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terça-feira, 4 de março de 2014

Os novos cursos profissionais

Vou hoje centrar-me num tema político em que julgo ter reputação, o da política da educação superior. Vou discutir a decisão recente do Governo de criar um novo tipo de cursos sem concessão de grau, os Cursos Técnicos Superiores Profissionais (CTSP). Serão cursos de formação profissional, reconhecidos como de nível 5 do quadro europeu de aprendizagem (e do quadro português), com duração de dois anos (120 créditos) e leccionados exclusivamente em estabelecimentos de ensino politécnico.

Segundo o comunicado oficial, os CTSP vêm “colmatar uma necessidade dos estudantes», de terem uma formação de nível superior, mas mais curta que a licenciatura, que permita a formação de técnicos superiores, «muito necessários ao País hoje em dia”. Não é verdade. Já existem, há vários anos e por todo o país, os Cursos de Especialização Tecnológica (CET). Tanto uns como outros têm orientação profissional, são de nível 5 de qualificação, exigem o 12º ano. A principal diferença é que os CET são cursos de 60 créditos (um ano), podendo ir até 90. Assim, em termos de duração, os CET distinguem-se claramente das licenciaturas (3 anos), enquanto que os novos CTSP ficam a um passo da licenciatura. Vai ser uma grande confusão, com competição interna, com extinção de CET úteis e criação de CTSP duvidosos. Por isto, o Conselho coordenador dons institutos politécnicos já declarou que os institutos se recusam a leccionar os novos cursos.

Outra diferença explica muita coisa e mostra que pouco vale o tão propalado rigor e domínio técnico de Crato, afinal limitado a um superficial discurso demagógico de crítica a um pretenso “eduquês”. É que os CET, não sendo reconhecidos como de nível superior pela União Europeia, não beneficiam de financiamento, o que deixa de acontecer com os novos CTSP, já com 20 milhões de euros anuais.

Ao contrário das licenciaturas, em que a questão do mercado de trabalho é complexa, não me parece haver dúvidas no caso de cursos de formação profissional, que não podem formar para o desemprego. E aqui põem-se graves problemas com os CTSP, como posso exemplificar com o caso da escola que dirijo. Não temos ainda CET mas íamos propor quatro: aquariotecnia e terrariotecnia, tratadores de animais de laboratório, auxiliares de laboratório, operadores informáticos de dados estatísticos. Todos cursos para que se previa procura e perspectivas de emprego, de acordo com informação recolhida no trabalho. Com a extinção dos CET e sua substituição por cursos de dois anos, nenhuma dessas propostas faz sentido. Não vamos obrigar um jovem a gastar dois anos a aprender a esterilizar material de laboratório e saber pesar e preparar soluções, nem outro a saber introduzir correctamente dados em Excel, organizá-los e fazer análises rudimentares.

Também receio a desvirtuação das intenções de formação profissional. É verdade que a lei dos CTSP vai impor um limite máximo de 30% de créditos de natureza académico-científica, mas tudo se consegue fazer em área tão vaga e ambígua como a definição dessa natureza. Não se esqueça que os politécnicos fizeram uma “deriva académica” e, opostamente, as universidades uma “deriva profissionalizante” em áreas científicas tradicionais.

As universidades, que agora já podem criar escolas politécnicas integradas e que necessitam cada mais de alunos, podem sempre aproveitar este novo factor de oferta/procura. Em vez da dúvida que famílias possam ter em relação a um compromisso inicial com uma licenciatura, podem agora ir em dois passos, primeiro um CTSP a dar uma qualificação e, se possível, prosseguimento para uma licenciatura.

Como nota final, o que já ouvi sobre os CTSP, que corresponderiam ao modelo já longamente consagrado cos cursos dos “colleges” americanos, que conferem certificados ou diplomas, mas não graus académicos. De facto, em comum só têm ser cursos de dois anos a que se tem acesso com o ensino secundário completo. Tudo o mais é diferente. Em primeiro lugar, as licenciaturas nos EUA (BA, BSc) são de quatro anos, mais claramente separadas dos cursos de “college”. Em muitos casos, o curso do “college” é uma fase preliminar ao ingresso na universidade. Em segundo lugar, os cursos dos “colleges” têm muita procura porque as universidades são muito caras e os “colleges” são públicos e comunitários, ao passo que cá as propinas de CET/CTSP e licenciaturas não são consideravelmente diferentes. Depois, o mercado de trabalho americano é muito diferente, muito mais terciarizado,valorizando muito mais as competências básicas prolongadas com especialização em exercício. Mais, a oferta de cursos cobre praticamente todas as actividades, estando assimilado pelo mercado que um nível secundário de emprego exige um curso de “college”, senão vai-se para empregos indiferenciados.

Esta última é que é a semelhança connosco, a de os jovens terem alta probabilidade de só encontrarem emprego indiferenciado. Mas não é por não terem um CTSP. Que o digam os caixas de supermercado que não têm CTSP; têm é licenciatura e, um dia destes, doutoramento. Depois do último concurso de bolsas da FCT, não me admiraria.

Indirectamente, este problema chama à discussão o processo de Bolonha, o seu paradigma e o sistema de graus. Faz sentido que uma licenciatura exija três anos e um curso intermédio profissional dois, apenas um ano menos do que a licenciatura? Fica para a próxima.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O talibã da educação (II)

Na última entrada, disse que escreveria alguma coisa sobre o ministro Crato, o tal que só ganhou "autoridade pública" por ter protagonizado umas das personagens, televisivas, de uma célebre fábula. Afinal, até já tinha escrito, sem publicar, a propósito de um artigo sobre ele, no Público. Deixei de assinar o Público, “jornal de referência”, em descida acelerada para pasquim. Por isto, não li esse artigo do Público, referido pelo Jugular, que reproduz, no essencial, um comunicado do MEC.

Lá vem o “eduquês”, uma alusão lançada com infeliz boa intenção por Marçal Grilo, mas depois aproveitada por talibãs fundamentalistas da transposição freudiana para hoje da educação que sofreram, como Nuno Crato e o seu companheiro de lides Guilherme Valente. O que é preciso é tabuada, encornanço, escrever 100 vezes no caderno. Faz lembrar a velha coisa dos pais violentos, “se o meu pai me bateu só me fez bem e me educou, agora devo fazer o mesmo aos filhos”. Horroroso!

É claro que se escreveu e se fez muita asneira com base no construtivismo pedagógico, em Piaget mal lido, também em muito mais de cientificamente muito sólido. Mas estes talibãs são ideólogos sem rigor científico, misturam tudo, como caricatura, posições patetas de esquerdistas (a propósito, por que setores políticos andou Crato quando estudante?!) e ideias cientificamente sólidas de pedagogos como António Nóvoa, que Crato critica abundantemente no seu livro, com citações fora do contexto.

Crato é um estimável professor universitário, embora sem grande destaque. Popularizou-se, com mérito, como divulgador de ciência, em crónicas de meia dúzia de parágrafos no Expresso. Depois, com muito menos mérito, como rapaz comentador-topa-a-tudo a amparar o velho Medina Carreira mais o tal outro da lenda, Mário Crespo. Mais tarde, incompreensivelmente, é presidente do Tagus Parque, coisa sobre que a sua honestidade mental lhe devia ter dito que ele não tinha a mínima qualificação para o lugar. Depois ministro absurdamente venerado, até, inicialmente, pelo mandarim do nosso sindicalismo de professores (tudo valia para malhar na ministra M. Lurdes Rodrigues).

E afirma com leviandade a sua certeza: os nossos jovens não sabem tabuada, não sabem gramática e escrevem erros de palmatória. Não sei se é o caso dele, mas não é o meu, que só vou exemplificar, por questão de datamento, no meu filho mais novo. Sr. ministro, ele aprendeu tabuada e sabe de cor quantos são 9x7, até é muito bom em cálculo mental. Fazia ditados diários e hoje escreve sem erros. Não sabe português? Ao contrário do que se calhar se passava consigo com os seus pais, discute comigo porque é que gosta mais de Pessoa e eu de Cesário, como eu contrapunha ao meu avô, em horas de discussão às vezes tensas (o homem era duro de roer, eu também se calhar) o seu adorado Camilo com o meu Eça. E hoje, os seus filhos conversam assim consigo? Espero que sim.

E nunca ninguém pôs no lugar o arrogante Crato, sem medo daquele ar superior e convencido que arvora, de sobrancelha olímpica? Sim. Desculpem a imodéstia, mas eu escrevi em devido tempo. Denunciei a mediocridade do seu livro “Eduquês em discurso directo”, (Gradiva ISBN 989-616-094-5). Dei muitos exemplos da desonestidade intelectual do livro. Chamei a atenção para o homem legitimamente preocupado com um tema circunscrito mas que o queria envolver em discurso ignorante de filosofia política, com erros crassos sobre o pensamento de Gramsci (compreender o genial Gramsci não é para qualquer um!) ou com estereotipos simples sobre Lenine ou, com alguma razão mas só de slogan, sobre Estaline. 

E a que propósito Crato se preocupa tanto com essa discussão dos marxistas ou “marxistas”? Catarse, penitência do passado? A célebre boutade de Brandt era de que um bom social-democrata devia ter sido comunista na juventude. Já passou. Hoje, mostra a experiência que um bom direitista retinto deve ter sido um fanático esquerdista na juventude. Que o diga Durão Barroso.

Também combati frontalmente o seu artigo sobre o “bolonhês” [Crato, Nuno (2009). "Ficamo-nos pelo 'Bolonhês'?". Ensino Superior, 31:9-13], tentativa tosca e sem bases de fundamentação de transpor para uma geração etariamente mais avançada (a dos estudantes universitários) a sua obsessão contra o cuidado com a formação de competências nas crianças e adolescentes, menos importante para ele do que a simples acumulação de informação perecível. Olhe, Sr. ministro, por ventura ou azar de ter um avô professor de latim, tive com eles aulas semanais de latim, porque, senão, segundo ele, nunca falaria bom português. Porque é que não faz um exercício desses e, daqui a uns tempos, me demonstra que sabe todo o rosa-rosae, todos os casos em todas as declinações? Hoje, confesso que me dá gozo saber ler uma estela romana. Mas o que paguei para isso? Justifica-se, só para, segundo a sua ideologia, "disciplinar" o aluno, vergar a coluna vertebral da aprendizagem?

Mas também lhe reconheço a coerência de ser ministro. É verdade que Passos Coelho dificilmente teria encontrado outro ministro tão pronto a desfazer a escola pública e a sua evolução pós-revolucionária. Este é um governo de fanáticos, ultra-ortodoxos. Na sua área, Crato não destoa de Gaspar.

Já que falei do seu dileto companheiro talibã, Guilherme Valente (GV), sem desprimor para as boas publicações da Gradiva, vem-me à memória uma história pitoresca. Creio que em 2001, acabado de escrever o meu livro “A universidade no seu labirinto”, mandei-o a GV. Conversámos e ele explicou-me que não o editava, porque ninguém queria saber do ensino superior, que já tinha muitos monos, entre os quais um sobre a reforma da universidade de que até me ofereceu um exemplar, que li com simpatia, embora considerando que era coisa bem intencionada mas fraquinha. O meu livro foi depois editado pela Caminho, com bastante sucesso e está largamente esgotado, nem eu já tendo exemplares para oferta. O tal mono era um livrinho de João Queiró, hoje Secretário de Estado de Crato. As voltas que o mundo dá!

O talibã da educação (I)

Chegou-me uma carta escrita ao ministro Crato por três colegas muito estimados: Carlos Salema, ex-presidente da JNICT numa altura crítica, a do Programa Ciência, e fundador e primeiro presidente da Fundação para a Computação Científica Nacional (FCCN); Luís Magalhães, que conheci ainda a fazer o seu excelente doutoramento no meu IGC, depois também presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT),  e mais recentemente, presidente da Agência para a sociedade do conhecimento (UMIC); João Sentieiro, penúltimo presidente da FCT, recentemente substituído pelo atual ministro.

Para quem não sabe, a FCCN é a Meo ou Zon das universidades. Faculta-lhes, a preços baixos, a ligação à internet, para além de outros recursos. Já imaginaram uma universidade sem ligação à net? É mais do que provável – embora eu não tenha dados certos – de que as nossas instituições de ensino e de investigação e, indiretamente os seus membros como eu, não conseguiriam assegurar orçamentalmente o seu tráfego informático (internet, correio, nuvens, teleconferência, e-learning, etc.) se ficassem dependentes dos fornecedores comercias de serviços de ligação de rede. Ainda por cima, sem que ninguém se queixe, a FCCN é invisível, limita-se a funcionar muito bem, o que é melhor que se pode dizer de um fornecedor de serviços – que fique esquecido. Digamos que a FCCN é a PT universitária.

A FCT é uma instituição completamente diferente, de âmbito muito vasto. Para além de estudos e constituição de bases de dados sobre o sistema científico nacional, é essencialmente a principal entidade financiadora – a nível nacional – da investigação: financiamento de base de unidades de investigação, financiamento de projetos, concessão de bolsas, contratos de investigação, etc. Por isto, na lista da independência do financiamento do Estado, está no fim do campeonato. Até lhe cabe gerir, obviamente como encargo do Estado, a comparticipação nacional nos projetos internacionais. Digamos que a FCT é o banco da universidade, no que respeita à ciência.

Não sei se há melhor figura institucional para a FCCN e para a FCT do que fundações públicas. Certo sem dúvidas é que não podem ser organismos normais da administração pública, como nem uma universidade ou um hospital ou um teatro de ópera ou uma rádio-televisão podem ser. A uniformidade esquemática da administração pública é uma herança de Salazar nem sempre recordada e discutida.

Na sua fúria cega e igualizante contra as fundações (claro que há de tudo, mas a ver uma a uma), o governo decidiu fundir ambas as fundações, FCCN e FCT. Não tenho aqui lugar nem vagar para discutir em pormenor tal asneira. Os argumentos estão muito bem apresentados pelos meus três colegas num artigo resumido, no Público, mas só para assinantes (não sei se o conseguem ler no Facebook de João Sentieiro), e no texto completo da carta que enviaram ao ministro. Só digo que é coisa tão absurdamente ilógica como fundir a PT e a CGD.

É estranho que o ministro Crato esteja em tão boa conta. Para além de ser co-rresponsável deste governo, só tem feito asneiras e é tecnicamente pouco abonado, bem como os seus "ajudantes", como dizia Cavaco, defendendo-se com alguma recetividade pública (até dos sindicatos!) ao seu talibanismo fundamentalista contra a pedagogia moderna. Talvez também por ter tido notoriedade pública como membro de “o velho, o rapaz e o burro”, no “Plano inclinado” da SIC. Falarei disto mais desenvolvidamente em próxima entrada.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Universidades privadas (I)

Quando sedimentada a poeira do caso Relvas, dentro de dias (e aqui direi do que resultar), no que respeita à universidade que lhe conferiu o grau - mal ou bem, mas estou certo de que sem dolo, a nível institucional - é altura de se refletir sobre a chamada “acreditação de aprendizagem prévia experiencial” (”Accreditation of prior experiential learning”, APEL). 

Tanto se disse que era coisa indiscutível do processo de Bolonha, quase que a sua essência, sem mais regras nem considerações de prudência, como se disse que era uma ofensa a quem cumpre o seu percurso académico padrão. Nem uma coisa nem outra. Escrevi algumas reflexões mais elaboradas e documentadas sobre isto, no meu sítio, que sinto merecer reanimação, embora com respeito pela transparência dos eventuais conflitos de interesses.

Fez-se muita asneira sobre este assunto, em públicas e em privadas. Reflexo, afinal, de que a maioria das instituições, seus responsáveis e professores, nunca estudou a sério o processo de Bolonha e por isto a sua transposição para Portugal é uma caricatura vergonhosa. Não só asneiras, também aldrabices. A Lusíada, hoje na presidência da associação das privadas, veio dizer que nunca tinha feito creditações profissionais. Mentira, como eu sei pelo estudo que tenho estado a fazer de todos os processos da Lusófona, bom número de casos transitados da Lusíada. Começo a sentir que tudo isto entre universidades é coisa demais para a minha carroça.

Este caso veio também novamente pôr em discussão, com boa dose de preconceitos, a questão das universidades privadas. Ninguém que me leia duvida da minha defesa do serviço público, na educação, na saúde, na segurança social. Mas isto não significa que não admita o privado, não por qualquer espécie de direito natural, mas como complemento obrigatoriamente de qualidade controlada quando o serviço público é insuficiente. Ou como coisa de mercado, para quem quer pagar, sem qualquer contributo público. 

Se, com tudo isto, continuo com responsabilidades numa privada, é porque ainda acredito que é esforço que vale a pena e que me poderá gratificar. Se não...

No caso das universidades privadas, a pergunta óbvia é: com propinas altas, porque é que ainda têm tantos alunos? Luxo de ricos? Não é verdade, porque têm alguma conotação pejorativa que até afastaria os ricos, ao contrário das clínicas privadas. E não é verdade porque eu, que lá ando, vejo uma pequena minoria de meninos-bem preguiçosos e ostentadores de riqueza, que passam o dia na cervejada, contrastando com uma maioria que almoça sopa e sandes e que não tem estacionamento para o Porsche que não tem.

Como é que, apesar de tudo isto, as melhores privadas - uma ou duas - conseguem sobreviver face às públicas que recebem do financiamento público e das propinas uma verba por aluno muito mais alta? Tem a ver, principalmente, com a sua natureza de “universidades de ensino”, contra a de “universidades de investigação” do setor público. E será mau ser-se “universidade de ensino”? Algumas das melhores americanas assumem este estatuto. Escreverei sobre isto, um dia destes.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Voltando a olhar para a universidade

Há muito tempo que não escrevo sobre o ensino superior (ou educação superior, como prefiro dizer). Faz-me falta, tenho saudades. Afinal, foi um campo de intervenção em que, modéstia à parte, creio que ganhei prestígio, fui seguido e respeitado, mostrei estudo e reflexão sobre a prática de muitos anos. Publiquei um livro que julgo ter tido algum impacto, recolhi num livro eletrónico e noutro muitas crónicas e comentários. Ao aceitar um contrato com uma universidade, achei que essa intervenção era geradora de conflito de interesses e suspendi-a.
Hoje, e adiante em tempos próximos, vou relembrar esses tempos, com uma ressalva: não escreverei sobre coisas concretas, tentarei olhar num plano de generalidade que não se misture com a minha atividade prática quotidiana e com os meus deveres contratuais, enquanto os tiver.
A minha escrita, interrompida há anos, desdobrava-se por um blogue, “Professorices” e por artigos no meu sítio. Começo hoje por duas entradas do blogue, que desejo relembrar porque mostram o que penso sobre a universidade, pública ou privada. Elas vêm transcritas (os “links” já não funcionam) num artigo, “Reforma universitária: da retórica às propostas práticas” que, provocadoramente, ao falar de “elite”, expõe o que então, e hoje, entendo por uma universidade de alto nível. É por tal universidade que luto a cada momento, onde julgo, pragmaticamente, que tenho possibilidades de maior sucesso - ou do sucesso possível, sejamos realistas.
Claro quer isto não tem nada a ver, diretamente, com público ou privado. Há entidades privadas que estão em melhores condições de cumprirem esses requisitos do que algumas universidades públicas, designadamente as pequenas universidades periféricas. O que define uma universidade de elite? Essencialmente, o que se segue:
  • Começo por uma coisa pomposa. Uma universidade de elite está sempre na fronteira do que a sociedade necessita como formações e educação. Hoje, é uma universidade com formações modernas, generalistas e de largo espectro, mais orientadas para a aquisição de competências, formadora de mentes e caracteres destacados, líderes sociais também impregnados de uma cultura de cidadania e de combate à exclusão.
  • Tanto professores como estudantes são impregnados de uma cultura de exigência e de alta qualidade, e que se rege por padrões estabelecidos em códigos de boas práticas.
  • Um código ético rigoroso: faltas deontológicas, fraude ou negligência científica, mentira, aldrabice nos exames, etc, são indesculpáveis por toda a comunidade e conduzem frequentemente à expulsão.
  • A cultura é acentuadamente "scholar": os professores não esgotam a sua função no ensino tradicional ou na orientação científica, são formadores e "mestres" (e, daí, os tutores).
  • Sem prejuízo de uma lógica empresarial de sustentabilidade económica, a universidade não é uma empresa com lógica de propriedade privada. É uma entidade de natureza fundacional ou comunitária, que responde perante a sociedade e não perante uma entidade proprietária.
  • A governação não está subordinada ao espírito corporativo, segue as normas de eficácia ditadas pelas teorias organizacionais e membros externos têm um papel essencial na definição de estratégias e politicas. A lógica nominatica domina a electiva, em função das competências, mas em compromisso eficaz com o debate interno e a participação na construção da opinião.
  • O ensino e a aprendizagem decorrem da criação científica, de alto nível. Não pode haver um professor que não seja também ou tenha sido um excelente investigador. A ciência é transmitida, no ensino, com o sentido de como se faz na prática, de como valorizar quase no momento as roturas científicas, mas também com o sentido crítico de como subalternizar muita ciência rotineira.
  • A actividade pedagógica e a científica estão intimamente articuladas, à escala do departamento, que é o principal nível de organização. O director de departamento, com audição dos colegas, tem grandes poderes. Por isto, é recrutado geralmente de fora da universidade, para não estar comprometido com as relações já estabelecidas.
  • Embora haja exceções bem sucedidas (“teaching universities”), não basta que os professores, a nível individual, investiguem em centros de excelência, fora da universidade. Deve haver um clima de ciência que só é possível com investigaçao de qualidade intra-muros.
  • O recrutamento é exigente em termos de qualidade, tanto de professores como de estudantes. Dirige-se a todo o mundo e é combatida a endogamia - e muito mais a nepótica. A progressão dos professores (repare-se que não falo de investigadores: não há separação, todos são professores-investigadores) é muito flexível e o mérito é recompensado. Quanto aos estudantes, a própria universidade reserva recursos significativos para bolsas a estudantes carenciados mas de alta qualidade.
  • O conteúdo funcional do cargo de professor integra todas as atividades de ensino, investigaçao e extensão, em tempo completo, não sendo admissível contratações "à hora", exceto em casos excecionais de colaboração de pessoas de grande mérito e com muita ocupação profissional (professores convidados).
  • A carga docente é muito reduzida. Por consequência, os rácios são muito baixos (1,8 em Harvard, 2,6 em Cambridge!). Entenda-se por rácio uma simples relação numérica, nunca um critério de recrutamento: os professores são recrutados casuisticamente, apenas em termos de qualidade ou de politica institucional (novas áreas científicas, desenvolvimento selectivo de grupos de investigação, etc.).
  • A relação numérica entre estudantes de pré e pós-graduação é de cerca de 1:1 (entre nós, nos melhores casos, é de 9:1). A formação dos doutorandos é exigente e completa, com ensino formal e acompanhamento estreito, não se limitando ao trabalho de tese.
  • Os percursos individuais dos estudantes são variados e flexíveis, correspondendo tanto quanto possível aos seus interesses culturais e científicos. Os estudantes de ciências têm que obter um certo número de créditos em humanidades e vice-versa.
  • A prática cultural e desportiva ocupa parte significativa da vida estudantil.
  • O estudante (excepto em cursos vincadamente profissionais) é habituado à ideia de que a sua formação é apenas uma base geral a abrir-lhe caminhos de empreendedorismo e de escolhas profissionais variadas.
  • A actividade de extensão, com grande prestígio social, é muito valorizada como factor de imagem da universidade como centro da vida cultural comunitária. Até chega a ser "snob" para a alta sociedade frequentar os cursos nocturnos de Harvard e os cursos de verão de Cambridge e Oxford, os concertos, os espectáculos de teatro ou as exposições de arte de alunos e professores.
  • Finalmente, e condição indispensável: com tudo isto, e em ciclo vicioso, a universidade tem que ter grande capacidade de "fund raising", com grande recurso ao mecenato, com destaque para os antigos alunos (vale imenso a noção de "alma mater", pouco significativa entre nós). Há antigos alunos de Harvard que, todos os anos, vão da Califórnia a Boston para a sessão solene da sua universidade.
Depois, no meu sítio “Reformar a educação superior”, passei isto para Portugal, para não me chamarem utópico, adiantando propostas concretas, aqui e aqui, de criação de uma hipotética Universidade de Lisboa Oriental (houve quem acreditasse que eu estava encarregado de a criar…). Vale a pena reler, meia dúzia de anos depois? Que o digam os leitores.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O prazer perverso dos economistas

A satisfação profissional é um grande prazer de vida. Gostar de se exercer a profissão que se escolheu é ótimo, só sendo pena que não seja coisa mais vulgar. O que complica as coisas é que, para quem observa de fora, pode ser difícil definir o que é que determina esse prazer profissional. Num médico é simples. Curar doentes, prevenir doenças, melhorar a saúde. Num professor, idealmente, formar gente que, depois, vai ser mais sabedora e mais competente do que o professor. Mas isto é linear, não tem muito de idealismo? No curso da vida, com o vir à tona de cada vez mais frustração e cinismo, não será também muito o sucesso, o bem estar, a riqueza?

E também a felicidade profissional tida como cumprimento/satisfação dos objetivos pretendidos não tem muito a ver com aquilo que em muito influencia a determinação desses objetivos, isto é os valores pessoais, as conceções de vida, a ética, afinal a ideologia?

Esta deambulação talvez pernóstica tem a ver com o caso particular dos economistas. Claro que da “massa dominante” dos economistas, com muito respeito por tantas e tão excelentes exceções. Falo dos “economistas de serviço”. Descontando a política, que não quero (“hélas”!) considerar como profissão, não há hoje profissão mais determinada ideologicamente do que a dos economistas e/ou gestores (já foi o Direito, hoje muito menos).

Dê-se o benefício da dúvida de que Gaspares, Álvaros, Duques, Cantigas, acima deles Trichet e Constâncio, mais as eminências pardas de Merkel, os homens da “troika”, e todos os cinzentos economistas robôs de Wall Street até Frankfurt, são honestos, tecnicamente motivados e informados e até felizes no seu trabalho, no cumprimento dos objetivos profissionais para que foram preparados. Mas este é que é o problema: para que foram preparados!

É inegável que hoje a política mudou radicalmente de discurso. Curiosamente, foi este o tema do primeiro “post” deste blogue. O discurso político tradicional é hoje irrelevante sem fundamentação na economia política. Com isto, foi-se ao exagero de bastante apropriação do debate político pelos economistas. O que obriga os não especialistas, como eu, a um grande esforço de estudo, mas sempre com a dúvida do amador inseguro.

No entanto, esta apropriação da política, manifesta na comunicação social, esconde-se na falácia da competência técnica, da informação especializada, do raciocínio “científico”, quando essa apropriação resulta de facto, essencialmente, de um pensamento ideológico, no caso enquadrável no que podemos chamar de “neoliberalismo”.
“O peso do Estado deve ser mínimo. O funcionalismo público é uma cambada de privilegiados, com emprego para a vida, incompetentes, sugador dos nossos impostos. A escola privada é muito melhor do que a pública. Nada deve ficar fora da privatização, água, energia, indústrias de defesa, até prisões, um dia destes a polícia e as forças armadas. A competição é muito maior fator de enriquecimento do que a solidariedade e a motivação social. Deve haver uma grande flexibilidade para coisas tidas tradicionalmente como imorais (por exemplo, a agiotagem, juros de 130%! a um ano, à grega; pecado de usura que nem é do cristianismo, já vem no Velho Testamento); flexibilidade aceitadora porque são coisas que se enquadram no “sistema”. E este “sistema” é indiscutível, principalmente depois do fim do pseudo-comunismo. O estado social contribui para a preguiça, para o parasitismo. A economia deve favorecer os audazes, num novo circo romano. As empresas e principalmente os bancos são intocáveis, porque sem elas e eles vai-se a “economia nacional” e, com ela, a “economia doméstica” de nós todos, que devemos ajoelharmo-nos aos benfeitores do futuro dos nossos filhos, ainda por cima bons exemplos de virtudes, os banqueiros, gente fina.”
Descontando a caricatura, não é isto que os “economistas” apresentam como indiscutível, como se houvesse alguma coisa "indiscutível" para além de axiomas e postulados? E isso tem alguma sustentação racional, é economia “científica” ou é pura e simples ideologia? E, transmitindo-se pela máquina de produzir opinião, não é isto que faz a tal “razão” da maioria dos 80% de votantes na “troika” interna marioneta da “troika” externa? Isto chama-se, pura e simplesmente, ideologia neo-liberal, estado hoje mais avançado do capitalismo. Não é um sistema económico racional, cientificamente estruturado (“porque não?”), é simples ideologia, “porque sim”.

Uma visão porventura um pouco redutora faria dizer que boa parte dos economistas que por aí vemos, a todos os níveis, com exceções gratificantes, mas minoritárias e com influência reduzida (por agora!), são os homens de mão do capital, ou mesmo, pessoalizando, dos grandes capitalistas. Não é bem assim, é mais complicado. São produtos de uma formatação ideológica que não conseguem criticar, são criaturas de um sistema que não se aguenta só a nível infra e estrutural (seria visão esquemática do marxismo), mas hoje, cada vez mais, também a nível superestrutural, do pensamento, dos valores incutidos, da ideologia. Isto é a hegemonia.

Só assim compreendo que os economistas “chapa-um” possam ser felizes, com a felicidade que se lhes vê na cara quando defendem coisas que a qualquer pessoa bem formada fazem pensar “estes homens são sádicos”. Como é que se pode sentir profissionalmente útil e feliz alguém que está a propor e a levar à prática a miséria de muita gente, o desemprego, a redução da proteção social, o corte de salários da função pública, a diminuição do rendimento dos mais vulneráveis - os reformados? Pode-se dizer que o fazem por obrigação, até para evitar males maiores. Mas a impressão que deixam, por todas as formas de expressão, até facial, é que também o fazem com algum prazer. Talvez isto seja exagero, mas ao menos parece inegável que, não sendo porventura prazer, é pelo menos insensibilidade  e frieza desumana e tecnocrática.

Admito que esta nota seja um bom exemplo de “economia moral”, pelo lado esquerdo, talvez tão criticável como a “economia moral” hoje dominante, do tipo “não podemos ser caloteiros”. Admito, mas não me arrependo de a escrever. Há uma dimensão ética na política sem a qual ela fica exercício cínico e desgostante.

Finalmente, uma nota de professor. Se esta atitude da “classe económica” tem muito a ver com o “para que foram preparados”, escrito acima, então há que olhar bem a sério para as escolas de economia. Já houve tempos em que foram ambiente fértil de debate, de confronto de escolas de pensamento económico - e, inevitavelmente, político. O confronto era estimulante para os estudantes, favorecia-lhes o gosto pela reflexão e pela análise.

Hoje, parecem cada vez mais padronizadas e são sem dúvida um aval do pensamento único ou hegemónico que está a fazer uma opinião pública (com reflexos eleitorais) também padronizada. Como universitário que contata bastante com jovens, noto muito mais variedade de opiniões, de mundivivências, entre universitários de outras áreas do que entre os mais “formatados” estudantes de economia e gestão. Pode-se recear que se esteja perante um mecanismo formatador auto-alimentado e permanente: os professores de hoje preparam os estudantes que serão os professores seus sucessores.

NOTA - Um pouco a despropósito, ou talvez não. Vejam-se os “sites” das mais celebradas escolas de economia portuguesa e as suas designações oficiais, embora não estatutárias. Já foram Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa e Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica Portuguesa. Hoje são NOVA School of Business and Economics e Catolica-Lisbon School of Business & Economics. Repare-se que não são traduções para uso em documentos redigidos em inglês; são as designações agora oficiais, em documentos em português! Não é ridículo, pretensioso, novo-rico? Não consigo encontrar coisa equivalente em universidades espanholas, francesas, alemãs. “Esta é a ditosa pátria minha amada”, mas é pena que lhe falte coluna vertebral.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Cumonicassão çossial

Para rir em tempo de crise (ou não será para chorar), aqui vai uma pérola. Não me dei ao trabalho de confirmar mas garantem-me que lá está num vídeo no "site" da TVI, de uma reportagem de hoje.

"A temperatura tem oscilado entre muito sol e nevoeiro".