quinta-feira, 30 de abril de 2015

Convergência a todo o custo

Isabel do Carmo, minha velha amiga – mas a crítica é coisa de amigos – outrora prócere do radicalismo esquerdista, via PRP-BP, é hoje uma das mentoras do Tempo de Avançar, na corrente Daniel de Oliveira. Como tal, tem publicado artigos – hoje novamente no Público – de defesa da tese da convergência de uma esquerda ampla, em que, pelo seu peso eleitoral, teria papel relevante o PS. Pode-se mesmo pensar que só o PS e o LIVRE / Tempo de Avançar, na medida em que as críticas ferozes à esquerda radical parecem servir para excluir, como profecias autorrealizáveis, o PCP e o BE.
É uma espécie de TINA, à Thatcher, “there is no alternative”, não há alternativa e todo o mau é melhor do que o péssimo. Claro que Isabel do Carmo é experiente demais para se deixar cair facilmente na armadilha, mas lá anda perto.
Mais de metade do artigo aborda as mudanças sociais, no modo de produção e nas relações de classe ao longo do último meio século, numa perspectiva que é partilhada por muita gente, eu inclusive. “Na situação actual, a leitura da luta de classes não pode ser a da primeira e segunda revoluções industriais. As colónias fora da Europa desapareceram, mas nós, os países do Sul da Europa, somos as novas colónias dos países do Norte, perdemos a soberania e também temos por cá os seus representantes, os novos administradores de tabanca.”.
Também é verdade que “a surpresa é que muito do discurso dos partidos de esquerda é hoje, quase sempre, remanescente dessa época. E em vez de uma procura de pontos comuns, há um clubismo e um eleitoralismo, que põem em segundo ou terceiro lugar o mundo real.
Não é isto que separa de Isabel do Carmo e dos conferencistas a todo o custo.  Muito menos vou entrar pela discussão de forma alguma redutora sobre o que é a esquerda hoje. Divergimos é nas conclusões e nas propostas políticas.
Julgando encontrar o menor múltiplo comum e dele poder fazer uma proposta mínima coerente, escreve Isabel do Carmo que “ora há convergências possíveis ao nível da educação, da saúde e da segurança social. É possível uma luta comum contra a precariedade. É possível encontrar uma barreira às privatizações. Para tudo isso é necessário ter o espírito de encontrar coincidências e, pelo contrário, não andar a “catar” as divergências, mesmo que prováveis ou possíveis, no sentido de abrir fossos, onde ainda pode haver pontes.
Ora, digo eu também, a aceitação dos mais fundamentares pilares do Estado social de bem-estar, formulados em termos tão genéricos, é a total incerteza em relação ao êxito da tal convergência. Mais ainda, quando não há diálogo possível, tanto quanto se vê, quanto aos factores que dariam sustentabilidade a essa política.
Isabel do Carmo, que é uma pessoa séria, não foge à questão. “Claro que a preservação do Estado social é incompatível com o tratado orçamental (no que é omisso o documento estratégico do PS), que tem que haver pelo menos renegociação da dívida enfrentando o centro de poder na Europa.” Pois é… O PS a enfrentar o centro de poder na Europa? Não ém desconfiança minha, vejam-se declarações em contrário de António Costa.
Espera-se qualquer quadratura do círculo? Ou a aliança com um PS que recusa a negação do Tratado orçamental e a reestruturação da dívida se resolvem por uma via mágica que Isabel do Carmo invoca certamente lembrando-se de Antonio Machado, “mas mais uma vez, o caminho faz-se caminhando, arriscando possíveis erros.”
Se o que é necessário é trilhar caminhos, aqueles que se mostram abertos, podemos perguntar porque o Tempo de Avançar se mostra tão preso a um alinhamento com o PS. Não há outros caminhos de convergência à esquerda? Já sei que me podem vir com o argumento da eficiência eleitoral. É falacioso e a ele voltarei.

2 comentários:

  1. Há determinadas frases-feitas de efeito mais ou menos garantido, que se podem ir atirando por aqui e por ali, com o espírito de quem atira pérolas a bácoros. Uma dessas frases ou ideias cliché é a que se reporta à "reconfiguração da luta de classes nas sociedades pós-industriais", sem que depois se acrescente ou demonstre se essa reconfiguração (que foi aliás o álibi da social democracia e dos partidos auto-intitulados socialistas, para a capitulação em toda a linha que hoje é evidente e que teve na concertação social o seu eixo determinante) altera o essencial das relações de classe nas sociadedes dominadas pelo imperialismo e, em caso afirmativo, em que aspectos conctretos da reprodução metabólica do sistema é que essa reconfiguração obriga a uma luta de classes de um tipo novo se pode e deve desenvolver e com que objectivos intermédios e finais, etc., etc., etc..
    Mas depois, em segunda reflexão, acabo por concluír que as frases feitas o são também na consciência de quem as propoaga e têm muitas vezes apenas em vista, não a promoção de uma qualquer discussão teórica, mas apenas servirem mais uma vez de álibi. E nem sequer para coisas grandiosas, mas apenas para aqueles interessezinhos mais comezinhos, mais medíocres, mais rasteiros e sabujados. Por isso, para quê fazer de conta que estamos numa discussão séria, se aquilo que estamos é apenas assistir a um número de teatro de comédia, com um péssimo guião e actores de segunda linha?

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  2. "altera o essencial das relações de classe nas sociadedes dominadas pelo imperialismo ". Estou de acordo consigo, Francisco. No essencial, não altera. Podemos discordar é na extensão desse "essencial".

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