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sábado, 15 de outubro de 2011

Porque ficaram em casa?

100.000 em Lisboa, segundo a organização? É errado e contraproducente inflacionar a dimensão de manifestações e comícios. Descredibiliza o valor intrínseco do acontecimento, é tiro no pé em termos de propaganda. Sempre disse isto na minha vida político-partidária de há muitos anos, mas tendo dissabores com essa posição. Eram tempos em que se enchia o Terreiro do Paço com meio milhão de pessoas (cheguei a ler um milhão), quando a coisa é de simples aritmética: 4 pessoas por m2 (e é bem apertado), 170 m de lado da praça, contas redondas 115.000 pessoas atulhadas. Muito longe de um milhão.
A manifestação da “geração à rasca”, de 12 de março, foi dita como de 300.000 pessoas. Mesmo que tenha ocupado toda a zona central de toda a Av. da Liberdade, e com uma média de 1-1,5 pessoas por m2 (o que é muito para uma manifestação, teria de ser compacta), são 1500 m x 40 m x 1,5, logo 90.000 pessoas.
Isto para diminuir um pouco, em termos comparativos, a minha tristeza e preocupação com a manifestação de hoje em Lisboa. Inegavelmente, foi fraca e é preciso perceber-se porquê. Desta vez estive lá e pude contar, com algum jeito que tenho, quer pelo método da contagem centena a centena, o que é fácil, quer pelo método da conversão do tempo de passagem em número de manifestantes (5 pessoas por segundo). Descontando as pessoas que estavam no passeio e que provavelmente se foram integrando na manifestação, não se chegou a 10.000 manifestantes. Praticamente um décimo da manifestação de 12 de março. É pouco e faz pensar.
Coisa evidente era o perfil largamente maioritário dos manifestantes, coerente com o que se conhece dos grupos que a convocaram: muitos jovens, com a aparência quase estandartizada de símbolos (vestuário, adornos, piercings, rastas) de uma postura de protesto (claro que não estou a criticar). É hoje uma grande camada social de excluídos, sabemos que em muitos casos de nível cultural e académico alto - o que permite pensar que também de bom nível social e económico (claro que com isto não estou a negar a sua justeza de luta, estou só a tentar uma análise com atitude de objetividade).
Não vi notoriamente aquilo que saltaria logo à vista como o ar típico do manifestante de há dias, da CGTP. Sei que me podem acusar de estar a fazer uma apreciação impressionista, mas creio que, com a devida margem de desconto, é válida. À primeira vista, isto é muito estranho. 

A “geração à rasca” ou os “indignados” provavelmente não são um conjunto muito elástico, em termos de reação aos fatores de momento. Saíram à rua os do 12 de março, estiveram no Rossio, voltaram hoje a sair, talvez um pouco mais, mas com motivações já sedimentadas. Não são, diretamente, os mais afetados pela brutalidade das medidas austeritárias, quase de sadismo político ou de autismo de economistas fanaticamente ortodoxos, que foram agora anunciadas. Por isto, esperava que a manifestação engrossasse enormemente com aqueles que, se ainda não sabiam, acabaram de saber agora o que vão sofrer. Afinal, ficaram em casa.
Os novos movimentos jovens têm alguma responsabilidade num certo divórcio com todo o grande movimento social convencional. É natural, ainda são inexperientes, embora a falta de consciência dessa inexperiência e até todo um "patronizing" hipocritamente disfarçado de embevecimento por parte de gurus e de jornalistas os possa levar - espero que não - a alguma arrogância. Estou a ser senilmente sobranceiro? Admito.

A sua linguagem e postura é muitas vezes quase iniciática ou grupal e alguns dos seus “slogans” são duvidosos para muita gente, mesmo que os fundamentos da revolta sejam aceites por essa muita gente. Por exemplo, hoje, a manifestação ia cheia de cartazes a apelar a uma democracia direta que ninguém discute a sério e que se sabe, na teoria e na prática, que tem muito a discutir (a começar pela diferença para uma democracia participativa). De cartazes pouco sensatos do tipo “temos fome, vamos comer os ricos”. Pior, por toda a parte a rejeição absoluta e generalizada dos partidos. E outras manifestas palavras de ordem populistas, com os riscos que a história nos ensina.
Assim, é de admirar que militantes ou simpatizantes de partidos de esquerda não se tenham sentido atraídos por esta manifestação? Ou que até, para a desvalorizar, algum partido tenha passado palavra para não ir lá o seu pessoal? A atitude anti-partidos de muitos dos novos grupos de ativismo político (daí a movimentos ainda vai alguma distância) é infantil e sectária. Até posso citar um caso próximo de mim. Como podem ver ao lado, destaco, com muito interesse, um grupo político de que me sinto próximo, o Convergência e Alternativa. Não foi tido como promotor desta manifestação, pela simples razão de, numa declaração sem grande importância, um dos seus ativistas - sem a responsabilidade de porta-voz ou dirigente, coisa que este grupo não tem - não ter rejeitado (repare-se na diferença, não foi afirmar, foi não negar) que um dia o grupo pudesse pôr a hipótese de conversão em partido.
Outra possibilidade a justificar a falta de adesão à manifestação é a da anestesia, do martelo pilão da  indoutrinação e desinformação sobre a crise, a causar tal perplexidade que as pessoas ainda não caíram em si, “ainda não são gregos”. Afinal, 80% votaram há meses na troika interna, convencidos da inevitabilidade da política de austeridade demencialmente levada ao limite. As pessoas estão atordoadas, mas vão acordar. A menos que vingue o atávico fatalismo português.
E essa do martelo pilão é coisa que tirei de um artigo de hoje de Pacheco Pereira. Quem diria! Amanhã ou depois falarei sobre isso. 
Nota - Afinal, embora provavelmente sem a concordância dos promotores, a manifestação não foi completamente apartidária. Lá iam, bem identificados com faixa e cartazes, uma dúzia de MRPPs, com destaque para o revolucionário do iate, Garcia Pereira, a quem a televisão brindou com mimo especial.

P. S. (17.10.2011) - Lembrei-me agora. O grande sucesso de 12 de março e a saída à rua de outros tantos ou mais de gerações mais velhas do que os "à rasca", ao contrário de ontem, não terá tido muito a ver com a época do ódio a Sócrates? Passos Coelho ainda não teve tempo para despertar essa reação e até tem a seu favor um estilo diferente, mas que se cuide.

sábado, 19 de março de 2011

12/3 (IV)

Vi in loco a manifestação de hoje, convocada pela CGTP. Não vi a de sábado passado, não posso comparar. Pelas reportagens, a de 12/3 foi muito grande, dezenas de milhares de pessoas. A de hoje, pela minha estimativa, outro tanto.

Mas diferentes, e tenho pena. Hoje, visivelmente uma idade média mais elevada, outro aspeto, outro estilo, creio que não os mesmos de 12/3. Como escrevi, esperava que os manifestantes de 12/3 não tivessem entrado em pousio, que voltassem hoje novamente à rua, independentemente de a manifestação ter sido convocada, mais convencionalmente, de fora do seu mundo da rede social. Parece-me que fizeram rápido demais a guinada para um fórum de debate polítco, ainda pobre, para que não estão ainda preparados. A força do 12/3 é a rua.

Na rua, todos juntos. Não é preciso saber muita física para se ter a noção do que é a necessidade de massa crítica para a grande explosão.

terça-feira, 15 de março de 2011

Protesto lúcido ou zanga cega? (III)

Num texto anterior, fiz a minha “declaração de interesses” sobre a movimentação ou a revolta, se preferirem - eu prefiro, direi depois porquê - da “geração à rasca”. Manifestei a minha solidariedade com as suas legítimas razões de protesto, lembrei o que tenho escrito aqui sobre a limitações da democracia formal e sobre a importância da rua, como arena política (pacífica, como se deseja). Mas também expliquei as razões das minhas reservas e alertei para alguns riscos desta nossa versão, deslocada em relação ao Magrebe, de “revolução da net”. Dito isto, passo adiante focando especialmente o que mais me interessa, a possibilidade - por agora só possibilidade! - de mudanças significativas na ação política popular, porventura com mudanças importantes dos paradigmas da ação política.
Também quero arrumar a questão dos números. Como já reconheci, ao princípio enganei-me redondamente, com reportagens que agora vejo que eram de momento antes da chegada do grosso da manifestação. Também, vendo cada vez mais os vídeos e as fotos da manifestação, acho que se enganam todos os que falam em duas ou três centenas de milhares (que, por simples geometria, não cabem nos 50.000 m2 da Av. da Liberdade, mesmo apinhada - e que só estava meio cheia) e que até a comparam com as grandes manifestações a seguir ao 25 de Abril. É discussão sem sentido, porque faz falta um “multidómetro”. Indiscutível é que era muita gente, muitos e muitos milhares, e que visivelmente incluía muita gente que não pertence à tal geração.
Comparável com o 25 de Abril, isso sim, pelo que agora vejo nas filmagens, é uma mistura bonita de luta e protesto com alegria e festa. É nestas alturas que me dou ao luxo de “acreditar” em coisa muito duvidosa de que o salazarismo se serviu, a tese gilberto-freirista da luso-tropicalidade.
Passemos então ao que conta, “o que se segue”. Obviamente que, se não houver “o que se segue”, tudo isto fica tão inglório como o milhão de votos em Manuel Alegre, em 2006. É difícil escrever sobre “o que se segue”, quando se quer ser intelectualmente honesto, objetivo mas de cabeça aberta ao imprevisível (e eu sou cientista, como bem me lembra um amigo ao achar que eu fui demasiadamente emotivo no tal escrito anterior). O que tiro da jornada de sábado passado e, principalmente, da barafunda (sem sentido pejorativo) de opiniões e propostas de participantes do Fórum 12/3, é ficar preparado para qualquer surpresa. 
Maior perigo ainda, para alguém da minha “geração política”, é o de querer dar lições. Mas também não vou para o extremo oposto, calar o que, de alguma experiência e reflexão acumulada, pode ser útil para quem hoje tem a vontade e o ânimo, juvenilmente, mas num borbotão de ferida agora rebentada e ainda não assimilada. Vou tentar, não é fácil, uma atitude mista de rigor de análise, de simpatia, também de modéstia de velho no seu ninho da águia.
O que vem a seguir é já o próximo sábado. Há alguns que escreveram no fórum que um movimento destes só é verdadeiramente eficaz crescendo sempre, isto é, na rua hoje, amanhã, depois de amanhã. Lapidar! Poderá ser esta a grande diferença para outros grandes protestos que temos visto, por exemplo a célebre manifestação dos professores ou a última greve geral. Foram coisas de um dia, o governo deixa passar, ficam abafadas pela vertigem da mudança das notícias. Imaginam o que teria sido uma manifestação gigantesca a encher a Praça da Libertação, no Cairo, mas só num dia? O derrube de Mubarak custou semanas de ocupação diária da rua.
Neste tópico de discussão no fórum 12/3, registo uma atitude notável de alguns dos participantes. A convocatória para o dia 19 foi da CGTP. No entanto, muitos dos 12/3 escrevem que não lhes interessa quem convoca, que estão todos do mesmo lado, quanto ao essencial do protesto, independentemente de haver diferenças na diversidade de motivações pessoais. Vão lá estar no dia 19 os do dia 12 e agora também muitos que lá irão por via da mobilização da CGTP. Assim, espero não me enganar, agora ao contrário, não me surpreenderá que a avenida não chegue para tanta gente. Ainda por cima, entre 12 e 19, houve o PEC 4.
Da mesma forma, espero que a CGTP tenha a superioridade de reconhecer que o sucesso da manifestação do próximo sábado não se deverá apenas à sua inegável capacidade de mobilização. Esse reconhecimento abrirá a porta para coisa muito mais fácil e produtiva do que qualquer entendimento com partidos, coisa nova que será um verdadeiro diálogo de forças sociais, à margem do sistema partidário em crise. Com isto, ganha a CGTP uma coisa importantíssima: a comprovação prática, para muita gente com preconceito contrário, de que uma grande força social, sindical, pode ser partidariamente independente, sem prejuízo da legítima militância partidária de membros seus, dirigentes ou filiados.
No entanto, recordando algumas reservas minhas, desagrada-me que esta atitude bonita de abertura vá tão longe como aceitar que é igualmente importante marchar juntamente com os do “demitam os políticos”, movimento que continuo a caracterizar como protofascista, independentemente de saber, como já disse, que muita gente vai acriticamente atrás de um “slogan” demagógico, mas pessoas que de fascista obviamente não têm nada.
Da mesma forma, julgo ter origem bem intencionada, “estamos todos juntos na revolta”, o que li de solidariedade entre gente do 12/3 para com os camionistas, mas é atitude ingénua e pouco refletida. A ação dos camionistas conspurca a dos 12/3. É reacionária, egoista, de defesa de interesses de gente que não é nada “povo” e que não anda nada à rasca. Não são trabalhadores camionistas em greve, é uma mistura de empresários de boa dimensão e de empresários individuais. Ainda por cima, ação violenta, desrespeitadora dos direitos dos outros, mesmo colegas de profissão, ao contrário do típico civismo e respeito pela opinião individual dos piquetes das verdadeiras greves de trabalhadores. Não creio que nenhum 12/3 apoie o boicote e o apedrejamento a camiões de entrega de oxigénio e medicamentos aos hospitais. Mas está a acontecer! Meus amigos, nem tudo o que é protesto é justo.
Nota final. Porque prefiro falar agora de revolta, em vez de movimento? Pode ser picuinha terminológica, mas julgo que ainda falta a esta revolta a reflexão, compreensão das causas da crise, elaboração de propostas, que então justificarão plenamente a designação de movimento. Espero é que não partido…
P. S. - Em homenagem à sigla engraçada que os criadores do fórum estão a usar, vou passar a usar nesta série de escritos o simples título “12/3”. E que não se fale mais em gerações, porque todos estamos à rasca!… 

sábado, 12 de março de 2011

Protesto lúcido ou zanga cega? (II)

Lamentavelmente, não me enganei. Segundo alguma imprensa, "vários" milhares de pessoas, até a encher a avenida, indo ao delírio do Diário de Notícias a escrever online que comparável à célebre manifestação dos professores. Segundo outras notícias, até 10.000 participantes. Com algum treino de contagens, pelo que vi na televisão, diria que 5,000, no máximo. Um “flop”. Ainda por cima, com a participação, mesmo que simbólica de membros do grupo de extrema direita “Oposição Nacional” e, pasme-se, de skinheads. E Sócrates a rir-se!

P. S. (13.3.2011) - Vendo fotografias hoje publicadas, parece que me enganei redondamente na avaliação do número de manifestantes. Não tinha visto fotos panorâmicas, apenas tomadas de vista na televisão, que me iludiram. Bem bom que me enganei! Mostra-me que começa a haver condições para que a zanga amorfa que todos nós testemunhamos no dia-a-dia possa vir a dar um um movimento consequente, de rotura social que não parece vislumbrar-se como possível só por via eleitoral.

No entanto, continuo convencido de tudo o mais que manifestei como reservas em relação a este "movimento Facebook". Talvez Sócrates não esteja a rir, mas com medo é que também não está. Até que a rua se encha, dessa vez sim, com uma revolta mais ampla e mais consequente. Entretanto, mesmo com as reservas que manifestei, é positivo que esta manifestação tenha tido dimensão, o que permite ficarmos à espera de novas ações; volto a dizer que esperando que com mais força de ideias e consequência. Perguntarão o que penso, afinal. Se não sou contraditório? Olhem que não... Afinal, tenho manifestado a minha opinião de que é muito importante o "en la calle". Por isto é que receio que se desbarate ingloriamente esta arma política.

P. S. 2 (13.3.2011, 15:03) - Não quero entrar na velha guerra da contagem de cabeças nas manifestações. Em tempos de militância partidária um pouco contestatária, eu era mal visto por chamar a atenção para que certos números epicamente propagandeados, por exemplo em situações em que era fácil conhecer a área, digamos que do Terreiro do Paço ou da Alameda, significavam a impossibilidade de arrumar uma dúzia de pessoas num metro quadrado. Por isto, ficou-me um pouco atravessado o mea culpa que tive de fazer, honestamente, no P. S. anterior. Fui ver tudo o que há de reportagens no You Tube, de vários ângulos, em vários momentos. Os meus 5000 claro que não correspondem à verdade. Mas obviamente que não os 300.000 de que fala a organização. É pena que coisa que se pretende diferente seja, como por exemplo neste aspeto, tão semelhante ao "déjà vu". Já agora, o que é isto de organização? Isto não era uma coisa espontânea, da net?

quinta-feira, 10 de março de 2011

Protesto lúcido ou zanga cega?

Quem me conhece ou me tem lido certamente sabe que sinto como minhas as queixas da "geração à rasca" e que, portanto, compreendo e apoio, no essencial, a manifestação de 12 de Março. Uma ação pontual, como esta, é sempre útil, como contributo para uma luta mais ampla. No entanto, em política, não basta estar-se a favor ou contra, é preciso que a ação seja consequente e eficaz. Daí a análise que se segue.


 As pessoas estão zangadas, e com toda a razão. Tem de se reconhecer esta legitimidade sem se invocar limitações elaboradas, como “é uma atitude irracional, não tem como fundamento a compreensão da crise” ou “não têm o direito de protestar se não apresentam alternativa”. Qualquer destas coisas é de inteira verdade em relação às forças políticas convencionais e seus dirigentes, mesmo os seus militantes, também a quem promove e organiza ações políticas, mas claro que não relativamente ao Zé Povinho, a quem lhe basta - ou melhor, nunca bastou em termos de resultado prático - o valente manguito. 
E que “en la calle” é coisa muito importante como força de rotura de equilíbrios precários no sistema político estabelecido, já o escrevi aqui uma vez e outra, embora com as reservas que vêm do sentido da oportunidade política e das condições mínimas necessárias para o sucesso, no momento ou à distância. Também me parece claro que não estou a pensar em barricadas revolucionárias à comuna de Paris ou ao vendaval europeu de 1848, mas sim em sinais fortes para fazer pensar ao “sistema” e seus atores que devem ter presente o risco de passagem brusca e incontrolável para o caos, a violência, a anarquia, porque o povo já não quer e os dirigentes já não podem (velho renano!). 
Dito isto, posso estar enganado - gostaria de estar - mas não alinho no apoio acrítico à manifestação do 12 de Março. Pior, às manifestações, porque não me parece que haja só uma. É fácil beijocar o ego dos jovens neopolíticos (nem todos o serão, mas a história mostra que muitos virão a ser e daqui a uns tantos anos estarão no parlamento, esquecida a rua). É fácil esconder a demagogia e o paternalismo hipócrita de tal afago, “com os olhos doces” (até, pasme-se, em discurso de posse do presidente da República). Mas eu não vou por aí! “Há, nos olhos meus, ironias e cansaços”.
Vamos por partes, numerem-se.
1. Política web 2.0
Um milhão na rua? Pode ser figura propagandística, mas é tolice, politicamente, dizer tal coisa. Para já, parece que não mais do que 50.000 pessoas, utentes do Facebook, manifestaram acordo. Como sou casmurramente contra ter uma conta Facebook, não sei muito bem o que isto quer dizer, mas parece que é só coisa muito fácil, clicar num botão de "concordo" ou coisa do mesmo tipo. É muito mais fácil do que sair de facto à rua, e fica bem apoiar virtualmente, sem esforço. Veja-se aliás o caso de Viseu, em que a mobilização foi de umas dezenas de jovens.
Então o que nos separa da capacidade de mobilização pela net, no Egito? Em primeiro lugar, a “revolução pela net” egípcia foi preparada desde há pelo menos três anos, como hoje se lê em entrevistas dadas pelos jovens dirigentes que agora apareceram. As redes sociais tinham já um grande componente de agitação política, ao contrário do Facebook português, que serve para tudo mas onde raramente vi - quando por lá andava - discussões políticas. Não é agora que se faz uma rede política sobre uma rede de coisas gerais e de conversa muitas vezes fiada.
Qualquer pessoa com traquejo de atividade política percebeu que o movimento egípcio estava muito bem organizado: piquetes, controlo e encaminhamento nos acessos, distribuição de água, montagem de tendas, etc.; e que a articulação com os militares foi decisiva, a partir de certa altura. Em Portugal, no âmbito desta movimentação, o que se viu até agora foi uma arruaça de umas dezenas de jovens, como disse acima, com comportamento incivil, em Viseu, coisa que só beneficiou Sócrates. Não há garantias de que tanto a ineficácia dessa mobilização como o comportamento incivilizado não se repitam em próximas manifestações, com descrédito para as boas intenções, que reconheço. Tiro no pé! E não se esqueça que no Cairo a rua só venceu depois de mais de 300 mortos. Já alguém escreveu no Facebook português que está disposto a morrer pela revolução?
Depois, a net pode ser um bom instrumento mas não generaliza situações muito diferentes. Portugal é uma democracia, pelo menos no sentido formal e convencional do termo. O sistema partidário ainda é, para a maioria das pessoas, o sustentáculo da democracia, mesmo que merecedor de muitas e muitas críticas, desabafos, anedotas, manguitos, ao contrário do Magrebe em que os regimes eram na prática de partido único, suporte da corrupção. 
Finalmente, e talvez decisivamente diferente, não há qualquer comparação em relação à situação social e económica entre os nossos jovens à rasca (no caso presente, particularmente os licenciados, entenda-se), mas filhos de pais que ainda os sustentam e lhes dão carro, futebol e discoteca, de qualquer forma privilegiados em relação a todos os muitos mais jovens desempregados com o 9º ou 12º ano, fora as quase analfabetas operárias têxteis do Norte, no desemprego; não há comparação, dizia, com a situação verdadeiramente proletária dos jovens da Praça da Libertação.
Não se esqueça, por exemplo, que a grande agitação popular de rua, em Paris há poucos anos, foi um fogacho, quando tinha por detrás as tais condições favorecidas de comunicação e mobilização, não tanto a net, mas igualmente eficaz o boca-a-boca dos bairros de emigrantes da “banlieue”. Mais elucidativo o caso grego, com agitação que até já vem de antes da crise, mas que ainda não conduziu a nenhuma alteração da política austeritária do camarada helénico de José Sócrates. E nem é preciso ir bem atrás na nossa história, sobre o significado real da aventura empolgante mas inglória da Marinha Grande de 1934, que até foi, mal ou bem, apodada de “anarqueirada”. 
2. “Geração” à rasca? O que é isto de geração?
Outro aspeto que me deixa confuso, com alguma dificuldade de análise, é o caráter vincadamente geracional deste protesto. Primeiro, a solidariedade intergeracional é coisa essencial do estado social que nos caracteriza, apesar de em risco: os mais velhos têm a suas reformas garantidas pelos descontos laborais dos mais novos, os mais novos têm a sua educação garantida pelos impostos dos mais velhos. 
Segundo, parece sobrevalorizar, na crise política e social que cheira a fim de ciclo histórico, uma camada muito limitada da população, os jovens à procura do primeiro emprego ou com emprego precário. E os desempregados na casa dos cinquentas, que dificilmente voltarão a conseguir emprego? E os velhos, a viverem tão frequentemente em condições desumanas de abandono, miséria, tristeza absoluta de vida? E os agricultores destruídos pela política agrícola comunitária? E as vítimas da deslocalização de empresas que já não podem viver mais da mão de obra barata? E os imigrantes, que também são nossos irmãos?
Terceiro, invocar-se direitos ou especificidades geracionais pode ter preço. Eu tenho quem esteja sempre a fazer-me de grilo falante, “tenta compreendê-los, estás a ser saudosista e até um pouco arrogante”. Eu vou sempre por esses conselhos, mas se os jovens começam a querer destacar-se como tal, estou no direito, como alguém que lida muito com jovens, de apontar, erradamente, repito, outras “características geracionais”: incultura (em termos clássicos), egoismo, falta de gosto e de sentido estético, até, frequentemente, a mais elementar falta de maneiras e de gentileza (ainda hoje um aluno me fechou a porta na cara, depois de quase me ter atropelado). Insisto que só estou a apontar, por absurdo e de forma snob, os riscos de uma atitude geracional, que é pau de dois bicos.
Quarto, em política deve-se sempre perguntar “a quem serve o quê”. A quem interessa confrontar gerações? Claro que aos que sempre dividem para reinar, dividir naturais e imigrantes (e a filha Le Pen à cabeça nas sondagens!), dividir trabalhadores dos setores público e privado, e mais.
3. Confusão ideológica
Escolhi propositadamente o termo, ideológica, por saber que me vão perguntar “o que é isto? Coisa de esquerda e direita, diferença bolorenta?”. Esta é a atitude típica de quem, velho, adulto ou jovem, está formatado pelo sistema, pelos media, pela opinião hegemónica, pela escola, por todos os instrumentos de alienação, para não perceber que é improdutiva a simples acumulação desorganizada de valores e objetivos, mesmo quando de mérito, para perceber, ao invés, que a capacidade de intervenção e transformadora exige alguma sistematização. Desculpe-se-me a vulgaridade desta afirmação, mas é importante para a clarificação do que se está a passar de revolta, zanga, protesto, com exemplificação na chamada à rua no dia 12.
Comecemos pela convocatória do trio do “Manifesto da geração à rasca”. Mesmo descontando as  reservas em relação ao risco de “flop” e ao vício de geracionalidade, e também descontando exageros desmentidos pelos factos - “60% dos jovens licenciados estão a trabalhar em lojas ou em call centers”, como escreve erradamente uma participante - o manifesto é, no essencial, uma denúncia que qualquer pessoa socialmente empenhada subscreve, um protesto justo contra a desqualificação do capital humano, contra a precaridade, o desemprego, a exploração. 
No entanto, se as razões são válidas, em termos absolutos, já não o são em termos relativos, quando focados principalmente nos licenciados ou diplomados em geral. É bem sabido que, quanto mais elevado o nível de habilitações, menor é o nível de precaridade. Comparado com um desempregado da mesma idade mas com menor escolaridade, o diplomado entra mais rapidamente no mercado de trabalho, passa em média por menor tempo de desemprego e tem maior probabilidade de reencontrar trabalho a nível mais qualificado.
Também, repito, não há no protesto uma única frase de diagnóstico, de situação deste problema na crise geral do sistema político e económico. Nem sequer alguma coisa de frescura de linguagem em relação ao discurso tradicional de partidos e sindicatos. Para geração da net, queria-se mais. Maio de 68, apesar da sua inconsequência, foi muito mais imaginativo. Este convencionalismo de agora, associado à estreiteza social do protesto, faz recear que, se porventura vierem melhores tempos, muitos dos contestatários de agora, conjunturalmente, se adaptarão facilmente ao sistema, mesmo que na sua margem eticamente mais confortável - Danny le Rouge... - até serem então objeto de contestação em novo ciclo de protesto geracional.
Talvez por esta falta de novidade - novidade não se pode limitar à utilização do Facebook ou do Twitter - é que não evitam, se até talvez nem lhes desagrade, encobertamente, a colagem de partidos e juventudes partidárias, ao que consta (admito que não posso confirmar e que possa estar errado). 
Reconheça-se, todavia, que há um aspeto novo neste protesto, como escreve um dos seus ativistas (ao que suponho), Pedro Loureiro: “há um tronco comum de razões (…) mas depois cada um tem as suas razões próprias para se manifestar. É uma manifestação costumizada”. 
De facto, no inquérito promovido pelo Público, aparece uma grande lista de motivos, desde o desejo de reconversão dos partidos até à exaltação patriótica, desde a afirmação da cidadania à solidariedade com os desempregados mais velhos (muito bem!), desde a defesa de um novo paradigma do bem comum até à defesa da iniciativa privada independente do Estado. E até demagogia inaceitável em jovens “puros”, como opor a nova geração em risco de degradação da sua futura segurança social à geração anterior beneficiada com reformas de 6000 euros de pessoas de 50 anos (apesar dos escândalos, e sem os desculpar, afinal quantos, na atual geração de pensionistas?). 
Isto tem um risco. Afinal, quanto a colagens, nada mais fácil quando um movimento como este é tão difuso (mesmo que reconhecendo-se que esta difusibilidade tem aspetos positivos). Outros estão já a tentar cavalgar a onda. Um exemplo é a secção portuguesa do Zeitgeist, que já anunciou o dia 12 como um dos seus dias Z. É movimento quase ignoto, mas a ter como exemplo de muita coisa anarquizante, niilista que anda por este mundo fora, ao estilo de seitas, em tempos novamente milenaristas de perplexidade, angústia coletiva e falta de perspetivas. 
Como é regra da segunda geração destes movimentos ou seitas, tem um discurso moderno, em defesa de uma economia sem dinheiro e baseada nos recursos (faz-me lembrar Pol Pot, desculpem o exagero…), filmes que andam no YouTube com longas preleção eclética de pseudo-erudição psicológica e económica, mais o velho maltusianismo da escassez dos recursos, mas tudo ao serviço de ideais consensuais, combate à fome, à guerra, à injustiça. Na prática, um guru com um fantasista projeto Vénus, a que não faltam naves espaciais, veículos de levitação magnética e, claro, uma planificação estrita e totalmente centralizada (por quem?) com base científica e tecnológica. Orwell não inventou melhor!
Do Zeitgeist não se desmarcou o grupo do Manifesto, mas, acertadamente porque senão seria escandaloso, foi obrigado a desmarcar-se do “demitam todos os políticos”. É gente que não dá a cara e cujo posicionamento se desconhece. A sua petição é, essencialmente, a reprodução de um texto confuso que anda pela net já desde há algum tempo e que, de tão desconchavado, não percebo se é de autoria de gente muito hábil a passar por falso-tonto ou se de autor mentalmente pobre.
Com efeito, é uma mistura de coisas consensuais, de reclamações sobre factos inventados ou insignificantes, de protestos demagógicos. Coisas consensuais como a proibição da utilização privada de meios do Estado - por exemplo, automóveis -, acabar com organismos públicos e empresas municipais inúteis, reforma do sistema de administração autárquica, acabar com pareceres jurídicos que estejam ao alcance da administração, ressarcimento do pagamento do Estado ao BPN e ao BPP, etc. 
Também coisas duvidosas ou insignificantes, como acabar com as “mordomias” (?) dos ex-presidentes da República, com o pagamento de viagens às ilhas dos seus deputados, com o financiamento público da RTP (porquê só esta, entre todas as empresas públicas?) e até verificar e auditar os parquímetros. Esta faz-me lembrar uma célebre carta reinvindicativa de soldados a seguir ao 25 de Abril que, depois de uma lista importante, terminava com a reclamação de uso de sapatos em vez de botas.
Finalmente, não podia deixar de ser, a demagogia, que tanta gente bem intencionada ecoa, da redução do número de deputados, velha pretensão do bloco central, que assim veria diminuída a representação da oposição.
Mas ainda mais finalmente, a grande reclamação: “um milhão de pessoas na Avenida da Liberdade pela demissão de toda a classe política”. Isto é fascismo puro e duro, embora encapotado porque sem a designação aberta de um chefe que nos vem salvar de toda a classe política. Isto não é dito por qualquer padre Malagrida senil. Isto anda pela net, em milhares de mensagens. Isto é-me reenviado por pessoas honestas, como eram honestos muitos milhares de analfabetos políticos que seguiram Salazar. Se isto é a nossa versão de “revolução Facebook”, fico com medo da net como instrumento político. Não há hoje arma mais perigosa do que o botão “Send”.

Nota, em P. S. - A questão do desemprego de licenciados tem levantado outra, a da desadequação da oferta de educação superior, "com cursos a formar para o desemprego".  É uma visão obsoleta, de um utilitarismo educativo que já foi arrumado pela volatilidade atual do conhecimento e pela constante mudança no perfil do trabalho superior, em que mais importante são as competências transversais. Nos EUA e no Reino Unido, com a sua tradição newmaniana de educação liberal, é menor a percentagem de empregados que possuem um curso diretamente ligado ao seu emprego (com exceção óbvia de advogados, médicos, engenheiros, etc.) do que de matemáticos a trabalhar num banco, historiadores num jornal, licenciados em línguas a trabalhar em editoras, etc.. Até se conta sempre a anedota, real, de que a maior concentração mundial de falantes de grego clássico é a City de Londres. Já discuti isto aprofundadamente e voltarei ao tema, em próxima entrada.

P. S. (2), 12.3.2011. No Público: "O protesto da Geração à Rasca, que se diz apartidário, vai afinal contar com a presença de deputados e militantes de partidos. Membros da JSD, da JCP e do BE vão marcar presença". Não é bom indício, não promete a novidade neste protesto.