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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O ódio como razão política

Declaração prévia – Pessoalmente, não gosto de Sócrates, não votei nele mas sim em branco. Acho que tem defeitos de carácter que o diminuíram politicamente. Mas as minhas análises políticas não dependem das minhas simpatias ou antipatias. Esforço-me por ser racional e justo.

As entrevistas de Sócrates, ao Expresso e à TSF, mostraram-me um homem mais amadurecido, que estudou e que se soube distanciar com alguma sabedoria daquilo que é risco conhecido de todos os vencidos – vae victis! –  o de serem massacrados sem possibilidade de defesa pelos seus substitutos mesquinhos. Quanto ao tema do seu regresso, o da tortura que trabalhou em livro, não rejeito qualquer das suas teses.

Conversámos muito sobre isto cá em casa, fazendo um exercício de advogado do diabo de toda a gente que anda embarcada no ódio a Sócrates – e começo logo por dizer que, por mais críticas políticas que faça, nunca me movo por ódio, mau conselheiro – e apeteceu-me escrever um “post”. Fá-lo-ia mais aprofundadamente se Daniel Oliveira (DO) não se tivesse antecipado, no Arrastão. Mesmo assim, creio que vale a pena algumas notas, ou de comentário ao que DO escreveu ou ao que não escreveu.

O ódio a Sócrates é talvez, entre nós, com algum afloramento prenunciador na queda em desgraça de Cavaco, o primeiro exemplo flagrante da atitude primária do eleitorado, incapaz de analisar objectivamente as políticas e, por outro lado, alienado pela ineficácia do sistema da ajuda de intermediários que o ajudariam nessa análise, bem como da desqualificação da comunicação social. Não se discute a política, discute-se o homem, com a política transformada em circo. Destroem-se as reputações e o homem da rua vai atrás, porque onde há fumo há fogo. A democracia transformou-se em demagogia.

Sou da geração que foi confrontada com o problema da tecnicidade da decisão política (lembram-se do Clube de Roma?), com a emergência da tecnocracia a dominar a política e a concepção tradicional da democracia representativa e baseada no poder, directo ou delegado, dos cidadãos, nunca diminuído por limitações de conhecimento técnico. A princípio, na segunda metade dos anos 60 (embora já antes influenciando a deriva social-democrata baseada na “evolução” do capitalismo), a questão era ainda relativamente teórica, embora com a afirmação política de quadros tecnocratas (veja-se, na nossa península, os Opus Dei em Espanha e os jovens marcelistas em Portugal, com um Salgueiro ainda a ser venerado por toda a comunicação social).

Hoje, isto não basta, em boa parte porque o 25 de Abril pôs tudo isto em questão e porque, décadas depois, temos uma boa plêiade de novos pensadores e economias que estão a repensar a economia política, numa perspectiva de esquerda. Referência obrigatória, com forte aplauso, para o Ladrões de bicicletas. A direita já não pode confiar em que a sua tecnocracia funcione sem sobressaltos, em que as pessoas não se questionem. É preciso formatarem as mentes, as opiniões, as vontades. Aprenderam Marx e Gramsci, em seu proveito. 

Para isto, dispõem da comunicação social e das universidades, como instrumentos principais. E tudo visando a construção mental, nas pessoas passivas – quantos idosos bebem horas e horas a televisão? – de ideias desonestamente prefabricadas. A televisão é a sua amiga e companheira, na sua solidão, é uma máquina de 1984. O que a televisão diz é a opinião que assimilam, sem necessidade de esforço crítico. Mas também o mesmo se pode dizer dos activos, que não deixam de ser vulneráveis a outros meios de informação, principalmente quando tudo se filtra, no caso dos jovens quadros gestores e outros, pelo enquadramento em que foram moldados pela ideologia neoliberal dominante nas escolas com nome inglês ou na esperança do MBA.

Não há qualquer pudor em falsificar a verdade. Comecemos por isto, em relação a Sócrates. Quem é que, no público amorfo, foi confirmar a informação insistente do governo, de que Sócrates foi o responsável pela actual situação? Pelo défice orçamental e consequente aumento da dívida pública? Pela diminuição do PIB? 

A percentagem da dívida pública em relação ao PIB estabilizou à volta dos 50% a meados dos anos 90 (governos Cavaco). Depois, foi crescendo progressivamente, mas de forma contínua, até 2008 (governo Sócrates), a nível de cerca de 70%. Não há qualquer variação brusca que possa indicar uma responsabilidade particular de um governo – Guterres, Barroso, Santana Lopes, Sócrates. A subida exponencial de 69% em 2008 para quase 130% previstos para 2013, é durante a crise europeia e, nos últimos dois anos, com o actual governo (subida de 102% para 130%). Subida de quase 20%, tanto como nos 20 anos anteriores. Saliente-se que o endividamento em 2008, no início da crise, se deve principalmente à política keynesiana de investimento contracíclico recomendada pela UE e seguida pela generalidade dos países da zona euro, que a Sra Merkel contrariou desde logo e que conseguiu inverter, com as consequências que se vêem.

Também a propaganda do governo, assassinando Sócrates em carácter político, é desonesta no que se refere à evolução do PIB. Houve um primeiro ciclo de descida do PIB, entre 2000 e 2003, mas que corresponde ao segundo governo Guterres. No entanto, lembre-se que é incorrecto relacionar num tempo curto a evolução do PIB com a política. Em 2003 há uma primeira queda, de cerca de 1%, e a seguir um ciclo de quatro anos com pequenos aumentos de cerca de 1,5% ao ano. Em 2009 inicia-se o actual ciclo recessivo, com interrupção em 2010. Não é fácil demonstrar que isto, consequência da crise europeia, tenha a ver, directamente, com a governação de Sócrates.

Mas isto também serve para outra coisa, por parte da direita. Culpabilizar Sócrates é muito bom mas ainda melhor se ao mesmo tempo se fizer esquecer outras culpas. As séries temporais que referi datam de 2000 ou 2002. A data é importante, é a da nossa adesão ao euro. Teve coisas que o homem comum, o tal que a TV e os seus opinadores massacram, desconhecem. O escudo converteu-se em euro com sobrevalorização artificial, o que desde logo diminuiu a competitividade da nossa economia. Deixámos de controlar uma moeda própria e de nos ajustarmos às pressões da competitividade. Deixámos de poder usar a paridade, as taxas de juro, a inflação. Passámos a ter taxas de juro muito baixas, com grande afluxo de capitais dos “países centrais” e grande endividamento (muito mais significativo do que a dívida pública). Os bancos passaram a ter muito maior liquidez e a fazer um enorme marketing a favor do endividamento dos particulares. 

Com a crise e o seu momento trágico de meados de 20011, tudo se esboroou. Os bancos alemães e franceses retiraram os capitais investidos, o BCE secou os bancos dos países periféricos, entrou-se em falta de liquidez. Então, como sabemos agora por Sócrates – sem desmentido – Passos Coelho traiu-o, Teixeira dos Santos praticamente também (mas porque foi sempre mantido como ministro?), os bancos chantagearam-no. E o “animal feroz” cedeu! Nestas alturas é que se vê o homem, que se devia ter demitido sem a cedência do resgate.  

Dito tudo isto, o que é que derrotou Sócrates? Não a política, mas o homem. As eleições cada vez mais se decidem pelo “pão e circo”, pela imagem feita por profissionais e não pelas propostas sinceras – e quem as faz?. E é patente que os rótulos são fabricados por massacre comunicacional, não por argumentos sérios. Sócrates é mentiroso. Em quê? Nas promessas eleitorais que todos fazem? Sócrates é ladrão. Mas os “trabalhos jornalísticos” que o condenaram levaram a alguma coisa daquilo que só aceito como sentença, a dos tribunais? Sócrates é leviano, como se vê no caso da licenciatura. É verdade, foi pouco rigoroso embora sem nenhuma ilegalidade (a história da nota ao domingo é total parvoíce), como já tinha sido no caso das casas da Beira. São erros, coisa pior do que crimes, e que em política se pagam caro, dizia Talleyrand.

Simplesmente, quando estava em jogo a escolha de um governo que iria ser responsável por quatro anos de negociação com a troika e de aplicação das suas ordens ao protectorado, como é possível que tantos milhares de eleitores do PS tenham ido votar no PSD? Foi ignorância? Se foi, é a democracia representativa que tem de ser repensada? Mas como se seleccionariam os “esclarecidos”? Ou como um poder popular revolucionário pode promover o esclarecimento dos eleitores? O mesmo em relação ao voto hoje determinado pela emotividade, pela manipulação dos sentimentos, pela simpatia de tipo telenovela. Pode-se mudar, com leis de controlo revolucionário dos aparelhos políticos propagandísticos e da comunicação social.

Por tudo isto, e por conversas avulsas com gente comum, verifico que muito tipicamente os actuais detractores de Sócrates são antigos votantes do PS que, em 2011, aborrecidos com aspectos não directamente políticos do homem (não digo que não importantes: a arrogância, a agressividade de discurso, o ar altivo), votaram no PSD. Como se sabe, foram muitos. 

Portaram-se infantilmente, em relação a tudo o que estava em jogo. Votaram porque não gostavam dele, assim como não se gosta de uma estrela do ecrã. Hoje estão arrependidos mas não confessam. Preferem arranjar desculpas, que Sócrates é que teve toda a culpa da crise e que por isso votaram bem, mesmo que admitindo que Passos ainda é pior. O problema é que, presos neste jogo, só têm para a próxima uma saída fácil, mas má para a democracias: a abstenção.

Concluindo, não gosto de Sócrates, mas não me verão a pontapear o animal derrotado e sem forças.

NOTA – É claro que poderia ter havido outro cenário, na selecções de 2011: o de o PS ter aparecido com outro líder. Precisava de legitimidade partidária? Havia tempo para isso? Não sei, mas creio que não foi esse o factor principal, antes a dependência do aparelho carreirista em relação ao chefe.

domingo, 5 de junho de 2011

O PS vai acordar?

Pode um homem de esquerda, como eu, deixar de ficar triste por a direita pura e dura ter ganho as eleições e ir formar governo? É coisa complicada que não se compadece com o que se vai ouvir do PS oficial, que a esquerda radical traiu, fez o jogo da direita, provocou eleições que deram a maioria ao PSD com o CDS. Em primeiro lugar, a esquerda radical traiu quem? Traiu a esquerda em sentido amplo? O PS de Sócrates fazia parte dessa esquerda, em atos que não só palavras (e até nem sequer em palavras, a menos que bastasse falar em estado social para ser esquerda)? A esquerda radical e os seus eleitores como eu traíram a possibilidade de uma política menos neoliberal, menos obediente ao colonialismo troikista, como se alguém imaginasse que o PS de Sócrates seria essa possibilidade?
Não considero dramática a vitória do PSD-CDS, porque também vejo nela alguns aspetos secundários não inteiramente negativos. Claro que não deixo de ficar alerta para o maior risco desta maioria mais facilmente fazer com a “troika” festa de mal e caramunha. Mas sou realista e vejo que quase 80% dos eleitores votaram na “troika” interna que reflete a “troika” externa. Nada se fará sem parte considerável desta gente começar a sentir o que significa este seu encarreiramento na via do resgate que os vai empobrecer. Assim, não sendo adepto incondicional do quanto pior melhor, aceito suficientemente a dialética para pensar que, por vezes, uma agudização consentida (isto é, pelos adversários) da opressão pode criar mais rapidamente condições de luta.   
Não posso falar da derrota do PS sem a ligar à retirada de Sócrates. Só decidi escrever esta nota depois de o ouvir dizer que saía, preto no branco. Até lá, por mais inconcebível que fosse ele não se demitir, fiquei reservado, porque o homem já nos habituou a tudo. E daí vem a primeira nota sobre a minha “satisfação” (relativa, entenda-se) com estes resultados. Resolveu-se um problema de sanidade pública, abriu-se um abcesso que estava a causar danos à própria democracia, com muita gente a detestar a figura de Sócrates mas refletindo esse quase ódio num desgosto com todos os políticos, pior, com a democracia. Portugal vai ficar menos envergonhado por não ter de se rever, como imagem exterior do país nas esferas de governo, em tão incrível figura.
Mais importante, a substituição de Sócrates abre a porta a um acordar do PS. Pelo menos teoricamente. Naquilo que, nos próximos tempos, é o centro da luta política, a recusa da sujeição aos ditames externos, qualquer participação do PS, mesmo de militantes avulsos, era impossível. Não digo que agora, milagrosamente, vá ser possível mas, teoricamente, é hipótese menos fantasista. Pode-se contar mais, mesmo que minimamente, com um PS na oposição e sem Sócrates do que com o que era o PS até esta noite. O mesmo em relação à possibilidade de lutas conjuntas da CGTP e da UGT.
Nos próximos tempos, sem desprimor para a ação parlamentar, a luta estará cada vez mais na rua. Até agora, ninguém viu os anónimos PS, anestesiados. Vamos vê-los agora? Por mim, espero vê-los e dar-lhes fraternalmente o braço.
NOTA 1 - No entanto, o episódio caricato e incrivelmente inepto da declaração de Seguro não augura nada de bom. Não me lembro de algum exemplo tão falante da fábula do coice do burro no leão moribundo. Admito que, se fosse adepto de Sócrates, estaria chocado. O homem não podia ter contido a sua sofreguidão e ter deixado a noite de hoje para o luto dos seus camaradas socráticos? Vai haver ódios ferozes no PS, nesta renovação de liderança.

NOTA 2 - E Louçã?

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Jogos de palavras (II)

Vou continuar a entrada anterior, agora em notas soltas.
1. Disse que a argumentação do tal comentador foi logo seguida por ouvintes. Não quero fazer processos de intenção, mas achei estranho, duvidando da argúcia de quem em casa tão facilmente se apercebeu daquela minúcia terminológica. Será que vai aparecer cada vez mais na propaganda eleitoral da máquina socrática e que foi hoje ensaiada por ouvintes que sabemos serem agentes nesse tipo de programas? Será que, quando Sócrates tiver de renegociar, obrigado pelos factos, pelos receios de "default" por parte dos credores ou até pelos seus parceiros/chefes europeus, vai dizer que não está a reestruturar, está é a renegociar? Habilidades destas da sua parte bem as conhecemos. A única coisa que me impede de aderir a esta tese é custar-me muito pensar que o tal comentador tenha feito este frete.
2. Mas também porque é que, a partir de certo ponto do debate e hoje todo o dia, na apresentação do programa do BE, Louçã só usa o termo renegociar? Já vimos que são totalmente equivalentes. Mas porquê começar a usar agora este termo, que, tendo eu “googlado”, não encontrei na discussão política e económica em Portugal e em português, até hoje? Também o BE com habilidades de esconder o gato com o rabo de fora, tapando-o com palavras? Ou por pensar que é melhor compreendido pelo homem comum? Veja-se abaixo o ponto 4.
3. Até porque estas coisas acabam por falhar. Por coincidência, ouço agora no noticiário dizer-se “o resgate”. Parece que já não pega “a ajuda externa”.
4. Ou está a tentar insinuar-se na cabeça das pessoas menos informadas que os dois termos apontam para as duas modalidades ou visões da reestruturação, “conduzida pelos devedores” e “conduzida pelos credores”? Não me custa nada a crer que seja esta a ideia ainda reservada do gabinete de manipulação socrático, mas então o BE corre riscos em insistir, como hoje, na designação de “renegociação”.
5. Será tudo isto bizantinice minha, preocupação formalista com palavras? Lembrem-se, a política sempre foi feita com palavras!
6. Coisa à margem, mas notável. Louçã apontou para uma coisa bizarra. Não fosse o esforço de um blogue, ainda hoje só quem sabe inglês é que podia conhecer o MoU (para usar a sigla inglesa!) mais conhecido como acordo com a troika. É vergonhoso, indigno, mas também revelador do desprezo pelos cidadãos, que o governo não tivesse feito uma versão oficial em português - aliás, contra todas as normas das relações diplomáticas. Mas também isto leva a dar algum desconto a Sócrates. Coitado, as suas contradições devem-se apenas à incapacidade de ler o memorando com a sua habilitação de inglês técnico da defunta Independente.

Jogos de palavras (I)

Este blogue renascido começou com uma entrada em que escrevi o seguinte: “um enorme desafio à esquerda, que entre nós - veja-se o tom do debate presidencial - continua a ter um discurso tradicional. Veja-se a quantidade de gente do meu tempo que anda a escrever posts em blogues no mais velho estilo de política retórica. Ainda não perceberam que hoje o discurso político domina bem a economia política ou não tem credibilidade contra esse horroroso emprenhamento pelos ouvidos que os "economistas" de serviço estão a fazer?”. 
Faz-me impressão ler nestes dias autores políticos que muito considero, com quem muitas vezes tenho velhas afinidades e solidariedades, mas que se deixaram ficar para trás, no disse-que-disse, mentiu ou não mentiu, na análise exaustiva dos truques partidários, das tricas entre produtos da mediocridade partidária. Tendo a chamar a isso “política impressionista”, dominada por uma visão de ideologia abstrata. É jogar no sistema, mesmo que criticamente. E é esquecer que hoje, “it is the economy, stupid!”.
Mas isto tem riscos, porque a economia é “ciência” (agora não tenho tempo para justificar as aspas, com a minha visão de cientista de toda a vida) complexa e difícil de dominar. Sapateiro a subir acima da chinela é coisa horrorosa, mas quem, como eu, quer olhar para a política como cidadão tem de se arriscar a juízos de amador sobre a economia. Mas é no fio da navalha e com sentido de modéstia, como não é o caso que hoje me impressionou. Mais uma vez, a incapacidade de resistir a um convite televisivo, de dizer como muitas vezes digo, “obrigado mas não vou, não é a minha área de conhecimento”. Sobre gripe ou BSE, por exemplo, falei frequentemente na TV, sim!
O debate entre Louçã e Sócrates foi hoje longamente comentado por um jornalista veterano, muito respeitável, generalista mas com maior interesse no jornalismo cultural. José Carlos de Vasconcelos, homem da minha geração, com formação jurídica tradicional. Disse coisas espantosas, depois glosadas por telespetadores que usaram ipsis verbis o seu discurso.
Para o comentador, uma diferença radical vista ontem entre Louçã e Sócrates é que o primeiro defende a reestruturação da dívida e o segundo defende a renegociação da dita. Espantoso, repito. Desde logo, nem sendo essencial, não é verdade que tenha havido essa diferença de terminologia. Cada um usou indiferentemente os dois termos. Se o comentador, antes de ir ao estúdio tivesse feito algum trabalho de casa (coisa de que pouco se cuida entre nós, porque ninguém precisa de refrescar a sua enorme cultura), teria dado logo, por exemplo e para me ficar pela imprensa, que não por tratados de economia, com uma passagem do glossário uma vez publicado pelo Jornal de Negócios, com total equivalência dos termos: 
“Reescalonamento, reestruturação, renegociação de dívida: É um processo com consequências semelhantes aos descritos no ponto anterior, mas ocorre ainda antes de os Estados chegarem ao "fim da linha". Os governos tomam a iniciativa de se sentarem à mesa com os credores, antes de entrarem em incumprimento. A História mostra que esta antecipação costuma ser premiada pelos investidores.”
Sócrates tinha dito que “reestruturar a dívida seria absolutamente trágico”. Que significava um calote aos credores, chamando a atenção para a vergonha que isto é para qualquer pessoa (esta de comparar economia do Estado com economia das famílias é velha lição salazarista…). O comentarista vai mais longe, apoiando Sócrates. Segundo ele pensa que Sócrates pensa, renegociar não é calote, reestruturar é que sim. Renegociar até se calhar vai ter de se fazer, mas reestruturar nunca, que teria alto preço e seria uma desonestidade, o tal calote. O nome da rosa! Isto é, sujar as calças com fezes evacuadas não é mau, feio é borrar-me nas calças.
“Até quando, TV, vais abusar da nossa paciência?”. Entre a unanimidade dos economistas de serviço à hegemonia neoliberal e a ignorância desinformadora de comentadores, venha o diabo e escolha.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Uma não-notícia

Um velhíssimo Diário de Notícias trazia uma notícia bizarra: “SS MM e AA passam bem de sua real saúde”. É uma não-notícia ridícula. “No news, good news”. Foi o que, abismado, ouvi ontem fazer Sócrates. Não veio anunciar o que estava no acordo com a santíssima trindade, veio dizer o que lá não estava. Veio dizer que não haja medo porque o leão não fugiu do circo; veio dizer que a família do Zé deve estar muito feliz e a abrir champanhe porque ele não morreu; não disse foi que o Zé está internado nos cuidados intensivos com um enfarte e mais um AVC.
Ainda há vinte anos, havia gente muito respeitável, inteligente, com dignidade, nos órgãos de debate e decisão política dos partidos. Hoje, os seus sucessores são figuras decorativas e para disfarçar a degradação do sistema político, neste tempo em que emergiu a geração Barroso (vá lá, mesmo assim…), Santana, Sócrates, Passos Coelho. A direção dos partidos depende de facto é dos luíses que dizem se Sócrates fica melhor olhando para um lado ou para outro, é dos abomináveis gabinetes de comunicação de mercenários que servem tudo e todos, como se a política fosse cinicamente puro negócio. É esta gente, mais quem lhes paga, que é responsável por agressões despudoradas, como ontem, à inteligência das pessoas.
Todavia, não se pense que uma não-notícia pode ficar-se por um truque propagandístico. Pode ser mentira, como neste caso. Fico-me como exemplo por uma negação essencial da comunicação do PM, hoje repetida à exaustão, em particular pelo cada vez mais visivelmente nº 2 do PS, embora personagem parda, Silva Pereira: “o acordo não é, essencialmente, mais gravoso do que o PEC 4”. E que, em 2011, não são necessárias mais medidas punitivas. É descarada mentira. Compare-se o PEC 4 e o já divulgado memorando de entendimento(o acordo que vai ser assinado amanhã, com data de ontem - curioso!).
Vamos ter “eleições” daqui a um mês. As aspas significam a falta de verdadeiro conteúdo democrático, de capacidade popular de escolha, dessas eleições, em que muito pouco fica de margem de manobra de decisão para o futuro parlamento e para o futuro governo, simples capatazes dos donos do resgate. Em boa parte por causa disto, para disfarçar, a santa trindade interna vai-nos massacrar com propaganda, demagogia, falsidades. 
Daqui a um ano ou dois, terão de ser responsabilizados por tudo o que mentirem. Até porque não se pode excluir que daqui a um ano ou dois não se esteja outra vez em eleições. A memória é curta. Não se esqueceu já que ainda há dois meses Sócrates jurava que nunca governaria “com o FMI”? E não está a concorrer novamente? Por isto, vou fazer, e aconselho, um exercício tradicional, “pro memoria”: um livro de recortes, hoje facilitado por simples gravação para o meu computador de tudo o que se vai noticiando “online”.
Volto a ontem. “Um bom acordo!”. Só num aspeto concordo: o acordo é muito mau, mas podia ser péssimo. Parece que já estamos tão baixo na nossa capacidade crítica e de reação que alguém se vangloria de a desgraça não ser tão desgraça como ainda mais fantasticamente poderia ser. Este dizer “um bom acordo” é tão obsceno como igual afirmação feita à saída de um avião, há 73 anos, agitando um papel, por uma triste figura regressada de Munique, de seu nome Chamberlain. 
Nota final - Com isto, mais uma vez adio a minha partilha de dúvidas sobre o que me atrai mas que não domino como problema económico, a reestruturação da dívida. Entretanto, vou recolhendo informação, como a do artigo de hoje de Luís Daniel Abreu, que me parece desapaixonado e que aborda um aspeto que não conheço bem, o do “short selling”, afinal uma nada bem intencionada pressão para a reestruturação. Será? Os economistas que discutam, esclarecendo os não especialistas. Afinal, é principalmente isto que eu desejo escrever um dia destes sobre este assunto. Que quero ser esclarecido, até porque, quanto a isto, vai ser muito decisivo para o meu voto. Parafraseando, às avessas, pequeno voto para um país, mas grande voto para mim.
(A imagem refere-se ao Barão de Münchausen, cujas aventuras li deliciado em miúdo. Lembram-se?)

P. S. (5.5.2011) - Não discuto se com ou sem razão, a "troika" disse agora claramente, na sua conferência de imprensa, que o PEC 4 teria sido insuficiente e que, por isto, fica muito aquém deste acordo. Fico a pensar que não disse asneira quando, sobre isto, acima, acusei o primeiro ministro de mentiroso. Como se tivesse sido só esta vez...

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Quem vai ganhar as eleições?

Quem vai ganhar as eleições? Sem dúvida, o partido FEEF/BCE/FMI. Mas pensemos agora nos seus “boys”, tal como se vê pela última sondagem Marktest. Lendo e analisando a ficha técnica, muito teria a dizer, mas, “ad usum lectori”, aceite-se que o empate técnico PS/PSD, com o PS até um pouco à frente, justifica conversa mesmo que sem rigor estatístico.
Eu não dizia? Nada me garantia que Sócrates (JS) fosse penalizado pela sua visceral aldrabice. É sabido que, em situações de crise, os eleitores se partem entre a revolta contra o governo aldrabão que conhecem e o medo do governo alternativo que desconhecem. Muitas vezes vão pelo seguro, e mais neste caso em que o mano jota Dupond coelhinho não é assim tão diferente do mano jota Dupont sapatilhas. Afinal, são ambos clientes Armani, são ambos aldrabões, são ambos cultural e intelectualmente medíocres. E quando o coelho só está a fazer asneiras, até de “nobrezas”, mesmo a mentir tanto como o outro Pinóquio, venha o diabo e escolha.
Deixo claro que tudo isto me é completamente indiferente. PS (desculpem lá, amigos PS da animação folclórica do partido), PSD e CDS vão a eleições sei lá com que diferença, porque o seu programa - comum! - está definido pela “troika” (raio de nome; sabem quando foi inventado, com base nos cavalos do carro russo tradicional? Coisa de má memória, Brejnev-Kossiguin-Podgorny).
No entanto, não me é indiferente em termos de analista, de tipo espertalhaço que gosta de brincar com cenários. Esta última sondagem põe o PS ligeiramente à frente, embora com empate técnico e com 36% de indecisos. Mas o simples facto de estar PS/JS à frente tem efeitos futuros, de mobilização partidária e de atração dos eleitores, daqueles que gostam de, na noite das eleições, dizerem à Maria “tás a ver, sou esperto, ganharam aqueles em que votei”. Quanta gente vota principalmente em função das sondagens, porque querem estar no clube ganhador, psicologia de futebol? Dizerem ufanos aos amigos, no dia seguinte, “é pá, ganhou o partido em que eu votei”.
É inteiramente razoável prever que o PS pode ganhar. Se o PS ganhar, este PS saído de congresso norte-coreano, com um Sócrates execrado por toda a gente e inaceitável como parceiro pelo PSD e pelo CDS, abre-se uma crise política inimaginável, como já discuti. Será o PR a forçar uma coligação tripla. Serão todos os "manifestistas” bem pensantes a exigi-lo. Virão também na procissão Merkel, Juncker, Trichet, depois os nossos banqueiros. Serão as agências de “rating” e os grandes especuladores sobre a dívida a darem logo sinal.
Como o PR não pode dissolver novamente a AR recém-eleita, convida JS a formar governo. Pode ser que ele o consiga, porque este país é louco. Provavelmente não consegue e Cavaco indigita o PSD, que também não consegue, e a seguir um seu fiel (Manuela, Catroga). Com toda a pressão sobre os partidos, com os homens da pasta preta a dizerem "Manuela, Catroga", eles até amocham. É a tal magistratura ativa a começar. Passamos a ter um presidente-rei (à Sidónio) com um governo tecnocrata de estrangeiros cinzentos, a manejarem marionetes caseiras mais coloridamente folclóricas, Arlequim, Polichinelo e, claro, para disfarçar, Ferrabrás. Os militantes socialistas, que votaram a noventas por cento em Sócrates, que berraram no congresso que estavam com o querido líder, não percebem em que buraco meteram o seu partido e o país?
Finalmente, uma nota sobre os dados desta sondagem em relação aos partidos do “não”. O PCP cresce, a nível de empate como terceiro partido. O Bloco desce 2%, é quase tão penalizado como o PS. Ninguém pensa que o PCP tem um programa eficaz para a saída da crise, mas “o partido” (é importante lembrarmos esta referência que vem de trás, para comunistas ou não, “o partido”) aguenta-se sempre, porque ninguém o acusa de aldrabice, de malabarismo político, de contorcionismo. São o que são, lamentavelmente, mas são honestamente o que são, coisa de que ninguém está bem certo em relação ao BE.

domingo, 17 de abril de 2011

Uma questão de saúde pública

Não vou sujar este espaço escrevendo sobre Fernando Nobre. Nada nele, desde há meses, mais desde há dias, muito mais desde há uma hora (entrevista na RTP) me faz apetecer escrever sobre tal desviante da mínima normalidade ética. É um caso médico-psicológico individual de interesse, mas não se fica pelo individual, academicamente interessante. É uma questão de saúde pública. 

Este país é pequeno, “soturno, melancólico, a despertar desejo absurdo de sofrer”; este pequeno país a fazer sentir um ocidental, país pequeno que nem um bairro, “um bairro onde miam gatas / e o peixe podre gera os focos de infecção!”
Saneamento básico desta enorme cloaca máxima que é esta gente indigna, precisa-se urgentemente. Eu, que sempre achei Guerra Junqueiro bastante ridículo, ou pelo menos definitivamente datado, começo a gostar de reler a Pátria.
“Demitam todos os políticos, já!”. Disparate perigoso, a alimentar todos os fascismos, ou, se não quiserem ir tão longe, todos os populismos objetivamente antidemocráticos. Tenho medo disto que ouço por todo o lado, mas não posso enfiar a cabeça na areia. O grito ouve-se. E, se acredito bem no papel revolucionário - isto é, de avanço da história - do povo na rua, se acho que ele não acabou em Paris de 1870, mesmo falhando depois em 1968 em Paris e em Praga, também sei que o povo na rua vai sabe-se lá para onde. 
Há dias, escrevia-me um amigo uma coisa lapidarmente simples: “a principal diferença, nesta Europa de hoje, nem é a ideologia maioritária de direita, nem a hegemonia da visão económica neoliberal. É principalmente que a geração dos grandes políticos de há vinte anos, concorde-se ou não com as suas posições, deu lugar a uma geração de arrivistas incultos. Vê só a diferença entre Delors e Barroso”.
E, com isto, vem-me à cabeça outra coisa importante. É que atrás desta gente até houve, por vezes, pessoas de qualidade que se deixaram encantar pela “eficácia” dos jotinhas malandros para lhes porem em prática as ideias. Sempre houve esta veleidade de pensadores respeitáveis. Por exemplo, não concordo muito com Anthony Giddens, mas reconheço-lhe qualidade e gosto pelo desafio de novas ideias, li com prazer crítico "A Terceira Via", anotei-o à margem, coisa que só faço parcimoniosamente. Imperdoável é que tenha sido o sustentáculo do maior e primeiro exemplo, detestável, desta nova geração de políticos Armani e telepontísticos, “ó Luís, como é que fico melhor?”. Quem? Claro que Tony Blair.
E há algum Giddens atrás de Sócrates? Se calhar, até era bom que houvesse. Mas o PS secado por Sócrates nem sequer um pensador permite. O mais académico dos socráticos, Santos Silva, degrada a imagem do professor, virando trauliteiro, José Agostinho de Macedo reincarnado (não sei é se igualmente anti-maçon...). Mais, nestes tempos de blogosfera, nem sequer um blogue PS que se leia sem desgosto.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Gato por lebre, ou um artigo a encher a net

Está em foco o artigo de Robert Fishing (RF), no New York Times, “Portugal’s Unnecessary Bailout”, frequentemente em versões de tradução muito pobre ou até falsa. Comecemos por algumas precisões. Ao contrário do que se diz, RF é sociólogo, não é economista. Isto não o diminui, mas é bom definir bem os termos de qualquer discussão.

Não me parece que o artigo seja tão interessante como estão a propagandeá-lo. É estreito em culpabilização, parece-me pouco fundamentado, come gato por lebre de propaganda governamental, no fundo quase que apoia o PEC 4. Entre a culpabilização dos mercados - muito bem - e a conclusão de que o resgate não era necessário, vai uma distância de falta de argumentação convincente.

Há quem tenha usado o artigo com pouca convicção. Por exemplo, João Rodrigues, no Ladrões de Bicicletas, divaga sobre o artigo do "cientista social" (?) mas tem a cautela de dizer que é excessivamente idealista, que se refere só ao período democrático (isto é, a seguir ao 25 de Abril), que o entusiasmo do autor não tem em conta as desigualdades salariais. Então o que fica do artigo?

Comece-se por isto: “this third national request for a bailout is not really about debt”.  Espantoso! O nosso principal problema, reconhecido por  toda  a gente e de todos os quadrantes,  não é mesmo o da dívida nacional, até mais  privada  do que  pública?

“Na Grécia e na Irlanda, o veredicto dos mercados refletiu profundos problemas económicos. A situação portuguesa é radicalmente diferente; não havia verdadeira crise estrutural.” Como é que algum economista sério, ou mesmo algum cidadão que se quer lúcido, merda, como eu, pode continuar a ler tal artigo?

O artigo é simpático para alguma esquerda - em que eu me situo, mas sou crítico! - porque o autor sonha toda a realidade portuguesa à luz da coisa estimável que é pensar que ainda hoje Portugal é a sua recordação revolucionária do 25 de Abril. Mas sou eu, homem de Abril, que não vou nessa. Já não tenho idade para infantilidades. Com isto, a maior das maiores infantilidades, o embevecimento com as palavras, e acima de tudo “socialismo”, “partido socialista”. "Words, words, words!"

Claro que o nosso “socialismo” recente, socrático, só fez coisas brilhantes, segundo RF, nenhuma documentada. A dívida não é importante, é menor do que a italiana. O défice orçamental é inferior ao de outros países europeus (e certamente menor do que o dos EUA!). A inovação, a qualidade do ensino superior (!), o crescimento das exportações, são notáveis. Essencial é que Portugal seja hoje invejado por quem percebe que mantém (?!) os padrões revolucionários de baixo desemprego, solidariedade social, economia mista (???) que ainda cheiram ao 25 de Abril. O homem conhece mesmo o Portugal de hoje? É bonito que ainda haja algures tal admirador do 25 de Abril, mas cuidado, quando se escreve assim no NYT!

Em relação aos últimos anos, de governação socrática, só elogios. “Domestic politics are not to blame. Prime minister José Sócrates and the governing socialists moved to cut the deficit while promoting competitiveness and maintaining social spending; the opposition insisted it could do better and forced out Mr. Sócrates this month, setting the stage for new elections in June. This is the stuff of normal politics, not a sign of disarray or incompetence as some critics of Portugal have portrayed it.”

E até mesmo a afirmação praticamente explícita de que, não fossem os malandros externos, o PEC 4 nos tinha defendido do resgate.

Sem querer alimentar ideias de conspiração, interrogo-me sobre uma coisa estranha à volta deste artigo. Tem havido dezenas de artigos muito mais interessantes, mais fundamentados, com maior autoridade económica, com assuntos verdadeiramente provocadores em termos de futuro próximo (por exemplo, prós e contras de uma reestruturação da dívida). Porque é que todos esses ficaram à margem da nossa net e estou a receber muitos mails sobre este?

Este artigo é coisa americana, académica, NYT, tudo muito recomendável. Também com o romantismo PC que só os americanos conseguem. Também, apesar de tudo isto, com a qualidade que nenhum socrático caseiro, medíocre, teria conseguido escrever. A quem interessa? Não será ao governo que assim tem uma defesa da sua excelente política até à crise, depois ter sido simples vítima dos bandidos e até ter sido obrigado (?!) a um resgate que não teria sido necessário?

Um artigo a elogiar e a divulgar por toda a net como está a ser? Nem tudo o que luz é ouro. Merda, quero ser lúcido!

Nota - Como se vê, a máquina PS está em pleno. “Está comigo todo o PS?” Está sim, querido líder! O mano Dupond começa a parecer-me, em comparação, menino de coro tonto. Começo a dar de barato que o PS vai ficar em primeiro lugar. E depois, Zé? Impossibilidade da grande coligação, porque ninguém aceita o sapatilhas? Magistratura ativa? Governo Cavaco por intermédio de Manuela ou Catroga? E viva a democracia!

P. S. (26.4.2011) - Veja-se uma carta de discordância com este artigo, também no New York Times (18 de Abril), de David R. Cameron, professor de ciência política na U. Yale e diretor dos estudos sobre a UE: "Portugal's Economy".

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O congresso do PS

“Eu não tenho medo das eleições nem do julgamento democrático dos portugueses”, disse Sócrates. Patético (e, pensando em patético-cómico, vou esquecer o “patriarca" Almeida Santos e o seu delirante discurso, coitados dos velhos, lá chegarei eu espero que só daqui a muitos anos). Toda a sala do congresso do PS se levantou em grande aplauso à declaração de que não tenho medo, porque ser teso, dito lá no Norte, é coisa bem são-mamedense, contra os mouros, lisboetas e elitistas (lembram-se?). 

Mas também não se esqueça que, à portuguesa, ser teso é "agarrem-me, senão eu mato-o", o mais ridículo provérbio definidor de nós próprios.
Visivelmente, os grandes segundas-linhas, Assis, Costa, César, outros, (curiosamente, não vi Seguro) armaram o mais feliz e respeitador sorriso. As facas afiadas estão ainda embainhadas. Na ordem das prioridades desses senhores, os interesses nacionais vêm no fim, os partidários antes, muito antes os pessoais.
Vejo ali à frente, com desgosto, o meu velho amigo Jaime Gama, pinto da minha mesma capoeira política micaelense, a fazer o frete. Ao menos, não vejo outro pinto da mesma ninhada, José Medeiros Ferreira. 
O discurso de Sócrates é, como esperava, a abertura da sua campanha eleitoral, como candidato a primeiro ministro. Ninguém no PS percebe a estupidez catastrófica deste delírio egocêntrico de um psicopata que vai destruir o PS? E é que já me começa a interessar diretamente este assunto, porque o PS - este outro - é indispensável para a solução de esquerda que espero.

O que não pode é ser o PS que se levanta aos gritos e aos aplausos em grande quando Sócrates pergunta (é verdade, inconcebível, passou-se ontem esta aclamação do chefe) "Está comigo todo o PS?". Um grande partido de muita gente respeitável, democrata, cidadã, republicana, transformado em máquina de propaganda e poder pessoal de um homem medíocre. Custa a ver, mesmo a um adversário (não um inimigo).
Mas, afinal, devia estar a ligar a isto? Para bom teatro, pago, com gosto, sem precisar de congressos partidários.

P. S., 9.4.2011 - E até Manuel Alegre, que se devia resguardar porque a possibilidade de entendimento à esquerda, necessariamente a alargar-se para o seu lado, lhe abre boas perspetivas, acaba por se comprometer neste congresso unanimista. “Sublinhou ainda o seu apoio à liderança do PS, afirmando que será eventualmente com José Sócrates que o PSD terá de se entender” (TSF).

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Até quando, Catilina?

"Sócrates revelou hoje que não está disponível para governar o país com a ajuda do Fundo Monetário Internacional". Sol, 19.3.2011.
"Eu não estou disponível, da minha parte, para governar com o FMI", DN, 19.3.2011.
"Primeiro-ministro reafirmou hoje que Portugal não precisa de ajuda externa e assegurou "não estar disponível" para governar o país com a ajuda do Fundo Monetário Internacional". Expresso, 19.3.2011.
"Sócrates, revelou hoje que não está disponível para governar o país com a ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI) e reafirmou que Portugal não precisa de ajuda externa". Público, 19.3.2011.
Etc.
Isto foi há duas semanas e meia. Não é aquele tempo longo em que a memória falha e permite as cambalhotas sem vergonha. E agora, Sócrates?

Claro que não o interrogo sobre aquilo que é o seu dever elementar, mesmo como governo em gestão, estar disponível para lutar ao máximo pela melhor concretização possível da "ajuda" externa. Mas depois, em relação às eleições que resultarão num governo que vai ter de lidar com o FMI?

Repare-se que essas declarações taxativas não se referem a culpas, a condicionalismos, a fatores de processo histórico mesmo que pequeninamente a curto prazo. Não são propaganda eleitoral, esgrima politiqueira, chicana partido-rasteirinha. São, pura e simplesmente, ou deviam ser, para quem ainda sabe o que é palavra, uma declaração de intenções. Não podem deixar de serem tomadas à letra, se ainda se acredita na honra.

Deixou então Sócrates de estar indisponível para governar com ajuda externa, como dizia há menos de três semanas, e encara ser primeiro ministro da próxima legislatura? Vai concorrer a primeiro-ministro, à cabeça do PS, agora que o ganhou novamente com votação terceiromundista? Se ganhar, vai renegar o que disse tão enfaticamente há menos de três semanas? Ou se mostra definitivamente como aldrabão que toda a gente acha que é, salvo os patéticos militantes do PS reduzidos a lixo e ofendidos na sua muito frequente dignidade? Ou, para surpresa geral, vai mostrar que Zapatero não é exclusivo espanhol?
Quousque tandem abutere patientia nostra? (googlem...)

P. S. - Ou será que ainda vamos ser insultados com a aldrabice máxima (até com ajuda, talvez involuntária, do PR, como se viu pelo seu "recado" recente aos jornalistas)? A aldrabice de que há semanas JS falava era da sua indisponibilidade para governar com ajuda do FMI, mas afinal vai ser com ajuda da União Europeia e do FEEF (Fundo Europeu de Estabilização Financeira). Mas não sabe toda a gente, desde logo gregos e irlandeses, que o FEEF só ajuda de braço dado com o FMI?

P. S., 8.4.2011 - Quanto ao P. S. anterior, a notícia de hoje do Público não deixa dúvidas: "O comissário europeu dos Assuntos Económicos, Olli Rehn, disse hoje que tanto a Comissão Europeia como o FMI [itálico meu, JVC] já receberam o pedido formal de ajuda externa financeira de Portugal".

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Para onde vamos?

Vamos mesmo pedir a “ajuda” externa (não é ajuda, é preferível chamar resgate, "bailout"), e já. Depois das declarações de hoje (no Público) de Teixeira dos Santos, reforçadas por um comunicado do Ministério das Finanças, não há dúvidas.
“O país foi irresponsavelmente empurrado para uma situação muito difícil nos mercados financeiros. Perante esta difícil situação, que podia ter sido evitada, entendo que é necessário recorrer aos mecanismos de financiamento disponíveis no quadro europeu em termos adequados à actual situação política. Tal exigirá, também, o envolvimento e o comprometimento das principais forças e instituições políticas nacionais.”
Vamos ser massacrados com isto durante os próximos dois meses. Os grandes propagandistas políticos do século XX eram aprendizes face a estas eficazes máquinas de “imagem” que fizeram grandes políticos (?) de rapazinhos medíocres política, cultural e moralmente, mas com enorme esperteza ao serviço do seu carreirismo e de um egoismo desenfreado. 
E nem sequer são só declarações assim elementares, como esta do ministro. Foi toda uma encenação muito bem feita, passando por uma delirante “ajuda intermédia”, que deve ter deixado estarrecidos os euroburocratas com pouco sentido de humor, e pela comédia de enganos desempenhada pelos banqueiros.
A maior habilidade neste truque político é o jogo da dúvida impossível de esclarecer. Como em tantas coisas na vida em que não sde pode voltar atrás para se ver o que teria sido o resultado se não tivesse acontecido o que aconteceu, porque “regresso ao futuro” só no cinema. “Vamos para a ajuda por causa do chumbo do PEC 4 e da crise política”. Mas alguém consegue saber de certeza se não iríamos irremediavelmente para a ajuda mesmo sem a crise política? É certo que a crise afeta a credibilidade política internacional do governo, enerva mais os mercados, irrita a prussiana. Mas que peso têm estes fatores? Alguém sabe?
Com tudo isto, e não sendo adepto de teorias da conspiração, estou convencido de que o governo sabia de certeza certa, por Bruxelas, Frankfurt e Berlim, que a “ajuda externa” estava à porta. Não podia fugir, diretamente, da consequência daquilo em que se tinha empenhado, de nunca ser responsável pela entrada do FMI. Também não tinha tempo para passar rapidamente a responsabilidade para um novo governo PSD ou PSD/CDS, mesmo que custando isto uma saída temporária do poder.
Só lhe restava esta fuga indireta. Vai ficar responsável pela vinda do FEEF/FMI mas “só ficticiamente”, por dever de governo responsável, dever patriótico de pensar superiormente neste pobre país quando a oposição é tão irresponsável que precipita essa tal ajuda externa - quando era garantido que ela não era necessária se o PEC 4 não tivesse sido chumbado (?).
Se foi assim, a jogada de Sócrates foi de mestre e Passos engoliu isca e anzol até ao carreto. Diga-se que não vejo como pudesse ter escapado à rasteira. E sabem o que prevejo? Que o PS, massacrando com esta propaganda desonesta e demagógica, aproveitando dúvidas de muita gente sobre a incerteza acerca do outro jota, tão postiço como Sócrates, venha a ficar novamente em primeiro lugar nas próximas eleições. Não excluo.
Como, apesar disto, a hipótese de maioria absoluta me parece fantasista, essa vitória de PS/Sócrates abre um enorme buraco de atrações abismais impensáveis. Impossibilidade de formar governo, com situação de arrastamento até ser novamente possível convocar novas eleições? Governo de “salvação nacional”, certamente só possível sob o patrocínio de um PR quase convertido com isso a candidato a Sidónio? Pronunciamento dos poderes fácticos, à margem da democracia? Colapso, à italiana, do sistema político-partidário, com emergência de populismos que andam aí à espreita?
Claro que há uma saída, a renúncia de Sócrates, por reconhecer que ele é o problema. Mas Sócrates não é Zapatero e o PS está castrado. Com isto, fechando o círculo desta conversa, como é que um homem que não tem o mínimo de grandeza e de sentido de responsabilidade para perceber que devia sair, poderia pôr a responsabilidade e o sentido de dever (à verdade, desde logo) a condicionar esta sua apresentação como alguém que não tem qualquer culpa da atual crise, de que é pobre vítima?
Nota - Sócrates vai falar já depois de eu publicar esta nota. Não é difícil adivinhar que é para anunciar a ajuda, anúncio preparado por Teixeira dos Santos, como naqueles telegramas que se recebia “avô muito mal” sabendo-se que uma hora depois vinha “avô morreu”.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Que vergonha!...

Desde os primórdios da nossa vida constitucional pós-1976 e da existência renovada do Conselho de Estado, regra absoluta, que não me lembro de alguma vez ter sido violada, sempre foi a da confidencialidade do conselho. É indispensável, para prestígio, isenção e autoridade dos mais destacados conselheiros do presidente e para que não se possa dizer que este foi influenciado neste ou naquele sentido.

Só hoje, pelos reflexos que teve a notícia já de há dias, é que soube que Sócrates - e logo o primeiro ministro! - violou essa regra, dizendo a uma rádio ou televisão que uma tal coisa tinha ou não tinha sido dita na última reunião. Hoje, boa parte dos conselheiros faz declarações de que sim ou sopas, desmentindo-se uns aos outros: Capucho, Bagão Félix, César, Almeida Santos (que provavelmente já só dorme nas reuniões). Valha Mário Soares, que se recusa a falar de seja o que for que se passe no Conselho.

Isto já cheira muito a fim de regime.

sábado, 26 de março de 2011

O PS no seu labirinto

O PS é um partido essencial à vida política portuguesa; tenho nele bons amigos; tudo me permite falar da sua vida interna, ao contrário do que por vezes entendem os militantes socialistas. Muito mais quando até nem vou dizer nada de novo, que não tenha sido dito por membros do PS, embora muito minoritários. Por exemplo, que a eleição do secretário geral (SG) devia ter sido adiada. Julgo perceber que não o tenha sido, mas só no estertor final de uma lógica absurda de poder pessoal e de mentalidade cortesã (interessada) à volta de Sócrates (JS).
Poderão dizer-me que o adiamento da eleição do SG do PS seria uma violação dos estatutos. Talvez, desconheço as regras da casa. Mas esta crise, a perceção dos cenários óbvios, já vem de há tanto tempo que só a cegueira do PS, controlado pela cúria socrática e pelos interesses egocentristas do “príncipe” é que impediu a atitude minimamente sensata de se ter decidido um procedimento especial de prudência.
Dirá muita gente que o vencedor das próximas eleições (isto é, o mais votado, mas sem maioria absoluta) é indiscutivelmente o PSD, coisa de que não estou certo, como direi adiante. Se conseguir maioria absoluta com o CDS, pode formar o governo maioritário que Cavaco pretende, mas muita gente, cá dentro e lá fora, pressionará para a formação de um governo do “arco” (ou do pântano, “marais”, digo eu) com inclusão do PS. Haverá gente inteligente no PS com a sabedoria e distanciamento suficientes para perceber que uma travessia no deserto, com alguns brilharetes de “esquerda” na oposição, é benéfica, mas muitos mais, depois de tantos anos de empanturramento à mesa do orçamento, aceitarão a serventia em tal governo “nacional”. Não se esqueça também os que, certamente por convicção, defendem tal tese no PS, como, por exemplo, António José Seguro.
Parece-me impensável que o PS possa participar com papel secundário em tal governo apresentando JS como seu representante máximo; isto tanto pela inaceitabilidade de JS em tal quadro governamental como pelo próprio orgulho desmesurado de JS, que não se vê poder aceitar ser segundo. Pelo contrário, tudo seria mais fácil se JS não tivesse procurado agora esta legitimação acrescida, quase plebiscitária em termos do PS. O PS indicaria então um provisório como ministro destacado (de Estado, sem pasta ou numa das pastas “nobres”), ficando JS como SG, de simples continuidade em relação à situação atual, não com esta aclamação plebiscitária com resultado à norte-coreana. Só depois se faria a eleição de um novo SG, para integrar ou não o governo.
Claro que há uma alternativa, neste cenário de derrota eleitoral do PS, mas sem maioria absoluta do conjunto PSD/CDS e de necessidade de coligação grã-centrona com o PS: o da demissão de JS de SG do PS, em resultado das eleições. Seria uma confissão reforçada da derrota, uma humilhação pessoal que não se vê bem como JS aceitaria a não ser com pistola apontada à cabeça. Entretanto, o PS teria de indicar para o governo uma pessoa ainda à espera de futura validação eleitoral como SG do PS, o que enfraqueceria a sua posição no governo de coligação.  
E se JS ganhar, com maioria relativa? Há quem ache tolice pensar-se em tal hipótese, mas não é verdade. A diferença de votos, nas sondagens, é grande, mas ainda há muita água para passar debaixo da ponte. É muito possível que, em Abril, incapaz de saldar a dívida por recurso ao mercado e sem a UE ter decidido agora a possibilidade de compra de dívida no mercado primário pelo FEEF, JS ganhe votos pela sua vitimização, “estão a ver que por me demitirem é que veio o FMI”? E como é que o PSD vai ganhar votos quando não tem verdadeiras propostas alternativas a um PEC 4 que chumbou, e que chumbou por razões mais formais que substanciais? Pode dizer-se que, apesar disto, JS perderá porque o povo está farto e quer mudar. Todavia, e há muitos exemplos conhecidos, no momento do voto, em altura de crise, a zanga e o desejo de penalização podem ficar para trás do receio da incerteza do desconhecido.
Neste caso, o PS teria de ter previsto, já hoje, que uma sua eventual vitória relativa não tem efeitos práticos mantendo JS. PR, “poderes fácticos”, mercados, governos europeus, todos já dizem claramente que exigem um governo de maioria e certamente que o próprio PS não quererá reviver os últimos dois anos. Obviamente, e sendo o PS o primeiro partido, neste cenário, o bloco central, com ou sem CDS, é impossível com uma liderança do PS por JS. Que fazer? Se, no cenário de derrota do PS, ainda seria possível, embora caricata, a substituição de JS, não se percebe como seria ela possível no caso de JS ter uma vitória eleitoral, mesmo que relativa.
Claro que, teoricamente, ainda há outra solução, mas creio que ninguém deixará de a considerar irrealista: JS foi eleito hoje SG mas o próximo congresso, daqui a dias, decide indigitar outra pessoa como candidato a primeiro ministro. Irrealista? Apesar de tudo, neste labirinto em que o PS está à nora, desorientado, talvez seja a única coisa acertada.
Muita gente andará hoje no PS a perguntar-se “o que vamos fazer com este cadáver adiado?”. Deviam ter pensado nisto quando ainda era tempo e ele não tivesse ainda de ser despejado com os pés para a frente, para, em termos políticos e como se diz na minha terra, “ir comer as couves pela raiz”.


P. S. (as iniciais são coincidência...) - Se não me engano, um dos candidatos marginais a SG, não me lembro se Fonseca Ferreira se o já passado António Brotas, afirmou que só se candidatava a SG, porque, ganhando, manteria JS como candidato a primeiro ministro. Como se compreende do que escrevi, acho isso o cúmulo do surrealismo político.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Assis, Egas Moniz

Patético, mesmo "pathos", mas à portuguesa, aparente drama que afinal é farsa, "tudo isto é fado". Acabei de ouvir Assis (o homem lembra-me sempre o Doutor Assis, livro tão engraçado mas fora do mercado). Quando, estrategicamente, o PS precisa desesperadamente de se libertar de Sócrates, quando Assis podia ser, não para meu gosto, uma alternativa, o homem encerra o debate de hoje, em nome do PS, com a mais humilhante declaração de vassalagem ao chefe. Assis teve hoje o seu episódio monizino, de baraço ao pescoço, mas sem grandeza, porque não tinha nenhum grande príncipe por quem oferecer o pescoço.

Tenho amigos no PS que muito prezo. Ainda por cima, gente inteligente, com traquejo político desde a nossa juventude "associativa". Tenho apelado a eles e, privadamente, respondem-me mas, em geral, com coisas que me desgostam, "não há nada a fazer, o homem controla tudo".

Já aqui tenho evocado o exemplo da saída da crise partidária em Itália. E não só. Por toda a parte na Europa, e a começar com a terceira via de Blair, que até o nível intelectual de Giddens não devia ter avalizado, o "socialismo" acabou em triste degradação. Craxi refugiado da justiça na Tunísia que agora se libertou. E para onde irá Sócrates, na viragem para um "mãos limpas" em Portugal?

Mas há espaço e futuro para um "mãos limpas"? É o que gritam na rua os 12/3, é o que se lê por toda a net. As pessoas querem limpeza, querem o fim da corrupção, querem justiça. Mas no fim não acabam com um Berlusconi?

P. S. - Os episódios de hoje das saídas e ausências na bancada do governo foram do mais execravelmente rasteiro, rasca, que já vi na vida política. É mesmo de quem se educou a usar fatinho e gravata com sapatilhas.

terça-feira, 22 de março de 2011

Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo

Se isto fosse escrito científico, como tantos que escrevi, teria de incluir referências bibliográficas exatas. Não tenho agora tempo, mas creio que não irei contra a informação segura que os meus leitores acumularam nas últimas semanas, mesmo que não tenhamos na ponta da língua datas e horas.
Recorde-se. De surpresa, na véspera da reunião europeia de 10.3, Sócrates (JS), pela voz do ministro das Finanças, anuncia o PEC 4, que vai apresentar em Bruxelas no dia seguinte. A presidência da República diz não ter sido informada, os partidos da oposição idem. O PSD, que estava vinculado ao seu compromisso infantil com o PEC 3, sente-se traído. E tudo isto parece inegável, porque é o próprio JS que vem explicar o secretismo, por questões de calendário - posse do PR, moção de censura do BE.
Vendo que tudo isto resultava na crise política - e agora nem discuto se desejada ou não pelo PS/JS - ele tem de antecipar o que vai ser a sua campanha eleitoral, de vitimização, de quem não teve nada a ver com a crise, muito menos com a sua consequência - que seria inevitável mesmo sem a crise - a intervenção externa. Põe a cereja neste bolo desonesto, que afinal não eram nada medidas decididas, eram linhas orientadoras, sempre abertas à discussão parlamentar.
Entretanto, sábado, já o Expresso tinha divulgado cartas para Bruxelas que deixavam muitas dúvidas sobre tudo isto. Também se noticiava por toda a parte que, nos dias anteriores, uma missão a Portugal da CE e do BCE tinha fechado negociações com o governo, nos termos anunciados logo a seguir como PEC 4. E ainda, com boa razão, se pensava já antes que tudo tinha começado por imposições da Sra. Merkel, na ida vassálica de JS a berlim.
Hoje, com a brutalidade arrogante de quem verdadeiramente manda na UE, e a negar a possibilidade de JS tentar reapresentar modificações ao PEC 4, veio Juncker afirmar, inequivocamente, que houve mesmo um compromisso definitivo de JS. “Aprovámos o programa de ajustamento tal como nos foi proposto pelo governo português [e] que foi avalizado tanto pela Comissão Europeia como pelo Banco Central Europeu”. Claríssimo: “aprovámos”, foi uma proposta para aprovação pelo conselho, não linhas de orientação; tinha sido avalizada previamente, às escondidas. Vinte e cinco poucas palavras para arrumar definitivamente JS como aquilo que hoje todo Portugal lhe chama: aldrabão, desonesto, mentiroso. Nunca, desde Costa Cabral e um pouco João Franco, alguém tinha sido tão visceralmente detestado pela enorme maioria dos portugueses, independentemente da sua simpatia partidária. Porque já não só está em causa a política, já é o carácter e a moral.
Vai haver eleições e terei muita dificuldade em decidir do meu voto. Depois aqui escreverei, a despertar debate com os meus amigos. Julgo ter suficientemente discernimento político para nunca ir votar no mano jota da outra etiqueta. Mas o voto não é só racional, também é ético. Eu teria vergonha de dizer aos filhos que eduquei que tinha votado num mentiroso e aldrabão.
Nota final - Tão amigos que nós somos, “porreiro, pá”, afinal um porta-voz de Barroso vem dizer que as declarações de Juncker não são bem assim. Também os parceiros sociais (claro que sem a CGTP) se preparam para grande encenação, com Sócrates, assinando um acordo na linha do PEC 4. Nada disto me parece que seja encomendado por JS para ainda tentar evitar o chumbo do PEC 4, é tudo já campanha eleitoral, da pobre vítima.


P. S. (21:08) - Acabei de ouvir Fernando Rosas a dizer que o que se vai passar agora é o normal funcionamento das instituições. Posso estar a ser baço, mas não vislumbrei sombra de ironia. Ouço mais, "dar lugar ao voto é a democracia, aliás vem provar a razão do BE e da sua moção de censura". Neste momento, com o povo aos berros e a encher a rua, o BE, pela voz de um dos seus principais dirigentes, tem este discurso estritamente institucional? E eu ainda a pensar que era uma hipótese minha de voto...

quinta-feira, 17 de março de 2011

Morte certa

Tendo-se acabado de ouvir Passos Coelho, creio que ninguém tem dúvidas de que o governo Sócrates já morreu com morte anunciada, embora sem merecer crónica. Quando o presidente do PSD afirma, com grande assertividade, quase agressividade, que o PEC 4 já é ajuda externa encapotada, quando arrasa todas as medidas em tom de defesa definitiva das vítimas, quando dá praticamente a entender que deixou claro a Cavaco que não conte com o PSD para mais um entendimento, quando afirma preto no branco que nunca negociará este PEC 4 com o governo, Passos Coelho corta todas as amarras e fecha todas as portas possíveis, a menos que seja tão inábil político que não perceba que não tem margem de manobra nem espaço de recuo.

Claro que o preço que o PSD vai pagar será toda a campanha do PS a tentar convencer as pessoas da sua abertura a negociações, do seu desejo profundo de evitar uma crise, do seu “sentido patriótico” de que uma crise de que não é responsável (!) é uma provocação aos mercados - já agora, também à Sra. Merkel…

Não se sabe se o PS vai apresentar um projeto de resolução, mas ninguém duvida de que haverá um, nem que seja o já anunciado pelo CDS. Com esta posição extremada do PSD, não se vê como deixará de ser chumbado o PEC 4, a não ser que PCP e BE, ambos e absurdamente, não votem contra o PEC 4.

O governo morreu de facto. No entanto, não tenho por certo que haja dissolução da AR. Pode convir ao bloco central comprometer o PR com um governo da sua iniciativa, por exemplo um governo Catroga.

O que é muito interessante, para quem reflete sobre a política - mas numa atitude interventora - é que se juntam temporalmente duas situações de crise, como não me lembro depois do 25 de Abril: uma crise política convencional, institucional; e uma crise social, com a agitação da rua. Nenhum dos dois processos pode esquecer o outro. Vai ser muito interessante seguir esta dialética (dialética, isso ainda existe?!...), tentar compreendê-la e agir em conformidade. A pergunta que fiz, acerca do 12/3, “e o que se segue?”, começa agora a ser premente, se o crescente movimento social quiser influenciar o momento político, não podendo menosprezar o grande papel (hegemónico ainda) da política de “gente bem composta”… Mas também qualquer solução no plano convencional viverá o que vive uma rosa (sem piada para o PS) se não tiver em conta os muitos mais 12/3 que virão por aí fora.

Foram talvez 50.000 na rua, sábado. Talvez sejam 100.000 depois de amanhã. Por cada pessoa que se levanta do sofá para ir à rua, há dez votantes mais passivos mas que sentem o mesmo, estão zangados. Temos um milhão de eleitores zangados, mas possivelmente também perplexos, confusos. Se houver agora eleições, em quem vão votar? No Pe. Malagrida?