sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Férias de namoro com Cabo Verde (IV)

O turismo em Cabo Verde

Logo à chegada ao hotel, prolongando-se a impressão pelos dias seguintes, era manifesto que, para além de alguns grupos de franceses, italianos e alemães, de visível bom nível socio-económico (exceto uns ingleses a tenderem mais para “Liverpool dockers”), a esmagadora maioria era de portugueses.

Exorbitava, com o seu alto tom de voz característico e com palavrões, gente do “Puarto”. Fiquei a pensar porquê. Questão técnica, uma agência portuense mais agressiva? Não me parece. A mesma empresa, a Abreu, organiza o pacote charter-hotel de uma semana, tanto de Lisboa como do Porto. Todavia, perguntando eu quantos turistas vinham no voo de Lisboa e quantos no do Porto, confirmou-se a minha impressão. Muito mais do Porto. Mas há maior poder de compra no Porto, ou há um padrão diferente de compra?

Tendo nós encomendado um esquema fora das normas e mais caro, cerca de 1700 € por pessoa, com escolha sempre top do alojamento, visita a outras ilhas, uma data de voos entre ilhas, só agora, indo à “net”, vejo que uma semana no nosso hotel da Boavista, tudo incluído com voo direto, nas nossas escolhas de nível, custa cerca de 900 euros. Dispensando os nossos requintes, pode vir para 700 euros. Em pacote de família com pelo menos 4 pessoas, quase metade. E biba o Puarto! E carago, não toquem essa tal Cesária, toquem Quim Barreiros!

Alguns turistas nortenhos educados com quem falamos faziam este fim de férias, mas usavam um fim de semana de inverno para irem a Londres ou Paris. Era o que se passava com o casal X, do grupo do "charter" do Porto, com quem conversámos. Disseram logo que, com a  crise, nunca pensaram viajar com tanta gente de nível social e económico evidentemente baixo. E têm dinheiro, nesta crise da austeridade! Por este exemplo, mais do que em Lisboa. Porquê? Não ganham mais, a não ser por economia paralela. Provavelmente têm menor nível de gastos.

Diz-me a morena: “em que gastamos? Cinema semanal, teatro e ópera mas só quando vale a pena, livros é certo que muitos, discos e DVDs também, de vez em quando um restaurante top, uns drinks num bar à beira mar, alguma roupa elegante, duas vezes ao ano nos saldos, alguma coisa de gourmet, mas raramente”. É isto extravagante? Não é, mas é caro para quem compra apenas o nível mínimo da oferta do supermercado e com cartão do Continente.

Assim, há toda uma camada social de pequena burguesia que até pode ganhar bem, em esquemas, que nessas coisas gasta pouco, ao nível dos seus hábitos, que nunca comprou um foie gras, que não lê um livro, que não paga descarga da internet, e que poupa para, em férias, serem senhores. Ainda não sentiram a troika.

Mas, insisto, porquê mais no norte do que no sul?

E confesso-me elitista, o mais aristocrata dos democratas. Depois desta experiência, não me apanham em resort de portugueses em que se grita aos berros para as criancinhas de um para o outro lado da piscina. Em que às 8 já todas as espreguiçadeiras estão marcadas com toalhas de gente que só lá vai a meio da tarde. Em que as criancinhas, com os pais ao lado, dão pulos seguidos para a zona da hidro-massagem. Em que as casas de banho estão inundadas de urina e o assento da sanita está todo regado. Em que quase metade das pessoas estão tatuadas. Em que toda a gente se atropela nas filas do bufete. Em que ninguém fecha a porta de um bar com ar condicionado. Em que se pede um "uisquezinho". Em que as pessoas apregoam em alta voz o seu catálogo nortenho de palavrões. E muito mais.

Uma senhora a quem, muito justamente, alguém tinha surripiado a toalha, deixando depois livre para mim a espreguiçadeira, veio dizer-me, indignada, que eu estava deitado sobre a sua toalha. "Mas julga que eu sou capaz de me deitar sobre a toalha usada de alguém, muito menos a sua?"

É português mediano. Dizer que o português mediano é rasca é coisa reacionária, aceito. É a democratização, com acesso alargado a muito que antes era de elite, e muito bem alargado. Enriqueceu o povo, embora as maneiras, o estilo, o bom gosto mínimo, tardem sempre uma geração em relação à conta bancária. É excelente que a pequena burguesia do meu tempo de jovem, então confinada na Reboleira do J. Pimenta e sem saber o que eram férias, possa hoje ter isto. Por isso lutei muito, mas com a ilusão de que ia ver toda esta gente ao meu nível. Nivelamento por cima. Afinal, sou eu que tenho de viver rasca.

Férias de namoro com Cabo Verde (III)

O turismo em Cabo Verde

O último número do Monde Diplomatique (edição portuguesa) traz um artigo controverso sobre o atual turismo, como forma de alienação e de neocolonialismo. Não concordei em absoluto com o artigo, mas esta nossa viagem fez-me pensar.

O investimento é estrangeiro e manda. Mas o país não deve proteger-se contra a atitude do investidor de matar rapidamente à fome a galinha dos ovos de ouro? Disseram-me lá que há um serviço público de controlo da qualidade dos hotéis, mas que frequentemente fecha os olhos.

O investimento é estrangeiro e manda. Sabe que vai ter uma clientela pouco exigente, tem lá um diretor de hotel em comissão de um ano que só deseja que não haja muitas chatices ou que as possa passar ao sucessor.

É uma clientela sociologicamente muito interessante de análise. Depois direi mais, mas agora uma pérola que ouvi, conversa de mãe e filho. “Mãe, não fiz a cama”. “Filho, aqui não tens de fazer. Pagamos é para sermos servidos, os criados é que fazem a cama”. “Mas vai sempre assim?” “Não, filho, quando voltarmos, como não temos empregada, vais tu fazer a tua cama, como de costume”.

A clientela típica quer piscina (só uma pequena minoria vai à praia), bar aberto e prato tipo gamela cheia de tudo no bufete do almoço e jantar. Quase ninguém se levanta duas vezes - e há dois conjuntos de talheres na mesa - para ir ao bufete, uma para a entrada/salada, outra para o prato. Vem tudo a molho. 

Apesar disto, tendo o hotel (Iberostar Clube Boavista, um dos dois mais caros da ilha) em conta  outros estratos de clientes, o serviço é geralmente bom, embora muito longe do que propagandeiam na net ou das 5 estrelas que o departamento de turismo de Cabo Verde lhe atribui.

“Geralmente bom”, como escrevi, não quer dizer que não haja coisas inadmissíveis. Dois dias sem limpeza do quarto. Muito pior, em outros dois dias, ao fim da tarde, não tivemos eletricidade nem água durante três ou quatro horas, na hora crítica de se querer tomar o duche depois dos banhos de mar e de se querer jantar com ar condicionado, vendo o que se come e com bebidas frescas a sair do frigorífico. Nem velas havia para todas as mesas.

Ontem, no bizarro e bonito aeroporto tropical da Boavista, veio um cabo-verdiano meter conversa, “o senhor não foi o que protestou ao jantar ontem? Gostei muito”. Infelizmente disse mais, que o cabo-verdiano (e o português?) não protesta, porque sabe que não dá nada. O que tinha sido o meu protesto? Simplesmente chamar a encarregada da sala e dizer que exigia que o diretor viesse à sala dar uma explicação e pedir desculpa aos hóspedes. Claro que não veio, mas disseram-me depois que tinha tentado falar comigo, pessoalmente, Respondi que não era ninguém a merecer conversa especial, era só um de muitos hóspedes.

Esta da falha de eletricidade tem que se lhe diga, como apurei, sem revelar a fonte. Com a sobranceria do neo-colonizador (que paga em geral 200 € por mês a cada empregado), mas espanhol, não português, a companhia resolveu ser autónoma. Instalou dois geradores e, deles dependentes, bombas elevatórias da água. Afinal, projeto minimalista de especialistas espanhois, a falhar semanalmente nos dias de maior afluxo de turistas. E eu a ver Sal Rei, a povoação ao lado, sem uma falha do fornecimento público de eletricidade e água.

Acabei também por ver que um hotel com quase um milhar de hóspedes não tem um posto de socorros. Um dos hóspedes fez na piscina - inadmissivelmente, cortando-se numa grelha semiaberta - um grande golpe num pé, sem necessidade de cuidados, como sutura, mas a sangrar bastante, como acontece com uma ferida feita dentro de água. À falta de alguém responsável, apresentei-me como “médico”. Entretanto, estavam a levar o homem em braços, a pingar sangue por toda a parte, até eu mandar embrulhar bem o pé em toalhas, esperando vir um socorrista (que nunca apareceu). Vieram limpar o sangue com detergente banal e esfregona, só depois acatando a minha instrução de usarem o hipoclorito de desinfeção da piscina.

Não é Cabo Verde que tem culpa disto, só os “clubes de férias” que por aí andam. Simplesmente, as coisas misturam-se e sinto que, ao escrever isto, posso estar a prejudicar o país, na dependência que tem do turismo.

Mas, mesmo com estas chatices, não esqueceremos a simpatia e alegria do grupo de jovens responsáveis pela animação (e com quem, em conversas de maior confiança, aprendemos muito), só não desculpando a batota que o Breiman fazia no blackjack ou os quiriquiqui que anunciavam aldrabice divertida no anúncio dos números no bingo ;-) "Quarenta e quatro, thirty four", "setenta e cinco, sixty five, soixante treize". Toda a gente bingava errado!

Bem como a comunicabilidade sorridente de todo o pessoal. Eu não percebo como se pode ir “descobrir” um país metido num resort, sem falar com os “nativos” e hoje, com a facilidade de informação, sem se ter lido uma data de páginas da wikipedia. E sem se ter sentido os dois grandes mundos de vida daquela terra, as cidades da Praia e do Mindelo.

Pode ser que a clientela seja reduzida, mas valia a pena a oferta em pacote do que fizemos: Santiago, S. Vicente, Boavista. Um dia a mais no Fogo ou em S. Antão não calhava mal.

Sobre a simpatia, dou de barato que os profissionais de turismo têm de a manifestar, mas sentimos muito mais, no homem da rua a quem se faz uma pergunta, na empregada que vem arranjar o quarto e fica à conversa, até no miúdo que nos vem pedir um euro e que depois fica no paleio de curiosidade infantil, quem são bôs? O cabo-verdiano é boa gente. Já agora, como outros ilhéus, os açorianos.

Passo para outra má experiência que tivemos, as dos transportes. Creio que da responsabilidade do governo, por não me parecer que haja em Cabo Verde condições para os TACV serem empresa privada. É a bagunça total. Duas horas à espera da bagagem, no fim do voo Lisboa-Praia. Com o plano de viagem cuidadosamente elaborado com a minha agência, devia passar o dia 20 e a manhã de 21 na Praia, chegar ao Mindelo a 21 por volta das 15:00, partir para Boavista com escala na Praia a 22 saindo do Mindelo por volta  das 11:00.

Tudo trocado, por informação apenas da agência de Lisboa, a Abreu (bom serviço), valendo-me ter o iPhone ligado. Todos os voos Mindelo-Praia foram cancelados, devendo nós ir à uma da manhã, perdendo a ligação para Boavista. À última hora, um novo voo às 7:00 (acordar às 5:00, porque o check in, só com um funcionário, exige duas horas). Partida da Praia para o Mindelo na véspera, confirmada, às 15:15. Assim, tempo para uma magnífica visão da ilha e visita ao campo de Chão Bom. Ao chegarmos ao aeroporto, pelas 13:00, pressionando o motorista, surpresa, quando esperávamos algum tempo de espera. Sem sermos avisados, o voo tinha sido antecipado (coisa que nunca vi - como avisam os passageiros?) duas horas e era urgente irmos fazer o check in. Afinal, só partiu às 16:00! E, para tudo isto, duas horas passadas na véspera na loja dos TACV, no Plateau com tanta coisa para se ver.

No entanto, apesar de tudo, Cabo Verde nha cretcheu!

Férias de namoro com Cabo Verde (II)

No voo da Praia para Lisboa, ontem, vínhamos numa das primeiras filas da turística e enquanto a cortina estava aberta vimos toda a cena na executiva de 15 lugares (diga-se que não é grande mais-valia, num A-321). Já toda a gente estava instalada e o avião em condições de partir, quando finalmente apareceram os passageiros retardatários, 17 (dois tiveram de ir em económica): a comitiva de Paulo Portas. Note-se bem: uma delegação de 17 pessoas para dois dias em Cabo Verde, em tempos de teleconferência.

Um único me pareceu ter mais de 40 anos. Os restantes eram betos, irritantemente betos. Meninos do Portas, desfaziam-se em graças para o chefe, sem humor nenhum (ouvi bem, porque esta gente fala alto, gosta de se exibir). Entre vários jornais, todos pediram o Diário Económico. Um, ainda o avião em terra, pediu logo um uisque.

Há tempos, Passos Coelho anunciou que toda a gente do governo viajaria em económica. Cheirou logo a populismo até desrazoável, porque entendo que o ministro e o seu chefe de gabinete devem ter boas condições para trabalhar, em recato e segurança. Mas os outros 13 boys, os meninos do Portas?

P. S. (4.9.2012) - leia-se, a propósito, no Público, "O fabuloso destino dos jovens assessores do Governo Passos". No meu tempo, rapazes na casa dos vintes com prática estudantil associativa, atividade partidária clandestina e aspeto físico ou de modos e trajar simbolicamente um pouco inconvencionais, eram candidatos a Caxias. Hoje, betinhos espertalhaços, jotinhas, presidentes de associação de estudantes, abanando os bons fatinhos em modos metro e cultivando o arzinho bonito, vão para assessores. Como o mundo rola e rebola...

Férias de namoro com Cabo Verde (I)

Cabo Verde, nha cretcheu!

Passamos férias em Cabo Verde, país lusófono que não conhecíamos. País de interseção para  estes dois nós, tão díspares em origem, tão próximos no que a origem traça de linha de rumo de encontro. Ilhéu atlântico e branco, mas ilhas são sempre igualmente ilhas, na formação do espírito. Angolana dos grandes espaços continentais, a respirar savana, mas que descobriu agora em ilhas tão bizarras a alma de toda a gente africana. Da morena, metade da sua gente, com outra metade que fez na vida com gentes do mundo, no encontro também com as minhas ilhas, que adora.


E que mais não seja, o irresistível abanar de corpo na dança que vem lá dos dentros, seja merengue ou kizomba lá na terra da morena, seja coladera ou funaná em Cabo Verde. E muito dançamos, ela a olhar desculpantemente para velhote que já não podia mais - mas que mesmo assim podia muito mais do que outros cá, porque ir atrás do abanar de morena é irresistível.

Não podemos deixar de escrever sobre isso, mas onde e como? Para quem tem dois blogues, um de notas políticas, sociais, culturais, e outro de gastronomia (onde também cabe o lazer), é um desafio: em qual escrever isto ou aquilo?

Esta primeira entrada é fácil, vai aparecer em ambos, com algum desconchavo, porque ainda venho dominado pelo gosto de férias de pensar ligeiro, solto, em notas esvoaçantes. Como gosto muito de conversar com M. de la Palisse (ou com o antigo e venerando cabeça de abóbora), começo por dizer que Cabo Verde são ilhas. Mas não é patetice de todo. É preciso entender as ilhas, senti-las. De certa forma, tenho algumas coisas mais em comum com um cabo-verdiano do que com um minhoto. Insularidade! O que fez o regresso às origens de Antero e o defrontou com a sua alma, até ao gesto fatal.

Os quatro pilares da Macaronésia fizeram-se de povoamento duro, nuns casos por europeus brancos, Açores e Madeira, mistura grande nas Canárias, escravos negros em Cabo Verde, desde tempos em que, segundo livro do séc. XVII que lá comprei, havia 30 brancos. Não foi colonização e exploração fácil de habitantes, foi desbravar terra inóspita. Foi gente que sentiu sempre a contradição entre tanto mar e tão pouca terra. E que, no caso dos açorianos, sentiu os mistérios e terrores da natureza vulcãnica e sísmica. Dessa gente herdei os genes e a cultura, a de “ilhéu tosco”.

Em Cabo Verde, a miscigenação foi forte, passou por lá marinhagem diversa europeia - principalmente no ciclo económico do carvão no Porto Grande - mestiço feito regado com grogue e, hoje, quase que se fica com a noção de haver uma tipologia física cabo-verdiana, embora diversa. Altos e magros, pele pigmentada mas frequentemente cabelos pouco encarapinhados, até olhos claros, anatomia da laringe com pouca guturalidade e falar doce (ao contrário da Guiné e Angola), corpos femininos de grande esbelteza, muitas vezes feições tão caucasianas que só a cor de pele trai. Da gente africana mais bonita que conheci.

Disse que são ilhas, também a lembrar-me de coisa minha de açoriano, a pluridimensionalidade, sobreposta, dos afetos. Primeiro Cabo Verde, mas depois a ilha materna. “Vieste de Portugal para Boavista para praia?” “Não, quisemos conhecer a tua terra, andamos primeiro em Santiago e em S. Vicente”. E aí, sorriso rasgado, ou Santiago, minha ilha, é o máximo, ou S. Vicente não é capital mas merecia, “minha ilha”. Só um ilhéu tosco - como alguém insiste em pensar que este tratamento é o mais terno que há… - compreende outro ilhéu ainda mais tosco.

A paisagem mostra as diferenças de antiguidade vulcânica na Macaronésia (não falo das Canárias, que não conheço). Não é nada difícil ver-se logo que o magnífico Porto Grande do Mindelo é uma enorme cratera vulcânica semi-submarina, à Santorini. Sobrevoando a costa leste de Santiago, vê-se os recortes quase circulares da costa, velhas crateras. O Fogo obviamente não engana, como vulcão stromboliano, como o da minha ilha açoriana do Pico. Boavista parece uma placa lisa, mas mostra bem os seus dois baixos estratovulcões, a emergir da lisura desértica. Mais difícil é perceber-se que a Serra Malagueta em Santiago ou as suas montanhas já muito carcomidas pela erosão, assim como as cristas montanhosas de S. Vicente, deixando magníficos recortes de rocha, imaginação de escultor, são restos de vulcões. O que não engana é o omnipresente basalto e as magníficas hematites.

Aliás, é o mesmo na Madeira. Fora algumas formações do litoral (Câmara de Lobos, Machico), qual é o amador de geologia que apostará em que os grandes picos, Ruivo e do Areeiro, são vulcânicos? Nada comparável com as crateras/caldeiras jovens e suas lagoas da paisagem romântica e suave das minhas ilhas açorianas.

Não posso continuar sem referir o que direi mais tarde e depois. Um país, “nôs téra”, é a sua gente. E, tanto quanto conheço razoavelmente África, Cabo Verde é um exemplo. A gente, muita, com quem falei, só podia andar de chanatas e vestir modestamente. Mas tinha um considerável nível de educação, de articulação de conversa, de observação e de reflexão crítica sobre a sua sociedade. E um evidente patriotismo e orgulho nacional, coisa que não fica mal a ninguém.

Desgostou-me só, mas compreendo, o esquecimento ou ignorância do passado, mesmo que recente. Até a memória de Amílcar Cabral me pareceu um pouco esfumada. A visita a Chão Bom é um episódio de passagem, quase uma curiosidade turística, numa volta pelo interior montanhoso de Santiago - muito bonita com a vegetação húmida a contrastar com a secura das zonas baixas. Embora visitantes como nós verguem por igual a cabeça, o campo evoca hoje muito mais a reabertura por Adriano Moreira - agarremos os bois pelos cornos! - para os presos dos anos 60, dos movimentos de libertação, do que a geração de três décadas antes, dos portugueses, em especial dos que lá morreram. Até, irmanados na morte lenta, os dois maiores adversários - fraternalmente adversários -na política operária portuguesa, Bento Gonçalves, comunista e Mário Castelhano, anarquista.

NOTA - “nha cretcheu”: minha amada, minha muito querida.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Sr. Monti, sabe o que é a democracia?

O Sr. Monti, primeiro ministro italiano, sucedeu ao inefável Berlusconi e beneficia disto; parecia que ninguém depois daquele palhaço podia ser pior. Mas pode, num aspeto, o da sua inserção no sistema democrático que, mesmo com muitas entorses, Berlusconi tinha de aceitar.

O Sr. Monti foi uma imposição dos poderes centrais europeus, à margem das normas democráticas, como o seu então homólogo grego. Esperava-se que fosse um serventuário do poder consensual que domina a Europa, na lógica dos velhos protetorados. 

O Sr. Monti deu provas dadas na sua carreira de aplicado funcionário do sistema, um dos muitos economistas brilhantemente formatados que começam por beber a escola de Chicago, passam pelos grandes bancos, a terminar como alto quadro do Goldman Sachs e vão até comissários europeus.

Se a UE fosse uma construção política democrática, esperar-se-ia o primeiro exemplo de respeito pela democracia e seus valores por parte dos comissários. O Sr. Monti não é um bom exemplo, comporta-se e fala como um tecnocrata, com uma cultura política enviesada pelos dogmas do neoliberalismo.

Ontem, o Sr. Monti disse que "as tensões acumuladas nos últimos anos na zona euro acarretam riscos de uma dissolução psicológica da Europa" - concordo - e que “é exactamente essa desconfiança [exigência de resgate e medidas de controlo para ajuda na dívida] que nos impediu de encontrar uma solução clara para esta crise. Temos de a superar e voltar a confiar uns nos outros.” Concordo.

Mas disse também uma coisa espantosa: "Se os governos se deixarem vincular e condicionar pelos Parlamentos, sem guardar espaço de negociação, então será mais provável a Europa desmoronar-se do que haver maior integração". Como é possível que um chefe de governo de um país democrático diminua de forma tão ostensiva a base representativa da democracia? Não parece um apelo à ditadura, mesmo que numa versão suave, inicial e provisória, de governo de “iluminados”? Ou a suspensão da democracia de que falava Manuela Ferreira Leite? Os tempos estão perigosos!

Claro que se percebeu logo que estava a apontar para a Alemanha, mas acabou por lhe oferecer uma boa oportunidade de brilhar. Hoje, vem o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão dizer candidamente que “o controlo parlamentar das políticas europeias está para além de todas as discussões, precisamos de reforçar a legitimação democrática, e não de a enfraquecer”, (…) “As decisões dos Governos devem ter uma legitimidade democrática. A chanceler tem consciência de que na Alemanha os textos legislativos devem ser apoiados pelo Parlamento e que este deve participar na sua elaboração”. Por uma vez, concordo com o governo alemão.

sábado, 28 de julho de 2012

A Lusófona em foco

Não tenho escrito sobre o caso Relvas-Lusófona. Sou pró-reitor da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (ULHT), tenho conflitos de interesses. Apesar de membro da atual reitoria, liderada por Mário Moutinho, e que nada tem a ver com a reitoria anterior da época do caso Relvas, devo lealdade a todo um percurso institucional da responsabilidade da entidade proprietária, com  decorrentes políticas académicas, a cargo da reitoria, seja a de então, seja a de hoje a que pertenço. No entanto, é óbvio que estou a escrever a título pessoal, em nada comprometendo a universidade, para o que nem sequer tenho poderes. 

Mas também tenho o meu nome a defender e o direito a mostrar que estou a trabalhar, com a equipa reitoral a que pertenço e com a liderança do reitor, para que coisas destas não aconteçam mais, mesmo que tenham acontecido sem dolo - como estou convencido. Acho que chegou a altura em que escrever sobre este assunto tanto me defende como valoriza a ULHT.
Para mim, é altura de dizer publicamente - acho que com lucro para a ULHT -  o que muito tenho discutido internamente, nas últimas semanas. Não houve nada de ilegal porque a lei está mal feita. Não houve coisa relevante de procedimento irregular, mais relevante do que a confusão processual da época, que tem estado a ser corrigida. Estou convencido de que não houve favorecimento pessoal propositado. Houve mau entendimento do processo de Bolonha. Houve desatenção em relação às repercussões - sempre relativamente inimagináveis -, de um caso que envolvia uma figura mediática. Houve uma prática de excessiva personalização do poder académico, que não é possível hoje, já foi corrigida. Houve falta de base técnicanuma interpretação bizarra, desinformada mas certamente bem intencionada do processo de Bolonha, de quem se julgava campeão, a nível do tal decisor único, sobre o processo e critérios de acreditação. Essa responsabilidade estritamente individual, teria consequências. Teve-as, mas, para mim, limitadas e ambíguas. 
A ULHT dizendo isto, embora "politicamente incorreto", embora potencialmente alimento perverso de uma comunicação social irresponsável, creio que a opinião pública teria ficado com respeito e os alunos e seus pais confiantes na honestidade e qualidade da universidade.
Só escrevo isto hoje porque vou no sentido de um importante artigo publicado no Expresso de hoje pelo reitor, Mário Moutinho. Creio que encerra bem esta polémica. Pena é que não tivesse sido escrito logo de início, a abortá-la.

NOTA - Claro que a ULHT só apanhou por tabela. O essencial foi guerrilha político-partidária (e até me parece que mais intra-partidária). Simplesmente, alguém da ULHT, certamente bem colocado, teve acesso interno ao processo e usou-o, lesando profundamente a sua instituição. Outra lição para a ULHT e muitas outras instituições. A carreira política passa à frente de tudo; com esta "moralidade", não são só as instituições que saem prejudicadas, é a democracia que está em risco.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Vende-se universidade

O meu caro amigo Jorge Araújo, ex-reitor da Universidade de Évora, escreveu esta pérola no seu blogue “la pensée ne doit”:
O governo prepara-se para vender uma universidade pública portuguesa aos chineses, com conúbio de angolanos? Isto foi tratado nas visitas recentes dos ministros Portas e Santos Pereira? Os chineses já terão indigitado para reitor o inefável António Borges? E para administrador, em boa saída do governo, Miguel Relvas?
Começo a pensar que uma certa diferença de gerações e de sentido de humor nos está a prejudicar, a ele, a mim e aos nossos companheiros de geração. É que isto, de excelente humor, foi levado a sério, no sítio de debate interno da Universidade de Évora e até deu lugar a resposta de pompa e circunstância do reitor atual. Mas não será que as tais reações têm a ver com alguma verosimilhança da piada do Jorge? É perigoso quanto a sátira fica próxima da realidade.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Nós não somos gregos

Segundo notícia recente
A maioria dos cidadãos gregos defende que o Governo devia negociar com Bruxelas as condições impostas para a ajuda financeira, mesmo que isso possa significar a saída do euro, segundo uma sondagem publicada hoje no semanário grego To Vima.De acordo com a sondagem, 73,9 por cento dos gregos querem que as autoridades nacionais insistam na renegociação das condições impostas para o resgate, admitindo o risco de sair da moeda única, enquanto apenas 15,5 por cento defende que o Executivo deve cumprir os compromissos assumidos.
Que hipóteses há de a troika aceitar uma renegociação do resgate? Pode-se ir para uma reestruturação da dívida muito para além da simples renegociação com a troika? A saída do euro é uma desgraça, como diz a esquerda europeiófila (BE e seus amigos) ou não? Quais as consequências da saída do euro?
Nada disto importa, de momento, como proposta concreta, impossível sem muito estudo. São assuntos muito sérios, a merecer discussão aprofundada. Neste momento, a separação das águas é entre quem aceita discutir estas questões e quem as tem por tabu. Tabu é considerar, à arco troikiano português, que tem de se cumprir obrigatoriamente o memorando, ir mais longe para merecer credibilidade, ganhar a festinha dos credores e dos mandaretes do conluio neo-liberal (Merkel e seus anexos, Barroso e CE, BCE, FMI, o bando de economistas-comentadores portugueses, etc.), e, mais do que tudo, ter a oportunidade religiosa, de graça divina, de poder pôr em prática um projeto fanático, religioso-ideológico, de mudança da sociedade. Ser-lhes-há garantido lugar no paraíso à direita de Deus Pai. Primeiro lugar para Gaspar.
Não havendo sondagens recentes, vamos pelos últimos dados eleitorais: 80% dos portugueses, sendo eles gente honesta e julgando que a economia política - Salazar dixit - é transposição da economia doméstica, acha que é indiscutível o domínio troikiano.
Na Grécia, só são 15,5% que pensam assim.
Não há dúvida: “nós não somos gregos”!. 

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Bom homem ou homem bom?

O meu avô era mestre latinista e grande amigo de outro conhecedor, o injustamente esquecido poeta micaelense Armando Cortes-Rodrigues, de quem me lembro como se também avô meu fosse.  O seu filho Jorge (como o de Camilo) era uma criança grande e dizia-me sempre, na sua típica repetição de palavras. “tê avô, tê avô, ganda ponto, ganda ponto, vino bono, bono vino, vino bono, bono vino”.
Isto era coisa de divertimento dos dois grandes amigos, com muito gosto pela vida e muito humor no meio da sua grande seriedade, até religiosidade. Era nas provas da colheita anual do vinho do meu “avô” de Vila Franca. Os latinistas sabem que as muitas combinações dos casos declinados de vinum e de bonum resultam em significados muito diferentes, de que o Jorge não se apercebia.
Vem esta divagação a propósito de coisa bem mais simples, em português, a troca das palavras. Desde criança que sei o que é um “bom homem”. Conheci muitos, felizmente. Honestamente, creio que não me conto entre eles, com o grau considerável de aspereza, alguma sobranceria, irritabilidade e intolerância que tenho no meu feitio.
Ontem, a pensar num grande amigo, usei outra expressão: um “homem bom”. É outra coisa. Gostaria de me contar entre eles. Encontramo-los em todos os campos da vida, mas creio que é muito importante ter-se a dita - e o proveito - de os encontrar na política. Não quero ser maniqueista e pensar que homens bons só há num lado político. À direita, há certamente muita gente que se horroriza com ter de conviver com Miguel Relvas, e muita “esquerda” de um setor tradicional certamente também não pensa de Sócrates que ele é um homem bom.
No entanto, parece-me inegável que, em termos proporcionais, há ainda maior quantidade de homens bons na esquerda mais consequente, mais firme, mais coerente. Não é que a esquerda favoreça a educação de homens bons (mas também isto não é totalmente falso). É o contrário. Homens bons como eu conheci tantos nessa esquerda vivida e herdada da luta contra o salazarismo - muitos a serem levados já desta vida - estavam nessa luta porque, já antes, eram homens bons. Aqui fica a minha sincera e humilde homenagem a esses amigos. Perdoem-me destacar, pela importância que teve como compensação tardia de muitas frustrações políticas, os companheiros do MDP da época da sua alforria em relação ao controleirismo do PCP, na segunda metade da década de 80.
NOTA - Estranham que eu não defina o que é um "homem bom"? É que é daqueles casos de quase brincadeira de lógica: se o meu leitor sabe o que é um homem bom, dispensa que eu lhe explique. Se não sabe, não há nenhuma explicação possível que, no espaço de um ou dois parágrafos, retrate a complexidade de caráter, modo de ser, estar e proceder de um homem bom, na sua relação consigo próprio e com os outros. 
E é claro que não estou a pensar na velha ideia do “homem bom” proprietário, branco e cristão...

sábado, 14 de julho de 2012

Saudade

Perdi hoje um grande amigo, dos maiores, um camarada, um homem para todos os momentos.

Um camarada com quem tive uma grande divergência, sobre o destino final a dar ao nosso MDP, mas divergência embrulhada em sorrisos de muita amizade e na certeza de que cada um fazia pelo melhor.

Mas, mais importante, o País, a democracia, a esquerda, perderam um grande homem: Fernando Silveira Ramos. Saravá, meu amigo do peito! E, em relação a uma pessoa em que logo vem mais à ideia é a dimensão política, apetece-me dizer coisa que me é cada vez mais cara, com o passar dos anos e o desejo de que me venham a ver assim: era um homem bom.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Voltando a olhar para a universidade

Há muito tempo que não escrevo sobre o ensino superior (ou educação superior, como prefiro dizer). Faz-me falta, tenho saudades. Afinal, foi um campo de intervenção em que, modéstia à parte, creio que ganhei prestígio, fui seguido e respeitado, mostrei estudo e reflexão sobre a prática de muitos anos. Publiquei um livro que julgo ter tido algum impacto, recolhi num livro eletrónico e noutro muitas crónicas e comentários. Ao aceitar um contrato com uma universidade, achei que essa intervenção era geradora de conflito de interesses e suspendi-a.
Hoje, e adiante em tempos próximos, vou relembrar esses tempos, com uma ressalva: não escreverei sobre coisas concretas, tentarei olhar num plano de generalidade que não se misture com a minha atividade prática quotidiana e com os meus deveres contratuais, enquanto os tiver.
A minha escrita, interrompida há anos, desdobrava-se por um blogue, “Professorices” e por artigos no meu sítio. Começo hoje por duas entradas do blogue, que desejo relembrar porque mostram o que penso sobre a universidade, pública ou privada. Elas vêm transcritas (os “links” já não funcionam) num artigo, “Reforma universitária: da retórica às propostas práticas” que, provocadoramente, ao falar de “elite”, expõe o que então, e hoje, entendo por uma universidade de alto nível. É por tal universidade que luto a cada momento, onde julgo, pragmaticamente, que tenho possibilidades de maior sucesso - ou do sucesso possível, sejamos realistas.
Claro quer isto não tem nada a ver, diretamente, com público ou privado. Há entidades privadas que estão em melhores condições de cumprirem esses requisitos do que algumas universidades públicas, designadamente as pequenas universidades periféricas. O que define uma universidade de elite? Essencialmente, o que se segue:
  • Começo por uma coisa pomposa. Uma universidade de elite está sempre na fronteira do que a sociedade necessita como formações e educação. Hoje, é uma universidade com formações modernas, generalistas e de largo espectro, mais orientadas para a aquisição de competências, formadora de mentes e caracteres destacados, líderes sociais também impregnados de uma cultura de cidadania e de combate à exclusão.
  • Tanto professores como estudantes são impregnados de uma cultura de exigência e de alta qualidade, e que se rege por padrões estabelecidos em códigos de boas práticas.
  • Um código ético rigoroso: faltas deontológicas, fraude ou negligência científica, mentira, aldrabice nos exames, etc, são indesculpáveis por toda a comunidade e conduzem frequentemente à expulsão.
  • A cultura é acentuadamente "scholar": os professores não esgotam a sua função no ensino tradicional ou na orientação científica, são formadores e "mestres" (e, daí, os tutores).
  • Sem prejuízo de uma lógica empresarial de sustentabilidade económica, a universidade não é uma empresa com lógica de propriedade privada. É uma entidade de natureza fundacional ou comunitária, que responde perante a sociedade e não perante uma entidade proprietária.
  • A governação não está subordinada ao espírito corporativo, segue as normas de eficácia ditadas pelas teorias organizacionais e membros externos têm um papel essencial na definição de estratégias e politicas. A lógica nominatica domina a electiva, em função das competências, mas em compromisso eficaz com o debate interno e a participação na construção da opinião.
  • O ensino e a aprendizagem decorrem da criação científica, de alto nível. Não pode haver um professor que não seja também ou tenha sido um excelente investigador. A ciência é transmitida, no ensino, com o sentido de como se faz na prática, de como valorizar quase no momento as roturas científicas, mas também com o sentido crítico de como subalternizar muita ciência rotineira.
  • A actividade pedagógica e a científica estão intimamente articuladas, à escala do departamento, que é o principal nível de organização. O director de departamento, com audição dos colegas, tem grandes poderes. Por isto, é recrutado geralmente de fora da universidade, para não estar comprometido com as relações já estabelecidas.
  • Embora haja exceções bem sucedidas (“teaching universities”), não basta que os professores, a nível individual, investiguem em centros de excelência, fora da universidade. Deve haver um clima de ciência que só é possível com investigaçao de qualidade intra-muros.
  • O recrutamento é exigente em termos de qualidade, tanto de professores como de estudantes. Dirige-se a todo o mundo e é combatida a endogamia - e muito mais a nepótica. A progressão dos professores (repare-se que não falo de investigadores: não há separação, todos são professores-investigadores) é muito flexível e o mérito é recompensado. Quanto aos estudantes, a própria universidade reserva recursos significativos para bolsas a estudantes carenciados mas de alta qualidade.
  • O conteúdo funcional do cargo de professor integra todas as atividades de ensino, investigaçao e extensão, em tempo completo, não sendo admissível contratações "à hora", exceto em casos excecionais de colaboração de pessoas de grande mérito e com muita ocupação profissional (professores convidados).
  • A carga docente é muito reduzida. Por consequência, os rácios são muito baixos (1,8 em Harvard, 2,6 em Cambridge!). Entenda-se por rácio uma simples relação numérica, nunca um critério de recrutamento: os professores são recrutados casuisticamente, apenas em termos de qualidade ou de politica institucional (novas áreas científicas, desenvolvimento selectivo de grupos de investigação, etc.).
  • A relação numérica entre estudantes de pré e pós-graduação é de cerca de 1:1 (entre nós, nos melhores casos, é de 9:1). A formação dos doutorandos é exigente e completa, com ensino formal e acompanhamento estreito, não se limitando ao trabalho de tese.
  • Os percursos individuais dos estudantes são variados e flexíveis, correspondendo tanto quanto possível aos seus interesses culturais e científicos. Os estudantes de ciências têm que obter um certo número de créditos em humanidades e vice-versa.
  • A prática cultural e desportiva ocupa parte significativa da vida estudantil.
  • O estudante (excepto em cursos vincadamente profissionais) é habituado à ideia de que a sua formação é apenas uma base geral a abrir-lhe caminhos de empreendedorismo e de escolhas profissionais variadas.
  • A actividade de extensão, com grande prestígio social, é muito valorizada como factor de imagem da universidade como centro da vida cultural comunitária. Até chega a ser "snob" para a alta sociedade frequentar os cursos nocturnos de Harvard e os cursos de verão de Cambridge e Oxford, os concertos, os espectáculos de teatro ou as exposições de arte de alunos e professores.
  • Finalmente, e condição indispensável: com tudo isto, e em ciclo vicioso, a universidade tem que ter grande capacidade de "fund raising", com grande recurso ao mecenato, com destaque para os antigos alunos (vale imenso a noção de "alma mater", pouco significativa entre nós). Há antigos alunos de Harvard que, todos os anos, vão da Califórnia a Boston para a sessão solene da sua universidade.
Depois, no meu sítio “Reformar a educação superior”, passei isto para Portugal, para não me chamarem utópico, adiantando propostas concretas, aqui e aqui, de criação de uma hipotética Universidade de Lisboa Oriental (houve quem acreditasse que eu estava encarregado de a criar…). Vale a pena reler, meia dúzia de anos depois? Que o digam os leitores.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O currículo de Relvas

Declaração de interesses: sou professor e membro da reitoria da Universidade Lusófona, embora alheio a este processo.
Portanto, vou só referir-me a um aspeto marginal (sem relação direta com o caso em foco), tal como hoje noticiado. No currículo do candidato a licenciado, figuram funções políticas, funções partidárias e atividades privadas. Estas parecem-me surpreendentes. 
Consultor da Sociedade Barrocas, Sarmento e Neves, SA; consultor do Grupo SGS – Societé Générale de Surveillance; consultor da ROOF; administrador da Prointec; vice-presidente e membro do Conselho Geral do Instituto Progresso e Social-democracia Francisco Sá Carneiro; director da revista "Templários-Turismo".
A Sociedade Barrocas, Sarmento e Neves é uma conhecida e antiga firma de advogados. Como pode ser consultor de uma firma de advogados um político que só tem uma disciplina feita do curso de direito? Ou se é na sua qualidade de político, que consultas dá? Sobre relações entre políticos e advogados, sobre oportunidades de encomendas de legislação? Que promiscuidade! 
E que qualificação tem para ser “consultor” de uma empresa de segurança, de uma imobiliária ou administrador de uma empresa de inovação tecnológica? Esta mistura de política e negócios desta geração partidária feita à pressa, sem valores, oportunista, servindo-se mas para isso servindo outros, é um veneno para a democracia. “E não se pode exterminá-la?”...

NOTA - Algum leitor menos cuidadoso, depois de ver a minha declaração de interesses, poderá pensar que obtive estes dados curriculares do processo do aluno. Não conheço o processo. Obtive-os, como se vê pelo "link", de uma notícia de jornal.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Aviso

Por razões que mais alto se alevantam, estarei de escrita condicionada durante uma semana. Irei tomando notas para futuras entradas.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Ética republicana

Ricardo Rodrigues, o "mãozinha leve", deputado ilustre e destacado do PS, meu patrício ilhéu para minha vergonha de açoriano, foi condenado em tribunal em pesada pena de multa pelo célebre surripianço de gravadores a dois jornalistas.

Pronto, acabou-se a história. Como, apesar de tudo, RR é homem sério, ilibado de acusações torpes de pedofilia e de burla de cliente seu como advogado, estou convencido de que ele (ou até o seu partido por ele) vai extrair conclusões desta condenação inequívoca e o inefável meu patrício vai resignar do seu mandato de deputado e regressar à sua medíocre prática causídica lá na ilha.

Ou estou a ser parvo?

P. S. (27.6.2012) - Suspendeu hoje as suas funções, leio agora a notícia. Procedeu bem.

Fisionomias

Tenho um truque de cuja eficiência prática sempre me gabei (principalmente em situações de tensão de debate, discussão ou negociação). Duvido de que tenha alguma base científica, mas serve-me, na prática. Também não sei se tem alguma coisa a ver com Stanislavsky ou com o Actor’s Studio - até acho que tem.
Trata-se, pura e simplesmente, de me meter na pele de outro, sentir a sua mentalidade, feitio, forças e fraquezas, só por analisar bem a sua fisionomia e tentar imitá-las, em exercício de mimetismo. Se imito fisionomicamente outra pessoa, passo a ser muito ela. Até penso com a voz dele. A mente é muito o reflexo do corpo, da emoção (e expressão é emoção), coisa que tornou tão popular o nosso compatriota Damásio. Modificarmos o nosso corpo faz-nos modificar a mente.
Garanto que já tenho ganho muito na vida com esta minha habilidade, construo nos segundos prévios decisivos a minha resposta a argumentos ou atitudes. Se calhar, também para efeitos casanovianos… lembram-se do “Adam’s rib”? Que jeito dá conseguir chorar na hora certa! O mal é a morena ter a mesma habilidade de camaleão carinhoso. Almas gémeas é muito bonito mas também pode ser um problema.
Não é preciso ir tão longe nessa "impersonação", muitas vezes basta a análise da expressão facial, do olhar, do sorriso, dos rictos. Vejam este, Carlos Moedas, eminência parda de Passos Coelho. A cabeça e a face estão posicionadas com rigidez artificial. Este homem começa por não ser certamente assim quando acorda e boceja, o momento mais verdadeiro da nossa vida (ou, à velho gentleman, quando veste as cuecas diante do “valet” que as escolheu). A cara é uma máscara. O olhar é distante e frio. Vemos na televisão que também é rígido, fixo, controlado, inexpressivo. A boca não mostra sorriso nem desagrado, antes alguma coisa artificialmente indefinível, uma lâmina, fechada, controladamente, sem sinal de sensibilidade. Manter aquela linha de lábios e ao mesmo tempo o ligeiríssimo sorriso nas comissuras, é coisa totalmente artificial. Experimentem, defronte do espelho, sentindo como se sentem. Ainda por cima, a voz parece de gramofone, de disco riscado. 


Perante o mundo, este produto exemplar da sociedade de hoje adota uma imagem construída. Não consigo, no meu truque, “entrar nele”, porque é entrar numa máquina. Este homem não é um homem, é um robô. Como ele, só conheço Jens Weidmann, o jovem presidente do Bundesbank (aliás, são fisionomicamente parecidos; e até escolheram os mesmos óculos). Ou, em versão caricata, o inefável comissário europeu Olli Rehn, com o seu típico falar inglês de sintetizador acústico digital. São todos uma espécie de “invaders” que nos permitiriam ficcionar sobre o que se está a passar com estes filhos da banca. Acudam, vêm aí os marcianos!!!
Diferente, goste-se ou não - e eu abomino o homem, com tendência familiar para Savonarola - é Vítor Gaspar. A expressão é espontânea e sincera. O facies - coisa tão importante na cultura médica - é natural, mostra muitas rugas e papos, barba mal feita, ao contrário da pele lisinha e assética do anterior, gravata de mau gosto, sinais - para nossa infelicidade - de quem preza mais o seu fundo de alma do que a sua imagem. O olhar iluminado, o mais significativo nele a par da forma, tom e ritmo de falar, é o mais característico e permite-me facilmente, neste caso sim, “meter-me nele”. Ao fim de um minuto, principalmente se ensaiando também um dos seus discursos com a sua gestualidade manual muito característica (de púlpito de igreja, com nova técnica de abanar teatralmente a largueza de mangas dos paramentos), julgo senti-lo. 

Um fanático, um missionário, alguém sinceramente honesto mas que não questiona intelectualmente essa honestidade e a sua fé, apesar dos instrumentos académicos que obteve, de quem os seus alunos ouviram sermões quando julgavam ouvir aulas de natureza científica. Um tridentino, um homem da igreja, um meu avô ultramontano. Porque honestamente convicto e apóstolo, muito mais perigoso, muito mais difícil de desconstruir

Falta falar de Passos Coelho, mas não apetece, porque a ideia de o "impersonar" é desgostante. Diferente é Seguro, mais desafiador como exercício, mas o resultado seria igualmente desgostante, até talvez por piores razões. Já tentaram pensar no que seriam com aquela carinha? E se não estariam, quase que por natureza, num seminário? O outro caso manjifesto em que, à Zelig, visto facilmente a personagem é o do ministro Relvas. Mas este é caso tão óbvio, com aquela cara de aldrabão, que não merece nota.

Finalmente, proíbo os leitores de dizerem que este é um "post" à Zandinga!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Alemanha x Grécia (II)


A morena sofreu a ver o jogo, hoje ela era mesma grega. Mas teve uma provavelmente inédita em termos futebolísticos.
“O teu golfe é muito mais desportivo do que o futebol, porque há o handicap. Neste jogo, os gregos deviam entrar já a ganhar por 2-0, porque estão fisicamente diminuídos, subnutridos graças à austeridade imposta pelos alemães”.
Segunda observação, mesmo de mulher maldosa. “Aquela fulana [percebe-se logo quem é] nem sabe bater palmas com elegância feminina, parece uma camponesa saloia”.

Alemanha x Grécia (Germany x Greece)



Amanhã sou grego e espero que o resultado, pelo menos, seja este do vídeo (LOL!). 

Tomorrow, I’ll be Greek and I am betting for a result like the one of this video (LOL!), at least.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Chegando à Madeira...

Titula hoje o Público que, na Madeira, o “Instituto do Desporto concedeu mais de meio milhão em subsídios depois de ser extinto”.
É um exemplo de notícia tiro-no-pé, por incompetência e ignorância, que só serve os adversários, permitindo-lhes respostas desonestas mas formalmente corretas.

Jardim dirá "é mentira, não foi depois de o IDRAM ser extinto". É o chamado "raciocínio lateral". É coisa típica da esquizofrenia. Lembro-me de um bom exemplo. X, "ontem fizeste esta coisa execrável, isto e mais isto".  Y, "não é´verdade, estás a mentir". X, "como é que não é verdade, em que é que estou a mentir?". Y, "porque não foi ontem, foi anteontem". Nunca vos aconteceu isto? E nunca viram políticos a usar este truque desonesto (se não forem esquizofrénicos, caso em que é desculpável)?
Havia na Madeira um instituto público de apoio ao desporto (IDRAM), que financiava  a relação reles entre governo regional e clubes. Com o resgate da dívida madeirense, o governo jardinesco comprometeu-se a extinguir o IDRAM, o que fez. Simplesmente, segundo a notícia e para entendimento de gente honesta que não percebe os tais "raciocínios laterais", pagou aos clubes, já depois da extinção (de facto mas não "de jure", e esta é a questão!), uma pipa de massa.
O Governo regional propõe à Assembleia legislativa a extinção do IDRAM em 16 de Abril. A proposta é aprovada pela Assembleia em 30 de Maio. Entretanto, o governo jardinesco aprovou financiamentos de centenas de milhares de euros, com data de 7 de Maio.
Querem pôr isto em tribunal? Tudo legal, se olharmos para as datas. Tudo execrável, se olharmos para os factos. Mas como é que há gente a reclamar um braço forte da justiça, a corrigir esta perversão da democracia e da decência, se isto se confronta com tão desavergonhada desfaçatez legal?
Não precisamos de mais leis, de bom funcionamento da justiça, de procuradores ou bastonários justicialistas. Como em tantas coisas da nossa vida, fomos formatados para não discutir a lei, quando a lei é apenas a codificação da relação de poderes sociais, extremada em situação revolucionária. E é a que estamos a viver. Venha mas é o direito revolucionário.
Jardins, Isaltinos, Oliveira e Costa, muitos mais, servem para conversa de café, “safam-se sempre”. A verdadeira conversa devia ser que a justiça faz parte lógica desta ordem social em que vivemos, que primeiro devemos aprisionar essa gente e depois definir as leis que deem cobertura à revolução.
Isto faz-me lembrar um coisa que uma vez me disse o meu “patrão”, Azeredo Perdigão: “meu jovem amigo, faça na política aquilo que eu sempre fiz no direito. Resolvo a causa segundo o meu bom senso e os meus valores morais e só depois vou estudar os códigos para ver como fundamentar a minha decisão”. 
NOTA - Mais uma vez, na base desta nota, na sua lógica, na sua estrutura mental, está o “velho filófoso renano”. Lembrando Pessoa e com muito respeito por Jesus Cristo, o filósofo renano tinha biblioteca (ou ia para Russel Square) e sabia de finanças. Por isto era perigoso, era assim que o citavamos nos tempos da noite. Sinto que hoje tenho de voltar a fazê-lo, para que muitos leitores arrebanhados pela ortodoxia ideológica não mudem logo de página. Ao que chegámos!

Grécia e Portugal, tão diferentes!

Prolegómono, palavra rebarbativa. Prolegómono daqueles de moer no fundo da postura política é saber se e como se deve criticar os aliados, se e como elogiar os adversários quando é caso disso. Deixando este último e mais fácil lado da questão, vou ao outro e penso que sempre a esquerda se alimentou da polémica. A direita conserva-se no simplismo da defesa de coisas seguras e fáceis. A esquerda abre caminhos só adivinhados, ensaia e erra, polemiza. Isto é dar armas ao adversário? Para mim, decididamente não, é mostrar a muito mais gente do que os pequenos grupos ativistas que a esquerda é plural, rica e que oferece alternativas.
Dito isto…
Louçã colaborou na campanha da Syriza. No regresso, segundo o Público, proclama, com o entusiasmo natural de quem participou em tão importante acontecimento político, que “o país deve revoltar-se contra a austeridade e uma política de “terra queimada” que só conduz ao desastre e à falência da economia”. Muito bem, mas palavras, palavras, palavras…
“Portugal precisa de se revoltar para recuperar a sua economia, a sua dignidade e a sua vida”. Inegavelmente bonito, mas palavras, palavras, palavras…
“Só uma viragem pode salvar o euro de um fanatismo liberal”, afirmou. Muito bem, mas que viragem, no real? Palavras, palavras, palavras…
Francisco Louçã congratulava-se assim com os resultados obtidos pela Syriza, segunda força política na Grécia, e considerava que significam ‘um sinal fortíssimo para a Europa e para Portugal também’ ”.
Tendo eu dúvidas sobre a justeza de algumas posições da Syriza, não cometo a injustiça (que afinal eles merecem quando põem Louçã ao lado de Tsipras) de considerar que a clareza das propostas da Syriza tem alguma coisa a ver com o  contorcionismo taticista dos muitos louçãs de cá. 
A proposta da Syriza é transparente, como disse, talvez com o simplismo das coisas reduzidas ao muito simples. Queremos, gregos, permanecer no espaço do euro, mas não nos queremos sujeitar ao austeritarismo. Vamos rejeitar o pacto com a troika. Vamos confrontar a “Europa” com esta posição de coragem nossa, a ver se eles percebem que se nós puxarmos a corda ela pode rebentar-lhes na cara. E temos praticamente metade dos gregos connosco. No fundo, esperamos que os euro-ricos vão perceber que, antes de com isto falirmos e não podermos pagar ordenados e pensões, vão falir alguns dos seus queridos bancos, expostos à nossa dívida. A economia desses senhores fez-se como jogo de casino, agora jogamos nós.
Embora com dúvidas sobre se esta política é possível sem saída do euro - e compreende-se, em termos de técnica política, que a Syriza não o diga - perfilho esta posição e bem gostava de ver alguém em Portugal a defendê-la com clareza. Louçã diz que “estes resultados são um sinal fortíssimo para Portugal”. Muito bem, isto deve querer dizer que algum partido, em Portugal, vai pegar nessa bandeira.
Será o BE? Obviamente que não. Desafio alguém a demonstrar, mesmo com o maior benefício da dúvida, que as muito ambíguas referências louçã-bloquistas a renegociação, etc., tenham alguma coisa a ver com a posição da Syriza, que Louçã agora quer aproveitar internamente, “são o nosso partido irmão”. Será o PCP ou o PS? Claramente que também não. Precisamos com urgência é de um novo partido.

NOTA - Há uns tempos, um amigo bom conhecedor dos meios internacionais de variadas esquerdas, alertava-me para que alguns intervenientes muito ativos nas discussões netianas não só portuguesas - com destaque para economistas - são marcadamente trotsquistas. Confio na sua opinião, mas não percebo. É uma espécie de maçonaria de "esquerda", mais ou menos esotérica? E não percebo porque, se há muitos anos li alguma coisa sobre o conflito pós-leninista e sobre o seu fim trágico à mão de um tal Ramon Mercader, isto hoje parece-me romance de Salgari ou coisa de infantilidade política. 

(Editado)