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quarta-feira, 31 de maio de 2017

O 27 de maio em Angola

Numa convergência bizarra, o Expresso e o Bloco de Esquerda, através do seu portal esquerda.net, estão a dar grande destaque, visivelmente elogioso, aos acontecimentos de 27 de maio de 1977 em Angola. Compreende-se o Expresso, por questões empresariais bem conhecidas, mas que também revelam o que é a “independência” da comunicação social. o BE é mais difícil de perceber, embora isto se enquadre numa oposição persistente ao governo angolano e ao MPLA, inclusive com coisas publicadas por Louçã.
Devo começar por declarações de interesses. Tendo vivido a luta antifascista e anticolonialista, durante o salazar-fascismo, o MPLA era para mim e para muitos outros uma referência. Assim se manteve durante todo o período da descolonização e concordei inteiramente, até em benefício dos colonos brancos, com o apoio prestado ao MPLA, de outra forma talvez em grande risco perante os outros movimentos bem armados por interesses estrangeiros.
Muito mais tarde, com a guerra civil, fui tentando compreender atitudes do MPLA e do seu governo, em termos de “real politik”, embora já não conseguisse ver nada do ímpeto libertador e revolucionário.
Depois, até com testemunho indiscutível (e também confissões amarguradas de velhos amigos do MPLA), convenço-me de que a máquina do poder, a corrupção, o oportunismo político, acabaram definitivamente com o “meu adotivo” MPLA. Mas creio manter objetividade em relação a isso.
Por via de funções que desempenhava no PCP na época do 27 de maio, segui bem os acontecimentos e creio que com boa informação. Foi também um episódio muito difícil para o PCP e as suas relações com o MPLA. Agostinho Neto e outros quadros eminentes, ao que consta, foram membros do PCP.  Mas é redutoramente linear que isto signifique uma relação para a vida. Novos empenhos, compromissos, conhecimentos diversos das situações reais, impõem um respeito absoluto pelos percursos que se vão fazendo. Até entre nós; estou a escrever isto e a lembrar-me do meu querido amigo José Tengarrinha e do corte do MDP com o PCP, e ele quer era um antigo quadro comunista.
Nunca conheci os principais envolvidos no 27 de maio. Só, indiretamente mas creio que bem, Cita Vales (agora chamada neste processo mediático atual de Sita Vales, o que revela alguma coisa de desconhecimento). Por funções que exercia no conjunto político do ensino superior, eu tinha estreito conhecimento do que se passava na UEC. Cita era uma militante muito ativa e dedicada, mas pouco elaborada intelectualmente e principalmente muito sectária e “partidista”, como tanta gente na altura (se calhar, até eu até certo ponto…). Também com algum romantismo ideológico. A sua ida para Angola, de cuja discussão tive bom conhecimento, foi vista com preocupação. Uma coisa à Che, já fiz aqui a revolução, agora vou ajudar os que precisam de mim (coitados!) para a fazerem. Mas ela foi bem prevenida dos riscos que decorriam desse voluntarismo e concordou em controlo-los, o que não fez. Subiu-lhe à cabeça ser a mentora da revolução angolana e ficar na História.
Não conheço bem a génese e comportamento dos chamados “fraccionistas”. Conheço é as “Treze teses em minha defesa”, de Nito Alves, dizem geralmente que de facto da autoria de Cita, que são uma coisa confrangedora, do mais rudimentar catecismo da “ideologia” soviética.
Houve muitas vítimas, incertos milhares, talvez dezenas de milhares, da repressão ao 27 de maio. Que fique bem claro que nem compreendo nem muito menos aceito o processo de repressão sem um mínimo de legalidade – mesmo legalidade revolucionária! – que até, como diria Talleyrand, foi pior do que um crime, foi um erro.
Mas daí a branquear a acção dos nitistas vai uma grande distância. Ao contrário do que agora dizem o Expresso e a esquerda.net, ou os seus entrevistados, não foi nada uma simples manifestação para dar apoio aos fraccionistas (principalmente Nito Alves, José van Dunem e Cita Vales), os dois primeiros demitidos dias antes dos seus cargos dirigentes no MPLA.
Foi, indiscutivelmente, um golpe de estado, com presos e mortos importantes de apoiantes da direção do MPLA. É hoje bem conhecida a rede de grupos de ação militar a coberto da mobilização civil, que começou com a tomada da Rádio Popular de Angola.
Não é que, pragmaticamente, eu condene a priori os golpes de estado. Tudo depende do que pretendem e da situação que se vive. Mas, fora as queixas pessoais, admito que justas, as motivações programáticas e políticas dos nitistas eram primárias, por exemplo as queixas contra convicções socias-democratas de Neto.
O que não podem fazer agora os nitistas ou a comunicação social que lhes dá cobertura é misturar a repressão feroz e condenável do golpe com uma inocência de simples manifestação popular que ele teria tido.
Só lamento é que a vitória da linha mais coerente e realista do MPLA, na altura, tenha derivado até hoje para um regime de autoritarismo, corrupto e clientelista, com a emergência de uma nova burguesia escandalosa e ostensivamente rica, marginalizando um grande povo que não usufrui minimamente dos seus recursos nacionais, para a sua saúde (coisa que conheço muito bem), a sua educação (idem) e o seu desenvolvimento e vida digna. 

Também ainda uma nota para a perfídia da política internacional. Nito Alves e os seus amigos estavam convencidos de terem apoio da URSS. As relações dos soviéticos com o MPLA sempre foram ambíguas. Se não fosse o apoio das forças armadas portugueses e da Jugoslávia quando o MPLA era fraquíssimo perante os seus adversários armados pelos EUA e África do Sul (provavelmente também China), Angola e os colonos portugueses teriam ficar entregues ao racismo da FNLA e da Unita, com aparente indiferença da URSS. Ora, no 27.5, os nitistas foram traídos pelos seus amigos soviéticos. Os cubanos, antes de se comprometerem com o apoio decisivo dos seus tanques a Neto, consultaram a URSS, que lhes deu luz verde.
Nota pessoal final. Estive em Angola, entre 1970 e 1972, como médico miliciano da marinha, na guerra colonial. Conheci a floresta e o rio Zaire, a savana das terras do fim do mundo e muito de Luanda. Fiquei adotivo. Duplamente, na última década, pela minha mulher angolana. Tenho direito acrescido a criticar a Angola de hoje, porque também é minha. Mas detesto manipulações.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Ao correr da pena

1. A palavra e a política

Há alguns dias, Manuel Alegre escreveu no Público um artigo intitulado “Palavras imensas. Defende que “a matriz das esquerdas é comum: reside na recusa daquilo a que Octavio Paz chamou ‘a injustiça inerente ao capitalismo.’ Essa é a sua essência”. Mas reconhece logo a seguir que “a divisão entre revolucionários e reformistas vem quase desde o início” e que se agravou quando, “com a guerra fria, os partidos da Internacional Socialista funcionaram como terceira via, por um lado contraponto em relação ao bloco comunista, por outro gestão moderadora do capitalismo, através do Estado providência e dos direitos sociais que significaram um considerável avanço civilizacional.” Conclui, e não discordo, que “os partidos socialistas ou se deixaram colonizar pelo neoliberalismo triunfante ou seguiram a moda pseudo-modernizadora do blairismo. (…) A queda do muro de Berlim não se traduziu na vitória da social democracia, mas no triunfo do capitalismo financeiro à escala global”. E confessa-se: “Sou, porventura, um socialista fora de moda. Mas não quero o socialismo fora da História e da própria linguagem. E muito menos da vida. Como escreveu Mário Cesariny: ‘Há palavras imensas, que esperam por nós.’ Mas não as palavras ideologicamente assépticas.

Desde o título, há neste artigo algum arrebatamento poético, que não é de estranhar. Mas até que ponto têm as palavras, por si, um valor transformador e revolucionário? Em contraponto, não há uma análise objectiva e teoricamente fundamentada das consequências para a acção prática actual da divisão que se processou ao longo de décadas, reduzindo a bandeira de palavras simbólicas a tal matriz comum. O seu artigo acaba por ser um simples enunciado de factos bem conhecidos, sem devida explicação. O que reconheço em Alegre é que assume a quota parte de responsabilidade histórica do seu lado partidário. 

Dias depois, responde-lhe Domingos Lopes, “Perseguir a imensa esperança”. “Há, na verdade, palavras imensas. Fico-me pela palavra socialismo. Palavra que aproxima as esquerdas. Socialismo, sonho, como outrora o de Cristo, antes de a Igreja se inclinar perante o poder dos Césares. (…) há palavras imensas que esperam por nós. Eu acrescentaria pelas quais nós esperamos em perseguição pelo ideal contido na palavra. Há palavras imensas que aproximam os homens e as que os afastam e os tornam inimigos uns dos outros.

Manuel Alegre analisa as várias rupturas nas esquerdas e até dentro delas, pois enquanto houver homens haverá sempre lugar a diferentes interpretações. Porém, ao acabar de ler e acalentado pela ‘fé’ na palavra que poeta não deixa morrer - socialismo - e tendo em conta a tese do autor de que vivemos num tempo em que os partidos tradicionais podem deixar de contar ou até desaparecer, dei comigo a pensar no futuro do PS com Seguro ao leme. Porquê? Porque se impõe perguntar qual o futuro do PS... E ainda porquê... porque o PS deixou cair os valores da esquerda que proclama ter... (…) O PS é um partido-chave para uma mudança (salvo se se entender que a mudança será sem eleições, do género revolucionário). Continuando, porém, a ser um actor que em muito pouco se distingue dos partidos do Governo, prosseguindo o caminho de incorporação na vaga ultraliberal que assola o mundo, liquidará o sonho social-democrata de muitos aderentes daquele partido.

(…) A democracia precisa de um PS que não se vergue à onda conservadora que varre o mundo. O mundo precisa de mudar. E Portugal também. Há palavras imensas que temos de perseguir: liberdade, igualdade, justiça, socialismo. Há palavras terríveis que todos os dias açoitam os portugueses: empobrecimento, austeridade. Precisamos da imensidão da palavra esperança, desejavelmente com o PS. Se não, com quem tiver esperança. E futuro.

Julgo que Domingos Lopes tem uma formação e solidez ideológica superior à de Manuel Alegre, que é fundamentalmente um tribuno. A sua formação política emerge na aceitação de outra hipótese, comon se viu acima: “salvo se se entender que a mudança será sem eleições, do género revolucionário”. Mesmo assim, procurando corresponder, com espírito “unitário”, ao idealismo de Alegre, fica enredado na contradição principal da nossa “esquerda”: precisamos de um PS diferente mas o PS não quer ser diferente. E outros, que tenham esperança e futuro, de que fala Domingos Lopes, fica-se pelo vago. Contra isto, não há palavras imensas.

2. O BE e Angola

Dou de barato que o MPLA deixou de ser há muito o partido que, na minha juventude, era o exemplo da coerência na luta pela independência. Dou de barato que, principalmente a partir da guerra civil, ambos os lados usaram importantes recursos naturais para se armarem, o MPLA vendendo petróleo, a Unita diamantes. Dou de barato que, com isto, os generais fizeram fortunas que foram acalentadas por José Eduardo dos Santos, para lhes ganhar o apoio. Dou de barato que não é com um simples curso em Inglaterra e sem meios anteriores que Isabel dos Santos se transforma na mulher mais rica de África. Dou de barato que há farta corrupção em Angola, a par com o cumprimento dos slogans anunciados de que “os angolanos têm o direito a ser ricos” e “é necessária a acumulação primária do capital”. Dou de barato que Angola tem uma enorme assimetria económica e social.

Também é inegável que há capitais angolanos a entrar em Portugal (e portugueses em Angola), com destaque simbólico (mas não económico e financeiro) para a comunicação social. E que há uma ostentação de novo-riquismo de angolanas nas lojas de luxo da Av. da Liberdade.

Mas o que faz, disto tudo, proclamar-se repetidamente, como faz o BE, que Angola está a comprar Portugal? Está a dominar economicamente mais do que os ricos da eurolândia? Oprimem o povo português mais do que a troika? E que vantagem há em agitar este papão (xenófobo?) numa altura em que estão a emigrar para Angola centenas ou milhares de portugueses? Quando se chega à economia moral, não há diferença entre fanáticos, sejam eles Louçã ou Merkel, em extremos opostos. 

3. As lutas inglórias do BE

Esta nota vai quase sem palavras. Nos tempos que vamos vivendo, o piropo teve honras de tema nacional no recente debate do BE, “Socialismo 2013”. Se o ridículo matasse...

4. O que Krugman disse

Já foi há bastante tempo que foi muito badalada a afirmação de Paul Krugman no sentido de que os salários (melhor, os custos unitários de trabalho) em Portugal e na Alemanha tinham entre si um desajustamento de 20%. As brilhantes mentes da casa nem foram ler o texto de Krugman, “German Wages and Portuguese Competitiveness (A Bit Wonkish)”(com explicação em português no Jornal de Negócios), mas deveriam ter logo pensado que se duas bengalas diferem em 20 cm tanto pode ser porque uma é 20 cm mais comprida ou a outra 20 cm mais curta (não estou a brincar, pensem bem).

Agora, tantos meses depois, é o inefável José Manuel Fernandes, saído do Público por uma porta e entrado por outra, que, cumprindo aquela norma prática de que arrogante de cabeça rígida fica sempre assim, primeiro como esquerdista depois como “neocon”, vem dizer o mesmo: “vejam lá, não era só António Borges que dizia, também o keynesiano Krugman diz que os salários portugueses têm de descer”. Não é verdade. Vão ao tal “post” e lerão que o que Krugman defende é que os salários alemães devem subir. Agora conseguir isto é outra história…

(A propósito: quais são os critérios do Público para a escolha dos seus colunistas? Se não me falha a memória, dois socialistas, Correia de Campos e Francisco Assis; um jornalista independente de esquerda, José Vítor Malheiros; um PSD, Paulo Rangel; um liberal conservador, João Carlos Espada; um eurodeputado alinhado com os verdes europeus, Rui Tavares; um jornalista de direita retinta, João Miguel Tavares, que só tem rival no seu colega do Expresso, Henrique Raposo – e cada vez mais Henrique Monteiro; finalmente, a figura inconcebível de ultramontanismo de cabeção, Gonçalo Portocarrera de Almada, que, curiosamente e contra o seu retrato, nunca se apresenta como padre católico e do Opus Dei.) 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Manifesto contra o manifestismo

O título é contraditório, mas haja lugar a algum humor de escrita, mesmo que se trate de coisas sérias. A pensar em humor na escrita séria, coisa queiroziana que nos ficou de jovem, tenho logo de mandar um abraço virtual ao Marcelo. Há tempos, deixei aqui e aqui as minhas reservas em relação ao último da infinda lista de manifestos de gente que parece que não tem mais nada onde exercer a devida ação política. 

Desde já digo que me é muito reconfortante ler a lista dos subscritores. Não vou procurar quem assinou, mas antes quem NÃO assinou e nestes, felizmente, encontro os meus maiores amigos políticos. E nem preciso de lhes perguntar porque não assinaram. Simplesmente porque “há, nos olhos seus, ironias e cansaços”, porque “sabem que não vão por aí”. Mesmo que Régio não fosse o poeta de estimação da minha gente dos 60s.

Tudo isto vem a propósito de uma notícia a que talvez não devesse dar qualquer crédito, porque publicada no pasquim Sol. É jornal que prenuncia o que vai ser o domínio da nossa comunicação pelo gangue da corrupção angolana (e isto é dito por um velho simpatizante do MPLA do tempo da guerra colonial).  Leio-o na diagonal, masoquisticamente, quando distribuído gratuitamente (porquê?...) num sítio por onde passo.

Diz-se que o grupo soarista do tal manifesto prepara uma coisa à Monti (fracassada ao fim de um ano), tentando influenciar o PR para nomear um primeiro ministro aceitável por amplos quadrantes, até sindicalistas, Silva Peneda, presidente do Conselho Económico e Social, ex-ministro de um ou mais governos de Cavaco. Até vai longe a notícia, identificando como apoio, que não imagino de todo, Manuel Carvalho da Silva. É o jornal do arquiteto Saraiva, iluminado pelo sol do título, artista português, palavras para quê.

Não quero crer. Vejo na lista de subscritores muita gente que, como eu, a haver como é urgente o derrube deste governo, só aceitam uma subsequência eleitoral, que não querem abrir as portas a nenhum cesarismo, que não veem no atual PR a grandeza política para garantir que uma tal solução fosse mesmo apenas e só uma coisa muito excecional e transitória, completamente à margem da sua agenda política. 

Deve ser coisa do tal pasquim, que não passou pela cabeça de alguns subscritores do manifesto. Mas este é o perigo do manifestismo. Ou a cada especulação vai cada um dos manifestistas explicar a sua posição?

NOTA 1 – Há dias, Filomena Mónica atirou-se que nem gata a bofe a Boaventura Sousa Santos, subscritor do manifesto soarista. Lembrei-me disto porque BSS é hoje o nosso manifestista-mor. Vai a todas, como vai a todos os financiamentos para o seu centro. Eu acho que MFF é uma diletante menina-bem e que atacando BSS há nisso muito prima-donismo das “ciências” (?) sociais, muitos ressabiamentos e invejas num meio em que afinal estão todos bem para os outros. Mas também é facto que o homem expõe todo o flanco. É o nosso expoente do manifestismo. Tanto assina coisas a favor da austeridade como dá entrevistas bombásticas de extrema esquerda. 

NOTA 2 – Vendo o tal pasquim dirigido pelo inefável arquiteto autor do mais ridículo e literariamente inepto romance policial de cordel, em folhetins a cada número do jornal (inimaginavelmente abaixo de José Rodrigues dos Santos, porventura o seu émulo), reparo que muitas páginas ímpares são ocupadas com anúncios de página inteira da Boutique dos Relógios. Não é publicidade para Portugal. O pasquim é hoje muito vendido em Angola, que se sabe fornecer boa parte da clientela das lojas de luxo da Av. Liberdade. Quem é hoje o dono da loja? Ao que chegou a “grandeza lusitana”, a “ditosa pátria minha amada”...