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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Descamisados

Um dos resultados destas autárquicas que certamente mais fará pensar é o de Oeiras. Por interposto candidato, figura burlesca que só vi na noite de domingo, um criminoso condenado ganhou as eleições do mais escolarizado concelho do país. Ambas as coisas merecem atenção mais cuidada.

Isaltino “roubou mas fez”. Isto pode significar uma atenuação do significado do roubo por parte das pessoas comuns? Não me parece que seja assim, tanto mais quanto se ouve todos os dias a vociferação contra os ladrões do governo. É que o sentir neste caso do governo é diferente, é de gente que sente que lhe estão a ir ao bolso. O governante está a roubar o país, nem se pondo a questão da corrupção, e, com isto, rouba o indivíduo concreto a quem diminui salário, pensão e benefícios sociais.

Isaltino não está condenado por roubo mas por corrupção. Enriqueceu, mas não directamente à custa de indivíduos, que não o viram ir-lhes ao bolso. Claro que, indirectamente, foi. Se fez uma obra por 100, ficando com 30, a obra podia ter sido feita por 70 e os 30 terem beneficiado o município e a sua população. E nem vou entrar na questão da ética do serviço público, na pedagogia democrática da despenalização cívica do criminoso.

A tal coisa do concelho culturalmente avançado é um mito. Vivi alguns anos em Oeiras (embora oficialmente na fronteira com o concelho vizinho) e sei que essa tal elite tem Oeiras apenas como dormitório. Nem às reuniões da escola dos seus filhos vai. Esses votaram nos partidos convencionais. Quem eu vi na sede da campanha isaltiniana, na noite de domingo, foi a classe baixa e imigrantes dos antigos bairros degradados, depois recuperados por Isaltino. Se os educados se demitem, a democracia pode correr riscos de populismo e caciquismo. 

terça-feira, 25 de outubro de 2011

As mordomias dos políticos

Anda por aí grande alarido com as mordomias dos políticos. Ministros com casa em Lisboa que recebem subsídio de deslocação; mas hoje, principalmente, grande “caxa”, as subvenções vitalícias aos políticos. Eu compreendo que gente com perda de subsídio de férias e de Natal se indigne, mesmo que essa indignação não dê nada, porque continuarão a votar no centrão, porque nem se lhes passa pela cabeça sair à rua nas manifestações que cada vez mais serão muitas. Eu compreendo que é mais fácil a indignação sobre este tipo de coisas do que sobre coisas complicadas como o ditame de austeridade troikiano, ou a alternativa de reestruturação da dívida, ou a crise do euro.

Repito, compreendo esta indignação. Espero que ela possa contribuir para a sua superação dialética como programa de mudança. No entanto, o que esta a indignação muito elementar e pouco informada também poderá dar - tenho medo - é alimento ao populismo, à demagogia, ao niilismo de que se fizeram os fascismos. Até com maioria eleitoral dada por gente que achava que os monstros anunciados não eram também políticos e do pior - como se, mal comparando, Medina Carreira, o guru que se cita diariamente em todos os programas de palavra ao ouvinte, não tivesse sido político e não o seja hoje até à medula. 
O que não compreendo é que não venha ao de cima coisa tão elementar como é a surpresa com o que esta história mostra de muito mais grave. Não a corrupção dos políticos, mas sim a sua abismal mediocridade. Não a indignação do Zé, mas a sua visão popular rasteira, mas também patuleia (cuidado!), de pão e copo de vinho, na taberna de província. Não o grande caso político, mas sim a pequenez do caso.
Quanto era o tal subsídio dos ministros? Um pouco mais de 1000 euros. Quanto é a tal mordomia dos políticos (fora o caso aberrante de Melancia, coitado, falido, e com a coisa bizarra no passado de ter ofendido os chineses com a sua noção pequenina do dinheiro)? 2000 a 3000 euros mensais. É claro que é imenso para o pensionista que vai perder os subsídios por ter uma pensão de metade ou um terço desse valor. 
Mas o que é isso em percentagem do rendimento de pessoas como Bagão Félix, Dias Loureiro, António Vitorino, Armando Vara, Rui Gomes da Silva, Ângelo Correia, Duarte Lima, Jorge Coelho, Ferreira do Amaral, Zita Seabra, Álvaro Barreto,  todos os referidos nas notícias de hoje? É gente que provavelmente recebe por mês 10.000, 20.000, muitos mais euros.
Como é que se deixam manchar por tão mixoruca fração dos seus rendimentos? Um vigésimo dos seus rendimentos valem o risco de serem expostos em público, quando uma das regras dos grandes dos negócios é saberem ocultar-se? O problema destes políticos não é o de serem corruptos. É o de serem estúpidos! E nisto incluo a arrogância de quem nem pensa no juízo dos outros, de quem se sente superior e impune. Porque a maior forma de estupidez é pensar-se que todos os outros são estúpidos. É por isso, principalmente por isto, que merecem serem expostos no pelourinho da opinião pública e da crónica nacional, infelizmente longa, da mediocridade dos Abranhos e Gouvarinhos.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Uma foto bem apanhada!


Há outros aparatchiks partidários, bosses, sub-bosses, caporegimes, boys, que eu gostava de ver neste enquadramento fotográfico tão sugestivo. Mas gostava de os ver nele para além da sugestão. Obviamente que com "sentença transitada em julgado"...

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Corrupção

Às vezes, sinto-me com dificuldade em desmontar uma ideia generalizada, acriticamente encaixada nas cabeças, quando esse desmontar pode ajudar a desculpabilizar culpados. Nada me irrita tanto como, para ser honesto intelectualmente, dar armas aos meus adversários. Infelizmente, hoje há tanta má língua, tanta “informação segura” difundida pela net, tanta calúnia, que cada vez mais corro o tal risco, de ter de dizer que “olhe que não” a pessoas que estimo e que vão na onda do boato só porque, legitimamente, estão muito zangadas, o que lhes tolda o discernimento.
Veja-se: “os políticos são corruptos”. Dessa generalização relativa vai-se facilmente à generalização absoluta, “todos os políticos são corruptos”. Gente de esquerda, mesmo mais difusamente gente democrática, dizer isto é tiro no pé, é oferta aos saudosos do salazarismo que por aí andam.
Daí a dizer que “só os políticos são corruptos” é um pequeno passo. Não é verdade, que mais não seja porque, ao menos, os políticos estão mais expostos ao escrutínio público. A minha experiência de lidar com a gente do rés-do-chão dos dirigentes da função pública, o meu nível, indica-me que, também ao nível rasteiro, da pequena corrupção, ela é muito mais frequente, embora muito menos notória, a esse nível do que ao dos políticos. Cartões de crédito, carro e motorista para levar a madama ao cabeleireiro e os meninos ao colégio, almoço diário de trabalho com a secretária, mobiliário super no gabinete, Portos de honra por dá lá aquela palha, são coisas correntes em qualquer organismo público.
Caso flagrante, porque estupidamente tosco (estupidamente, quer dizer, a incorrer parvamente em ação criminal) é de um não político, até um artista, Miguel Graça Moura, segundo notícia já requentada do Público. Um diretor de orquestra sob alçada pública gastou 720.000 euros para si próprio em quatro anos, 200.000 euros em viagens (só um pequeno número de viagens com a orquestra), 240.000 euros em despesas várias, incluindo artigos de lingerie no valor de 1393 euros, 1014 euros de charutos cubanos, 5000 euros de vestuário na The Boss, aluguer de uma limusina na Tailândia por 1215 euros, 1198 euros numa joalharia brasileira, 1315 euros em artigos de calçado e malas em Paris, contas de restaurantes, anuais, à volta dos 17.000 euros. Fora a renda de casa e inúmeros livros e CDs. Mais, inconcebível, levantamentos de 36.000 euros em caixas de multibanco, em cash, com o cartão do organismo público.

É um político?

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Contra os ladrões, marchar, marchar!

Correia Pinto, no Politeia, chamou-me a atenção para uma entrevista que não tinha visto, de José Manuel Coelho. Muito bem, a par de se poder considerar o homem apalhaçado, oportunista que concorre por um partido quase fantasma de direita, CP valoriza outro aspecto de Coelho: “um homem sem medo”.

A entrevista explica bem o sucesso que ele teve na Madeira, vitória em três concelhos, inclusive Funchal. Querem saber quem são os “poderes coloniais” que muitos, desde a Flama a Jardim, sempre disseram que exploravam o “povo madeirense”? Coelho diz sem papas na língua: pai e filho Ramos a controlar os preços dos materiais da construção civil (note-se o peso deste setor na política de betão de Jardim), os irmãos Sousa a controlar os portos, as impo-exportações e os preços dos bens essenciais, muitos outros. Tudo gente do PSD e do círculo íntimo de Jardim. Deixa de fora Jardim, como também nunca ninguém acusou de venalidade um Salazar que colocava nos conselhos de administração os seus afilhados políticos, os Ramos atlânticos de agora. Saborosamente, diz de Jardim que o que o move é comer e beber bem. Claro que, como Salazar, principalmente o enorme prazer do poder, o grande afrodisíaco.

Mas porquê só agora este impacto de discurso de oposição ao jardinismo? Parece-me óbvio que por uma razão simples: a mensagem, no âmbito de uma campanha presidencial, chegou a toda a gente, não pôde ser censurada na Madeira pelo comprovado poder intimidatório de Jardim sobre a comunicação social.

Gente dos partidos, como ele diz, cuidem-se. Este homem, sem programa, sem aparelho, com boa dose de populismo e mesmo de demagogia, pode vir a ser o nosso "mãos limpas" e, principalmente, o homem porventura cada vez mais ouvido pela gente que está zangada e que precisa de alguém que por ela dê murros na mesa. Tenho receio do populismo e detesto a demagogia, portanto não estou a propagandear Coelho, mas tenho de estar atento a este caso. Como "discurso político diferente", Nobre é toscamente aprendiz de Coelho.

P. S. - E a denúncia deliciosa de Arnaldo de Matos, madeirense, com Garcia Pereira a reboque, a exercer influências na Relação para proteger Jardim da justiça! “No comments”, não tenho dados. Mas que a promiscuidade MRPP-PSD é velha e relha é bem sabido. Durão Barroso que o diga.