iniciativas, como o CDA, em vencer os bloqueios à unidade de esquerda.

Para muitos dos meus leitores, da minha geração, o que vou escrever são banalidades. Mas lembro-me daqueles que, como disseram no CDA, já são filhos de abril, como os meus filhos.

A análise das divergências profundas entre os partidos de esquerda, sendo eles três, PCP, BE e PS, não é integralizável. É forçosamente parcelar, dois a dois, embora a divergência PS-BE, moderna e conjuntural, me pareça difícil de analisar e não o vou fazer, porque me parece limitar-se ao quadro imediatamente tático da política partidária.

A mais antiga e profunda é a enorme divergência, com efeitos psicológicos, entre PCP e PS. Tem raízes muito fundas e antigas. Não se esqueça que Mário Soares foi comunista e que muitos dos seus companheiros andaram na órbita do PCP ou em movimentos por ele muito influenciados (ou controlados), como o MUD juvenil. Aceitando que me acusem de esquematismo, mas para não me alongar, direi que o conflito vem principalmente de uma grande tensão, no PCP, entre uma visão leninista de partido da classe operária (a que o próprio Cunhal, intelectual, se mimetizou) e a dificuldade de lidar com uma burguesia intelectual, “sem espírito de classe”, na fase das frentes de esquerda e populares. O caso Fogaça é sintomático.

Depois, a guerra fria veio romper a aliança antifascista e de frente popular, à francesa, da década anterior. O titismo, os processos de repressão na Hungria e na Checoslováquia, abriram brechas nunca mais reparadas na frente democrática de esquerda portuguesa. A campanha de Delgado foi um cessar fogo, mas que acabou por ser gravemente perturbado pela ilusão socialista com Marcelo, de que resultou a triste divisão de candidaturas em 1969. O Congresso de Aveiro e algumas iniciativas unitárias posteriores uniram outra vez a esquerda, bem como o envolvimento comum, que conheço bem, de gente de ambos os lados, a nível individual, na ajuda aos militares de abril.

Depois do 25 de abril, a princípio tudo bem, mas depois foi tal luta, tal antagonismo até pessoal e entre amigos, tantos insultos, que demorarão gerações a serem esquecidos. Também a noção de traição à revolução de abril, uns a verem-na como traição ao processo socializante em claro andamento vitorioso, outros a verem-na como traição às regras da democracia formal com que fizeram a sua cultura política. Pior, os compromissos assumidos, por uma e outra parte, com poderes estrangeiros, mesmo com serviços secretos execráveis e amorais. Pior também, a divisão do movimento sindical. E, conclusão ainda hoje nas bocas do mundo, “eles nunca se entenderão”. Mais, “são todos políticos, só querem saber dos partidos e dos seus interesses, das suas guerras, estão-se nas tintas para o país”. E muito mais.

Diferente é o caso da divisão PCP-BE, mais recente na prática, mas afinal com velhas raízes hoje patéticas na história do movimento socialista/comunista. O PCP tem uma velha história e passou por todas as fases do movimento socialista. Ficou marcado por uma personagem de enorme qualidade mas muito contraditória e problemática, o que não vou agora discutir. Cunhal tinha qualidade para ter sido outro Gramsci, ficou tolhido por dever religioso de devoção, a que submeteu a sua grandeza. 

Com a derrota do projeto revolucionário pós-11 de março, em consequência do 25 de novembro, o PCP ficou na defensiva (valeu-lhe a célebre declaração de Melo Antunes nessa noite), enquistou-se. Sofreu os efeitos do desmoronamento do mundo soviético mas não teve uma atitude pró-ativa e sofreu saídas após saídas, cada vez mais se refugiando na segurança do seu núcleo duro fiel.

No entanto, esta história das saídas é muito complexa e com significados muito diferentes. Posso distinguir pelo menos três fases. A primeira é indefinida, começa logo no princípio dos anos 80. É a minha, a quem tinha sido prometido, a seguir à revolução, um processo de discussão da democracia socialista que nos tinha feito sair do PCP depois da invasão de Praga, discussão que nunca aconteceu e agravada por também não se ter feito a autocrítica de muitas coisas do “verão quente”. O problema desta cisão é de ter sido feita aos poucos, individualmente - mesmo que muitos - e por pessoas, como eu, não mediáticas. Cada um foi à sua vida. Pessoalmente, só voltei a ter ação política no MDP, quando ele se libertou da tutela comunista. Um grande abraço, José Tengarrinha!

Depois, segunda fase, foi o movimento após o golpe da URSS, de 1991. Viu-se o que deu. Tenho dificuldade pessoal em escrever resumidamente sobre isto - daria um livro - porque, em nome da comissão política do MDP, tive numerosas reuniões com toda esta gente, e tenho memória de elefante (por isto, aqui fica, dessa experiência, a minha homenagem a José Barros Moura, e não digo mais). Reuniões com Pina Moura, Barros Moura, Judas, Mário Lino, outros. Muitos passaram para o PS, estão hoje bem instalados. Outro grupo, liderado por Miguel Portas, desafiou-nos a comprar o MDP e ganharam. Contra o meu voto, mas que seria diferente hoje, depois de tudo o que aprendi. Fizeram a Política XXI, entraram no BE. Levaram uma máquina eficaz e um bom património financeiro. Sem isto não se faz um partido e escreverei mais tarde sobre isto.

Pertence a este grupo (P XXI) o candidato a liderança ou co-liderança, João Semedo. Conheço-o mal, de velhos tempos, mas é um homem que me parece ter uma forte afetividade sincera (médico do meu tempo!…), uma sensatez política, uma saúde de carácter e uma honestidade intelectual que me auguram uma era BE radicalmente pós-Louçã. Seja ou não ele acompanhado por uma jovem que não conheço, espero que eficiente em termos de imagem. O português eleitor não vota em matronas como a Merkel (ia falar de uma matrona local, mas cala-te boca!).

Outras cisões posteriores, mais ou menos ignotas, descredibilizadas pelo seu carácter de coisas tardias e com sentido gasto, não deram nada, a não ser um movimento, talvez mais um grupo de amigos, também meus, por quem tenho muita simpatia pessoal, a “Renovação Comunista”.

Mas será que tudo isto é relevante para um conflito PCP-BE? Sim, até por razões paroquiais. No movimento comunista, as discussões ideológicas sempre foram muito importantes, entre estalinistas e trotsquistas (o que até meteu assassinatos com picador de gelo), entre moscovistas e maoistas, depois também com eurocomunistas. Faz parte da sua cultura. Eu, então comunista, sei como fui criticado por ter ido a tribunal plenário defender um amigo maoista.

Depois, na prática, porque ambos competem por um eleitorado militante, convicto, não a massa flutuante, centrista, do eleitorado do PS. Pior, tentam atrair eleitorados diferentes nesse conjunto largo de esquerda consequente. O PCP ancorado no operariado e funcionalismo tradicional, o BE nas camadas mais jovens, mais abertas a novas causas.

Dito tudo isto, algumas conclusões.

1. Só uma revolução é que obrigará os partidos a uma inflexão - até muito dolorosa para eles - no sentido da unidade. Não virá a tempo para as próximas eleições, principalmente se antecipadas para curto prazo.

2. Esta situação só será influenciada pela dinâmica da movimentação política não convencional. Os partidos têm uma fortíssima cultura de sobrevivência. A rua, os movimentos sociais - critique-se ou não alguma infantilidade ou tolice de alguns, até a sua permeação a provocadores - vão condicioná-los, a menos que já tenham entrado em demência de situação estabelecida.

3. Mas também é verdade que ainda milhões de eleitores não compreendem a dialética do processo histórico, querem uma alternativa a curto prazo. Muitos votaram antes no PS, depois no PSD e, nas próximas eleições, perguntam-se sobre o que é diferente ter votado Sócrates, depois Passos Coelho, agora Seguro.

4. Poucos poderão considerar mudar o seu voto centrão para a esquerda radical. Veem-na como simples contestação, não como uma alternativa de poder. Ainda por cima, dividida. Sem propostas claras. Com propaganda acalorada que irrita o homem comum e o deixa perplexo com a ideia de afinal estar a ser manipulado por todos. 

5. Não há solução política que não pense muito a sério no Zé Povinho. Ele não é só o eleitor. É também aquele homem estranho que se acomoda, que se verga, mas que também faz patuleias.

6. Há todo um movimento convergente de rua, de iniciativas dispersas, de algumas com muito impacto. Mas como traduzir isto, em tempo adequado, numa oferta imediata de alternativa eleitoral? Honestamente, não tenho resposta para isto.

NOTA - Disse no início que esta entrada não tinha a ver diretamente com o CDA. É verdade que eu e muitos tentámos evitar nas nossas intervenções a discussão das divergências de esquerda, que podia inquinar o espírito de abertura do congresso. Mas também é verdade que alguns jovens salutarmente intempestivos resolveram ir dizer coisas verdadeiras, agarrando os bois pelos cornos. Deu-me gozo. Bem hajam!

O Congresso Democrático das Alternativas (II)

Como ligação à entrada anterior, parece-me que o que melhor resulta é a preocupação que manifestei na sessão plenária, de intervenções dos congressistas. Não a tinha escrito e tive de me restringir aos 3 minutos disponíveis, mas creio que, pelas minhas notas, o que se segue traduz fielmente o que disse, acrescentado com algum desenvolvimento que não tive tempo para fazer.
Receio que o entusiasmo que estamos a partilhar não tenha em conta um problema importante, de contradição de dinâmicas e tempos, como se diria hoje “uma questão de timing”. 
Vamos votar um documento que julgo histórico, mas que é ponto de partida, abrindo caminho para um processo a prazo, de aprofundamento de discussão, esclarecimento da opinião pública, procura de convergências, tudo em sintonia - e em alimentação mútua - com a tomada de consciência de centenas de milhares de pessoas que estão a protestar na rua. 
Nesta incerteza, é acertado que o CDA não se comprometa com soluções políticas imediatas, no quadro convencional. Isto dificultaria a unidade, que só se poderá fazer, com o seu devido tempo, no debate das posições que, neste congresso e por aí fora, forem reunindo apoios. 
Por outro lado, as tais centenas de milhares de manifestantes, que não estão aqui, e principalmente milhões de eleitores, querem alternativas credíveis e eficazes a curto prazo e principalmente no campo político que sentem, e bem, ainda ser o determinante, o eleitoral. 
O documento que vamos votar reflete esta contradição. “Reclama que os portugueses e as portuguesas sejam ouvidos em sufrágio antecipado e defende que desse sufrágio pode [JVC - sublinhado meu numa palavra tão vaga e incerta]  resultar a alternativa (…)”. 
Compreendo que o CDA não podia deixar de ecoar o grito geral de “governo para a rua”, mas cai em terreno minado. Não sendo obviamente momento de comprometer o essencial do CDA com propostas de formação de partidos ou coisas do género (por muito que eu as defenda), a posição anterior, que citei, só se traduz, no documento, numa vaga proposta de promoção do diálogo com as forças políticas para convergência na ação e na criação de alternativas. 
Sabe a muito pouco, sabe a refeição imaginária do Peter Pan. Mesmo em relação a posições claras deste congresso, há divergências insanáveis, no prazo do calendário eleitoral, entre os partidos de esquerda.  
O PS está refém dos compromissos que assinou com a troika e não se destaca do essencial da política neoliberal que a terceira via blairista da sua internacional ajudou a criar, embora se apresente hoje, cosmeticamente, como adversário dos exageros fanáticos do governo, que para isto lhe dá pretexto, mas não da necessidade do memorando da troika que este congresso claramente rejeita. 
O BE tem uma posição ambígua, com adoção muito recente mas não muito clara de duas propostas firmes do CDA, a denúncia do acordo com a troika e a renegociação da dívida. Mas não tem um plano operacional e, principalmente, recusa a inclusão nesse plano da provavelmente inevitável saída do euro, no decorrer deste processo. 
O PCP tem uma posição mais avançada e aparentemente mais aberta às posições do CDA, embora não formulada em plano concreto, mas é sintomático que nem sequer tenha aceitado fazer-se representar protocolarmente. E uma aliança entre PCP e PS só com anestesia geral a fazer esquecer décadas de ódio mútuo. 
Dito tudo isto, e não tendo propostas para resolver essa contradição que referi logo de início, espero que o tempo e a dinâmica autónoma do CDA, assim como a firmeza e clareza das suas posições, não fiquem condicionadas nesta situação contraditória por agendas políticas alheias, a curto prazo, e por objetivos irrealistas. 
Não fui muito aplaudido, não fiz vibrar a corda do protesto e da indignação… Mas deve ter havido quem tenha entendido o recado.

O Congresso Democrático das Alternativas (I)

O meu dia de hoje foi provavelmente o melhor 5 de outubro da minha vida. Aquelas velhas e revelhas comemorações do meu tempo, de velhotes do reviralho de avental, não me diziam nada. O meu dia de hoje, na melhor companhia de alma gémea, foi passado no Congresso Democrático das Alternativas (CDA). 

Antes do mais, antes da discussão e das críticas, deixo claro que, para mim, foi um acontecimento notável, que só tem paralelo no Congresso da Oposição, em Aveiro, 1973 (felizmente, fora a polícia).

Já há tempos que tinha alertado, como se vê na barra lateral. Pareceu-me desde o início que tinha condições de sucesso como nenhuma outra iniciativa anterior em que tenho participado, com a frustração repetida do insucesso. Um bom manifesto, duas grandes bandeiras que defendo aqui desde há mais de um ano - denúncia do memorando da troika e reestruturação da dívida -, promotores de impacto mediático e influência política, boa adesão pública e, muito notoriamente, por sorte, potencialização pelo protesto nas ruas desde 15 de setembro. Por tudo isto, não sendo dos promotores iniciais, subscrevi logo na primeira vaga dos apoiantes. 

Também por isto, suspendi, até ver o que isto dava, a minha campanha a favor da necessidade de criação de um novo partido. Há muitas maneiras de fazer as coisas, coisas direitas que podem ser escritas por linhas tortas, sem que Deus seja para aqui chamado.

Nos próximos dias, tanto quanto me permitir uma tarefa profissional extremamente exigente, vou escrever bastante sobre este CDA. Que mais não seja, foi coisa apoiada por mais de 4000 pessoas e com quase 2000 participantes registados, a não caberem na aula magna da Universidade de Lisboa. Vou dar depois conta de preocupações que manifestei, também do que de mais importante me parece ter acontecido.

Entretanto, hoje, começo por um prolegómeno suscitado por uma entrada do meu muito caro amigo mcr no Incursões: “Os ‘estados gerais’ do Bloco começaram como se previa. Pouca gente, poucas ideias e, até... pouco ruído. Alternativa ou alternadeira?”

Pouca gente não, de forma alguma, como escrevi. Aula magna a abarrotar. Poucas ideias, conforme. Boas ideias nos documentos que talvez o meu querido amigo não tenha lido com cuidado, discussões ricas e com ideias nas sessões temáticas paralelas. Depois, era inevitável, todo um tom geral comicieiro na sessão plenária, provavelmente o que ele viu em reportagens televisivas que o induziram em erro. É que as pessoas neste momento põem as emoções adiante das ideias, é natural. Alternativa ou alternadeira? O futuro dirá.

Importante é a alusão do mcr aos "estados gerais do BE". Tem e não tem razão. Começo por lhe lembrar que ele e eu estivemos nos EG do PS de Guterres e que sabemos muito bem o que são “estados gerais”. Ele me dirá que sabíamos ao que íamos, era coisa transparente, aceitámos as regras do jogo, que depois até nos defraudaram. Sobre essa experiência passada, creio que nunca discordamos.

Este caso é diferente. Dou-lhe razão antecipadamente se ele me disser que, por menos transparente, é mais perigoso. Mas, por outro lado, penso que, na prática, menos eficaz, para o BE, como seus EG. Porque coisa mais tosca, gato escondido com rabo de fora é truque que já toda a gente vê. É verdade indiscutível que o BE colocou no CDA toda a sua tropa. Os dirigentes do BE estiveram sempre lá em evidência. Alguns quadros do BE, como direi depois, abusaram claramente da sua posição. Mas a evidência demasiada vira-se contra o feiticeiro, previne os outros, como bem ouvi a participantes de olhos abertos. Entre gula e comer elegantemente vai toda uma diferença. E isto sem que eu saiba o que eram todos os bloquistas no contexto das suas lutas internas.

Há muita gente que não é politicamente infantil. Aliás, creio que o BE ficou longe de fazer traduzir na declaração do CDA as suas posições, não obstante algumas cedências evidentes em virtude do desejo de unidade da organização. É verdade que, no seu recente mimetismo com a sua nova deusa grega inspiradora, a Syriza, adotou agora, coladas a cuspo, duas teses, a denúncia do memorando da troika e a reestruturação da dívida, que sempre apresentou de forma extremamente ambígua, como demonstrei atempadamente. 

Em contrapartida, e como a sua Syriza, o BE é, de nascença (distanciamento freudiano do PCP?), eurofílico - ou euro-otimista, ou euro-entusiasta, cada um escolha o que preferir - e apavora-se com a saída do euro, que até o “proposta modesta” Varoufakis finalmente já admite. Nisto, perdeu posição no CDA, que, prudentemente, não forçou, sem discussão a fazer-se, a saída do euro mas a aceitou explicitamente como hipótese de trabalho. Grande avanço! Depois escreverei sobre isto. 

Teve o BE presença muito visível no CDA? É verdade, até mandaria a boa tática política que tivesse sido menos sôfrego. Mas, ao contrário dos EG do PS, coisa caseira entre eles e amigos, mesmo que só de passagem como mcr e eu, aqui a porta estava aberta a todos. Se os outros não quiseram, não se queixem.

Também não faço a injustiça a todos os independentes que estão no centro da convocatória e da organização do CDA de pensar que se deixam controlar. No entanto, lá que há bruxas, há. E eu tive muita experiência - confesso-o humildemente - de lidar partidariamente com iniciativas unitárias. Por isto, também tenho nariz para cheirar as coisas. Verei no caso do CDA alguns testes, desde logo a discussão daquilo que é pedra de toque do BE, a eurofilia utópica e a inaceitabilidade sequer da hipótese de saída do euro, “uma desgraça”, como já escreveu Louçã. Depois falaremos.

Mesmo assim, eu alertei, dizem-me que de forma demasiadamente racional para um público emotivo perceber, para os riscos de tentativa de controlo. Se ele acontecer, claro que não contam mais comigo.

Continua…

NOTA - Não sei se sabem que Peixinho escreveu uma belíssima peça, em 1969, em homenagem à CDE. Quem está familiarizado com música sabe que, nos países do norte da Europa, não se usa a notação Do-Re-Mi mas sim A, B, C, etc. A é o La. A peça CDE de Peixinho é baseada em Do-Re-Mi (C-D-E). Havia algum compositor hoje no CDA que faça uma peça baseada em Do-Re-La?