segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Dívida boa e dívida má

Escreveu-me um amigo a pedir-me opinião - amabilidade de amigo, já que não sou especialista - sobre a possibilidade de, em vez do corte puro e simples dos subsídios, eles serem convertidos em títulos do tesouro. Já há bastante tempo, quando os juros no mercado primário da dívida começavam a ultrapassar o limite então tido por perigoso pelo ministro Teixeira dos Santos, 7% (onde isso já vai…), outro meu amigo escrevia numa das suas habituais crónicas injustamente esquecidas num jornal de província que ele subscreveria de bom grado dívida pública a menos 2 ou 3% de juros do que isso.
Então, porque não? Desde logo, admito, por mesmo a capacidade máxima de aforro interno ser muito inferior às necessidades de financiamento. Mas nunca esse aforro, mesmo que menor, pode ser negligenciado, até por razões políticas e de empenho nacional.
Novamente, então, porque não? Vêm-me à cabeça algumas razões. Primeiro, o governo, e também o anterior, são de gente formatada ideologicamente e culturalmente para sobrevalorizar o mundo da finança, como se o dinheiro de um banqueiro viesse com mais perfume do que o de um pequeno aforrador. Além de que negócio arrasta negócio e é “bom” centrar as relações económicas do governo na banca - ainda por cima com o seu charme discreto, quando até já se queixam os “cavalheiros da indústria”.
Segundo, estes governos não têm capacidade de mobilização do espírito patriótico - no bom sentido do termo - que poderia transformar esta operação de compromisso nacional com a dívida em coisa com grande significado político e económico. Era preciso que o Zé, com uns poucos milhares de euros a investir, visse que isso iria ser usado em proveito do país, do seu crescimento económico, da competitividade do seu “capital humano”, em combate ao desemprego.
Finalmente, era preciso uma mudança radical da preocupação principal: diminuição do défice orçamental ou diminuição da dívida nacional externa (não só da dívida pública externa)? Obviamente,  está a dar-se muito mais importância ao objetivo de redução do défice. É claro que a emissão de dívida interna não resulta em diminuição do défice orçamental (a não ser, e pode ser muito, por redução dos juros e, logo, do encargo da dívida). Também não reduz o montante total da dívida. Mas reduz a dívida externa. É preciso ser-se economista de serviço televisivo para se perceber isto? E quem se senta no sofá a ver na TV esses tais não pode pensar nisto?
NOTA - Recordo vagamente, mas não consigo confirmar, que em tempos idos, princípios dos 80s, houve uma coisa deste género, pagamento do subsídio de Natal em títulos do tesouro. Ou estou enganado?

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

La donna e mobile

Opondo-se à proposta do PCP de reestruturação da dívida, o ministro Álvaro afirmou na Assembleia da República que “nem precisamos de olhar para outros países para pensarmos no que aconteceria com uma reestruturação da divida desordenada, seria trágico para Portugal”.
Há pouco tempo, alguém tinha escrito num livro com sucesso, “Portugal na hora da verdade” (ed. Gradiva, 2011, pág. 282). Citei-o numa entrada anterior
“Finalmente, há ainda a possibilidade de reestruturar a dívida dos países em dificuldades, com uma possível insolvência parcial de um ou mais países e/ou o reescalonamento e a renegociação das dívidas soberanas nacionais. Neste caso, os países em dificuldades tentariam não só aumentar os prazos de pagamento das suas dívidas, mas também conseguir melhores facilidades de pagamento. Como? Quer através da redução das taxas de juro ciadas às suas dívidas, quer inclusivamente renegociando montantes do endividamento. Por isso, neste caso, os detentores das obrigações desses Estados seriam forçados a partilhar os custos da reestruturação da dívida. Esta é, de facto, a hipótese provável e, porventura, também a mais desejável.(…) É possível e até provável que não consigamos evitar uma reestruturação das nossas dívidas. (…) perante o terrível leque de opções que enfrentamos, (…) a solução menos má parece ser a da reestruturação das nossas dívidas.” [JVC - itálico meu]
Quem escreveu isto foi o professor Álvaro. O mesmo que é o ministro Álvaro, a menos que haja aqui um caso esquizoide de dupla personalidade.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

As mordomias dos políticos

Anda por aí grande alarido com as mordomias dos políticos. Ministros com casa em Lisboa que recebem subsídio de deslocação; mas hoje, principalmente, grande “caxa”, as subvenções vitalícias aos políticos. Eu compreendo que gente com perda de subsídio de férias e de Natal se indigne, mesmo que essa indignação não dê nada, porque continuarão a votar no centrão, porque nem se lhes passa pela cabeça sair à rua nas manifestações que cada vez mais serão muitas. Eu compreendo que é mais fácil a indignação sobre este tipo de coisas do que sobre coisas complicadas como o ditame de austeridade troikiano, ou a alternativa de reestruturação da dívida, ou a crise do euro.

Repito, compreendo esta indignação. Espero que ela possa contribuir para a sua superação dialética como programa de mudança. No entanto, o que esta a indignação muito elementar e pouco informada também poderá dar - tenho medo - é alimento ao populismo, à demagogia, ao niilismo de que se fizeram os fascismos. Até com maioria eleitoral dada por gente que achava que os monstros anunciados não eram também políticos e do pior - como se, mal comparando, Medina Carreira, o guru que se cita diariamente em todos os programas de palavra ao ouvinte, não tivesse sido político e não o seja hoje até à medula. 
O que não compreendo é que não venha ao de cima coisa tão elementar como é a surpresa com o que esta história mostra de muito mais grave. Não a corrupção dos políticos, mas sim a sua abismal mediocridade. Não a indignação do Zé, mas a sua visão popular rasteira, mas também patuleia (cuidado!), de pão e copo de vinho, na taberna de província. Não o grande caso político, mas sim a pequenez do caso.
Quanto era o tal subsídio dos ministros? Um pouco mais de 1000 euros. Quanto é a tal mordomia dos políticos (fora o caso aberrante de Melancia, coitado, falido, e com a coisa bizarra no passado de ter ofendido os chineses com a sua noção pequenina do dinheiro)? 2000 a 3000 euros mensais. É claro que é imenso para o pensionista que vai perder os subsídios por ter uma pensão de metade ou um terço desse valor. 
Mas o que é isso em percentagem do rendimento de pessoas como Bagão Félix, Dias Loureiro, António Vitorino, Armando Vara, Rui Gomes da Silva, Ângelo Correia, Duarte Lima, Jorge Coelho, Ferreira do Amaral, Zita Seabra, Álvaro Barreto,  todos os referidos nas notícias de hoje? É gente que provavelmente recebe por mês 10.000, 20.000, muitos mais euros.
Como é que se deixam manchar por tão mixoruca fração dos seus rendimentos? Um vigésimo dos seus rendimentos valem o risco de serem expostos em público, quando uma das regras dos grandes dos negócios é saberem ocultar-se? O problema destes políticos não é o de serem corruptos. É o de serem estúpidos! E nisto incluo a arrogância de quem nem pensa no juízo dos outros, de quem se sente superior e impune. Porque a maior forma de estupidez é pensar-se que todos os outros são estúpidos. É por isso, principalmente por isto, que merecem serem expostos no pelourinho da opinião pública e da crónica nacional, infelizmente longa, da mediocridade dos Abranhos e Gouvarinhos.

O suicídio da Europa?

A cimeira europeia de amanhã continua agendada, mas não se percebe como será profícua quando os ministros das finanças já anularam a reunião prévia, essencial, que devia realizar-se amanhã de manhã. Se os ministros dão este sinal de desentendimento, quanto à reestruturação da dívida grega, à recapitalização dos bancos e ao aumento dos recursos do FEEF, como esperar que a cimeira resulte?
Como trocadilho a Churchill, “nunca, na história da Europa, tantos sofreram tanto por causa de tão poucos”. A praga do neoliberalismo acabou por contagiar a política. A política europeia é “um bairro onde miam gatas e o peixe podre gera os focos de infeção”. Não há memória de tão grande coleção de medíocres, figuras menores, a governar com cada vez mais poder (dos outros, dos senhores da finança!) este pequeno mas enorme canto do mundo.
As grandes economias, desde logo os EUA e a China, têm estado a observar com preocupação o triste espetáculo europeu. Claro que se moderarão, levarão ao limite a sua paciência; sabem que, na globalização, todos dependem de todos. Mesmo assim, com o fogo a chegar às suas casas, não esperarão que os bombeiros da Europa apaguem lá na sua área o incêndio que ameaça ser planetário. Esses bombeiros estão a dormir ou não atendem o telefone quando a Casa Branca chama, em desespero. Também os emergentes não esperarão. Não sou economista, mas creio que não é preciso sê-lo para se acreditar que daqui a dias o G20 vai decidir o que tem de fazer, com ou sem Europa. Infelizmente, palpita-me que sem Europa.
NOTA - Como se vê, estou a fazer futurologia próxima, em relação a amanhã. É coisa de que gosto, como exercício. Não faz mal nenhum eu enganar-me, antes pelo contrário.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Conhecem algum "nerd"?

Nerd - é um termo que descreve, de forma estereotipada, muitas vezes com conotação depreciativa, uma pessoa que exerce intensas actividades intelectuais, que são consideradas inadequadas para a sua idade, em detrimento de outras atividades mais populares. Por essa razão, um nerd muitas vezes não participa de atividades físicas e é considerado um solitário pelas pessoas. Pode descrever uma pessoa que tenha dificuldades de integração social e seja atrapalhada, mas que nutre grande fascínio por conhecimento ou tecnologia.
A expressão é utilizada desde o final da década de 1950 no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Na década de 1960 difundiu-se a sua conotação pejorativa, aplicado a pessoas com inteligência geralmente acima da média, com alguma dificuldade em se relacionar socialmente, e que não obedece aos padrões da sociedade - principalmente físicos e intelectuais - tornando-se uma pessoa marginalizada, tímida e solitária. 
(…) "Existe uma relação entre ser esperto/inteligente e ser nerd, ou melhor, há uma correlação inversa maior ainda entre ser nerd e ser popular. Se ser esperto parece fazer a pessoa não popular" de forma análoga vem a conotação pejorativa.
(…) Apesar de serem uma tribo urbana, pode ser difícil reconhecê-los no dia-a-dia pois, ao contrário das outras tribos, não tem um estilo facilmente reconhecível à primeira vista, porém com um convívio prolongado, é possível claramente diferenciá-los. Tampouco gostam dos mesmos tipos de música, e nem todos frequentam os mesmos lugares (apesar de uma grande parte frequentar convenções de quadrinhos e ficção científica ou mesmo, preferirem ficar em casa envolvidos em suas atividades).
Mas é importante ressaltar que nem sempre os nerds querem isso para suas vidas, uma certa faixa da respectiva população nerd busca mudar para o grupo considerado antónimo dos nerds, os populares, fazendo-os usar o seu dom para isso, a inteligência, desse modo o nerd analisa todo o funcionamento da sociedade e porque ela é assim. Isso costuma acontecer com os adolescentes, que por terem tido uma infância controlada pelos pais, não souberam como agir com a sociedade no começo da adolescência, ficando assim sozinha, tendo que apelar para coisas do mundo nerd.
(…)

Ao ser convidado por uma escola para dar uma palestra, o bilionário Bill Gates, uma das pessoas mais ricas do mundo, leu para os alunos 11 regras. A última delas se refere aos nerds: "Seja legal com os NERD's. Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar para um deles."
(Adaptado de uma entrada - brasileira, como se vê - na Wikipedia)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Pela boca morre o peixe (II)

O ministro da Economia, o Álvaro, como quer ser chamado à maneira de académico canadiano pré-ministro, ficou muito conhecido por livros até muito interessantes, escritos em linguagem simples, a explicar a economia. No último, “Portugal na hora da verdade”, um dos seus cavalos de batalha, e muito bem, foi a denúncia do escândalo, porventura fraudulento, das parcerias público-privadas (PPP).
Vê-se agora na proposta de OE que os encargos líquidos das PPP para 2012 vão baixar 35%. Parece muito, mas ainda ficam 1036 milhões de euros de compromissos, só num ano. E se pensarmos nos compromissos totais, pelos anos fora, não só para este OE, são 26 mil milhões de euros. Não desvalorizando a redução de 35%, acho que pode ser vista como muito, mas também como muito pouco para estes meses de governação de um ministro que considerava antes as PPP como um cancro da economia portuguesa. Eu bem disse que pela boca morreria o peixe.

sábado, 15 de outubro de 2011

Porque ficaram em casa?

100.000 em Lisboa, segundo a organização? É errado e contraproducente inflacionar a dimensão de manifestações e comícios. Descredibiliza o valor intrínseco do acontecimento, é tiro no pé em termos de propaganda. Sempre disse isto na minha vida político-partidária de há muitos anos, mas tendo dissabores com essa posição. Eram tempos em que se enchia o Terreiro do Paço com meio milhão de pessoas (cheguei a ler um milhão), quando a coisa é de simples aritmética: 4 pessoas por m2 (e é bem apertado), 170 m de lado da praça, contas redondas 115.000 pessoas atulhadas. Muito longe de um milhão.
A manifestação da “geração à rasca”, de 12 de março, foi dita como de 300.000 pessoas. Mesmo que tenha ocupado toda a zona central de toda a Av. da Liberdade, e com uma média de 1-1,5 pessoas por m2 (o que é muito para uma manifestação, teria de ser compacta), são 1500 m x 40 m x 1,5, logo 90.000 pessoas.
Isto para diminuir um pouco, em termos comparativos, a minha tristeza e preocupação com a manifestação de hoje em Lisboa. Inegavelmente, foi fraca e é preciso perceber-se porquê. Desta vez estive lá e pude contar, com algum jeito que tenho, quer pelo método da contagem centena a centena, o que é fácil, quer pelo método da conversão do tempo de passagem em número de manifestantes (5 pessoas por segundo). Descontando as pessoas que estavam no passeio e que provavelmente se foram integrando na manifestação, não se chegou a 10.000 manifestantes. Praticamente um décimo da manifestação de 12 de março. É pouco e faz pensar.
Coisa evidente era o perfil largamente maioritário dos manifestantes, coerente com o que se conhece dos grupos que a convocaram: muitos jovens, com a aparência quase estandartizada de símbolos (vestuário, adornos, piercings, rastas) de uma postura de protesto (claro que não estou a criticar). É hoje uma grande camada social de excluídos, sabemos que em muitos casos de nível cultural e académico alto - o que permite pensar que também de bom nível social e económico (claro que com isto não estou a negar a sua justeza de luta, estou só a tentar uma análise com atitude de objetividade).
Não vi notoriamente aquilo que saltaria logo à vista como o ar típico do manifestante de há dias, da CGTP. Sei que me podem acusar de estar a fazer uma apreciação impressionista, mas creio que, com a devida margem de desconto, é válida. À primeira vista, isto é muito estranho. 

A “geração à rasca” ou os “indignados” provavelmente não são um conjunto muito elástico, em termos de reação aos fatores de momento. Saíram à rua os do 12 de março, estiveram no Rossio, voltaram hoje a sair, talvez um pouco mais, mas com motivações já sedimentadas. Não são, diretamente, os mais afetados pela brutalidade das medidas austeritárias, quase de sadismo político ou de autismo de economistas fanaticamente ortodoxos, que foram agora anunciadas. Por isto, esperava que a manifestação engrossasse enormemente com aqueles que, se ainda não sabiam, acabaram de saber agora o que vão sofrer. Afinal, ficaram em casa.
Os novos movimentos jovens têm alguma responsabilidade num certo divórcio com todo o grande movimento social convencional. É natural, ainda são inexperientes, embora a falta de consciência dessa inexperiência e até todo um "patronizing" hipocritamente disfarçado de embevecimento por parte de gurus e de jornalistas os possa levar - espero que não - a alguma arrogância. Estou a ser senilmente sobranceiro? Admito.

A sua linguagem e postura é muitas vezes quase iniciática ou grupal e alguns dos seus “slogans” são duvidosos para muita gente, mesmo que os fundamentos da revolta sejam aceites por essa muita gente. Por exemplo, hoje, a manifestação ia cheia de cartazes a apelar a uma democracia direta que ninguém discute a sério e que se sabe, na teoria e na prática, que tem muito a discutir (a começar pela diferença para uma democracia participativa). De cartazes pouco sensatos do tipo “temos fome, vamos comer os ricos”. Pior, por toda a parte a rejeição absoluta e generalizada dos partidos. E outras manifestas palavras de ordem populistas, com os riscos que a história nos ensina.
Assim, é de admirar que militantes ou simpatizantes de partidos de esquerda não se tenham sentido atraídos por esta manifestação? Ou que até, para a desvalorizar, algum partido tenha passado palavra para não ir lá o seu pessoal? A atitude anti-partidos de muitos dos novos grupos de ativismo político (daí a movimentos ainda vai alguma distância) é infantil e sectária. Até posso citar um caso próximo de mim. Como podem ver ao lado, destaco, com muito interesse, um grupo político de que me sinto próximo, o Convergência e Alternativa. Não foi tido como promotor desta manifestação, pela simples razão de, numa declaração sem grande importância, um dos seus ativistas - sem a responsabilidade de porta-voz ou dirigente, coisa que este grupo não tem - não ter rejeitado (repare-se na diferença, não foi afirmar, foi não negar) que um dia o grupo pudesse pôr a hipótese de conversão em partido.
Outra possibilidade a justificar a falta de adesão à manifestação é a da anestesia, do martelo pilão da  indoutrinação e desinformação sobre a crise, a causar tal perplexidade que as pessoas ainda não caíram em si, “ainda não são gregos”. Afinal, 80% votaram há meses na troika interna, convencidos da inevitabilidade da política de austeridade demencialmente levada ao limite. As pessoas estão atordoadas, mas vão acordar. A menos que vingue o atávico fatalismo português.
E essa do martelo pilão é coisa que tirei de um artigo de hoje de Pacheco Pereira. Quem diria! Amanhã ou depois falarei sobre isso. 
Nota - Afinal, embora provavelmente sem a concordância dos promotores, a manifestação não foi completamente apartidária. Lá iam, bem identificados com faixa e cartazes, uma dúzia de MRPPs, com destaque para o revolucionário do iate, Garcia Pereira, a quem a televisão brindou com mimo especial.

P. S. (17.10.2011) - Lembrei-me agora. O grande sucesso de 12 de março e a saída à rua de outros tantos ou mais de gerações mais velhas do que os "à rasca", ao contrário de ontem, não terá tido muito a ver com a época do ódio a Sócrates? Passos Coelho ainda não teve tempo para despertar essa reação e até tem a seu favor um estilo diferente, mas que se cuide.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Um banco vale mais do que um país?

O estado belga que parece que nem é bem estado acaba de resolver o caso (nem digo escandaloso porque o adjetivo está tão vulgarizado que já perdeu força) do banco Dexia, comprando-o por 4 mil milhões de euros (mM€). Ao mesmo tempo, para poder garantir os depósitos, abriu com a França e o Luxemburgo uma linha de crédito de 90 mM€. Estranho que não esteja em causa qualquer coisa de recapitalização do banco, mas deve ser ignorância minha, de leigo. É que basta comprar o banco e garantir por valor muito mais alto os compromissos, sem recapitalizar? Fico a pensar que, afinal, quando dirigente de organismo, nunca aprendi nada de contabilidade, de ativos e passivos.

Esta é a primeira razão de espanto. Um banco vale 4 mM€ mas tem riscos de débito de mais do que 20 vezes mais. Na prática, o esforço financeiro do estado comprador, neste processo especial de nacionalização, é de uma aquisição de capital a preço efetivo muito superior ao que corresponde ao verdadeiro proveito público, em termos de posse do banco. Os seus acionistas privados, depois, na reprivatização, vão reaver o seu capital ao nível proporcional dos tais 4 mM€, sem entrar um tostão para a proteção dos depositantes, os tais 90 mM€. Ou sou eu, não economista, que estou a ver mal? Admito, sou leigo.

E fiquei a pensar nestes números por comparação com o que aqui nos vai pela casa. Por exemplo, o BPN. O valor do banco, a valer para a sua privatização, foi de 40 milhões - 0,04 mM€ para usarmos a medida acima. Mas já os contribuintes entraram, a vários títulos, com coisa como 4 mM€, se não estou em erro. 100 vezes mais do que o valor do banco, assim como os belgas, franceses e luxemburgueses se comprometeram hoje com 22,5 vezes o valor do Dexia. A ver vamos se não chegarão também às 100 vezes. Se não me engano, as nossas 100 vezes começaram por 15 vezes (600 M€).

Pensemos também na "ajuda" que recebemos da troica. 78 mM€! Não é zero a mais ou a menos, é mesmo menos do que os tais 90 mM€ do Dexia. É o que vale todo um país, menos do que a linha de crédito para salvar um único banco franco-belga. As pessoas não estão a pensar no que representa o poder e o volume do setor financeiro (e só falo dos bancos, nem sequer dos investidores mais ou menos ocultos) em comparação com aquilo que é mais visível, a economia dos estados, os seus défices, as suas dívidas.

Dos tais "nossos" 78 mM€, os "responsáveis", isto é, nós todos, estamos a pagar a fatura com impostos, cortes nos vencimentos, metade do subsídio de Natal, aumento do IVA, da conta da eletricidade, dos transportes. E os banqueiros do Dexia o que é que vão pagar? E não irão até lucrar quando reouverem na reprivatização o banco depois de o dinheiro dos contribuintes, na nacionalização, ter salvo e possivelmente valorizado o banco, com isso valorizando a sua carteira pessoal de ações do banco?

Nos nossos 78 mM€, 12 podem ir para recapitalização da banca. Sabe-se que ela está com a corda na garganta, embora aparentemente protegida das bolhas com que "subprimes", bancos islandeses, espanhois e irlandeses, Dexia e outros nos rebentaram a crise na cara. Mas nenhum banco português estará mesmo na situação do Dexia? Não sei, não sou economista, mas tenho espírito de Zé para desconfiar. Porque é que precipitaram o recurso à troica e agora resistem ao máximo à recapitalização?

Claro que não querem a consequente nacionalização, mesmo que por um estado atento, venerador e obrigado ao capital e principalmente ao capital financeiro, aquele nas mãos de "gente fina é outra coisa!". Não querem, nem que simbolicamente, um administrador nomeado pelo governo, mesmo que tão-financeiramente-tão ortodoxo como eles. Não querem arriscar o rearranjo das relações de poder e da repartição das participações sociais. Não querem jogar na imprevisibilidade do seu peso na altura da reprivatização (porque, não se esqueça, estas privatizações hoje espantosamente "aceitáveis" - ah! PREC! - são sacrifício sempre provisório e quanto mais provisório melhor). Porque afinal eles são medíocres, são tacanhos, são provincianos, como provinciano é todo o mundo político, económico, até académico, que faz esta choldra.

Mas tudo vai bem na frente ocidental! Como sempre entre nós, mesmo quando, com ou sem feliz luar do lado de cá, sempre havia do lado de lá, em Paquetá, uma perninha, de frango ou de galinha.

domingo, 9 de outubro de 2011

Ja chegámos à Madeira?

Em dia de eleições que se calhar, mais uma vez, vão frustrar o meu desejo de que agora é que sim, especialmente olhando eu para o novo fator político da dívida, vem à baila uma coisa espantosa, das que não dão para crer.

Em plena época eleitoral, Mário Nogueira, dirigente sindical da FENPROF, militante comunista feroz e ortodoxo (coisas indissociáveis, "cela va de soi"), aceita colaborar no primário calendário de inaugurações jardinescas de vésperas de eleições. Como se vê na fotografia, aí está ele feliz e contente com excelente companhia, na inauguração da sede do sindicato (paga por quem?).
Fotografia extraída de O Grande Zoo

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A maioria tem sempre razão? (V)

Fiquei de acabar hoje esta série, "A maioria tem sempre razão?", mas confesso que com desgosto, com algum enjoo, porque não me apetece pensar que os tais 80% de eleitores que têm razão não têm percebido tudo o que se passou na Europa depois de terem ido lá deitar o voto.
Lembremos o que era a situação nessa altura. Todo o poder europeu, mediocremente simbolizado pela parelha dançante Merkel-Sarkosy (quem é hoje o Metternich que encena este congresso valsante?) definia como dogma a austeridade, os resgates, os planos da troika. "Eurobonds", nem pensar (mas Barroso, à revelia da sargenta prussiana, vai mandando fazer estudos). Compra de dívida pelo BCE, nem pensar (mas Trichet lá vai comprando). Penalização dos bancos privados nos resgates, nem pensar. Reestruturação das dívidas, a tal coisa diabólica de caloteiro, não só nem pensar, era nem imaginar, nem fantasiar. 
"E pur si muove", está tudo isto hoje em cima da mesa, contra o que a troika interna disse aos portugueses na últimas eleições, de braço dado com a troika externa (que finaço que é ser-se governado pelos homens dos olhos azuis…)
Foi isto, esta irredutibilidade estúpida (porque em política, "nunca digas nunca!") que me levou à tal série de escritos, sempre com o tema central de que há alternativa. Nessa altura, a alternativa era já a reestruturação da dívida, no contexto de uma luta forte no campo europeu para revisão da política germano-hegemónica, desejavelmente com a construção de uma frente europeia meridional. Hoje, quando toda a gente diz que a reestruturação da dívida grega está às portas, cairam os tabus, só o ministro "nerd" ainda faz cara de convicto.
É pena que isso a que eu chamei a "frente do não" tenha sido frágil em Portugal, com um PCP mais coerente nas suas propostas mas menos credível como partido, por tudo o que sabemos, e com um BE ambíguo, a meu ver raiando a desonestidade inteletual e política na conversa entre Louçã político e Louçã professor de economia, apresentando como "renegociação" uma coisa mixuruca que os eleitores não puderam compreender.
Esta coisa da reestruturação da dívida, na altura heterodoxa, virou inevitabilidade em relação à Grécia. Nem me dou ao trabalho de consolidar esta afirmação com referências, que seriam aos milhares. Não há dia em que os jornais não falem nisto, não lembrem que a Grécia vai fazer um "corte de cabelo" de 50% no valor da sua dívida, que os bancos vão pagar, a começar pelos bancos alemães e franceses que disseram aos gregos (e aos nossos bancos que depois ecoaram para o Zé) "compra, compra, compra". Tanto é culpado quem se endivida tontamente como quem empresta agiotamente.
Em 21 de julho, pareceu que os zombies dos governos europeus tinham acordado. Afinal, o que se viu? Há dias, o Ecofin, que devia ter pensado em salvar o euro, concluiu por não haver conclusões. Entretanto, os gregos com o nó cada vez mais apertado no pescoço, sem dinheiro para os salários de outubro, veem os cinzentos da troika irem e virem sem desbloquearem a pequena fatia do empréstimo, porque são amanuenses de um manual de instruções para burocratas, porque a sua cabecinha formatada pelos MBA não permite ir mais longe. Mesmo que ainda hoje o gélido comissário finlandês tenha vindo dizer que o FEEF devia ser aumentado para quatro vezes mais!
Mas nós não somos os gregos! Não somos? Vejamos o que era a Grécia antes do pedido de resgate, em 2010, e Portugal na mesma situação, em 2011. PIB, respetivamente Grécia e Portugal: 321,7 mM US$,  247 mM US$. Défice orçamental, em percentagem do PIB: 12,7%,  9,1%. Dívida pública (/PIB): 130,2%, 93,0%. Dívida externa total (/PIB): 174%, 217%. Juros (maturidades a 10 anos) 10,7%, 9,63%. Nós não somos a Grécia? Claro que os números não são idênticos, mas é preciso vê-los "na estrutura". E olhe-se, principalmente, para a dívida externa total. Sinal de que isto é que é crítico é a atitude dos mercados, atirando-se mais à Itália grande devedora do que à Espanha, apesar de esta ser economicamente menos forte.
É verdade que não somos gregos, num aspeto, de calendário. A Grécia teve de pedir resgate e sujeitar-se ao colonialismo da troika um ano antes de nós. Nesse ano, sofreu a maior brutalidade de uma política de austeridade. Ainda há dias se sujeitou a coisa louca, politicamente suicida para o seu governo, para tentar cumprir as regras surrealistas que condicionam uma fatia devida do empréstimo ou um novo plano de resgate: novo plano de austeridade no valor total de 78 mM € (curiosamente, o mesmo valor do nosso empréstimo, e depois de um ano de "ajuda"), 50 mM € de privatizações. 
Isto depois de este ano de resgate troikiano ter custado à Grécia uma média de 30% na redução de salários, subidas de 50-100% dos preços de combustíveis, eletricidade, transportes, falência de 165000 empresas, e, surrealisticamente, 97% de retorno dessa "ajuda" para os países ricos da UE, como juros e amortização da dívida.
E sabendo-se muito bem, toda a gente o diz por todo o mundo político, financeiro, jornalístico, que nada disto vai evitar o inevitável, amanhã ou depois, a reestruturação da dívida grega.
Creio que não é preciso ser-se economista para se perceber a espiral da recessão. Ou só os 20% que não votaram com razão é que são dotados de um pouco de capacidade de raciocínio? A previsão da própria troika é de recessão à volta de 2% em cada um dos próximos dois anos (P. S., 27.6.2011 - O governo acaba de dizer que talvez sejam -2,5%). É outro tanto de diminuição do denominador de todos os índices referidos ao PIB, portanto, simples aritmética, nem sequer economia, é aumento do valor desses índices - défice, dívida - em termos de percentagem do PIB. É falência de empresas e desemprego, com recurso por isto e por outras razões a subsídios estatais, a agravar a despesa. Também menor cobrança de impostos. Menos receita e mais despesa, maior défice em valores absolutos, muito mais, como disse, em percentagem do PIB. Etc. 
Foi o que aconteceu com a Grécia e, ao fim de um ano, vão, forçados, para a reestruturação da dívida. Pagaram pelo inevitável um ano de miséria. Vítor Gaspar também diz, preto no branco, que as nossas maiores dificuldades ainda estão por vir. Nós vamos ter de pagar o mesmo preço Grécia pelo nosso inevitável incumprimento, só por haver aí uns robôs do sistema que ainda matraqueiam a tal maioria de 80% que "é preciso obedecer à troika"? "Que não somos a Grécia" - já ouviram algum argumento a provar isto? Vamos mas é aprender, vamos fazer por nossa iniciativa e sob nosso controlo uma política soberana a aprender a lição dos outros. E aproveitar já o "reboque" da Grécia, que vai forçar a zona euro a concessões para uma reestruturação "ordenada" que não sabemos se podemos conseguir daqui a um ano ou dois, quando chegar a nossa vez.


Não podemos dizer, à fatalista e bem à portuguesa, "agora a Grécia, depois chegará a nossa vez". Não temos de esperar, não devemos esperar.

E não temos força, nós coitados portugueses? Lembro só o que escreveu há dias, no Expresso, o ex-comissário António Vitorino, certamente que não suspeito de simpatias pelas reestruturações das dívidas, coisa revolucionária (e soberana!). "Se a Grécia cai, há um tsunami na Europa"! Bem à plebeia, e só desadequadamente por a a frau usar saia, diria que "os temos pelos t...".
E com isto termino esta série de entradas. Sou pela reestruturação da dívida, desejavelmente no quadro de uma luta europeia que reponha o projeto estragado por estes vergonhosos e medíocres políticos que nos governam, de Lisboa a Berlim, passando por Bruxelas.

Humor em tempos de crise

domingo, 25 de setembro de 2011

A maioria tem sempre razão? (IV)

Numa série de entradas anteriores, escrevi (I), escrevi (II), escrevi (III) que a tese de que a votação esmagadora (80%) na troika interna vassala da troika externa justificava, como “razão”, a obediência aos memorandos, à política de austeridade, ao “temos de obedecer”, “não há alternativa”. Mostrei que mesmo esse dogma a que nos tínhamos de sujeitar estava em mudança, ocultada pelo nosso grande irmão governo-banca-media-academia. Mostrei que esse irmão se sujeitava a um poder hegemónico norte-europeu ignorante, que envergonha os pais europeus. Acusei, camonianamente, que “também dos Portugueses / Alguns traidores houve algumas vezes”. 
De nada disto me retrato. Apenas me ficou a dificuldade de concluir como prometido a série de reflexões, porque os acontecimentos, os sinais de desnorte dos dirigentes europeus, os sinais de primarismo político dos nossos governantes, me iam dificultando uma síntese que não me envergonhasse inteletualmente, por esquematismo.
Há dias, na senda da tal razão da maioria, ouvi o ministro Álvaro dizer que “não se devem discutir as medidas do governo, foram aprovadas por 80% dos eleitores”. É uma enormidade política, deturpação da democracia, desculpável a quem apenas se notabilizou por uns livros engraçados, politicamente fracos (falo, por exemplo, do que ele gosta de discutir e que eu conheço bem, a política da educação superior) e que estão em contradição flagrante com o que é hoje a sua posição política. A cada um o seu sentido de coerência e integridade.
Essa afirmação fez-me saltar, "agora é que vou escrever", contra o tal adiamento de escrita. Também entrou na decisão, como ponto crítico, a questão da dívida da Madeira, afinal um aspeto muito visível, na prática, da questão que tenho posto: “a maioria tem sempre razão?”
E o que podemos aprender com o caso vergonhoso da dívida madeirense e da sua ocultação? Os alemães não protestam com a ocultação da dívida grega? Mas nós não somos gregos! E agora não somos madeirenses, ou os madeirenses não são portugeses, ou os açorianos não são madeirenses, ou os algarvios não são minhotos, que confusão! E de egoísmo em egoísmo eu acabo por dizer que não sou o meu vizinho do lado direito. E não há hoje eleitor dos 80% que não esteja a reclamar que os eleitores madeirenses paguem pelo seu governante. 
Não é questão menor de filosofia política. O que é a responsabilidade dos eleitos e dos eleitores? Afinal, qual é a responsabilidade dos milhões de alemães que vemos, em filmes oficiais, em relatos jornalísticos, em registos sérios, em crónicas de historiadores, fanatizados no apoio ao nazismo? E quem melhor pode falar disto são os meus amigos alemães que, crianças ou ainda não nascidos nessa época, transportam hoje à Atlas a culpa dos seus pais. E muitos transportam com sofrimento que nós não imaginamos, porque não temos o mesmo sentido luterano da culpa, em relação aos nossos pecados de salazarismo e colonialismo.
Esses pais nazis “passivos” vieram dizer depois que nunca tinham ouvido falar de Auschwitz, que nunca tinham ouvido falar da Gestapo, que nem imaginavam que comunistas, socialistas, ciganos, homossexuais, deficientes mentais, seus vizinhos desaparecidos de um momento para o outro, não só os judeus, eram massacrados. Nunca tinham ouvido discursos do seu deus na terra em que defendia claramente o que fez (honra aos tudescos, são linearmente transparentes, sem subtilezas; o “Mein Kampf” é brutalmente eloquente, tanto como, hélas, as críticas da razão de Kant, porque não há como os alemães para poderem ser ao mesmo tempo geniais e monstruosos).
E os madeirenses também não sabiam? Não têm tido acesso a milhentas informações sobre o que faz e diz a figura trágico-cómica de Jardim? E porque se calam e se acomodam e o elegem? E não aceitámos todos, portugueses, a vergonha madeirense? A maioria tem sempre razão? Claro que não, é o que tenho estado a dizer nesta série de entradas. Todavia, nada disto se pode transferir, a meu ver, para reações primárias, “votaram, que paguem”. Tudo isto põe em discussão a filosofia da democracia representativa.
Aquilo que escrevi, de cada vez que os acontecimentos me faziam adiar a conclusão, era esta coisa primariamente simples: “a esmagadora maioria, 80%, votou pela austeridade, pelas troikas, interna e externa, a maioria em democracia tem razão? Não é verdade, não há nenhum voto que faça uma pessoa mais inteligente, mais informada, mais esclarecida”. Mais, que democracia é esta que contradiz o rigor inteletual, a informação cientificamente fundamentada? Não vivemos hoje numa nova sociedade, a sociedade do conhecimento?
Claro que se está meter pelos olhos dentro que os dogmas troikianos que alimentam a tranquilidade de consciência dos eleitores (continentais, não madeirenses!…) que permitem ao ministro Álvaro escudar-se neles, esses tais dogmas de “tem de ser”, são hoje visivelmente tudo menos indiscutível, mesmo para as autoridades que estão por detrás dos boys de serviço. Mas como isto já vai longo, passo para nova entrada, amanhã, espero que a concluir, se não houver mais notícias surpreendentes de última hora, numa Europa em que só está tranquilo nas suas certezas, sem notícias, quem é da maioria que tem sempre razão (ou, à Otelo, “o povo tem sempre razão” - os extremos tocam-se!).
Provavelmente, só escreverei amanhã sobre coisas objetivas, de economia. Por isto, fica aqui uma questão política. Os madeirenses, como por aí se diz, são uns egoistas que se aproveitam do betão do Jardim e dos seus negócios com amigos? Ou então, como por aí se diz, são "uns patetas manipulados"? E os 80% de eleitores portugueses que votaram na troika o que são? 

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O prazer perverso dos economistas

A satisfação profissional é um grande prazer de vida. Gostar de se exercer a profissão que se escolheu é ótimo, só sendo pena que não seja coisa mais vulgar. O que complica as coisas é que, para quem observa de fora, pode ser difícil definir o que é que determina esse prazer profissional. Num médico é simples. Curar doentes, prevenir doenças, melhorar a saúde. Num professor, idealmente, formar gente que, depois, vai ser mais sabedora e mais competente do que o professor. Mas isto é linear, não tem muito de idealismo? No curso da vida, com o vir à tona de cada vez mais frustração e cinismo, não será também muito o sucesso, o bem estar, a riqueza?

E também a felicidade profissional tida como cumprimento/satisfação dos objetivos pretendidos não tem muito a ver com aquilo que em muito influencia a determinação desses objetivos, isto é os valores pessoais, as conceções de vida, a ética, afinal a ideologia?

Esta deambulação talvez pernóstica tem a ver com o caso particular dos economistas. Claro que da “massa dominante” dos economistas, com muito respeito por tantas e tão excelentes exceções. Falo dos “economistas de serviço”. Descontando a política, que não quero (“hélas”!) considerar como profissão, não há hoje profissão mais determinada ideologicamente do que a dos economistas e/ou gestores (já foi o Direito, hoje muito menos).

Dê-se o benefício da dúvida de que Gaspares, Álvaros, Duques, Cantigas, acima deles Trichet e Constâncio, mais as eminências pardas de Merkel, os homens da “troika”, e todos os cinzentos economistas robôs de Wall Street até Frankfurt, são honestos, tecnicamente motivados e informados e até felizes no seu trabalho, no cumprimento dos objetivos profissionais para que foram preparados. Mas este é que é o problema: para que foram preparados!

É inegável que hoje a política mudou radicalmente de discurso. Curiosamente, foi este o tema do primeiro “post” deste blogue. O discurso político tradicional é hoje irrelevante sem fundamentação na economia política. Com isto, foi-se ao exagero de bastante apropriação do debate político pelos economistas. O que obriga os não especialistas, como eu, a um grande esforço de estudo, mas sempre com a dúvida do amador inseguro.

No entanto, esta apropriação da política, manifesta na comunicação social, esconde-se na falácia da competência técnica, da informação especializada, do raciocínio “científico”, quando essa apropriação resulta de facto, essencialmente, de um pensamento ideológico, no caso enquadrável no que podemos chamar de “neoliberalismo”.
“O peso do Estado deve ser mínimo. O funcionalismo público é uma cambada de privilegiados, com emprego para a vida, incompetentes, sugador dos nossos impostos. A escola privada é muito melhor do que a pública. Nada deve ficar fora da privatização, água, energia, indústrias de defesa, até prisões, um dia destes a polícia e as forças armadas. A competição é muito maior fator de enriquecimento do que a solidariedade e a motivação social. Deve haver uma grande flexibilidade para coisas tidas tradicionalmente como imorais (por exemplo, a agiotagem, juros de 130%! a um ano, à grega; pecado de usura que nem é do cristianismo, já vem no Velho Testamento); flexibilidade aceitadora porque são coisas que se enquadram no “sistema”. E este “sistema” é indiscutível, principalmente depois do fim do pseudo-comunismo. O estado social contribui para a preguiça, para o parasitismo. A economia deve favorecer os audazes, num novo circo romano. As empresas e principalmente os bancos são intocáveis, porque sem elas e eles vai-se a “economia nacional” e, com ela, a “economia doméstica” de nós todos, que devemos ajoelharmo-nos aos benfeitores do futuro dos nossos filhos, ainda por cima bons exemplos de virtudes, os banqueiros, gente fina.”
Descontando a caricatura, não é isto que os “economistas” apresentam como indiscutível, como se houvesse alguma coisa "indiscutível" para além de axiomas e postulados? E isso tem alguma sustentação racional, é economia “científica” ou é pura e simples ideologia? E, transmitindo-se pela máquina de produzir opinião, não é isto que faz a tal “razão” da maioria dos 80% de votantes na “troika” interna marioneta da “troika” externa? Isto chama-se, pura e simplesmente, ideologia neo-liberal, estado hoje mais avançado do capitalismo. Não é um sistema económico racional, cientificamente estruturado (“porque não?”), é simples ideologia, “porque sim”.

Uma visão porventura um pouco redutora faria dizer que boa parte dos economistas que por aí vemos, a todos os níveis, com exceções gratificantes, mas minoritárias e com influência reduzida (por agora!), são os homens de mão do capital, ou mesmo, pessoalizando, dos grandes capitalistas. Não é bem assim, é mais complicado. São produtos de uma formatação ideológica que não conseguem criticar, são criaturas de um sistema que não se aguenta só a nível infra e estrutural (seria visão esquemática do marxismo), mas hoje, cada vez mais, também a nível superestrutural, do pensamento, dos valores incutidos, da ideologia. Isto é a hegemonia.

Só assim compreendo que os economistas “chapa-um” possam ser felizes, com a felicidade que se lhes vê na cara quando defendem coisas que a qualquer pessoa bem formada fazem pensar “estes homens são sádicos”. Como é que se pode sentir profissionalmente útil e feliz alguém que está a propor e a levar à prática a miséria de muita gente, o desemprego, a redução da proteção social, o corte de salários da função pública, a diminuição do rendimento dos mais vulneráveis - os reformados? Pode-se dizer que o fazem por obrigação, até para evitar males maiores. Mas a impressão que deixam, por todas as formas de expressão, até facial, é que também o fazem com algum prazer. Talvez isto seja exagero, mas ao menos parece inegável que, não sendo porventura prazer, é pelo menos insensibilidade  e frieza desumana e tecnocrática.

Admito que esta nota seja um bom exemplo de “economia moral”, pelo lado esquerdo, talvez tão criticável como a “economia moral” hoje dominante, do tipo “não podemos ser caloteiros”. Admito, mas não me arrependo de a escrever. Há uma dimensão ética na política sem a qual ela fica exercício cínico e desgostante.

Finalmente, uma nota de professor. Se esta atitude da “classe económica” tem muito a ver com o “para que foram preparados”, escrito acima, então há que olhar bem a sério para as escolas de economia. Já houve tempos em que foram ambiente fértil de debate, de confronto de escolas de pensamento económico - e, inevitavelmente, político. O confronto era estimulante para os estudantes, favorecia-lhes o gosto pela reflexão e pela análise.

Hoje, parecem cada vez mais padronizadas e são sem dúvida um aval do pensamento único ou hegemónico que está a fazer uma opinião pública (com reflexos eleitorais) também padronizada. Como universitário que contata bastante com jovens, noto muito mais variedade de opiniões, de mundivivências, entre universitários de outras áreas do que entre os mais “formatados” estudantes de economia e gestão. Pode-se recear que se esteja perante um mecanismo formatador auto-alimentado e permanente: os professores de hoje preparam os estudantes que serão os professores seus sucessores.

NOTA - Um pouco a despropósito, ou talvez não. Vejam-se os “sites” das mais celebradas escolas de economia portuguesa e as suas designações oficiais, embora não estatutárias. Já foram Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa e Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica Portuguesa. Hoje são NOVA School of Business and Economics e Catolica-Lisbon School of Business & Economics. Repare-se que não são traduções para uso em documentos redigidos em inglês; são as designações agora oficiais, em documentos em português! Não é ridículo, pretensioso, novo-rico? Não consigo encontrar coisa equivalente em universidades espanholas, francesas, alemãs. “Esta é a ditosa pátria minha amada”, mas é pena que lhe falte coluna vertebral.

domingo, 18 de setembro de 2011

Trichet ou coronel Jessep?


Reporter: What is your answer to German people and economists who want the return of the DM?
Trichet: You want answers?
Reporter: I think the Germans are entitled.
Trichet: You want answers? (SHOUTING)
Reporter: Germans want the truth! (SHOUTING)
Trichet: *You can’t handle the truth!*  (SHOUTING)
[pauses]…
Trichet: Son, we live in a world that has prices, and those prices have to be guarded by men with bonds. Who’s gonna do it? You? You, Sylvia Wadhwa? I have a greater responsibility than you could possibly fathom. You weep for Lehman Brothers, and you curse Ben Bernanke. You have that luxury. You have the luxury of not knowing what I know. That Lehman’s collapse, while tragic, probably saved banks. And my existence, while grotesque and incomprehensible to you, saves banks. You don’t want the truth because deep down in places you don’t talk about at parties, you want me on that committee, you need me on that committee. We use words like rate, target, expectation. We use these words as the backbone of a life spent defending something. You use them as a profitline. I have neither the time nor the inclination to explain myself to a man who rises and sleeps under the blanket of price stability that I provide, and then questions the manner in which I provide it. I would rather you just said congratulations and went on your way. Otherwise I suggest you pick up a Greek bond, and suffer a haircut. Either way, I don’t give a damn what you think you are entitled to!

(extraído de Finantial Times/Alphaville, mas veja-se o verdadeiro vídeo da entrevista de Trichet)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Em tempo de crise, os polos afastam-se

Um amigo meu enviou hoje para a Time este comentário sobre um artigo arrogante de um finlandês:
Sirs, 
I think that you will probably consider my comment (on a comment…) outdated at this moment and, thus, I understand if you discard it, simply. However, on my view it may have some relevance.
In fact, when Mr. Leif Lukander uses the term 'selfishness' he recalls the very core of the issue, which has nothing to do with a certain moral. If any common territory inside borders is worth the name of 'country', nobody talks about 'help' when referring to the co-natural solidarity that term implies. It's constitutional solidarity, it's matter of governance, paragraph. 
With Europe there are a few equivocal things and that is the biggest problem. The contradiction between national sovereign powers and convergence without the institutional tools will lead to the end of Europe and rebirth of dangerous nationalisms, unless the so-called 'better-run' countries have memory and the intelligence to understand that their well-succeeded market is fed in a large measure by the near insolvent member States of a just monetary union. 
Thank you. 
Subscrevo este comentário. Mas, entretanto, não há muita gente a dizer coisas opostas: mas o que nos impede de exportarmos para o norte, não sabemos é produzir riqueza? E os países ricos, disciplinados, trabalhadores, têm de pagar os nossos erros? E haviam de deixar de exportar para nós? E os cidadãos pagantes desses países o que hão-de pensar? Não chega já de dizer que na Europa há os mauzões do centro e norte que produzem mas à custa dos do sul, e os pobres inocentes e vítimas do sul que são explorados pelos outros?
É o discurso hegemónico (ah, Gramsci!). Mais o da diabolização de qualquer défice, da maldade inata do Estado, da virtude do “mercado eficaz”, da veneração das figuras inacessivelmente aristocráticas dos banqueiros ("gente fina é outra coisa": viram o “Inside Job”?), da menorização da soberania (nunca o poder de reestruturação da dívida, mesmo da odiosa), da sujeição sabuja aos credores/exploradores, da aceitação da primazia do capital financeiro sobre o industrial - o fundiário há muito que se foi à vida -, da caricatura dos trabalhadores como preguiçosos e exploradores do Estado social, da aceitação acrítica do sistema económico considerado como dogma ou o "fim da história", muito mais. É em decorrência o discurso “big brother” dos economistas e ideólogos de serviço, “não podemos ser caloteiros”, “a economia política é como a economia doméstica de gente honrada”, “não há remédio senão a austeridade”, “quem nos ajuda é que manda”, “se não cumprirmos os memorandos, os mercados destroem-nos”, “cuidado com o nervosismo dos mercados”. Viva a troika! Mais, à ministro “nerd”, bom é ser mais troikista do que a troika. E tudo isto são os tais 80% de eleitores manipulados que, democraticamente, indiscutivelmente que têm razão.
Responderia com alguns factos básicos. Tão básicos que, não sendo eu economista, penso não andar muito longe da verdade ao enumerá-los. Isto quanto aos pontos 1-6. Os seguintes são de teor político, e aí eu cidadão não preciso de ter especialização académica em ciência política.
1. Na criação do euro, foram logo enviesadas as condições de concorrência. O marco e o franco foram desvalorizados, o escudo, a peseta, o dracma, a lira menos, foram sobrevalorizados. Foi o preço que a Alemanha exigiu, entre outros, para o negócio de aceitação pela França e outros da reunificação alemã (a meter algum medo, pensando no passado) e de aceitação pela Alemanha do fim do marco. Mas a Alemanha ganhou ainda mais. Um BCE à medida do Deutsche Bank, o triunfo das regras monetaristas de Maastricht aplicadas ao euro e ao BCE, de forma arbitrária (porquê o défice máximo de 3% do PIB e não 4%, como acabou por ter a própria Alemanha? E que também falsificou contas, como a Grécia, quando foi da reunificação). Também, nos dogmas neoliberais que impôs, a desregulação dos mercados financeiros, o pavor da inflação, a recusa de qualquer perspetiva keynesiana, a impossibilidade de monetarização da dívida (embora na prática o BCE tenha tido agora de comprar dívida dos PIGS no mercado secundário), etc.
2. Com isto, a pergunta sobre o porquê dos sulistas não exportarem para o norte fica em boa parte respondida. Além disso, grande parte da riqueza do sul foi destruída pela imposição política dos ricos, com a PAC e a política de pescas, inclusive o desmantelamento de frotas pesqueiras (porque é que a Noruega nunca quis entrar na CEE e depois UE? Para além de ter petróleo) e, por consequência, de boa parte do nosso setor secundário, com forte componente agro-alimentar. Lembram-se do que era a importância da nossa exportação de polpa de tomate? E os laticínios açorianos, hoje a jogar às escondidas com as quotas europeias?
3. A maior parte das exportações alemães são de indústria pesada e aí a Alemanha tem fatores históricos favoráveis. Um capitalismo industrial antigo e sólido (ou “O Capital” não tivesse sido escrito por um alemão, que nem sonhava que o “socialismo” nasceria aberrantemente num país de economia de “modo asiático”), mão de obra com mentalidade de exército, acima de tudo matérias primas, carvão e aço. Não se esqueça de que Jean Monet e os seus pares começaram por tentar equilibrar as coisas na Europa foi com a CECA, do carvão e do aço, antes da CEE.
4. Mais recentemente, a produtividade alemã e a competitividade nas exportações têm dependido fortemente de desvalorizações internas. Como não podem desvalorizar a moeda comum, desvalorizam o preço do trabalho, com os sindicatos a irem nisso. Aumento da idade de reforma, maior horário de trabalho, prestações e serviços sociais menos acessíveis. Os trabalhadores do sul, a meu ver, têm razão em não querer alimentar os seus tipos do Inside Job com esses sacrifícios. Pelo menos a resistirem enquanto podem.
5. A Finlândia é simplesmente a Nokia. A Holanda nem isso, um dia destes acorda atrelada à Alemanha, a viver só de outro tipo de competição com que a Irlanda se lixou, a desvalorização fiscal, em relação às empresas. Sabem quantas empresas portuguesas, a começar pelos bancos, Sonae, etc., têm sucursais na Holanda para circulação taxfree de capitais? Vamos ver como é, daqui a poucos anos.
6. Depois, todas as bocas sobre um euro do norte e um euro do sul, sobre a pressão para a Grécia (para já) sair do euro, etc., são mesmo só isso, bocas. Ou então ignorância crassa de políticos economicamente primários que desconhecem o que é a globalização, desde logo a nível europeu. Todo o sistema do euro está interligado, mesmo que com fios muito fracos, a ameaçar rotura. Mas se os PIGS romperem, vai-se à vida a estabilidade económica e financeira dos AAA. Cada vez mais economistas até agora servis ao sistema, gente do BCE ou dos bancos centrais, articulistas de jornal tão ortodoxo como é o Finantial Times, começa a dizer isto, como forma de protegerem o seu bom nome profissional e académico da burrice dos políticos.
7. E não vale só a economia. Também a política, talvez mais. O que se está a ver dos nortenhos, com sulistas a ajudarem de baraço ao pescoço, é um perigosíssimo nacionalismo, xenofobia, que se até agora era, já detestavelmente, contra o não-europeu, agora divide a Europa e abre portas sei lá a que aventuras neo-nazis (não digo que a Sra Merkel seja nazi, claro que não, mas da forma como isto vai… primeiro foram os comunistas, dizia Brecht, um dia serão os CDUs).  O que têm sido os resultados eleitorais nos últimos anos, nos países AAA? Eu tenho uns primos alemães que andam aterrados.

8. E também vale a ética, a gratidão, o reconhecimento. É certo que por interesse, lembrando-se das consequências de Versalhes, mas afinal os aliados é que reconstruiram a Alemanha do pós-guerra. Os malfadados gregos nunca conseguiram indemnizações de guerra, nem sequer a devolução do seu ouro confiscado (e em boa parte mandado para Salazar, para pagamento de volfrâmio). O mito do esforço alemão é isso, mito. Depois 1953 e a ponte de Berlim, uma fortuna. Depois, a reunificação, que desviou para a Alemanha rica uma parte muito considerável dos fundos estruturais de que tanto precisava a coesão europeia.
9. Finalmente, não aceito bem que pessoas de nível favorecido, como o meu, vivendo confortavelmente, desconhecendo o que são os sacrifícios dos milhões que estão agora a sofrer duramente a austeridade (eu ainda só minimamente, nada que já me tenha feito mudar os padrões de vida) venham lançar culpas sobre “os portugueses” que vivem acima das suas posses, ao contrário dos exemplares AAA. É injusto e é submisso. 
Injusto porque se toda essa gente se endividou, endividando o país, foi com crédito publicitariamente quase imposto dado pela banca com dinheiro que ela foi buscar a crédito mais barato aos AAA e conseguindo os lucros escandalosos de que nos lembramos, na década até à crise. Porque, entre muitos fatores de projeção psicológica ou de “standing” que não nego, esses portugueses (e esses gregos, e esses irlandeses, e esses espanhóis, e a coisa não ficará por aqui) tiveram que comprar a crédito a casa por não haver mercado de arrendamento ou o carro por a rede de transportes públicos ser terceiromundista. Claro que também compraram a TV gigante e as férias em Cancun, mas isto levava-nos longe, para uma discussão sobre os motins de Londres (que não desculpo de todo, mas que quero perceber, “cientificamente”).
E é submisso porque o cosmopolitismo, a vivência internacional, de uma certa camada  intelectual, académica e de quadros bem colocados está a levar para a tal projeção psicológica, agora a nível do padrão de “desenvolvimento e civilização”, do que não é "vergonhosamente" o provincianismo português. De certa forma, queirozianamente; porque os "vencidos" eram bastante snobs e não sei se, nesta crise, não alinhariam pelo "estrangeiro civilizado", que não é "esta choldra". Mas, ao menos o meu co-ilhéu Fradique tinha nível, bom gosto e boas maneiras. Todavia, no momento da verdade, os meninos tentarão apanhar o elétrico, enquanto a choldra vai sair à rua. Dito isto, há muita coisa que detesto no meu povo e não vou agora repentinamente virar "tuga". Não vou em patrioteirismos ao estilo anti-Moody’s, mas algum brio de identidade como povo não nos faz nada mal.

NOTA - E nunca um novaiorquino ou um californiano se atreve a falar de um arkansiano, seu "american fellow", como hoje fala um alemão de um grego. Aí está uma grande diferença, muito para além da diferença entre o dólar e o euro. É que, ao contrário do célebre dito de Clinton, não é verdade que "it's the economy, stupid!"

P. S. (13.9.2011, 00:25) - Descuidadamente, fui injusto para com Leif Lukander, o finlandês a quem o meu amigo JL respondeu. Faltou-me ler a sua última frase, essencial. Afinal, num comentário a um artigo da Time, "It’s Time to Admit the Euro Has Failed "ele estava a defender, sob a forma de uma pergunta, exatamente o que nós dizemos: “What is now being tested is the solidarity among member states. How far will the better-run countries be willing to go to help their weaker brethen nations? Let’s hope that selfishness does not get the upper hand”. Let’s hope, dear Leif!