quinta-feira, 29 de março de 2012

Cerimonial académico

Para descontrair da tensão política, hoje vou falar de coisa estranha, cerimonial universitário. Poucos saberão que um dos meus encargos na Universidade Lusófona é o de chefe do protocolo. Gosto, porque foi um desafio fazer de raiz o código de traje e cerimonial, equilibrando o respeito pela tradição e a lógica das origens com algum sentido da modernidade. 

E gosto porque confesso que sou entusiasta pela encenação, fanático da ópera, amante de alguma pompa e circunstância, tudo talvez recordações do maravilhamento pela grande liturgia dos meus tempos infantis ainda tridentinos. Lembram-se do que era o "momentum" do Gloria pascal, em que a negritude da paixão se desfazia em campainhas, sinos, cantos, para o abrir dos cortinados negros, a revelar todo o esplendor de luzes, brancos e dourados, velas e flores já preparadas por detrás? 

Ainda por cima, o meu avô era um excelente tenor gregoriano e nessa escola escrevia em latim e compunha salmos, hinos e coisas do género. Eu devo ser o mais religioso dos incréus! E homem moderno, esquerdalho, mas que ainda consegue ler razoavelmente em latim. Que foi encontrar no selo da sua casa académica atual o seu velho lema, também só no latim de Terêncio, "Homo sum, humani nihil a me alienum puto" (Sou homem, nada do que é humano me é estranho). Não liguem, sou assim parvo, que hei de fazer?
O cerimonial da Lusófona é, segundo creio, o único cerimonial académico português codificado e que vai chamar as raízes coimbrãs. Quando escrevo único, evidentemente que não esqueço o cerimonial de Coimbra, mas consuetudinário e não regulamentado formalmente. Ao contrário de muitos países, até os EUA, a tradição escolar portuguesa tem sofrido tratos de polé, entendida como símbolo de conservadorismo que novos cerimoniais têm de renegar, mesmo que algumas cerimónias universitárias atuais pareçam entrega de óscares de Hollywood. 
Em Espanha, todas as universidades usam o mesmo traje académico, com fundas raízes históricas embora só consagrado em meados do séc. XIX. No Reino Unido e nos EUA, as novas universidades criam trajes distintos, mas com respeito por uma tradição comum, até codificada por entidades interuniversitárias. Diferentemente, o traje coimbrão de séculos de evolução foi completamente renegado por Lisboa e Porto, que, querendo apresentar-se como modernas e laicas, adotaram, ainda na época das escolas suas precursoras, o traje de tipo judicial que se conhece. Depois, com as novas universidades dos anos 70 e com as privadas, foi o delírio. Trajes de opereta, fantasias de domínio deste mercado por artistas ou alfaiates respeitáveis mas desconhecedores da tradição e da lógica do traje académico.
Veja-se este vídeo do cortejo académico que, da biblioteca joanina à sala dos capelos, passando pelo belo pórtico manuelino da capela henriquina, ao som da charamela com fundo do redobrar do “cabrão”, precedeu o doutoramento honoris causa de Lula da Silva pela U. Coimbra. Deixo algumas notas, para quem tiver curiosidade e nunca tenha assistido a uma cerimónia académica (há muito mais a ver, a cerimónia propriamente dita, mas fica para outra vez).
O traje académico coimbrão é duplo. Nas cerimónias simples usa-se o chamado hábito talar: capa e batina como estamos habituados a ver nos estudantes, mas com a batina fechada no pescoço, à eclesiástico, e com a capa caída. É o traje que se usa em provas de doutoramento e de agregação e, por isto, muitos doutores só têm este traje. Em cerimónias solenes, usam-se sobre o hábito talar as insígnias doutorais, as bem conhecidas borla e capelo. Assim completo, considero-o dos mais elegantes trajes académicos que conheço.
A minha universidade seguiu este uso tradicional (ver foto inicial), que nenhuma outra universidade segue, fora nós e Coimbra: um traje preto simples (toga), para atos simples, e sobre ele, em ocasiões solenes, um capelo com cores variadas de doutoramento mais o azul real da universidade, e um “barrete” inspirado na velha tradição dos barretes doutorais-eclesiásticos como a borla coimbrã ou a “birreta” espanhola.
No vídeo, começamos por ver a charamela, conjunto de metais. Tentei isto, mas é difícil porque, com exceção das velhas filarmónicas, perdeu-se o hábito de tocar andando. Na Lusófona, há um uso único em Portugal, mas com antigas raízes históricas, em cortejos reais ou festivos: dois gaiteiros, a tocarem uma marcha solene. A seguir (tempo 00:32), os archeiros. Isto só em Coimbra. Como é que convenço os seguranças da minha universidade a vestirem-se assim?

A seguir (01:17), vemos desfilarem os doutores pela ordem tradicional, começando pelas faculdades mais novas (Educação Física, castanho e marfim; Psicologia, cor de laranja; Economia, vermelho e branco). Também alguns doutores por universidades estrangeiras, com os respetivos trajes (01:40). Ao tempo 01:48, note-se que começam a aparecer professores só com hábito talar, sem insígnias. Isto era impossível antes, em Coimbra, e também só é permitido na minha universidade o traje solene, a menos que se use também uma medalha da universidade pendente de cordão dourado no caso especial de trajes judiciários ou eclesiásticos.
A 01:58, Farmácia, de roxo. Aos 02:10, mais um grande grupo contra a tradição, com hábito talar sem insígnias. A partir de 02:31, Ciências, de azul claro (com a exceção da matemática, azul claro e branco, como determinado por Pombal ao criar a Faculdade de Matemática). A seguir, por antiguidade, Medicina, de amarelo forte (03:13), depois Direito, de vermelho (03:32) e finalmente Letras, de azul ferrete (04:03), incluindo um professor espanhol, na primeira fila (com cores trocadas relativamente a nós: em Espanha, Letras é azul claro e Ciências azul forte).
No fim, os atores principais, o reitor, o doutorando e o seu padrinho (05:01). Repare-se que o reitor não usa capelo, só a borla. Há versões diferentes de explicação deste velho uso. Eu prefiro pensar que, seja qual for a explicação correta, isso simboliza que o reitor é de toda a universidade, não vinculado à sua própria faculdade.

Repare-se que os dois chefes de estado, português e brasileiro, desfilam no fim, já depois do cortejo. Lá dentro, vão-se sentar na primeira fila, porque para presidência só há uma cadeira. Na universidade, manda o reitor. E lugares destacados, no cadeiral, só para os doutores.
Antes, aos 04:50, vestidos de preto com um meio mantéu, um derivado da antiga capa de grande oficial à portuguesa, veem-se os bedéis, transportando as maças, símbolo do poder autónomo da universidade e das suas escolas. No caso da minha universidade, bastante recente, pensou-se que não se justificaria isto. Em sua substituição, mas com o mesmo significado, desfila no início do cortejo a bandeira da universidade, que depois é solenemente colocada no palco.
Faz sentido tudo isto, nos tempos de hoje? Creio que sim. Como na magistratura, na Igreja ou nas forças armadas, o ritual é identitário, reforça o espírito de corpo (no que ele tem de positivo) e, em termos modernos, faz marketing. “Gaudeamus igitur”.

NOTA - Leiam o verso de Terêncio que cito acima, e que é o lema da minha universidade. Sabem quem é que também o tinha como lema pessoal? Karl Marx!

(Editado em 2.4.2012, tendo em conta valiosas sugestões do Dr. António M. Nunes)

sexta-feira, 23 de março de 2012

50 anos



Como amanhã estou fora, tenho de deixar o registo da memória um dia antes. Há roturas na nossa vida, momentos de refundação pessoal. Para mim, jovem provinciano chegado a Coimbra, numa grande confusão de alguma abertura a conflituar com uma educação tradicional, este dia foi um desses grandes momentos.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Salut, la France (III)


Embora com alusões à rua, tenho estado a falar principalmente no plano institucional, partidário, da democracia formal. É neste que faço uma pergunta. Mas nós somos a França? De forma alguma. A Frente de Esquerda pode corresponder um pouco, entre nós, ao conjunto de partidos e movimentos que são o PCP, o BE, a Renovação comunista (RC) e uma ala esquerda indefinida e não organizada do PS. A Frente de Esquerda inclui também alguns pequenos grupos “esquerdistas”, incluindo um irrelevante partido comunista maoista.
PCP e PCF nada têm de comum. O PCF era eurocomunista desde os anos 60, sempre esteve aberto ao diálogo com o PSF, chegou a um programa comum e frentes eleitorais. Ao contrário do PCP, nunca teve dissensões à sua “direita”. Não há nada em França que se assemelhe à RC.
É interessante analisar-se a RC e outras dissensões comunistas. Primeiro, nos princípios dos anos 80, houve muitas saídas do PCP, silenciosas, desorganizadas. Não vou falar disto, estou em causa. Depois, foram as saídas mediáticas. Do grupo dos seis, pouco ficou. Veiga de Oliveira e Silva Graça acabaram em apoiantes de Cavaco, Vital Moreira é um entusiasta de Sócrates mesmo depois dele retirado. Próxima desse grupo foi a saída de Zita Seabra. Não vale a pena dizer nada.
Lembre-se que, nessa altura, houve um acontecimento que poderia ter tido consequências importantes no PCP: a rotura do MDP, que muito me disse. No entanto, não me lembro de um único membro do PCP que nos tivesse acompanhado. Mais tarde, veio a grande rotura, em 1991, depois do golpe de agosto na URSS.  Fora os que fizeram carreira no PS, de que não vou falar, houve o grupo influenciado por Miguel Portas, Plataforma de Esquerda, que “usou” o MDP para organizar e legalizar como partido a Política XXI, depois constituinte do Bloco de Esquerda.
Os atuais RC ainda continuaram no PCP. Sairam em consequência das punições de homens distintos, como Carlos Brito. Mas veja-se o livro de Carlos Brito sobre Cunhal. Ele é e será sempre um comunista tradicional, embora certamente não estalinista. Mas onde é que hoje o estalinismo serve para marcar uma fronteira? Tenho grandes amigos na RC, mas nada de prático ou mesmo ideológico me atrai a acompanhá-los. São um excelente grupo de amigos e assim os respeito, mas com reduzida eficácia política na ação quotidiana e no quadro político convencional.
Com a génese do nosso BE, também não há nada em França. O trotskismo de Krivine e o “anarquismo” de Cohn-Bendit foram pujantes nos tempos de 68, bem como o completamente esquecido terceiro-mundismo guerrilheiro de Régis Debray, mas depois não deram nada, muito menos a constituição de um partido com o sucesso eleitoral do nosso BE. Até se desviou foi para a direita, como se vê por “Danny le rouge”. A extrema-esquerda francesa é hoje irrelevante, em nada se comparando com o BE português.
O que em França se compara, mas só em termos de ser outro polo de esquerda em contraponto ao PCF é o Parti de Gauche (PG). Todavia, há uma diferença essencial: o PG tem origem não na esquerda “radical” mas sim numa dissidência da ala de esquerda mais afirmada do Partido Socialista. Os seus principais dirigentes, com destaque para Mélenchon, já o eram no PS. Simbolicamente, a sua inspiração é Jaurès (foto), sem prejuízo de muitas das suas bandeiras evocarem também Marx.
Recorde-se, aliás, que o PS francês sempre teve uma ala de esquerda forte e com posições nada concordantes com a degradação progressiva das sociais-democracias europeias nas últimas décadas. Um bom exemplo foi a entrada para o PS do PSU de Rocard, muito diferente das assimilações “ideologicamente canibais” do PS português, seja dos ex-MES, seja do grupo Pina Moura e outros de ex-PCP. Assim, onde se vê no PS português a perspetiva de dele se autonomizar uma nova formação política, de esquerda claramente oposta à ideologia ordoliberal e à sua prática consagrada na Europa?
Precisamos de tal partido novo, mas a sua génese e desenvolvimento terão de ser diferentes do PG. Portugal não é a França.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Salut, la France (II)




Há muitas ruas. “A la calle”, à anarquista espanhol, giro, romântico, imprevisível, com panache. Pode ser apimentado com uns molotovs, como em Atenas (e quando em Lisboa?). Com um punhado de gentes da rua se fez o 5 de outubro, com mais gente “arruada” a acompanhar uma meia dúzia de tanques se fez o 25 de abril.
Na rua se mostram hoje dezenas e dezenas de milhares a chamamento da CGTP, incomparavelmente menos a chamamento de coisas ainda muito embrionárias. Mas tudo é certinho, jogada de peão, nada aponta para um dia próximo de decisão.
A rua também pode ser um comício. Já tivemos comícios grandiosos, mas poucos como o da foto deste “post”, na Bastilha, para ouvir Jean-Luc Mélenchon. Como só vemos metade da praça, tão grande como o Terreiro do Paço, não estão menos de 100.000 pessoas.
Um comício enquadra-se num objetivo concreto, uma campanha eleitoral, mas claro que se alimenta do sentimento popular anterior. Imaginemos que temos eleições este ano. As pessoas começam a estar zangadas, mas também perplexas. Não sabem bem o que querem, muito menos saberiam encontrar uma alternativa política como esta francesa que lhes fosse bater na sua emoção de homens atordoados pelo sistema político-partidário. Alguém imagina uma nossa frente política de esquerda partidária a levar toda esta gente à rua?
E veja-se que, sem menosprezo pelas novas formas de intervenção política, este fulgor de esquerda em França se situa no mais convencional quadro político, institucional e partidário. Por isto, continuo a dizer: é urgente uma nova alternativa partidária de esquerda em Portugal.

Salut, la France (I)


A minha geração falou francês. Não fosse a ideia do meu pai, nos fins dos 50s, de que o inglês é que me serviria e de me ter metido em lições semanais de inglês, bem como me comprar todos os meus livros de medicina em inglês, estaria hoje tão afrancesado ainda como tantos meus amigos de “letras”. 

Todavia, ainda nos vem surpreendentemente alguma coisa dessa nossa segunda pátria tradicional. Nestes últimos dias, tenho lido menos em inglês, menos do que habitualmente os nobeis da economia ou a imprensa internacional. Leio e ouço um homem notável, Jean-Luc Mélenchon.
É um homem com a qualidade notável de não só dizer coisas certas como as dizer muito bem. Um grande orador, como só estávamos habituados a ouvir em inglês, por exemplo Martin Luther King.
É o candidato da frente de esquerda (Front de Gauche) às próximas eleições presidenciais francesas. O FG inclui o PCF, o Parti de Gauche (PG) e alguns grupos menores. Claro que não vai ganhar mas, na segunda volta, Hollande vai ter de considerar as posições do FG. Palpita-me que, depois das eleições francesas, muito do que tem sido marcado na Europa pelo coitadinho eixo Merkozy vai mudar. Por si só, Hollande já promete diferença. Com a pressão do FG, o sistema europeu da tristeza ideológica e económica dominante que se cuide.
Vai só aqui uma lista muito sucinta das posições do FG, os títulos dos capítulos do programa. Melhor é lerem-no.
  • Partilhar a riqueza e abolir a insegurança social.
  • Reconquistar o poder da banca e dos mercados financeiros.
  • Planeamento ecológico.
  • Modo de produção alternativo.
  • Uma verdadeira república.
  • Assembleia constituinte da VI República.
  • Denúncia do Tratado de Lisboa.
  • Mudança do caminho da globalização.
  • Emancipação humana.

Provavelmente por dificuldades de entendimento entre os participantes no FG, as posições quanto à crise e ao euro ficam diluídas e ambíguas. Mas já as do PG são muito claras, como direi noutra ocasião. Agora fico por aqui, mas vou ter de escrever mais sobre esta esperança que nos vem da Bastilha. Sempre a Bastilha, sempre a rua.

NOTA - Ainda antes do próximo “post”, fica claro que é difícil transpor isto para Portugal. O PCF não é o PCP e, principalmente, o PG não tem mesmo nada a ver com o BE. Depois explicarei.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Sempre a Bastilha

Como lembrou no seu discurso na praça da Bastilha o candidato presidencial da Frente de Esquerda, Jean-Luc Mélenchon (de cravo vermelho na lapela), é preciso lembrar a Comuna (fez ontem anos, 18 de março de 1871) e cantar "le temps des cerises":


É uma canção de amor, a canção símbolo da Comuna. Mas o amor é incompatível com a revolução?

domingo, 18 de março de 2012

Camaradas, pá!

Passou há dias o primeiro aniversário da grande manifestação do 12 de março, da “geração à rasca”. Provavelmente 100.000 pessoas. Foi celebrada este ano com uma ação de rua, defronte da loja do cidadão nos Restauradores, que juntou uma ou duas centenas de jovens, muitos com ar de estudantes ou desocupados, em casa dos pais, sem ainda nada saberem do que é desemprego ou emprego precário.
No entanto, “somos o povo, pá!”. Veja-se o vídeo (depois da publicidade que não consegui eliminar).




É claro que os 100.000 não podiam ser considerados à letra. Foi uma manifestação conjuntural que juntou tudo o que era anti-Sócrates, o que não era difícil. Depois, a acampada do Rossio foi pálida amostra. A manifestação do 15 de outubro nem chegou a um décimo. Agora isto. Dá para refletir, mas sem se cair na ridicularização injusta e historicamente errada destas movimentações.
Devemos considerá-las como parte, certamente ainda menor, do que é, politicamente, “a rua”. E esta vai ser cada vez mais determinante, muito mais cedo, nesta crise do capitalismo financeiro, do que se pensaria há uns anos, na via triunfal do liberalismo reforçado com a implosão do mundo soviético. No jogo político, a rua deixou de ser uma “infantilidade” ou aberração da democracia, reduzida para muita gente à sua vertente formal, institucional, hoje em descrédito. 
Por outro lado, em época de crise e num sistema democrático recente, como o nosso, em que a superestrutura institucional avançou mais depressa do que a dinâmica dos corpos intermédios, que não se decide com assinaturas no papel, estes acabam por só aparentarem força quando também saem para a rua, embora à sua maneira, como é o caso da CGTP.
Mas há rua e há rua, porque há gente na rua e gente na rua. A rua ocupada ordeiramente é obviamente um sinal importante do sentir do povo. Mas também pode ser, perversamente, uma válvula de escape do sistema, quando a pressão é controlada por um mecanismo muito mais potente: a hegemonia ideológica, de que falarei adiante, mais uma vez. Na Grécia - nós não somos gregos?!… - todas as semanas a Sintagma está cheia com uma manifestação. Que resultado? Claro que esta é uma pergunta perigosa, se não entendida dialeticamente. A ação de rua com a ação institucional não resulta em 1+1=2, dependem a cada momento uma da outra e fazem tudo o resto orbitar em volta de duas estrelas conexas em laço de forma de oito, coisa que não conhecemos no sistema solar.  
Se tudo fosse linear, milhões de eleitores amorfos mas “e pur” influenciáveis, e com apetência para serem esclarecidos, teriam na rua ordeira mais um fator de reflexão. No entanto, também há a rua grega dos prédios de escritórios incendiados, das agências bancárias destruídas. Mas nós não somos gregos!?… Será? O que estamos é temporalmente desfasados, um ano atrás dos gregos neste processo de miserabilização. A raiva dos gregos não será daqui a um ano a raiva dos portugueses?
Então, a esquerda tem de estar preparada para que a rua em chamas deixará de ser vista pelo eleitor comum como coisa positiva, a reforçar o seu desgosto impotente com o sistema político. Este sistema usará o perigo da rua para mais manipular e atemorizar o eleitor. Apesar disto, é quando a rua será revolucionária, porque o sistema estará na defensiva, mesmo que até podendo melhorar a sua posição no plano institucional, da democracia formal partidária.
Da rua é que virá a revolução, como sempre na história. O que será essa revolução ninguém sabe, exceto que certamente não será nada escrito já em livros ou desenhado a régua e esquadro. E que não será bem comportada e respeitadora dos “interesses legítimos” que, não sendo nada os da enorme maioria das pessoas, elas foram formatadas a pensar que são intocáveis para pessoas de boa educação. 
Na minha juventude política, estudantil, com muitos outros, aprendi a perceber racionalmente, também a intuir, quase que a cheirar, quando se podia avançar para uma ação ou quando ela seria condenada à derrota. Também a saber quando e se aproveitar uma ação surgida imprevistamente. Isto era coisa elementar de ensinamento dos clássicos, a perceção de uma situação revolucionária.
A rua e os chamados novos movimentos são hoje um desafio a este sentido da revolução. É bonita, está na moda, alguma atitude de infantilização em relação a eles por parte de gente experiente. O extremo oposto também é negativo, o de se olhar sobranceiramente para coisas politicamente pouco sustentadas, mas que pelo menos mal não fazem.
Mas está a revolução à porta, em tempo pessoal, diferente do histórico? Se sim, não é de concentrar na novidade histórica, nas novas movimentações, o essencial do esforço de luta? 
A meu ver, não. A história não caminha numa só linha, mas em linhas paralelas com velocidades diferentes. Como já aqui disse várias vezes que me preocupa muito, há um fator  muito importante que, travando muito a dinâmica de contradições na ação institucional (parlamentar, etc.), retira base de apoio subjetiva à movimentação revolucionária da rua. É a hegemonia ideológica. 
As pessoas estão dominadas por um “pensamento” hegemónico. As situações problemáticas são complexas, o eleitor fica desarmado se só confiar nos slogans partidários. Não tem bases técnicas para formar opinião. Ouve a televisão com o seu coro unanimista dos opinadores de serviço. Como são todos professores doutores, o homem comum submete-se inconscientemente ao argumento de autoridade. Também a duas outras coisas envenenadoras do espírito crítico: “sempre foi assim” e “está-se mesmo a ver”.
Com isto, foram 80% dos eleitores que apoiaram os acordos com a troika. Quantos serão da próxima vez? Por isto, volto e volto a dizer que penso que a prioridade (o que não quer de forma alguma dizer exclusividade) da ação política, a curto prazo, é a do terreno institucional, com criação de um novo partido a romper a cristalização do sistema partidário atual, em que a esquerda é objetivamente conivente com o sentimento geral de falta de alternativa.

Voltando à rua, a muito possível radicalização das suas movimentações coloca desafios à ação no plano institucional. Muitas pessoas precisarão de uma nova oferta partidária cuja pedagogia e seriedade, também com realismo, lhes permita escapar ao pânico de ficarem perdidos entre o “caos da rua” e a ineficácia do sistema político formal.
NOTA - Muitas vezes, os dirigentes de movimentos ainda pouco estruturados acabam por ser muito maus parteiros e por dar cabo da vitalidade da sua criança. Às vezes, até acabam por a abandonar, atraídos por ofertas sedutoras de quem, mais sabido, soube explorar algum desejo de notoriedade de até então desconhecidos. Outras vezes, é apenas questão de patetice, condizível com opiniões pessoais a que se tem pleno direito, por exemplo na esfera da pansexualidade (?) mas que não credibilizam muito a ação política. 
Raquel Freire, em nome do que é hoje o Movimento 12 de março, anunciou que vai ser criada uma Academia da Cidadania, “para explicar às pessoas o que é a democracia”. “O ativismo aprende-se, justificou a cineasta, explicando depois que a academia propõe-se dar formação específica a grupos populacionais tão distintos como crianças, mulheres ou trabalhadores precários. Pretende ainda produzir um manual para ensinar as pessoas a concorrerem às eleições autárquicas, através da criação de movimentos de cidadãos.” Ai, os intelectuais!

terça-feira, 13 de março de 2012

Merece destaque


“Pessoas que não conhecemos”: crónica a todos os títulos notável de José Vítor Malheiros, hoje no Público (só para assinantes), mas de acesso livre no seu blogue Versaletes. Há coisas que lemos e que nos agradam, que nos fazem sentir acompanhados, mas que podem fazer doer.
NOTA - Mas, JV, então “O Mandarim”?...

segunda-feira, 5 de março de 2012

Oliveira de Figueira


No Público, hoje: “Um teste de auto-colheita para deteção precoce do papiloma do vírus humano (HPV), responsável pelo cancro do colo do útero, é lançado no mercado quinta-feira, Dia da Mulher, por uma empresa da Universidade de Coimbra”.
Ou a notícia não está correta, ou esse laboratório de Coimbra das duas uma: ignorância crassa ou irresponsabilidade a raiar, objetivamente, a falta de seriedade.
Que parte muito significativa dos cancros do colo do útero são causados por vírus do género papiloma (um terço dos tipos de entre mais de uma centena), é bem conhecido. Por isto, a vacina em uso, sendo contra os vírus causadores, acaba por proteger essa alta percentagem de mulheres.
Já quanto a diagnóstico, a situação é tão diferente que é espantoso que esse laboratório não a conheça. Devem ser só engenheiros ou bioquímicos. Nunca uma empresa farmacêutica ou de diagnóstico, com médicos e - neste caso - virologistas - investiria um euro em tal kit.  A Universidade de Coimbra parece que sim, possivelmente com dinheiros da Fundação para a Ciência e Tecnologia. E é claro que nunca ninguém na Roche, na Abbott, na Merk se lembrou de tão brilhante ideia.
O que se está a detetar são vírus do papiloma, por intermédio do seu DNA. Simplesmente, se a maioria dos cancros do colo são causados por papiloma, o inverso não é verdadeiro: cerca de 30% (até 50% em alguns estudos) dos casos de cancro não são devidos ao vírus e, por outro lado, há muitos casos de infeção que nunca chegam a provocar cancro. Portanto, eu não gostaria de estar na posição de mulheres a quem possa ser diagnosticada a infeção viral crónica e que vão viver apavoradas com a incerteza de um dia virem a ter cancro.
Diferentemente, o clássico Papanicolau, diminuído pelos autores do invento, deteta de facto é as células cancerosas. Qual a vantagem do novo “teste”? Dirão que alertar essas mulheres para um controlo mais apertado, claro que com o tal Papanicolau. É inútil, porque de qualquer forma todas as mulheres o devem fazer regularmente, a partir de certa idade.
Voltando ao Público, “denominado “Teste da Mulher” e dirigido especialmente a mulheres com mais de 30 anos - “as que correm maior risco de desenvolver o cancro do colo do útero” -, é o primeiro método, em Portugal, que permite a auto-colheita e “é mais robusto e rápido do que o método clássico - teste de Papanicolau [citologia] - para detectar a presença do HPV”, lê-se numa nota de imprensa da UC.”
Como se vê, outro aspeto estranho desta notícia é ser valorizada a autocolheita. Não pode ser um simples exsudado vaginal, tem de ser mesmo do colo do útero. Os autores desta invenção avançam qual a sua estimativa de percentagem de mulheres que o vai conseguir, às cegas? E o teste de Papanicolau alguma vez detetou DNA dos vírus de papiloma? E é menos rápido do que este que, se não me engano do que ouvi um dos autores, demora duas semanas (não percebo como, deve ser erro, porque provavelmente se baseia em PCR)?
Diz-se também na notícia que o rastreio por citologia (Papanicolau) se faz em alguns centros hospitalares do país. Não quero crer em tanta ignorância. Fazem-no, felizmente, muitas dezenas de milhar de mulheres, com colheita feita pelo ginecologista a cuja consulta de rotina devem ir anualmente pelo menos depois dos 50 anos, e com a análise citológica feita por este país fora em milhares de bons laboratórios de anatomia patológica.
Desde há uns anos que andamos embevecidos com os nossos sucessos científicos, seja a de publicações muito importantes com um nome português perdido entre duas dezenas de autores, seja uma novidade tecnológica que irá faturar fortunas. Vê-se. É caso de o rei vai nu. É muito uma feira de vaidades mas também é sinal de falta de seriedade na forma como se usam os nossos recursos para a investigação. 
E já chega de a imprensa mais os gabinetes de comunicação de universidades e institutos de investigação só usarem as formas garantidas de informação - artigos já publicados e não apenas anunciados, ensaios clínicos publicados (onde está esse de Uppsala?), patentes, etc. E fica-me ainda outra dúvida: o teste vai ser comercializado daqui a dias. Por quem e a quem? Em mercado aberto, que exige garantia? Quando e como foi obtida a certificação do Infarmed? Se o regulador autorizou o uso deste teste, fico preocupado. 
Nota - Podem-me acusar de estar a torcer um pouco as coisas: afinal, a notícia do Público refere claramente a deteção precoce dos vírus do papiloma [JVC: no caso do papiloma, com efeitos a longo prazo e em que já não se pode fazer nada depois da infeção, a precocidade conta pouco e em regra começa no início da vida sexual]. Não a deteção direta e propriamente do cancro do colo do útero. Não é verdade que faça isto. Mas ouvi cuidadosamente as declarações do responsável da empresa da UC e são claras: segundo ele, é um teste de deteção precoce do carcinoma do colo do útero. Como disse, não é!

sábado, 3 de março de 2012

Não bate certo...


Pacheco Pereira, hoje, no Público: “Portugal comprou esta semana a bala da sua execução. Refiro-me à assinatura do texto do novo "tratado" cisionista da UE”.
Artigo a não perder, mas a causar-me perplexidade. Eu a concordar tanto com Pacheco Pereira? Um de nós deve ter-se passado :-) A sério, diria que um exemplo de honestidade intelectual partilhada (embora, no caso de JPP, fique sempre com alguma dúvida sobre a sua agenda política).

sexta-feira, 2 de março de 2012

Bons alunos


A Europa é hoje uma escola primária à maneira de antigamente. Meninos bem comportados, uniformizados na sua bata branca (nada de vermelho!), retrato na parede do big brother da ideologia neo/ordo-liberal. De Cavaco a Passos Coelho, Guterres e Sócrates pelo meio, sempre o aluno português foi bem comportadinho, ganhando a medalhinha dos pastorinhos de Fátima.
No bom comportamento, há regras que não se discutem, até porque um pobrezinho para receber a esmola não pode tresandar a vinho. Regra das regras, o PEC de Maastricht, considerando crime contra a natureza, pedofilia contra a inocência infantil da virtude dos mercados, ultrapassar-se os míticos 3% de relação do défice orçamental em relação ao PIB.
Hoje, um primeiro ministro com quem até não tenho nenhuma afinidade, Mariano Rajoy, deu um murro na mesa e disse que o défice espanhol vai ficar em 5,8% e a Europa prussiana que se lixe. Como quem diz: atrevem-se a “chatear” a 3ª economia da eurolândia? Isto é deslocar a crise do terreno “cientificamente” económico para o verdadeiro terreno, o político. Aquele que está a ser totalmente diminuido em Portugal, com discursos de “que a economia manda, o que tem de ser tem muita força e temos de obedecer à receita da troika”.
Disse que não tenho afinidade com Rajoy mas tenho com os espanhóis, entre os quais conto dos meus melhores amigos, numa vida minha muito internacionalizada, profissionalmente. Sempre escrevi que, na nossa pequena dimensão, nos falta o sentido dos “grandes de España”, coisa vinda modernizada até amigos meus espanhóis de hoje, grandes homens de coluna ereta, grandes cientistas e convictos antifascistas. Nós somos “pequenos de Portugal”.
Marcante é que Rajoy tenha usado uma expressão magnífica para designar essa decisão: “Decisão soberana”. Tomem lá, Merkozys”! E mais Monti, que parece querer salvar Itália montando-a no burro franco-alemão.
E porque é que não se faz a urgentemente necessária frente do sul, na UE e na Eurolândia? Rajoy (que pena não ter sido Zapatero) promete, mas Itália e Grécia têm governos de banco-serviçais tecnocratas a soldo (bem pago) da ideologia dominante. Portugal tem um governo de escuteiros. Um grupo de meninos vestidos de pateta chefiados por um pateta vestido de menino.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Krugman, duas leituras


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Paul Krugman, prémio Nobel da Economia e hoje doutorado honoris causa pelas três universidades lisboetas, é muitas vezes invocado como autoridade pela esquerda portuguesa (a esquerda real), embora a sua visão neo-clássica não seja totalmente coincidente com a de muitos dos nossos economistas anti-neo&ordo-liberais.
De qualquer forma, a direita rejubilou por ele ter afirmado que Portugal, para sair da crise e ganhar competitividade, precisava de reduzir os salários entre 20 e 30% em relação aos salários alemães. Não é o que a troika diz?
O que esses salivadores pavlovianos não esclarecem é que há duas formas radicalmente diferentes de se conseguir essa desvalorização: interna e externa.
A desvalorização interna, no espartilho do euro, é mesmo o que se pode deduzir linearmente do que diz Krugman: redução nominal e real do preço do trabalho, diretamente (redução ou congelamento dos salários) ou indiretamente (redução dos benefícios sociais, aumento do horário de trabalho, etc.). O que fizeram os gregos com o resultado que está à vista.
A desvalorização “externa” é cambial, por desvalorização da moeda, só possível se Portugal sair do euro. Krugman não rejeitou esta hipótese, que os seus leitores sabem ser recorrente nos seus escritos. O que disse até foi que não está seguro de que Portugal se possa manter no euro. Simplesmente, esta afirmação foi feita num quadro de “dinâmica histórico-económica”, em que só se vê o contexto geral, à escala europeia.
Ora o que devia contar mais era a decisão nacional, de um país ativo e não meramente elemento passivo ao sabor das dinâmicas europeias. Saltando vários passos evidentes da demonstração do teorema, a conclusão do “postulado” de Krugman parece-me simples: Portugal tem de sair do euro e adotar uma moeda nacional com adequada desvalorização. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Pela boca morre o peixe


Segundo os dados hoje divulgados por Bruxelas, Portugal vai sofrer em 2012 uma contração de 3,3% do seu produto interno bruto (PIB) - mais grave do que a quebra de 1,5% de 2011, e a segunda mais profunda da União Europeia este ano (a seguir à Grécia, cuja economia encolherá 4,4%).  
A previsão governo-troika começou por ser uma queda do PIB de 2012 de 1,6%. Passou para 1,9% no OE de 2012.
Em novembro, o ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, afirmou no Parlamento que "2012 será um ano determinante para Portugal e para a economia portuguesa", pois "certamente irá marcar o fim da crise e será o ano da retoma para o crescimento de 2013 e 2014".
Está-se a ver.  

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

As pessoas têm razão para estar confusas


As pessoas têm razão para estar confusas. A sua opinião, principalmente a partir de certa idade, com quase confinação a casa e à televisão, é o resultado do conúbio cada vez mais indecente entre as esferas política e mediática. 1984. Ainda há dias uma pessoa não muito próxima mas que estimo me disse, como derradeiro argumento, “eu ouvi na televisão”. 
Com raras exceções, consentidas para darem dos media uma ideia demagógica de algum pluralismo, a mensagem que passa é a do neoliberalismo, ou do ordoliberalismo europeu que não está muito longe e até é mais antigo. Para que não se diga que uso chavões e porque talvez eu seja lido por não convencidos da ortodoxia, embora ainda não lhe frontalmente opostos, recordo o que as pessoas hoje ouvem como massacre da sua capacidade de raciocínio crítico.
"A iniciativa privada e os mercados são indiscutivelmente virtuosos, por natureza. A despesa pública é perversa, abafa a economia. O estado social contribui, para além disso da despesa pública, para uma mentalidade de preguiça, desleixo, parasitismo. A intervenção reguladora do estado é perniciosa, perturba o “divino” mecanismo da auto-regulação do mercado. Não se pode impor restrições gravosas às empresas, senão o capital deslocaliza-se. Gastamos (quem é este pessoal plural, “nós”?) mais do que as nossas possibilidades". E muito mais.
Mas não é certo que muita gente que sente na pele os efeitos perversos desta ideologia não consegue desenvencilhar-se das grilhetas que a propaganda, os académicos de serviço, os gurus, lhes apertam cada dia mais?
De acordo com esta hegemonia do pensamento dominante (volto a Gramsci, não há revolução sem a mudança da hegemonia), é lógico que se aceite a grande consequência prática em tempo de crise, a política da austeridade expansiva, aquela a que foi sujeita a Grécia com os resultados que se veem e a que nós fomos sujeitos um ano depois e por isto ainda sem se verem os mesmos resultados.
Não é possível listar aqui as centenas de referências de trabalhos que mostram que austeridade e crescimento económico são incompatíveis. Mesmo que até a simples redução do défice e a diminuição da dívida - pública, porque da mais importante, a privada, nem falar - são impossíveis na espiral descendente de recessão-dívida-recessão. Que mais não seja, é questão de aritmética elementar: desce o denominador (PIB), aumenta a fração (dívida/PIB).
Mas nem é preciso eu mostrar citações, mormente de grandes economistas americanos, mesmo prémios Nobel, em quem adivinhamos uma ideia simples quando escrevem: “estes governantes e economistas europeus estão endoidecidos pelo seu fanatismo ideológico”.
Todavia, talvez não seja bem assim. Todos os dias, cada vez mais, lemos e ouvimos entre nós economistas, comentadores, jornalistas, a reconhecerem que a política troikiana da austeridade é suicida. Até vão hoje mais longe do que os políticos da corte berlinense, que já admitem a preocupação com o crescimento mas ainda defendem o milagre da sua compatibilidade com a política austeritária e recessiva.
Não hão de estar confusas as pessoas que passaram este último ano e meio a ouvir a inevitabilidade e a panaceia curativa da política da troika, e que agora ouvem que talvez não? Que ainda há duas semanas ouviram Passos Coelho e Gaspar, depois da cena triste dos “apanhados”, garantirem que nunca renegociação de prazos e juros, muito menos um segundo empréstimo, e hoje leem que Passos acha que afinal ninguém pode ter a certeza?
Um bom sinal desta confusão é o resultado de uma sondagem de há dias publicada pela Lusa. À pergunta se “o programa de austeridade permitirá a saida da crise”, não responderam que sim os 80% de eleitores na troika interna, há um ano. Responderam sim 47,4%, 34,7% negativamente. Mas há respostas pouco coerentes. Por exemplo, 66,8% apoiam o novo tratado, o que parece revelar a aceitação de uma lógica punitiva e de controlo dos incumpridores, afinal nós também. No entanto, é pequena (10%) a diferença entre os que aceitam e rejeitam a inscrição da “regra de ouro” na constituição, afinal, um aspeto essencial do novo tratado. Por outro lado, apoiando, a maioria (53,3%) quer ver isso referendado.
E, para esta atitude de confusão, como pesará o sentimento atual de todos os que deram a vitória ao governo atual? Pode sempre haver desculpas, como alguém me disse há uns tempos: “não votei no Passos Coelho, votei foi contra o Sócrates, que foi o único culpado desta crise”. Não sou nada simpático para Sócrates e não o quero desculpabilizar, mas fico a pensar como pode ter sido tão inepto um político que conseguiu que tantos milhares de pessoas fossem votar numa política ainda muito pior do que a dele. Por inepto não quero isentá-lo de outras coisas, videirinho, pouco sério, mesmo aldrabão. Mas, afinal, em política, isto acaba por ser inépcia. Como dizia Talleyrand, em política, pior do que um crime é um erro.
Como se vai sair desta confusão? Pode-se oferecer a tantos desses eleitores honestos mas perturbados uma alternativa política? Ou deixamos crescer o risco inevitável destas situações de ambiguidade, confusão, raiva irracional, que é o populismo, a descambar para soluções antidemocráticas?

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Um novo partido, precisa-se (II)


A política é multilinear, no sentido em que tem de atender a múltiplas dinâmicas de “processo histórico” interrelacionadas mas com velocidades e calendários próprios. Mais, e porque a dialética ainda vale, há interações entre as várias linhas que lhes modificam o percurso, a fluidez, a velocidade. Não é preciso ir à cosmologia moderna, à teoria das cordas, para perceber isto, mas até é engraçado, intelectualmente.
Velocidade e calendário, é o fator tempo. Nenhum político vinga se não dominar isto. Estamos defrontados, à esquerda, com muitas propostas interessantes. Iniciativas de cidadania, protestos de base, mais ou menos anárquicos, movimentações “tribais”. Nada novas, também as movimentações temáticas, ambientalistas, de direitos da orientação sexual, de defesa de culturas em risco, etc. Também antigas - meu MDP falido dos anos 90 - a nova sociologia de esquerda, a nova urbanidade desumanizada, os anseios individuais de sucesso, a qualidade de vida, a mudança geracional, o envelhecimento da população.
São por ora apenas sinais do que penso ser coisa para uma ou duas gerações, uma nova revolução. Nunca ninguém prevê exatamente o que é uma revolução. Vê-se e compreende-se na altura e assim se a controla. Mais frequentemente, segue-se apenas e ninguém a controla, para o bem e para o mal. Os partos da História são difíceis e dolorosos, respingam de sangue quem os está a ver. Mas deixemos agora isto, porque está numa dimensão temporal que não tem a ver com a nossa situação atual de crise.
Em todo o caso, nesta perspetiva, tudo o que pensarei convosco, a seguir, tem um eixo essencial. A luta política, sob que forma for, tem sempre e obrigatoriamente o objetivo da tomada de poder. Quando falar de ações pontuais, de movimentos grupais, de novos partidos, é sempre nesta perspetiva. Resistir por resistir, protestar apenas, como cultura política, é passo a passo para  a derrota final.
Em situações de crise, avulta a incapacidade dos políticos de lidar com a complexidade dialética do momento histórico a ser obrigatoriamente situado no processo histórico. Veja-se a situação europeia. Desde há muito que não há uma formulação política oficial em que possamos ler uma ideia grande sobre o significado histórico, civilizacional, da União. Tudo é reduzido a mentalidade e linguagem de guarda-livros. 
A mentalidade científica, o rigor intelectual, são coisas desconhecidas para os governantes. A economia é o que lhes é soprado pelos eunucos pequinenses da corte da finança. Os esquemas mentais alarves de moralismo económico e de punição são de mentalidade de aldeão da Pomerânia ou do nordeste transmontano. Por toda esta Europa fora, muito em Portugal, tudo isto é amplificado pela máquina da mistura catalítica da desinformação mediática, da aparente concordância de autoridade da opinião académica, da desvirtuação demagógica do senso comum.
A esquerda está a combater isto? A meu ver, não. A sua pedagogia política, no bom sentido, é quase nula, substituída pela agitprop, que a maior parte das pessoas topa logo e de que desconfia. Para pessoas mais informadas, os erros técnicos e a falta de rigor intelectual são motivo compreensível de antipatia. A arrumação habitual até é compreensível: o PCP é sério e coerente mas é fossilizado. O BE é mais atual e menos troglodita mas é oportunista e videirinho.
Repare-se que nada disto tem a ver diretamente com a estrutura económica, com a luta de classes. Tem a ver, mais diretamente, com a ideologia dominante e como ela é revolucionária - raramente - ou como abafa a dinâmica da luta de classes e o sucesso das lutas populares. O último grande pensador de inspiração marxista, Gramsci, desenvolveu tudo isto na sua discussão da hegemonia. Estamos a viver uma situação gramsciana, com uma crise europeia em que a situação económica, a exploração, a perda de conquistas fundamentais de direitos sociais reais, podiam despertar lutas políticas, mas em que a hegemonia do pensamento europolítico, ordoliberal, intelectualmente provinciano, mesquinho e egoista, trava a consciência da necessidade de revolta. 
O nosso processo revolucionário do 25 de Abril soçobrou, a meu ver, neste domínio. Dominou na superestrutura política, controlou temporariamente as bases da economia, mobilizou elites instruídas das camadas trabalhadoras, mas não conseguiu vencer a hegemonia ideológica da aliança entre o primitivismo cultural provinciano, a herança do obscurantismo salazarista-eclesiástico e o “liberalismo à europeia” difundido pelo duo PS e PSD. Afinal, como dentro das forças armadas, a mentalidade pequeno-burguesa. Todavia, a pequena burguesia, a "classe média", é hoje a classe social dominante. Potencialmente revolucionária, porque tende a ser a mais "esmifrada", mas ainda não tem consciência. Como resolver isto?
Voltemos às várias linhas de dinâmica de esquerda. Se não as destrinçarmos, ficamos confusos. Se olharmos para o horizonte distante, ressalta a inevitável mudança de paradigma da própria democracia. A democracia representativa está a morrer dos seus vícios, mas a democracia direta é tecnicamente muito problemática, podendo gerar vícios de “infocracia”. A democracia participativa é para mim o futuro, mas depende de uma nova configuração dos corpos intermédios, assimilando movimentações sociais novas, ainda não muito claras.
Mas há quem confunda linhas e desvie generosamente para propostas dessa tal linha estratégica as suas capacidades de esforço. É ótimo que coisas ainda em embrião tenham sopro de crescimento dado por pessoas motivadas, relativamente inexperientes politicamente (o que tem as suas vantagens...) e que não sentem apetência para lutas mais convencionais ou mais comprovadas.  Estão na luta, é o que interessa. Menos compreensível é que pessoas com maior experiência política prejudiquem o seu contributo para a ação política, ao nível em que podem ser mais eficazes, por uma espécie de complexo de idade, infantilizando-se em coisas à distância importantes mas hoje apenas confluentes e a cargo de quem para isso tem vocação.
À distância, estes novos movimentos inserir-se-ão nos corpos intermédios, coisa essencial a ter em conta na teoria política. Em termos gerais, corpos intermédios são tudo o que fica entre os cidadãos e as suas áreas próximas (família, amigos, colegas próximos) e o Estado: coletividades, autarquias, sindicatos, grupos de intervenção, irmandades, clubes, etc. Hoje também redes sociais na net, blogues. Voltando à hegemonia, creio que a sua construção e difusão pela comunicação institucional é dificilmente combatível. A esquerda só conseguirá combatê-la se puder atuar eficazmente a nível dos corpos intermédios. Não estou a inventar nada. Tudo isto fez parte da ação anti-salazarista, mas parece que ficou esquecida.
Outra conjugação essencial de linhas de ação é a que é determinada pela nossa atual crise económica e financeira, no quadro da crise do euro. O quadro geral é adverso. Os governos europeus são todos de direita, impera a visão da economia do ordoliberalismo centro-europeu, para já não o caracterizar como típico neoliberalismo à Reagan-Thatcher. Não se sente qualquer solidariedade europeia, para além dos egoismos nacionalistas. As subregiões naturais, como a latino-meridional, dividem-se em atitude de aluno da escola, aquele menino é que se portou mal. A Alemanha europeia de que falava Thomas Mann é o sargento da ordem prussiana da Europa alemã.
Como se articulam as linhas de ação? Vejamos o exemplo grego, que estou convencido que nada, objetivamente, tem de diferente do caso português, com a vantagem de podermos tirar lições com um ano de antecedência. Os partidos gregos não têm o mesmo fervor ideológico de mais papistas que o papa. O povo está a dar luta, em greves e manifestações, muito mais do que em Portugal. No entanto, isto não tem valido muito. Ou talvez sirva para serem empurrados para fora do euro, com uma experiência que adivinho ser muito instrutiva para nós. Uma grande semelhança, até há pouco, como escrevi, é a do quadro político e partidário. Também o facto de a ação de rua ser fortemente impulsionada e controlada pelas centrais sindicais, lá pelo KKE, cá pela tutela do PCP sobre a CGTP. Mas sem esquecer que a CGTP, como se viu sábado, mobiliza muito mais do que o PCP.
As diferenças são importantes. Não há na Grécia uma ideologia dominante de que "devemos cumprir, não sermos caloteiros". Em Portugal, são 80% dos eleitores. Em Portugal, alguma esquerda, por razões de certidão de nascimento, é utopicamente europeista e relega para uma vã luta europeia de esquerda a solução dos nossos problemas. Na Grécia, o maior expoente desta corrente, Yanis Varoufakis, hoje vedeta dos media internacionais, começa a derivar da sua “proposta modesta” de solução no quadro institucional europeu e já defende o incumprimento da Grécia e de Portugal. 
Estamos a um ano e meio do momento crítico - a ida ao mercado primário da dívida - em que se vai ver se o modelo de “austeridade com crescimento” imposto a Portugal resulta, em absoluto. Quer dizer, se resulta porque Portugal foi cumpridor, atento, venerador e obrigado. Mostrando que não resultou na Grécia, como toda a gente já viu, mas segundo os ortodoxos ordoliberais apenas porque a Grécia foi incumpridora e não teve a sorte de ter um ministro formatado como Gaspar. Ou mostrando, como penso, que é o modelo que é vicioso e contranatura e que não resultará nem na Grécia rebelde nem em Portugal submisso.
Entretanto, o relógio da crise acelera. Nessa marcha contra o tempo, uma diferença da Grécia - não sei o que vai dar - foi a subida a segundo lugar nas sondagens de um novo partido anti-troika, destacado da imagem tradicional de mera resistência da esquerda. Mais uma diferença para Portugal. Não podemos colmatá-la? Já escrevi sobre isto.
Voltando às linhas de tempo, como conciliar esta, a da superestrutura política, com a da movimentação social, com a da revolução? Simples. A da revolução, neste momento, dá valores, ideais, objetivos históricos. Dá a ideia central da história de que no princípio está o poder. Dá o que é preciso para a coerência das outras. A movimentação social é essencial para quebrar a rigidez partidária e a sua hegemonia e para, como na Grécia, tirar partido da lógica essencial do sistema partidário, o ponto vulnerável do seu  eleitoralismo. A Nova Democracia diz “nim” à troika porque quer garantir a vitória eleitoral. 


Cá, possivelmente será a atitude do PS, em próximas eleições. Não é brecha importante na muralha da política dominante do austeritarismo e da sujeição ao ordoliberalismo germânico. Mas é ponto fraco e, numa batalha, é sempre decisiva a ponta de lança, a tropa que se consegue infiltrar primeiro nas linhas inimigas. Isto é, no parlamento, na luta partidária. Para isto, um novo partido.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Um novo partido, precisa-se (I)


“Nós não somos a Grécia”. Num aspeto, é verdade. Os governos gregos, incluindo o atual governo tecnocrático, acossados pela movimentação popular e com eleições em mira, não têm sido propriamente fanáticos das imposições da “troika”. O governo português, quase que patologicamente, baba-se de gozo, estampado na expressão de Gaspar, por ir mais longe, muito mais, do que as imposições externas. Parece servirem-se do pretexto da “troika” para porem em prática um “imperativo histórico”, um delírio ideológico fanático, só satisfeito quando o mundo for na realidade aquilo que as suas cabeças formatadas concebem.
Fora esta diferença, é difícil encontrar algum economista estrangeiro reputado, algum analista sério, que não lembre que somos mesmo a Grécia, com um ano de desfasamento: os mesmos fatores de crise, a mesma política de austeridade imposta pelos mesmos poderes europeus, a mesma causa principal de falta de confiança dos mercados - o não crescimento económico e a espiral de recessão-dívida.
Mas hoje não vou escrever sobre economia, de que sou amador, antes de política e das lições que podemos tirar da Grécia. Comecemos pelos movimentos sociais e pela rua. Posso estar mal informado, mas não li sinais de grande relevância das novas movimentações. Manifestações de tipo ocupação da Puerta del Sol ou de Wall Street, se existem, parecem ficar obscurecidas pela movimentação social tradicional, nomeadamente a das greves e manifestações convocadas pelos sindicatos.
Parece-me que não andamos longe disto. Não diminuo a importância potencial dos novos movimentos (sectoriais, temáticos, flexíveis, não hierárquicos, etc.) mas creio que o seu desenvolvimento até eficácia real vai ser a ritmo mais lento do que é imposto pela aceleração desta crise económica, financeira e, claro, também política. Descontando o 12 de março, com sucesso conjuntural, basta a comparação da pequena manifestação de 15 de outubro com o Terreiro do Paço praticamente cheio, sábado, para se ter obrigatoriamente em conta que, em tempos de crise, o povo não vai em coisas menos testadas.
Diferente é o voto. Aquela centena ou duas de milhares de pessoas que se manifestaram sábado claro que votam de forma variada. Muitos, certamente, sempre votaram PS e dificilmente verão uma alternativa. Até sei de quem lá esteve e que foi o ano passado no engano do voto PSD. De quem votou assim massacrado pelo lavar de cérebro de que homem honesto não é caloteiro e entrega a camisa para pagar a dívida, mas que hoje já começa a ter dúvidas porque não ser caloteiro está a ameaçar ser deixar os filhos à fome. 
Toda esta gente está espartilhada por um quadro partidário que lhes oferece a obediência, a humilhação, o sacrifício, e, por outro lado, a incapacidade de proposta de uma alternativa que não seja apenas retórica de agit-prop, sem credibilidade para muita e muita gente que não passa de repente para uma postura radical. 
Aparentemente, esta é outra situação de semelhança, com a Grécia, em relação ao quadro partidário e às suas posições em relação ao plano de resgate. Dois partidos de direita (Nova Democracia e, mais à direita, o LAOS) e o partido socialista (PASOK) aceitam no essencial as imposições da “troika”, embora sem fanatismo e não concebem qualquer alternativa. O Partido Comunista KKE e o Syriza (análogo do BE português) assumem-se como resistência mas não apresentam propostas alternativas de saída da crise. Não conhecemos tudo isto?
A diferença essencial é recente, data de junho de 2010. A ala dita menos radical do Syriza separou-se e constituiu um novo partido, a Esquerda Democrática. Muito provavelmente por ter conseguido cativar muito eleitorado na margem esquerda do PASOK, as sondagens dão-lhe 18%, em segundo lugar, atrás da direita da Nova Democracia, com 31%. Passa à frente dos outros dois partidos de esquerda, cada um com cerca de 12% de intenções de voto, e esvazia o PASOK, maioritário até há dois anos e que agora se reduz a 8%. Contando com o LAOS, a direita tem 39% e a esquerda 42%. O fiel da balança será o PASOK, mas não é garantido que, mesmo contando com ele, o próximo novo parlamento grego continue a ter a política de submissão à ultra-austeridade.
Tenho para mim que é necessária uma visão estratégica que vá no sentido de uma rotura muito profunda, de novo paradigma político, de nova democracia e de reformulação do conceito de representatividade e do seu valor estruturante da democracia que conhecemos, de proposta de uma nova ordem económica mundial, logo europeia, logo portuguesa. Que a movimentação social e política cada vez mais se vai orientar para a tomada do poder, mesmo que de forma contra as regras, como forma imprescindível de conseguir esse renascimento da democracia.
Todavia, há o plano tático, ditado pelo calendário do ano e às vezes até do mês ou do dia. Neste sentido, creio ser urgente uma ação eficaz e rápida para constituição de um novo partido de esquerda. Há muita gente generosamente envolvida em múltiplas iniciativas pontuais, interessantes e úteis, mas que não vão ao centro do problema: como fazer mudar, a curto prazo, o voto de muitos dos tais 80% do “arco” troikiano?
O que é este curto prazo? Segundo o calendário eleitoral, parece termos tempo, haverá eleições em 2015. Mas alguém garante que, com o aprofundar da crise e com grande resistência social, não haja eleições antecipadas, por exemplo no próximo ano?

Não sou eu que vou aqui propor o que deve ser o programa de tal partido, coisa para os seus fundadores - espero que eu também possa ser, a tempo. Mas creio que não é abusivo dizer o que considero o fundamento e justificação do meu desejo de ver criado um novo partido. Para já, essencialmente, algumas coisas que cumpram o tal objetivo essencial de oferecer uma alternativa a muitos eleitores que não confiam na “esquerda radical”: 

– Um partido que combine o respeito pelos valores e ideais tradicionais da esquerda com uma compreensão, traduzida na ação, das grandes mudanças sociais das cinco últimas décadas, na estrutura social, no trabalho, nas aspirações individuais.
– Um partido que ganhe uma imagem de credibilidade junto de eleitorado que até pode não se rever na esquerda partidária atual mas que é sensível à pedagogia política séria, à honestidade inteletual, ao rigor das análises e à informação correta.
– Um partido que defenda um projeto progressista de união europeia mas que não fique refém desse projeto como quadro principal das lutas nacionais, muito menos de solução em prazo útil da crise do euro.
– “Last but not the least”, um partido que esteja aberto, publicamente, à consideração e estudo, a curto prazo, de todas as hipóteses alternativas à política ordoliberal traduzida na austeridade que nos é imposta, nomeadamente a reestruturação da dívida e/ou a saída do euro.

Nota - Os dados da sondagem grega foram transcritos do Arrastão