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quinta-feira, 27 de março de 2014

Falácias sobre a expansão da extrema-direita

Mariana Avelãs lançou no passado dia 24, na sua página do Facebook, uma discussão bem interessante, a partir desta pequena introdução: “ ‘a direita une-se, a esquerda não’; ‘a extrema-direita cresce porque a esquerda não se une’. Para além de nenhuma das duas afirmações ser verdade, excluem-se mutuamente. Temos um problema - as ideias da extrema-direita têm apoio popular -, podemos olhar para ele racional e estrategicamente?”

O “post” vem na sequência dos resultados eleitorais franceses, mas reconhece-se facilmente a relação com a situação portuguesa, onde aquelas duas afirmações – substitua-se extrema direita por governo actual – são correntes no discurso político de muita gente de esquerda bem intencionada mas, a meu ver, vítima de uma visão romântica da política (sem ofensa). A nota de Mariana Avelãs é acutilante e merece reflexão. Não havia condições para o fazer no Facebook e transfiro-a para aqui.

Nas eleições municipais do último domingo, a esquerda apresentou-se dividida, com resultados bem diferentes: a Frente de Esquerda (constituída principalmente pelo PCF e pelo Partido de Esquerda, dissidente do PS) aguentou-se; a votação nos socialistas foi um desastre. A direita tradicional também subiu um pouco mas não tão espetacularmente como a Frente Nacional (FN). Já se ouve por toda a parte criticar a desunião da esquerda, responsabilizando-a por uma eventual vitória da FN, mesmo que relativa, e já se começa a fazer a extrapolação para a situação portuguesa, nesta estafada querela sobre a convergência.

A meu ver, as duas situações são incomparáveis. Na França, trata-se de eleições autárquicas, não decisivas para a conquista do poder. É certo que marcam uma dinâmica política e têm consequências, porque em política tudo está ligado numa rede de factores dinâmicos. No entanto, aliás como cá, há determinantes locais que influenciam fortemente estas eleições e que retiram legitimidade à comparação com as legislativas. Veja-se, cá, o fenómeno recente das listas não partidárias. A haver lugar para alguma comparação, mais facilmente será entre legislativas e europeias, principalmente quando, como agora, os problemas estão tão interligados.

Também me parece abusivo comparar a utilidade da união de esquerda no caso francês de eleições uninominais em duas voltas e de eleições com proporcionalidade e a uma volta, como as nossas legislativas. É indubitável que, no primeiro caso, a candidatura comum na primeira volta e, principalmente na segunda volta contra o candidato e direita, tem grande efeito político. A analogia, em Portugal, seria com a vitória de Mário Soares contra Freitas do Amaral.

Já nas legislativas, o efeito positivo directo é marginal, apenas em resultado de benefício pelo método de Hondt. É certo que há efeitos indirectos, de empenho e confiança política, de mobilização e de combate à abstenção; mas é preciso analisar isto na perspectiva de custos/benefícios, como veremos mais tarde.

Passo às posições de Mariana Avelãs, com que concordo e, desde logo, sobre a falsidade de “a direita une-se, a esquerda não”. É fácil de ver que isto é uma generalização de uma apreciação da situação portuguesa, já por si controversa (por exemplo, tem havido muitas formas de convergência prática entre o PCP e o BE). Quem afirma tal coisa são sistematicamente os que querem à viva força meter no mesmo saco quem claramente não quer ser lá metido. Procedem como os escuteiros da conhecida anedota da velhinha que não quer atravessar a rua.

De facto, não há nenhuma situação comparável à portuguesa, mesmo que se considerem como equivalentes – o que não é correcto – extrema direita fascista (Grécia) ou semifascista (França) e direita troikista onde não há partidos fascistas com significado (Portugal, Espanha, Itália), para já não falar dos partidos xenófobos de países sem uma esquerda expressiva (como os nórdicos). Para também não falar do fenómeno único que é o populismo à Beppe Grilo, embora já se vislumbrem cá alguns sinais, na campanha abusivamente generalizante contra os políticos e as suas benesses.

Veja-se, por exemplo, que há uma forte união de esquerdas na Espanha (Esquerda Unida) e na França (Frente de Esquerda), assim como, na Grécia, o Syriza é uma união política, embora sem a participação do PC (KKE). Veja-se também que a Frente de Esquerda francesa resiste ao crescimento da FN. Não há, portanto, dois casos iguais. A única coisa em comum é que, em plena crise que faz tudo mais claro e que deixa à mostra todos os gatos escondidos, os PS – por sua inteira decisão – ficam à margem, quando não se colocam inequivocamente no outro campo (Grécia).

A segunda tese que Mariana Avelãs desmente é “a extrema-direita cresce porque a esquerda não se une”. Novamente de acordo. Digo mais: parece-me coisa disparatada, sem fundamento racional, e coisa de “wishful thinking”. Os resultados franceses e as previsões na Grécia mostram a falácia, quando se repara que só uma “esquerda” (PSF, Pasok) é que desce em relação inversa com o crescimento da extrema-direita. Há uma movimentação de um eleitorado que se sente mais atraído pelas posições de extrema-direita do que pelos partidos socialistas, mas não por estes não fazerem unidade de esquerda, coisa que nunca fizeram. Esse eleitorado está-se nas tintas para unidades de jogo partidário e vê é que os seus problemas de pauperização e desemprego, em competição com os imigrantes, são preocupação demagógica dos partidos anti-sistema. Pelo contrário, os eleitores de esquerda mais conscientes continuam a dar o seu voto à esquerda consequente. A desunião não penaliza a totalidade da esquerda! 

Por isto, a pergunta de Mariana Avelãs – “temos um problema - as ideias da extrema-direita têm apoio popular -, podemos olhar para ele racional e estrategicamente?” – é crucial. Já era nos antigos fascismos. Lembremo-nos de que, com excepção da Espanha, até atingiram o poder por via legal, e invocando o “socialismo”, ou o passado socialista do líder, como Mussolini.

Antes do mais, parece-me necessário não limitar a questão ao plano das ideias. Como certamente a autora pretende dizer, o apoio popular tem base socioeconómica sem cuja análise racional e estratégica não vamos a lado nenhum. Desde logo, distinguir o novo fascismo do fascismo da terceira década do século passado. Vivia-se então a grande depressão e muitas sequelas da guerra, as migrações eram insignificantes e o poder dos partidos de esquerda e dos sindicatos era muito grande, com graves riscos, para o capital, de explosões sociais e revolucionárias (com uma Revolução de Outubro ainda bem viva). Assim, segundo a tradição da perspectiva marxista, os fascismos foram uma expressão política antidemocrática de repressão da capacidade de luta das classes trabalhadoras, um passo em frente no reforço da exploração capitalista. Note-se que, nessas condições, o componente xenófobo foi relativamente secundário, ou mais manifesto na exacerbação do mito nacional. O caso do anti-semitismo nazi é secundário à essência dos fascismos.

Actualmente, a situação social e económica em que se move a extrema-direita e em que tem sucesso, é muito diferente. Os problemas são os mesmos, como consequência da crise, mas misturados com outros de forma a que muitos eleitores ficam confusos e são facilmente manipulados. O sucesso das posições de extrema-direita vem da sua associação clara ou disfarçada a problemas reais dos eleitores. A xenofobia é a hostilidade ao imigrante que compete no trabalho, com salários mais baixos. O nacionalismo, idem mais o apelo ao nostalgismo em relação a mitos de passado glorioso de um país agora secundário num mundo unipolar. O antieuropeísmo e a antiglobalização idem e ainda a forma de combater as consequências da impossibilidade de políticas proteccionistas ou os efeitos no emprego das deslocalizações. A segurança pela violência liga-se à ideia da lumpenização de muitos sectores pauperizados, à marginalizarão dos imigrantes, à disrupção social, das comunidades, dos modos de viver, dos equipamentos.

No entanto, é preciso ter-se em conta, a meu ver, que a extrema-direita tem hoje menos importância do que antes como instrumento do capitalismo. Infelizmente, ele não está em perigo, atravessando apenas uma crise de desenvolvimento. A hegemonia é total, em todos os planos: político-institucional, cultural, ideológico, informativo, moral. É muito mais eficaz usar meios "suaves" no quadro da "ordem natural" do que atiçar a brutalidade do neofascismo. Este fica de reserva, porque há sempre oportunidades convenientes, como na Ucrânia.

Na perspectiva próxima das eleições europeias, a situação é particularmente difícil de abordar porque a demagogia de extrema-direita faz suas posições até recentemente de esquerda, como a luta contra a agenda oculta da globalização, a denúncia do euro ou a defesa de medidas proteccionistas, contra a utilização imperialista dos instrumentos reguladores do comércio mundial. A extrema-direita apossou-se de bandeiras tradicionais da esquerda não por desunião desta mas porque parte da esquerda deixou abaterem-se essas bandeiras.

Que lições para nós, portugueses? Lá irei na próxima entrada.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Salut, la France (III)


Embora com alusões à rua, tenho estado a falar principalmente no plano institucional, partidário, da democracia formal. É neste que faço uma pergunta. Mas nós somos a França? De forma alguma. A Frente de Esquerda pode corresponder um pouco, entre nós, ao conjunto de partidos e movimentos que são o PCP, o BE, a Renovação comunista (RC) e uma ala esquerda indefinida e não organizada do PS. A Frente de Esquerda inclui também alguns pequenos grupos “esquerdistas”, incluindo um irrelevante partido comunista maoista.
PCP e PCF nada têm de comum. O PCF era eurocomunista desde os anos 60, sempre esteve aberto ao diálogo com o PSF, chegou a um programa comum e frentes eleitorais. Ao contrário do PCP, nunca teve dissensões à sua “direita”. Não há nada em França que se assemelhe à RC.
É interessante analisar-se a RC e outras dissensões comunistas. Primeiro, nos princípios dos anos 80, houve muitas saídas do PCP, silenciosas, desorganizadas. Não vou falar disto, estou em causa. Depois, foram as saídas mediáticas. Do grupo dos seis, pouco ficou. Veiga de Oliveira e Silva Graça acabaram em apoiantes de Cavaco, Vital Moreira é um entusiasta de Sócrates mesmo depois dele retirado. Próxima desse grupo foi a saída de Zita Seabra. Não vale a pena dizer nada.
Lembre-se que, nessa altura, houve um acontecimento que poderia ter tido consequências importantes no PCP: a rotura do MDP, que muito me disse. No entanto, não me lembro de um único membro do PCP que nos tivesse acompanhado. Mais tarde, veio a grande rotura, em 1991, depois do golpe de agosto na URSS.  Fora os que fizeram carreira no PS, de que não vou falar, houve o grupo influenciado por Miguel Portas, Plataforma de Esquerda, que “usou” o MDP para organizar e legalizar como partido a Política XXI, depois constituinte do Bloco de Esquerda.
Os atuais RC ainda continuaram no PCP. Sairam em consequência das punições de homens distintos, como Carlos Brito. Mas veja-se o livro de Carlos Brito sobre Cunhal. Ele é e será sempre um comunista tradicional, embora certamente não estalinista. Mas onde é que hoje o estalinismo serve para marcar uma fronteira? Tenho grandes amigos na RC, mas nada de prático ou mesmo ideológico me atrai a acompanhá-los. São um excelente grupo de amigos e assim os respeito, mas com reduzida eficácia política na ação quotidiana e no quadro político convencional.
Com a génese do nosso BE, também não há nada em França. O trotskismo de Krivine e o “anarquismo” de Cohn-Bendit foram pujantes nos tempos de 68, bem como o completamente esquecido terceiro-mundismo guerrilheiro de Régis Debray, mas depois não deram nada, muito menos a constituição de um partido com o sucesso eleitoral do nosso BE. Até se desviou foi para a direita, como se vê por “Danny le rouge”. A extrema-esquerda francesa é hoje irrelevante, em nada se comparando com o BE português.
O que em França se compara, mas só em termos de ser outro polo de esquerda em contraponto ao PCF é o Parti de Gauche (PG). Todavia, há uma diferença essencial: o PG tem origem não na esquerda “radical” mas sim numa dissidência da ala de esquerda mais afirmada do Partido Socialista. Os seus principais dirigentes, com destaque para Mélenchon, já o eram no PS. Simbolicamente, a sua inspiração é Jaurès (foto), sem prejuízo de muitas das suas bandeiras evocarem também Marx.
Recorde-se, aliás, que o PS francês sempre teve uma ala de esquerda forte e com posições nada concordantes com a degradação progressiva das sociais-democracias europeias nas últimas décadas. Um bom exemplo foi a entrada para o PS do PSU de Rocard, muito diferente das assimilações “ideologicamente canibais” do PS português, seja dos ex-MES, seja do grupo Pina Moura e outros de ex-PCP. Assim, onde se vê no PS português a perspetiva de dele se autonomizar uma nova formação política, de esquerda claramente oposta à ideologia ordoliberal e à sua prática consagrada na Europa?
Precisamos de tal partido novo, mas a sua génese e desenvolvimento terão de ser diferentes do PG. Portugal não é a França.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Salut, la France (II)




Há muitas ruas. “A la calle”, à anarquista espanhol, giro, romântico, imprevisível, com panache. Pode ser apimentado com uns molotovs, como em Atenas (e quando em Lisboa?). Com um punhado de gentes da rua se fez o 5 de outubro, com mais gente “arruada” a acompanhar uma meia dúzia de tanques se fez o 25 de abril.
Na rua se mostram hoje dezenas e dezenas de milhares a chamamento da CGTP, incomparavelmente menos a chamamento de coisas ainda muito embrionárias. Mas tudo é certinho, jogada de peão, nada aponta para um dia próximo de decisão.
A rua também pode ser um comício. Já tivemos comícios grandiosos, mas poucos como o da foto deste “post”, na Bastilha, para ouvir Jean-Luc Mélenchon. Como só vemos metade da praça, tão grande como o Terreiro do Paço, não estão menos de 100.000 pessoas.
Um comício enquadra-se num objetivo concreto, uma campanha eleitoral, mas claro que se alimenta do sentimento popular anterior. Imaginemos que temos eleições este ano. As pessoas começam a estar zangadas, mas também perplexas. Não sabem bem o que querem, muito menos saberiam encontrar uma alternativa política como esta francesa que lhes fosse bater na sua emoção de homens atordoados pelo sistema político-partidário. Alguém imagina uma nossa frente política de esquerda partidária a levar toda esta gente à rua?
E veja-se que, sem menosprezo pelas novas formas de intervenção política, este fulgor de esquerda em França se situa no mais convencional quadro político, institucional e partidário. Por isto, continuo a dizer: é urgente uma nova alternativa partidária de esquerda em Portugal.

Salut, la France (I)


A minha geração falou francês. Não fosse a ideia do meu pai, nos fins dos 50s, de que o inglês é que me serviria e de me ter metido em lições semanais de inglês, bem como me comprar todos os meus livros de medicina em inglês, estaria hoje tão afrancesado ainda como tantos meus amigos de “letras”. 

Todavia, ainda nos vem surpreendentemente alguma coisa dessa nossa segunda pátria tradicional. Nestes últimos dias, tenho lido menos em inglês, menos do que habitualmente os nobeis da economia ou a imprensa internacional. Leio e ouço um homem notável, Jean-Luc Mélenchon.
É um homem com a qualidade notável de não só dizer coisas certas como as dizer muito bem. Um grande orador, como só estávamos habituados a ouvir em inglês, por exemplo Martin Luther King.
É o candidato da frente de esquerda (Front de Gauche) às próximas eleições presidenciais francesas. O FG inclui o PCF, o Parti de Gauche (PG) e alguns grupos menores. Claro que não vai ganhar mas, na segunda volta, Hollande vai ter de considerar as posições do FG. Palpita-me que, depois das eleições francesas, muito do que tem sido marcado na Europa pelo coitadinho eixo Merkozy vai mudar. Por si só, Hollande já promete diferença. Com a pressão do FG, o sistema europeu da tristeza ideológica e económica dominante que se cuide.
Vai só aqui uma lista muito sucinta das posições do FG, os títulos dos capítulos do programa. Melhor é lerem-no.
  • Partilhar a riqueza e abolir a insegurança social.
  • Reconquistar o poder da banca e dos mercados financeiros.
  • Planeamento ecológico.
  • Modo de produção alternativo.
  • Uma verdadeira república.
  • Assembleia constituinte da VI República.
  • Denúncia do Tratado de Lisboa.
  • Mudança do caminho da globalização.
  • Emancipação humana.

Provavelmente por dificuldades de entendimento entre os participantes no FG, as posições quanto à crise e ao euro ficam diluídas e ambíguas. Mas já as do PG são muito claras, como direi noutra ocasião. Agora fico por aqui, mas vou ter de escrever mais sobre esta esperança que nos vem da Bastilha. Sempre a Bastilha, sempre a rua.

NOTA - Ainda antes do próximo “post”, fica claro que é difícil transpor isto para Portugal. O PCF não é o PCP e, principalmente, o PG não tem mesmo nada a ver com o BE. Depois explicarei.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Protagonistas

Parece-me prematuro comentar as medidas propostas hoje para fortalecimento (?) do euro, antes de se conhecer a decisão do conselho europeu. No entanto, uma coisa já é certa. O plano é franco-alemão, foi apresentado com parangonas pelo duo Merkel-Sarkosy. Os outros 25 são amavelmente chamados à discussão, obviamente em posição subalterna e antecipadamente concordante. O consenso de Bruxelas só é consenso porque é simples sujeição da maioria dos governos europeus. Por outro lado, Barroso e a comissão europeia estão a desaparecer. E alguém conhece essa invenção de Lisboa, o Sr. Rompuy?