Mostrar mensagens com a etiqueta eleições europeias 2014. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta eleições europeias 2014. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Os resultados eleitorais (II)

Ia arriscar-me a um exercício perigoso, o de extrapolar os resultados de domingo para uma previsão das legislativas. Em primeiro lugar, muita água vai passar por debaixo das pontes e, inclusivamente, dois pequenos resultados podem vir a sofrer evoluções imprevisíveis. Falo do MPT (repetir-se-á nas legislativas o efeito Marinho e Pinto, então em Estrasburgo?) e do Livre. Em segundo lugar, não é nada fácil transpor os resultados de umas eleições com 66,1% de abstenções para legislativas que, na última edição, tiveram muito menos, 41%.
Uma possibilidade seria a de distribuir essa diferença de 25,1% de abstencionistas proporcionalmente aos resultados dos partidos, domingo. Não é correcto, porque é muito provável que a transferência de partidos para a abstenção tenha sido longe de uniforme. Provavelmente, foi mais forte nos partidos do abusivamente chamado “arco da governação” (melhor é dizer os partidos do memorando) do que nos partidos mais coesos ideologicamente, que fixam mais o seu eleitorado (mais o PCP/CDU e agora o Livre, menos o BE). Também me parece haver maior fluidez entre abstenções e votos brancos e nulos.
Depois desse exercício, senti-me mais tranquilo por ter sido divulgada uma sondagem para as legislativas (se tivessem sido no domingo) que não se afasta consideravelmente (3% no máximo em alguns resultados) das minhas projecções. Essa diferenças são facilmente explicáveis por a sondagem não ter considerado com destaque o fenómeno Marinho e Pinto e por apresentar uma percentagem exorbitante de brancos e nulos (2,5 vezes a percentagem das europeias),
Para o que se segue, vou portanto basear-me nesses dados que calculei: PS – 32,2%; PSD+CDS – 28,5%; CDU – 12,6%; MPT – 5,7%; BE – 4,6%; Livre – 2,2%; outros – 6,7%; brancos e nulos – 7,6%; abstenção (pressupostamente igual a 2011) – 41,0%.
A menos que venha a haver até às legislativas uma situação nova, crítica, estes resultados mostram uma situação política bloqueada, frustrante, que provavelmente só terá expressão de insatisfação em saídas marginais ao sistema partidário estabelecido: abstenção, brancos e nulos ou aparecimento/crescimento de pequenos partidos, por si ou por encosto a figuras com popularidade, à Marinho Pinto (deixo agora de lado a questão do populismo). Ao menos, felizmente, nada faz prever a emergência a curto prazo de partidos fascistas.
O que não parece merecer dúvida é que o “arco troikiano” (também tenho direito a usar a palavra arco…), nestes três anos, perdeu imenso terreno, passando de 80% em 2011 para 59,2%, domingo passado. E somando-se a isto que do arco só a aliança do governo é que se atreve a continuar mais papista do que o papa, já que o PS tem feito um grande esforço para fazer esquecer o seu apoio ao memorando e para apresentar propostas anti-austeridade, mesmo que ambíguas e pouco substanciadas.
O povo está descontente e revoltou-se pelo voto contra esta política troikiana. Mas porque não pela positiva, votando maciçamente na esquerda, e principalmente na esquerda consequente? É preciso ter em conta principalmente dois factores. Primeiro, é sabido que as situações de sofrimento e de empobrecimento, mas também com incerteza, medo e precariedade no trabalho, nem sempre acalentam posições subjectivamente revolucionárias. Se às condições objectivas correspondessem sempre condições subjectivas, seria óptimo e Gramsci não teria precisado de tanto esforço para discorrer sobre isso.
Em segundo lugar, e especificamente a nível nacional, temos uma esquerda radical que sobe sempre nestas situações, de forma significativa, mas nunca de forma a constituir-se, em termos institucionais, como alternativa de poder, não chegando aos 20% de votos (CDU+BE). Para já não falar no seu combate difícil contra alguma noção instilada, ideologicamente e comunicacionalmente, da inutilidade do seu voto, por ser uma esquerda só de protesto, insensata, irresponsável e incapaz de fazer alianças. Para além, claro, da herança de todas as malfeitorias, “se não foste tu foi o teu pai”. Mas não foram ignorantes, insensatos, emotivos no seu protesto os “sans culottes” de 1789?
Dito isto, há outra forma de ver esses 20% da esquerda radical. É que impedem o PS de ter maioria absoluta. Os 32,2% que prevejo para o PS (a tal sondagem da semana passada dá-lhe 29,1%) estão muito longe daquilo que se estima ser, em virtude do método de Hondt, o limiar para maioria absoluta, cerca de 43%. A questão crucial vai ser a das alianças pré ou pós-eleitorais. Que a direita, derrotada, estará disponível para uma aliança de “consenso nacional” com o PS, apadrinhada por Cavaco, é evidente. E o que escolherá o PS? É a discussão essencial, como criar condições para que o PS opte por uma aliança à esquerda. A meu ver, é ilusório, pensar-se que os 11% que faltam ao PS para a maioria absoluta possam ser fornecidos, por exemplo, pelo Livre. E seria a canibalização de um tal aliado.
Mas antes, um outro aspecto pouco discutido. Habituámo-nos a ouvir que ganhar as eleições é ficar em primeiro lugar. Daí que, dizem, para que a direita não continue a governar, é preciso fazer ganhar o PS. Isto pode ter efeitos propagandísticos mas, em termos políticos, para formação do governo, é totalmente errado, em muitos casos. É preciso não esquecer que não é "quem ganha a corrida ganha o prémio todo”, estilo eleições inglesas. E que qualquer governo pode nem sequer iniciar funções se for reprovada uma moção de rejeição do seu programa.
Vejamos os dados que apresentei. O PS não tem maioria absoluta mas, segundo a tradição, é convidado a propor um governo. Não parece lógico que todos os outros partidos se unam para rejeitar um governo dirigido pelo PS. Como nada aconselha, nesta situação política e económica, um governo minoritário, que até provavelmente seria recusado pelo PR, fica a questão de que aliança, como discutiremos a seguir.
Mas admita-se que, dado o quase empate, é o PSD, sozinho ou em coligação, que ganha. Novamente, não tem maioria absoluta, mas não tem outra hipótese para uma aliança que não o PS. Admitamos que o PS não quer, preferindo ficar em águas mornas. Simplesmente, o PS tem de considerar que é certo que o PCP+PEV e o BE apresentariam uma moção de rejeição. O que faria o PS? Abster-se era mais um grande passo para a sua descredibilização. Aprovar só lhe deixaria, logicamente, a alternativa de uma aliança à esquerda. Veja-se, portanto, que, em termos friamente objectivos, “ganhar” o PSD até nem era obrigatoriamente uma desgraça.
Escrevi “ficar o PS em águas mornas”. Foi a actuação e discurso típicos de Seguro durante todo este tempo e viu-se. Olhando só impressionistamente para os resultados e ensaiando algumas hipóteses de transferências, não vejo sinais de ganhos do PS à custa da aliança do governo. As transferências devem ter sido mais complicadas. Por isto, também é complicado, e imprevisível, saber-se onde se vai buscar votos para colmatar a diferença de mais de 25% entre as europeias e as legislativas. O esforço vai ser maior à esquerda-esquerda, sempre menos penalizada pela abstenção e que não deve ter perdido muito nas europeias. Os abstencionistas e os votantes do MPT provavelmente vêm do bloco central. Como se repartirão os que, nas legislativas, voltarem às urnas?
A outra incógnita é a descida do BE. Para onde foram metade dos seus votos (menos, se considerarmos as legislativas e autárquicas)? Em princípio, não é um eleitorado potencialmente abstencionista – embora possam ter engrossado, à “anarca”, os nulos – e não estou a vê-los votar Marinho e Pinto. Mais fácil me parece que tenham ido para o Livre, um partido também tipicamente de jovens intelectuais da pequena burguesia (desculpem o chavão…). Onde é, e como, que o BE pode recuperar? Não me fico por explicações tão superficiais como a direcção bicéfala ou a falta da imagem de Louçã, que também é uma pessoa irritante para muita gente.
Em relação à direita, importa também contar com o seu provável comportamento eleitoralista, como se vê pelo DEO. Muita gente que conheço não pesou muito o aumento do IVA e da TSU, aparentemente pequenas percentagens. Ficaram impressionados foi com os 20% de reposição na função pública e com a redução da contribuição de solidariedade sobre as reformas. Também não viram que muitas coisas no DEO dependem de cortes indefinidos e que a UE tudo fará para apoiar o governo, que também beneficiará da tendência geral europeia de descida das taxas de juro, para cuja causa o governo em nada contribuiu.
De tudo isto, resulta claro que, para uma solução a curto prazo (mas também há outras escalas de tempo, em política – escreverei sobre isto), a situação está bloqueada numa simples alternativa, em que é decisivo o papel pendular do PS: ou se alia à direita ou à esquerda. Não há outra solução, nem sequer a de outros tempos em que se podia pescar à linha cada votação, mesmo com queijos limianos.
E, que me perdoe o Sr de la Palisse, para uma solução de esquerda/centro-esquerda, são indispensáveis tanto o PS como os partidos à sua esquerda (e movimentos ou expressões de intervenção política social). O mal será, como se diz, que “eles não se entendem”? O que significa isto, o que é preciso para que se entendam? Darei a seguir a minha modesta opinião.
NOTA – este texto cai sobre a disponibilização de António Costa para se candidatar a secretário-geral do PS. Vou ficar atento, até porque conheço muito pouco do que pensa António Costa sobre as três questões centrais que abordarei na próxima entrada: o tratado orçamental, a reestruturação da dívida e a política de alianças. Em todo o caso, nestes tempos de política de marketing de imagem e “boa imprensa”, parece-me que Costa é melhor trunfo para o PS. Mas, como não tenho nada a ver com o PS, directamente, fico-me por aqui.
(Imagem – a conjuntura de Poincaré)

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Os resultados eleitorais (I)

Começo por comentários factuais, passando amanhã para algumas conjecturas, forçosamente mais sujeitas a alguma subjectividade.
1. Já vai o tempo em que se dizia como coisa indiscutível que não se podia fazer fé nas sondagens. Neste caso das europeias, até se sabe que a sempre esperada grande abstenção retira rigor às sondagens. No entanto, as suas previsões foram bastante credíveis. Numa noite de balanço sobre vitórias e derrotas, as sondagens também ganharam.
2. Não me parece justificar-se surpresa – e talvez nem sequer preocupação excessiva – com a abstenção (65,3%). Vem de acordo com uma tendência de crescimento linear, também nas restantes eleições. Nas últimas europeias, a abstenção foi de 60,1% em 1999, 61,4% em 2004 e 63,3% em 2009. Repare-se que o aumento de 2% entre 2009 e 2015 foi o que já tinha havido entre 2004 e 2009.
Até esperava mais, numa situação em que não há diferenças claras de posição e propostas entre os dois pólos do centrão, ambos europeístas, adeptos das normas da economia europeia estabelecida (por exemplo, o pacto orçamental) e opostos a qualquer dissolução ou saída unilateral da zona euro. Falei com pessoas desta área central, que têm oscilado de voto e que desta vez se iam abster. Talvez o MPT tenha contribuído para levar às urnas alguns desses potenciais abstencionistas.
3. Não esperava os resultados brancos e nulos. Os brancos, considerados normalmente votos conscientes de manifestação de descontentamento geral, desceram 0,3%, de 4,7% para 4,3%. Já os nulos, muitas vezes tidos como de eleitores menos instruídos, que se enganam, subiram substancialmente (tanto quanto se podem comparar pequenas percentagens), 1,1%, de 2% para 3,1%. Talvez o voto nulo esteja a servir para deixar registado (em texto ou desenho) o protesto.
4. Por muito que a desonestidade intelectual da comunicação social de serviço esteja a tentar minimizar a derrota da direita, não há dúvida possível: teve uma derrota clamorosa. Uma queda de 12,4% (31% do seu eleitorado de 2009) e a perda de 3 deputados (em 10) só é “derrota relativa” num país de aldrabões. Até se chega a dizer que foi natural perder por o governo ter sido “obrigado” a governar duro. Claro, pois por isso perdeu. É como o clube que perde o jogo porque jogou mal.
5. Em contrapartida, sendo indiscutível que o PS ganhou, seria de esperar que a vitória tivesse sido muito mais expressiva. Mais 3,8% e mais 1 deputado parece-me muito curto para quem, como se viu em toda a campanha e ainda ontem, pôs todas as fichas na sua validação, desde já, como alternativa para o governo a formar-se em 2015. Creio que, como disse acima, isto reflecte a desconfiança de algum eleitorado do centro, oscilante, em relação à possibilidade de o PS ser uma verdadeira alternativa, tendo em conta a ambiguidade – e até demagogia – das suas propostas, a total falta de carisma de Seguro e o cansaço com um partido tão vicioso e carreirista como os de direita. Também não deve ter atraído eleitores mais à esquerda que, em outros tempos, votavam útil no PS, quando este, por exemplo com Guterres em 1995, foi uma alternativa possível à direita retinta.
6. Porque tem havido essa ambiguidade no centrão, porque tanto se fala num consenso europeu reflectido no “arco de governação” (uma expressão perversa em termos democráticos), também é interessante ver a evolução da votação conjunta dos três partidos que assinaram o memorando. Caíram 7,5%, de 66,7% para 59,2%. Para onde foram estes votos? Discutiremos mais adiante (10).
7. Do PCP/CDU pouco há a dizer: 12,7% (mais 2%) e 3 deputados (mais 1) são indesmentivelmente um resultado notável, mas gostava de salientar um aspecto que ainda não vi focado. O PCP arriscou muito, sendo o único partido a abordar frontalmente a questão do euro, embora de uma forma correcta e inevitavelmente prudente. Talvez tenha perdido votos com isto, até de uma zona de votantes BE em saída deste partido, mas essa eventual perda talvez tenha sido compensada por quem apreciou a coragem política que, com isso, o PCP demonstrou. Permitam-me uma nota pessoal: não sendo eu votante regular na CDU, desta vez foi esta posição sobre o euro que me fez votar.
8. Os números não permitem esconder que o BE está em queda acelerada, perdendo 2 deputados e 6,1% de votos (de 10,7% para 4,6%), 60% do seu eleitorado. Transferências para a CDU? Para a abstenção, de desanimados com a imagem de degradação do partido? Para o Livre? Efeito da mudança na direcção? Não sei, mas certamente que o BE vai ter de reflectir muito a sério. Espero que sim, porque, situando-me numa perspectiva unitária de esquerda consequente, não me agrada nada este resultado, ao contrário do da CDU.
9. A área da esquerda / centro-esquerda consegue 51% dos votos (juntando o Livre), subindo 2% em relação a 2009. Aritmeticamente (infelizmente, não significa politicamente) reforçam-se até as condições para um governo progressista e contra a política de austeridade, com maioria absoluta.
10. O fenómeno Marinho e Pinto ainda terá de ser bem estudado. Confesso que, talvez por ter acompanhado pouco a campanha, nunca me passou pela cabeça. O meu palpite é que os 7,1% de votos do MPT são essencialmente votos de iniciais abstencionistas do centrão. É o sector em que, como vimos, há uma perda equivalente e em que mais se esperava um aumento considerável da abstenção. Note-se que Marinho e Pinto, tanto quanto vi hoje em declarações durante a campanha, focou a sua campanha na crítica à ineficácia, falta de ética e falta de alternativas dos três partidos dessa área. Diga-se também que, ao contrário do que já se diz por toda a parte, não é linear que Marinho e Pinto seja um populista de direita, direita em que costuma situar-se o MPT. Não o vejo adoptar um discurso generalizadamente antipartidos, à Medina Carreira, muito menos antidemocrático. Mas que tem fortes laivos de demagogia e de um justicialismo primário, não me parece haver dúvida. Não creio que seja isto que precisamos e que justifique tão impressivo resultado eleitoral.
11. Apesar de não ter eleito nenhum deputado, justifica-se uma nota sobre o Livre. Os seus 2,2% de votos são um resultado interessante, para um partido jovem (mas ajudado por muito "boa imprensa"), e permitem-lhe um lugar em discussões à esquerda nestes tempos próximos.
Ficam então para amanhã as considerações políticas sobre o que pode ser o nosso futuro, à luz destes resultados – deixando claro que ainda estamos longe das legislativas e muita coisa pode acontecer até lá.