segunda-feira, 18 de abril de 2011

Albergue espanhol


Não posso deixar de considerar como louvável a iniciativa de um manifesto de convergência nacional em torno do emprego e da coesão social, que foi divulgado pelo Público e que aparece no Ladrões de Bicicletas. Não fui confrontado com assiná-lo, mas sou agora, como qualquer cidadão, por ele ter dado origem a uma petição. Claro que não estou contra, já assinei coisas do mesmo tipo, bem intencionadas, politicamente corretas. Todavia, desta vez, não vou assinar, porque não contribuo para peditórios de tão boas intenções aglutinadoras que resultam em mão cheia de coisa nenhuma.
Confesso que me sinto à beira da contradição; ou melhor, de ser entendido como contraditório. Não defendi aqui, várias vezes, uma convergência de esquerda? Dirão: "afinal não é isto que consegue o manifesto, agora petição"? Mas convergência para quê? Obviamente que deve ser para um programa de ação consequente e que vá ao cerne das questões. Mas quantos “programas” se podem extrair deste manifesto, programas díspares? PCP e BE não poderão apresentar os seus programas tais quais hoje e reivindicarem correspondência ao manifesto?
O ponto crucial desta questão não será o de os promotores do manifesto terem sobrevalorizado a necessidade de meia dúzia de assinaturas do lado do PS romântico, pelas quais certamente pagaram preços? Vale a pena? Esses PS riscam alguma coisa na política atual, a começar no seu peso no seu partido? Não serão até assinaturas descredibilizantes, como é a de um Alegre depois do seu discurso no congresso do PS? Talvez tristemente, mas realisticamente, incluir o PS numa frente do “não” é tolice, por muito respeitáveis que sejam alguns socialistas.
Daí vem, em continuação, a minha pergunta: este manifesto representa “a frente do não”? Alguns bloquistas, dois comunistas marginais, dois ou três ex-PCP, dos quais pelo menos um bloguista sempre claramente na órbita de Sócrates, mas ninguém dos reformadores, mais alguma gente da cultura que está sempre à mão, para isto ou para o dos 47 (Expresso, 9.4.2011), com aquela forma particular de articulação de pensamento político que se conhece na gente da cultura, Mais uns históricos de quem ninguém sabe o que pensam desde há anos para cá ou de que agora se sabe estranhamente, como Boaventura Sousa Santos, que assina tanto este como o dos 47; mais, obviamente, alguns ativistas do 12 de março, agora as flores de estimação a enfeitar o cenário mas de quem não se conhece uma ideia.
Isto é muito bom, muito animador para quem se quer reconfortar na sua luta de poltrona, mas é “vira o disco e volta a tocar”. Senhores, quero ser lúcido e vocês continuam a pensar em antigamente, quando os nossos filhos jovens que gozam com os nossos tiques políticos convencionais já não acreditam que lhes possamos oferecer mais do que estas coisas que os fazem rir ou de que descrêem. E fazem rir, garanto, eu que sou professor de muitos jovens com quem converso. 
Claro que, sentimentalmente, acho muito positivo que se tenham congregado tantas e tão variadas pessoas para este manifesto. Simplesmente, a consequência política era inevitável e agora eu tenho de pensar é como político. Um texto bem intencionado mas vago, inerme, nenhuma bandeira de luta agora absolutamente necessária. Nada que motive os eleitores a votarem num verdadeiro “NÃO” que fica diluído em tão consensuais propostas. Mais, aposto que não se apanha uma única assinatura daqueles que saíram à rua a dizer que estão fartos. Porque também estão fartos de nem sequer conseguirem compreender o que para eles é ruído, o discurso político convencional (provavelmente, admito, também o meu).
Reparem bem nestas quatro propostas quatro, mas sem resposta ao que pergunto entre parênteses. 
1. Garantir o objetivo de promoção do crescimento económico (sector primário, secundário ou terciário, e em que proporção? Que peso de bens transacionáveis e não transacionáveis) e do emprego (duas ou três propostas concretas, façam favor, em termos do trabalho pós-taylorista e da sociedade do conhecimento e da inovação). 
2. Auditar a dívida pública (mas omitindo o que fazer com os resultados dessa auditoria - rejeitar a dívida "imoral", como eu defendo, assinam todos?). 
3. Impossibilidade de privatização da educação (não há já, e há muitos anos, educação privada? o que quero saber é como propõem "socializá-la"), da saúde (não há já saúde privada? idem) e da segurança social (não há já reformas privadas? idem). 
4. Regulação da banca e manutenção da Caixa Geral de Depósitos como banco público (em que é que a CGD é diferente do BES e companhia? Como deve ser diferente?). 
São estas as posições do manifesto, não estou a caricaturar. Já sei o que me dirão: como meter tudo o mais em uma página A4, o máximo que as pessoas lêem hoje? Para já, fazendo um “haircut” - termo bem adequado! - a muita palha preambular. É típico. Ainda há dias ouvi uma conferência com meia hora de introdução para criancinhas antes dos dez minutos finais de propostas apresentadas em atropelo. Quem hoje, com tanto que se escreve, não é capaz de saltar por cima de toda aquela introdução e subscrever propostas, seja em manifesto seja em petição, não adianta muito a não ser a fazer número "ad usum media".
Como está, é bom como plataforma abrangente, documento para a história a ler daqui a anos, à lareira, embrulhado na manta, à velha maneira unitária (aquele programa para a democratização da República, tão tosquiado por uns e outros que ficou coisa morna). É curto como programa operacional. Se o PCP ou o BE apresentarem só isto como programa, voto branco.
Eu quero mais. Vou votar daqui a mês e meio, ainda vou considerando isso tanto ou mais importante do que ir para a rua. O que é que me sugerem como indicação de voto, é esse manifesto? 
Onde é que eu leio no manifesto - claro que não podendo deixar de ser simplesmente como frases de título - as coisas que hoje mais me preocupam, como homem de esquerda que quer dar o seu voto a quem me garanta um verdadeiro NÃO? Qual é o programa para o crescimento? O que vamos fazer a banca pagar? Vamos ter compensação de usarmos alguma coisa da "ajuda" para recapitalizar a banca, vamos nacionalizar essa recapitalização, vamos impor limites à distribuição de dividendos, vamos taxar ao máximo os lucros da banca? Reestruturamos a dívida ou não, e quando e com quem? Dizemos ou não “basta” à camponesa saxónica e como? Combatemos por uma frente dos periféricos e como? Por que propostas vamos combater na UE para um sistema europeu de “rating” credível e isento? O que vamos propor e defender como revisão dos tratados em relação ao BCE, ao orçamento europeu, à solidariedade na dívida (“eurobonds”)? Que sacrifícios certamente inevitáveis temos de fazer e como os vamos explicar aos portugueses, mobilizando-nos solidariamente porque sabemos que esses sacrifícios são... para quê? Batemos o pé à "ajuda”, mas como e por que preço e como nos mobilizamos por valer a pena pagar esse preço? Estamo-nos nas tintas para os critérios de Maastricht e logo se vê, vamos a ver quem tem coragem de nos expulsar do euro, sabendo que seria o primeiro passo para a catástrofe europeia? Como falar com o Brasil e com Angola, até Timor e o seu petróleo, como acabei de ouvir pela boca de Ramos Horta? Etc.
A tudo isto, os costumes do manifesto dizem nada. Eu queria que dissessem, senão não ponho o meu nome, "clique subscrevo". Como é que economistas que muito prezo e que têm escrito coisas frontais e corajosas alinham nesta “banalidade económico-política”? Repito que compreendo que é inevitável numa congregação tão larga de subscritores. Mas é esta largueza balofa a prioridade neste momento quase eleitoral? Ou antes a clareza de posições, o definir terrenos? 
Ou, como já foi defendido, quer-se criar condições para um pseudo-referendo, embevecidos com a Islândia, mas um referendo que para ser manejável como arma política, para ser muito consensual,  acaba por ser um referendo sobre coisa nenhuma?
E não é indiferente ser só um manifesto grupal, a ganhar por 10 nomes ao do Expresso, ou transformá-lo numa petição, que obviamente se deseja assinada por muita e muita gente. Está-se a pedir quase um cheque em branco. Está-se a desvalorizar o que verdadeiramente conta, em favor da abrangência e do engano dos grandes números, dos milhares de assinaturas. Está-se a dar aos peticionários a ideia de que já fizeram o que tinham a fazer, marcar esse relógio de ponto, podem ir descansar sem exigir mais nada de propostas políticas. Está-se a dar aos partidos do “não” a boa desculpa para não terem de dizer preto no branco o que nos prometem como ação política, não só as boas intenções do manifesto/petição. Este manifesto não cumpre o que me parece ser o papel importante da esquerda independente, interventiva, bloguística, etc.: obrigar os dois partidos do “não” a dizerem, preto no branco, o que defendem como alternativa. Porque, insisto, ao menos o “partido dos brancos”, por ser só protesto, não tem de ter programa.
Fico de fora desta coisa e, apesar da modéstia de quem sabe que, neste canto, escreve para uma centena de pessoas, vou exigir mais, vou exigir mesmo respostas agudas às questões agudas. As tropas estão claramente posicionadas no terreno. Num lado, bem perfiladas, bandeiras bem desfraldadas e impantes, as direitas, nelas se contando, infelizmente, o PS agora ainda e sempre comandado pelo “querido líder”. No outro lado, a esquerda, mas infelizmente tropa fandanga, desorganizada, gentes nada amigas, mesmo atavicamente inimigas, a atropelarem-se, a assobiarem cantigas da sua rua estreita de bairro popular e a cuspirem para o céu a ver se o cuspo cai no vizinho. Mas com uns capelães bem intencionados a rezarem-lhes preces de “tão amigos que nós somos”. Para além do moderno Savonarola.
Este manifesto e esta sua derivada petição são convencionais, baços, não imaginativos. É bafio dos meus tempos juvenis de assinatura de coisas piedosas. Valia ao menos, como desculpa, que então assinatura podia dar prisão. Mas hoje, senhores, com o trio do nosso futuro governo desembarcado na Portela e engabinetado no Terreiro do Paço, é tudo o que me propõem?
E já pensaram, pensando bem, que, fosse eu Sócrates e sentindo-me espertalhaço como sem dúvida ele é, nada neste manifesto me impediria de pensar que o primeiro signatário fosse José Sócrates?
Nota - Esta caso parece-me ser um exemplo de coisa bem nossa. Temos tendência para atuar reativamente, não proativamente. Há semanas que se vem a apelar para uma ação exterior aos partidos de esquerda, a provocá-los para se verem consequências do seu célebre encontro. Todavia, na prática, toda a gente assobiou para o lado, eu também. Há uma semana saiu o dos 47. Então foi um ver-se-te-avias, a responder. Tinha de sair coisa chocha de resposta. Temo que a petição ainda mais chocha. Ainda não vi um único alerta daqueles que fazem sucesso, cadeias de mail, referências cruzadas nos blogues, mensagens no Facebook; fui lá ver e ainda vai, passado um dia, em 353 signatários. Se não se sabe fazer as coisas, é melhor não fazer! Claro que não renego a petição, aceito piamente tudo o que nela se diz, mas “hoje soube-me a pouco, hoje soube-me a pouco”.

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