segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Hoje sabe-me a pouco!

Estou velho, mas tenho tido conversas com grandes amigos políticos que me fazem pensar se afinal sou mesmo eu que estou velho. As coisas estão difíceis, a malta está vulnerável e pode ser despedida, vamos com calma.

E eu, pateta/patético, nestes meus 67, a pensar que já não há calma que me valha para me ajustar contas comigo mesmo, homem político (e não só).

Exemplo de vamos com calma. Aqui atrás vai a minha adesão à iniciativa cidadã de auditoria da dívida. Espero que se sigam muitas outras manifestações minhas de adesão e apoio a iniciativas deste género. Mas isto obriga-me a alguma clarificação. Os tempos que correm são do martelo-pilão da compressão das opiniões, da manipulação orwelliana à 1984 dos tais 80% de eleitores que têm razão. Nunca, nem nos tempos da maior demagogia à SNI, só para falar em Portugal, assistimos a tão horrorosa manipulação das mentes.
Até a um dos mais exemplares opinadores consensuais, João Duque, que me envergonha dizer que é meu colega académico, vir dizer o que acha que é a “boa” manipulação fascista da informação, “a bem da nação” (ver o selo que colecionei em miúdo, criação de Almada Negreiros - que confusão, a dos futuristas, cá e na Itália fascista). E não será que João Duque é o padrão dos formadores da estrutura mental dos nossos jovens economistas? É que conheço muitos jovens licenciados que nem percebem como foram formatados.
O que se diz por aí? Somos culpados; temos pecados a pagar perante o altar germânico; vamos passar ajoelhados debaixo da porta de Brandenburgo, para esquecer os passos de ganso a passar na Étoile em 1940; tudo isto que nos está a acontecer é inevitável; somos gente séria e vamos a Toledo/Berlim de baraço ao pescoço, ninguém nos acusará de caloteiros; Gaspar e outros “nerds” ou economopatas levam-nos ao caminho da probidade. É isto que lemos.
Infelizmente, leio amigos do peito, incapazes de pensar hoje em termos de economia política - o marxismo era uma treta! - a fazerem discussão política arcaica, quem do partido X fez asneira, quem do partido Y fez mais. É verdade, mas é ver a curta distância. Hoje não há X ou Y, não há partidos na liça democrática tradicional, há o novo império da finança, dos políticos serventuários, Merkozy, que ditam quem deve ser o governo grego ou italiano. Passos Coelho que se cuide!
Voltando atrás, o que me leva hoje à escrita é a tal coisa das iniciativas e da minha adesão. O que por aí vai, desde partidos de esquerda (PCP e BE) que muito me desgostam, até a movimentos mais ou menos incoerentes mas importantes na prática, nada me pode ser estranho. Nihil humanum est a me alienum puto (nada do que é humano me é estranho), dizia Marx, citando Terêncio. Marx, esse horroroso proto-fascista... porque nazismo e comunismo foram a mesma coisa, há quem diga.
Qualquer coisa que seja contra o martelo-pilão - mesmo que, nas recondezas deste meu diálogo com o computador, me faça pensar que “isto é patetice” - tem o meu apoio. Mas quero deixar as águas limpas. Apoiar não é subscrever por inteiro.
Por exemplo, isto da auditoria cidadã, que apoiei. Temos um plano troikiano a três anos. Temos a expetativa de miséria a três anos. Temos entretanto 80% de eleitores a apoiar o plano de austeridade, que afinal é de recessão, de espiral descendente para o empobrecimento. A cada dia que passa, a miséria agrava-se. Conta-se por dias. Entretanto, vamos passar não sei quanto tempo a analisar se uns tantos milhões de dívida foram ou não legítimos? Se vamos pagar o quê e a quem? É indignação virtuosa, a mais inútil das atitudes políticas.
Neste momento, é pura e simplesmente dizer que vamos reestruturar a dívida, o resto a explicar vem depois. Mais, talvez, que vamos sair do euro

Mais, coisas que ouço. Que isto de partidos é tudo uma porcaria, bonito é acampar, ouvir gurus que falam pelo lado contrário daquele pelo qual recebem as benesses do sistema. Mas quando daqui a quatro anos tivermos de votar em sei lá o quê que for de diferente, hoje ainda ninguém pensou em abrir caminho, muito pelo contrário, ó meu que partidos são todos uma merda. E não há gente séria, da minha vetusta idade, a não se render a este império dos "rasta"?
Estou a ser radical? Isto faz-me lembrar o grande sucesso mediático de Yanis Varoufakis e da sua “proposta modesta”. É natural que queiramos confortarmo-nos com coisas que não são luta  radical, que se calhar são sensatas, mas que afinal se baseiam em fadas.
Então as propostas modestas, à portuguesa? Vou subscrevê-las, claro, mas sabem-me a pouco.



sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A Espanha aqui tão perto

Talvez não adiante muito, prevendo-se que o PSOE vai perder as eleições. Mas é significativo que tenha ouvido há pouco, ao vivo, as declarações convergentes de Zapatero e do seu sucessor, Rubalcaba. Mesmo que sejamos cínicos, significam pelo menos que eles as considerem boa bandeira eleitoral para domingo. Mas afinal o que disseram?
Que o Banco Central Europeu (BCE) foi constituído com transferência de funções dos bancos centrais dos países do euro e que não está a assegurar aquilo que competia, bem, a esses bancos. Que o BCE não se pode preocupar só com a inflação, tem de agir para a solução da crise da dívida dos países periféricos.
É verdade que este BCE foi aprovado por um governo PSOE. Em todo o caso, isto é hoje dizer muito, contra o dogma merkosyano, nada que o nosso governo diga. E mostra que, se houvesse um mínimo de coluna vertebral política nos países pequenos (e a Espanha não é nada pequena), podia constituir-se uma frente política a bater o pé ao domínio euro-imperial dos grandes. E até que a Inglaterra (já deu sinais hoje) caia em si a pensar que este novo eixo continental é coisa que os afeta, mesmo sem estarem na eurolândia.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Auditoria cidadã à dívida


Foi apresentada em conferência de imprensa a Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívida. Sendo um dos promotores, não podia deixar de registar notícia aqui e de apelar para a participação no que se segue, a Convenção de Lisboa para formalizar essa iniciativa, nos dias 16 e 17 de Dezembro, no cinema S. Jorge, em Lisboa. Podem visitar o bom sítio da iniciativa, ler muito mais informação e ver o vídeo da conferência de imprensa:

domingo, 13 de novembro de 2011

Há vinte anos

Em tempo de tarefa detestável de arrumação e limpeza da tralha que nos enche poeirentamente o computador, dei por coisa que talvez valha a pena propor aos meus leitores como motivo de reflexão, embora muito datada. É um texto creio que de 1991, mas que só pode ser entendido com alguma rememoração da conjuntura. E também, desculpem-me, com alguma evocação pessoal.
Fui seguindo com interesse a grande mudança que se passou na esquerda europeia na década de 80. Entre nós, em 1987, rebentou na cisão da APU, em que boa parte, a meu ver a mais genuina, sincera e politicamente generosa, do MDP/CDE tentou marcar a diferença. Destaque, em homenagem muito sentida, ao José Manuel Tengarrinha, que sofreu o inimaginável por ter sido um homem de cabeça livre e de coluna vertebral erguida.
Alinhei de alma e coração com este esforço de construção de uma nova esquerda, um quarto de século antes do que agora muitos procuram, sem memória do que muitos tentaram antes. O esforço foi inglório, tinha passado o tempo, o processo histórico não tem contemplações. Mas também com coisas simples, boas, as que nos enchem a alma. Era um punhado de gente boa, não havia gurus em bicos de pé a patronizar jovens e massas, horrorizavam a demagogia, liam-se e reliam-se os comunicados à cata de qualquer falha de rigor, todos detestavam a ideia de sinecuras políticas. Foram anos frustrantes da minha vida política, mas foram anos de gratificação intelectual e de convívio com gente excelente.
Na altura, estava em foco o sucesso dos verdes alemães. Nós não nos revíamos numa “ideologia” estreitamente ambientalista, mas havia algum fundo comum que prometia coisas interessantes. Falávamos então em “movimento ecologista e alternativo”, colocando-nos nós, MDP, no lado alternativo. Éramos bem vistos neste movimento europeu, íamos a todas as reuniões, embora sempre incomodados pela construção pelo PCP do “partido” dos verdes portugueses.
Creio que em 1991, houve em Lisboa, no Tivoli, um bem sucedido Forum Ecologista e Alternativo. A título pessoal mas obviamente com muito trabalho por detrás de discussão com caros amigos, como o José Tengarrinha, o já falecido Mário Casquilho, a Helena Cidade Moura, o Fernando Silveira Ramos, a Alfreda Cruz, o Amaro Espírito Santo, o Orlando Almeida (desculpem-me aqueles que me são traídos pela memória). Foi aí que apresentei dois textos que reproduzo sem alterações, mau grado o estarem datados (1991!). São “O modelo alternativo do desenvolvimento” e “Uma nova concepção de partido”. 
O primeiro é o de conjuntura, a enquadrar o outro, e hoje muito mais haveria a dizer. Mesmo diminuindo-o eu próprio, creio que foi a primeira vez que em Portugal se falou na “sociedade dos dois terços”, coisa hoje levada ao extremo (apelativo, mas pouco científico) dos 99%. O segundo parece-me que talvez valha a pena ler ainda hoje, quando o quadro partidário é o de fazer votar sim à desgraça 80% dos eleitores.
Repito: não são coisa minha. Tive um papel importante na sua conceção e redação, mas a verdadeira autoria foi coletiva.
O que ficou de tudo isto? Talvez não se lembrem, a OPA pela Política XXI, que era a fração dos dissidentes do PCP depois do golpe de Agosto que, com Miguel Portas e contra Pina Moura, recusaram, bem, a absorção pelo PS. Depois, com os trotskistas e os albaneses, fizeram o Bloco de esquerda, coisa que alguns anos antes o MDP também tinha tentado. Na altura, com responsabilidade minha, voluntarista e prematuramente tonta para a época, tentamos fazer aquela figura dos escuteiros que tiveram de ser três a ajudar a velhinha a atravessar a rua, porque ela não queria. Ainda me lembro das minhas reuniões com Louçã e Fazenda.
E agora a esquerda quer ajuda para atravessar a rua?

NOTA - Brincando com a mais que tudo, pedi-lhe comentários como se os dois textos que refiro fossem escritos agora. Uma sua nota agradou-me muito. "Porque não escreves que o que desejas é "socialismo humanista"?" Afinal, ela estava a fazer-me lembrar os tais tempos de Dubcek, do "socialismo de rosto humano" 

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

"Tu quoque, Italia?"

Passamos toda a hora a ouvir que não somos gregos. No entanto, trataram-nos à grega. Claro que os italianos também devem dizer que não são portugueses, e acabam de os tratar pior ainda do que à portuguesa. É hoje já banalidade ler que os três países partilham uma característica comum que está no centro da sua crise económica e financeira: enorme dívida externa (pública mais privada) coincidindo com reduzido crescimento económico e dificuldades de competitividade. Creio, ao que se lê, que de facto é diferente a situação irlandesa e espanhola, em que o problema é principalmente de risco de insolvência do sistema bancário, tendo rebentado a enorme bolha imobiliária.
Juncker veio hoje a Portugal contar outra vez essa fábula de que não somos gregos. "Na Grécia é o desastre, em Portugal são dificuldades passageiras, a vencer até 2012". É um discurso político sem consistência racional e objetiva. Segundo esta mistura de política arrogante centro-europeia e de economia moral, "o desastre grego não vem da austeridade que lhes foi imposta mas sim dos seus erros de governo, de não cumprirem, de serem maus alunos. Nós não, temos um governo tão respeitador que até duplica a austeridade que nos foi imposta". Não se esqueçam de que o “desastre grego” está a acontecer ano e meio depois do seu plano troikiano, enquanto nós ainda só vamos com menos de seis meses. Quem garante que, daqui a um ano, não estamos a ouvir Juncker a falar do “desastre português”?
A dívida excessiva, com risco de insolvência a prazo, parece ser a principal razão de desconfiança por parte dos mercados financeiros. Desde há dias que a situação italiana vinha a agudizar este risco visível de desconfiança. Ontem, quando pensava publicar esta entrada, tinha ao meu lado uma nota: 6,74% de juros nos mercados secundários, para maturidades de 10 anos (13,3% para Portugal, 30,5% para a Grécia). Hoje já são 7,414%.
Lembram-se de Teixeira dos Santos alertar para esta espécie de número mágico, 7% de juros? Sócrates desmentiu-o, teimando, por razões político-eleitoralistas, que nunca recorreríamos ao resgate.  Colocando-me na pele de quem concorda com este tipo de “ajuda”, e não é a minha pele!, o que se pode dizer é que Sócrates teimou irresponsavelmente e acabou por ter de ceder pouco mais de um mês depois - em boa parte por pressão da banca (hoje tão zangada com o plano, por causa da recapitalização forçada que abre a caixa dos segredos ao Estado).
Dizem os economistas que este limiar dos 7% não é um valor arbitrário. Significa um nível de serviço da dívida que obriga a uma espiral de mais dívida para pagar os juros da dívida, fora a amortização. Foi aqui que chegou agora a Itália. No entanto, claro que, mesmo para um leigo, são patentes as diferenças entre nós e a Itália, do ponto de vista quantitativo. 
À época do resgate português, a nossa dívida externa era de cerca de 217% do PIB, sendo a dívida pública de 93% do PIB (agora 102%). Atualmente, os valores equivalentes no caso da Itália são de 126% e 120,2% (ver dados). Vê-se que o endividamento externo privado é reduzido, muito menor do que o português (percentualmente). Simplesmente, percentagem do PIB não é uma moeda, é um indicador. Moeda é o euro. Assim, para falar só da dívida pública, os 93% portugueses são cerca de 170 mil milhões de euros. Os 120% italianos são 1,9 biliões (milhões de milhões) de euros, 11 vezes mais.
Chegamos a uma questão central. Os empréstimos de resgate, ou “ajudas”, aos três atuais são coisa de nada para o Fundo Europeu de Estabilização Financeira. Se extrapolarmos para a Itália a tal relação de 11 vezes os nossos 78 mil milhões, são 865 mil milhões. Há quem diga que, de facto, seriam necessários cerca de 1,4 biliões (1400 mil milhões). Não há dinheiro, nem mesmo depois do plano do Conselho europeu de Outubro, que afinal não concretizou, para efeitos práticos imediatos, o aumento da capacidade do FEEF, atualmente de 440 mil milhões (sem descontar o já comprometido com a Grécia, Irlanda e Portugal).
O que significa, a concluir, que a Itália ficou na pior situação possível. Ao contrário da Grécia, Irlanda e Portugal, não vai receber um euro de “ajuda”, mas, como esses três, já teve de adotar um plano severo de austeridade (com medidas “muito fortes”), que já está a ser analisado in loco pela Comissão europeia. Pior, sujeitou-se, por sua própria iniciativa, baraço ao pescoço, àquilo que está a ser preço político dos memorandos com que nos comprometemos: vai ver as suas contas e a execução orçamental observadas, fiscalizadas, controladas por uma nova troika. Tudo para “dar confiança aos mercados”; é mesmo a fada da confiança, como costuma escrever Paul Krugman.
Ao que está a chegar a Europa! Já é a Itália, o terceiro país em importância na zona euro. É isto que vai ser o tão falado “governo económico” europeu?
NOTA - Repito que não sou economista e cabe aos meus leitores economistas corrigirem-me se errei neste texto - o que há boa probabilidade de ter acontecido. Quis principalmente desafiar outros leitores como eu não economistas a um esforço de informação elementar sobre o que se vai passando nesta eurolândia. Sem isso, receio que não faça muito sentido discutir só politicamente.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Regresso à educação superior

Durante cerca de dez anos, mantive escrita regular sobre a educação superior, creio que com sucesso e audiência fiel. Saindo de uma experiência desafiadora, afinal gratificante em termos estritamente pessoais, de gosto de obra feita, mas na prática penalizadora, até a nível ofensivo por parte de “superiores” medíocres, passei a livro anos e anos de reflexão sobre a universidade, mesmo quando era investigador e não professor. Depois, muitos artigos e um blogue.
A certa altura, achei que podia ter conflito de interesses e suspendi essa escrita. Fui contratado pela Universidade Lusófona (ULHT) para lançar um projeto novo de educação médica, o que se defrontava com interesses poderosíssimos. Depois, fui nomeado pró-reitor, com o pelouro muito sensível da estratégia institucional. Escrever, mesmo que a título pessoal podia causar dano, no nosso mundo mesquinho, à confiança que me estava a ser dada.
As coisas hoje, no pseudo-sistema de governação, regulação, avaliação, acreditação, etc., da educação superior chegaram a ponto de eu achar que é mais útil à minha instituição, e com maior satisfação minha pessoal, epicuriana, eu ser manifestamente o que sou, com a minha frontalidade conhecida, com o que julgo ser a minha autoridade de informação, reflexão e crítica. Há coisas que chegaram a tal ponto, e começo logo por apontar a A3ES - de que falarei depois - que não há que se “ter maneiras”. É atirar tudo para a mesa, “les jeux sont faits”.
Recomeçando esta minha velha lide, nada melhor, simbolicamente, do que chamar a atenção para uma excelente intervenção de quem considero o melhor reitor português, estratega e homem de visão, António Sampaio da Nóvoa. Aqui fica a ligação. Imperdível!

Dentro de dias, voltarei a dizer da educação superior. Como costumava escrever antes, sempre a dizer que o rei vai nu. E o rei, neste momento, nem é o ministro, muito menos o eterno ministro anterior que já estava triste e caduco. É quem tem um mandato limitado mas o exorbita. Escreverei sobre isto.

sábado, 5 de novembro de 2011

Oliveira de Figueira, até na literatura

Há poucas semanas, a Pastoral da Cultura, pela pena de Tolentino de Mendonça, sacerdote católico e bom poeta, criticou o último “romance” do nosso “guy des gares” (ainda se lembram do que isto significa?) José Rodrigues dos Santos (JRS), “O Último Segredo”. Voltam hoje à estacada, na revista P2 do Público, dois meus estimados autores (para mim, incréu!), Carreira das Neves e Anselmo Borges, ambos sacerdotes católicos.
Acho que estão a dar um tiro no pé. O “autor” não merece e, reconhecendo os seus oponentes que a Igreja, na sua ação catequística de rotina, não discute estes problemas de exegese difícil, remetendo-os, como é compreensível, para o terreno académico e da investigação, reforçam a tese de JRS de que ele é que está a esclarecer com verdades absolutas e definitivas os milhões de crentes que da sua religião só conhecem a tradição básica consagrada e os ensinamentos do aparelho eclesiástico.
Mas não é disto que quero fazer esta entrada. É de, com tudo isto, se estar a sobrevalorizar o próprio valor literário do “romance”. Começo por dizer, honestamente, que não o li e não o vou ler, mas tudo o que sobre ele li e, principalmente, as declarações do próprio autor, me permitem escrever alguma coisa.
JRS é um imitador, eventualmente com talento, mas é um simples imitador, sem génio criativo, sem uma ideia própria. Nada do que escreve mostra um projeto literário novo, uma nova abordagem da escrita, da conceção de um romance, mesmo que sem romper com uma linha de sucesso, a dos romances “históricos” temperados com ação à argumento cinematográfico e com alguma erudição questionante. O suprassumo é o "Nome da Rosa", e outros de Umberto Eco. Mais rudimentares, mas eficazes, embora muito repetitivos, são os de Dan Brown.
E é aqui que quero chegar. Pelo que tenho lido e por muito que folheei na livraria - sem pagar! que não dou para todos os peditórios - os “best sellers” de JRS parecem-me uma escandalosa, desavergonhada cópia do estilo e da estrutura narrativa de Dan Brown. Tudo é toscamente desenhado com base num padrão elementar. Veja-se:
Um académico perito numa área que em si é científica mas que descamba facilmente para o esotérico. Uma senhora que mistura intelecto e físico e que obviamente demonstra na cama tudo isto, no final (já vem das “Bond girls”, embora estas não tivessem massa cinzenta). Poderes ocultos como os que o novo Messias anuncia no “Avante”. Teses “sérias” postas na boca do tal académico, afinal mistura de fantasias do autor com coisas velhas e revelhas lidas apressadamente em publicações sensacionalistas, como no meu tempo já havia numa série de publicações francesas de pseudo-ciência cujo nome esqueci (alguém me recorda, coisas sobre OVNI, segredos das pirâmides, alquimia, etc.?). Cultura elementar a “épater le bourgeois” sobre museus franceses, obras de arte e arquitetura religiosa medieval. Mesmo que aproveitando a incapacidade do leitor médio para desmontar o ridículo absurdo de coisas "científicas" como uma bomba de antimatéria.
Até certa altura, achei graça a ler isto em Dan Brown, até me irritar com a repetição e a ideia de que eu estava a contribuir, na caixa da livraria, para uma bem engenhada operação de sucesso. Mas, afinal, era o que se tinha passado comigo na infância, com Salgari e coisas do género. Até Dumas!
Agora JRS é coisa diferente. É a indigência à portuguesa, é a diferença entre o produto de qualidade americano e o pechisbeque do Sr. Oliveira de Figueira. Afinal, Dan Brown nunca se lembrou de  descrever uma sopa de peixe regada “in loco et in hora” com leite de mulher mamudamente notável. Mas, afinal, tendo criticado os estimáveis padres, não estou eu também a gastar cera com tão ruim defunto?

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Malefícios da net?

De vez em quando, há um tsunami na net que nos invade o computador. São dezenas de mensagens ou referências a uma mesma mensagem, amplificada porque parece bem, mesmo que sem confirmação da sua veracidade. Aconteceu hoje, mesmo em blogues ou facebooks sérios e rigorosos, com a “carta aberta aos povos europeus”, de Mikis Theodorakis. 
Talvez por dedicar algum tempo, com os meus alunos, a exercitar o rigor de crítica da informação, tenho algum cheiro para fraudes da net. Neste caso, cheirou-me mal. Toda a gente copiava o mesmo texto. Todos referiam a mesma origem. Ninguém referia o original, só o texto em português. O texto era truncado, pobrezinho, tosco. Pareceu-me claramente uma daquelas coisas típicas em que alguém se esconde atrás de um nome respeitável, como já houve textos célebres da “autoria” de Pessoa, Drummond, João Ubaldo, Mia Couto.
Da forma mais elementar nestas coisas, googlei. Sempre a mesma coisa, sempre a mesma origem. Passei para inglês, nome do MT, “letter”, mais algumas palavras chave do texto, passadas para inglês em várias versões, nada! Finalmente, fui ao sítio de MT. Nada!
Estou enganado? Admito sempre esta hipótese, mas peço que me mostrem que estou. Entrem nos comentários.

P. S. (7.11.2011) - Como se vê no comentário de hoje, de José Carlos dos Santos, estava enganado. Obrigado pela correção.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Renego esta "esquerda"!

Se alguém tem dúvidas sobre a raiz do mal, sobre o reino de trevas que a besta apocalíptica está a construir, sobre toda a sabedoria oculta que dos templários às sociedades secretas manda hoje em Davos, sobre tudo o que ignoramos de ensinamentos de Dan Brown e de José Rodrigues dos Santos (hélas, também de Fernando Pessoa), leia-se isto.
“Todos os antecedentes desta Nova Era estão lançados ou funcionam já. Há políticas altamente complexas, como as que intervêm na crise financeira internacional, no terrorismo, nas área do gás e do petróleo, etc., que necessariamente estão a ser já coordenadas por um único governo oculto. As grandes disputas financeiras que convergem nos benefícios das grandes fortunas e nas mega fusões, nas troikas ou nas guerrilhas entre os mercados denunciam a existência actual de gigantescas centrais capitalistas articuladas entre si.”
E mais:
“A rede conspirativa que se vai instalando na terra tem claramente origem em formações capitalistas proclamadamente religiosas. Basta olhar-se para o esquema organizativo que vai chegando ao conhecimento público para nele se reconhecer a mãozinha sinuosa dos jesuítas e dos illuminati maçónicos.”
E ainda:
“Dá-se como certo que na base deste tenebroso programa final figuram os sionistas, o Vaticano e a Maçonaria. Nada custa a crer que assim seja: o plano actual da Nova Era tem as marcas do «Apocalipse», das ambições planetárias ilimitadas dos grandes estados ocidentais, das alfurjas das caves do Vaticano e da Maçonaria e das tenebrosas ordens secretas, laicas ou religiosas.”
O artigo começa por uma epígrafe misturando, em monstruosidade intelectual, três citações, uma de Engels (ao menos não foi de Marx, muito mais meu querido),  outra dos “Protocolos dos Sábios de Sião”, outra de Bento XVI.
Sabem certamente o que é o tal “protocolo”:  uma coisa indigente, rupestre, que foi um dos pilares do anti-semitismo nazi. Datava de bastante antes, coisa forjada pela polícia secreta do czar, a justificar os pogroms. Depois, o holocausto. E depois, segundo este articulista?
Mas onde é que este vómito, de um tal Jorge Messias, foi escrito? Quero crer que não vos passa pela cabeça: no número 1978, de 27 de outubro de 2011, do Avanteo órgão oficial do PCP.

P. S. - Há poucas pessoas, e sempre de grande nível, que me despertam "mixed feelings". Cunhal, que só conheci distantemente (como quase todos os membros do PCP da minha geração), é uma delas. Talvez esteja a ser ingénuo mas parece-me que, com ele vivo e atuante, um artigo destes nunca teria passado. Sinais dos tempos. Não é que todo o estilo e esquema cunhalista não devesse ter sido substituído, mas o problema é que a substituição deixou quase tudo na mesma sem alguns aspetos de grandeza que havia.

Democracia sim, mas há limites!

Toda a “Europa” está à beira de um ataque de nervos com o anúncio do referendo grego. Depois de dois anos de economia moral, a castigar os malandros, de tergiversações sobre o resgate atempado, se é que mesmo então resultaria, depois de uma solução a 21 de Julho postergada até agora e uma solução coxa, depois de tempos e tempos de tolerância - senão verdadeiro estímulo - a atitudes xenófobas e nacionalistas dos cidadãos de triplo-A, eis que agora são os gregos que devem pensar e atuar de acordo com coisa tão evidente (!) como “estamos todos no mesmo barco, nenhum país pode decidir sem os outros, não podem por em risco o euro, etc.”
Como acabei de ouvir Fernando Santos, correspondente da SIC, “como é que os gregos podem querer fazer um referendo quando estão dependentes da “ajuda” europeia? Provavelmente não haverá referendo porque a “Europa” vai fechar-lhes a torneira e eles nem salários poderão pagar”. Gente como este jornalista não faz ideia do que é ter-se coluna vertebral.
Como já tinha acontecido com Sócrates chamado a Berlim, como um embaixador de um pseudo-estado é chamado às Necessidades, agora lá foi Papandreou convocado a Cannes pela hoje indiscutivelmente única autoridade europeia, o casal Mer-k-osy.
Toda esta gente enche a boca com a palavra democracia. A democracia serve para tudo. Serviu para bipolarizar o mundo, serviu para derrubar libertadores como Mosaddegh, Sukarno ou Lumumba, serve para guerras de agressão. Mas, se levada longe, já se tenta fugir a ela ou torneá-la, como tentando evitar referendos sobre os tratados europeus. Agora, sem dúvida, para o que a democracia não pode servir de forma alguma, seja como vontade popular no berço da democracia, é para abalar minimamente os alicerces ou por em questão os dogmas do sistema económico.
NOTA 1 - Deixo de lado alguns outros aspetos, como o de me parecer, embora leigo, que, ganhando no referendo a recusa do plano da semana passada ou mesmo perdendo por pouco, o euro tem os dias contados e a incapacidade importadora dos periféricos europeus vai fazer-se sentir no bolso dos bons alunos do norte e centro.
NOTA 2 - Politicamente, Papandreou jogou uma grande cartada. Mesmo que, cinicamente, se possa pensar que ele apenas quis salvar a face, despachando para o eleitorado a responsabilidade do que inevitavelmente se prepara como desgraça, fosse coimo fosse, teve razão. Mais razão ainda se é verdade que, como afirma, avisou disso os seus colegas europeus, antes de eles anunciarem o plano da semana passada.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Dívida boa e dívida má

Escreveu-me um amigo a pedir-me opinião - amabilidade de amigo, já que não sou especialista - sobre a possibilidade de, em vez do corte puro e simples dos subsídios, eles serem convertidos em títulos do tesouro. Já há bastante tempo, quando os juros no mercado primário da dívida começavam a ultrapassar o limite então tido por perigoso pelo ministro Teixeira dos Santos, 7% (onde isso já vai…), outro meu amigo escrevia numa das suas habituais crónicas injustamente esquecidas num jornal de província que ele subscreveria de bom grado dívida pública a menos 2 ou 3% de juros do que isso.
Então, porque não? Desde logo, admito, por mesmo a capacidade máxima de aforro interno ser muito inferior às necessidades de financiamento. Mas nunca esse aforro, mesmo que menor, pode ser negligenciado, até por razões políticas e de empenho nacional.
Novamente, então, porque não? Vêm-me à cabeça algumas razões. Primeiro, o governo, e também o anterior, são de gente formatada ideologicamente e culturalmente para sobrevalorizar o mundo da finança, como se o dinheiro de um banqueiro viesse com mais perfume do que o de um pequeno aforrador. Além de que negócio arrasta negócio e é “bom” centrar as relações económicas do governo na banca - ainda por cima com o seu charme discreto, quando até já se queixam os “cavalheiros da indústria”.
Segundo, estes governos não têm capacidade de mobilização do espírito patriótico - no bom sentido do termo - que poderia transformar esta operação de compromisso nacional com a dívida em coisa com grande significado político e económico. Era preciso que o Zé, com uns poucos milhares de euros a investir, visse que isso iria ser usado em proveito do país, do seu crescimento económico, da competitividade do seu “capital humano”, em combate ao desemprego.
Finalmente, era preciso uma mudança radical da preocupação principal: diminuição do défice orçamental ou diminuição da dívida nacional externa (não só da dívida pública externa)? Obviamente,  está a dar-se muito mais importância ao objetivo de redução do défice. É claro que a emissão de dívida interna não resulta em diminuição do défice orçamental (a não ser, e pode ser muito, por redução dos juros e, logo, do encargo da dívida). Também não reduz o montante total da dívida. Mas reduz a dívida externa. É preciso ser-se economista de serviço televisivo para se perceber isto? E quem se senta no sofá a ver na TV esses tais não pode pensar nisto?
NOTA - Recordo vagamente, mas não consigo confirmar, que em tempos idos, princípios dos 80s, houve uma coisa deste género, pagamento do subsídio de Natal em títulos do tesouro. Ou estou enganado?

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

La donna e mobile

Opondo-se à proposta do PCP de reestruturação da dívida, o ministro Álvaro afirmou na Assembleia da República que “nem precisamos de olhar para outros países para pensarmos no que aconteceria com uma reestruturação da divida desordenada, seria trágico para Portugal”.
Há pouco tempo, alguém tinha escrito num livro com sucesso, “Portugal na hora da verdade” (ed. Gradiva, 2011, pág. 282). Citei-o numa entrada anterior
“Finalmente, há ainda a possibilidade de reestruturar a dívida dos países em dificuldades, com uma possível insolvência parcial de um ou mais países e/ou o reescalonamento e a renegociação das dívidas soberanas nacionais. Neste caso, os países em dificuldades tentariam não só aumentar os prazos de pagamento das suas dívidas, mas também conseguir melhores facilidades de pagamento. Como? Quer através da redução das taxas de juro ciadas às suas dívidas, quer inclusivamente renegociando montantes do endividamento. Por isso, neste caso, os detentores das obrigações desses Estados seriam forçados a partilhar os custos da reestruturação da dívida. Esta é, de facto, a hipótese provável e, porventura, também a mais desejável.(…) É possível e até provável que não consigamos evitar uma reestruturação das nossas dívidas. (…) perante o terrível leque de opções que enfrentamos, (…) a solução menos má parece ser a da reestruturação das nossas dívidas.” [JVC - itálico meu]
Quem escreveu isto foi o professor Álvaro. O mesmo que é o ministro Álvaro, a menos que haja aqui um caso esquizoide de dupla personalidade.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

As mordomias dos políticos

Anda por aí grande alarido com as mordomias dos políticos. Ministros com casa em Lisboa que recebem subsídio de deslocação; mas hoje, principalmente, grande “caxa”, as subvenções vitalícias aos políticos. Eu compreendo que gente com perda de subsídio de férias e de Natal se indigne, mesmo que essa indignação não dê nada, porque continuarão a votar no centrão, porque nem se lhes passa pela cabeça sair à rua nas manifestações que cada vez mais serão muitas. Eu compreendo que é mais fácil a indignação sobre este tipo de coisas do que sobre coisas complicadas como o ditame de austeridade troikiano, ou a alternativa de reestruturação da dívida, ou a crise do euro.

Repito, compreendo esta indignação. Espero que ela possa contribuir para a sua superação dialética como programa de mudança. No entanto, o que esta a indignação muito elementar e pouco informada também poderá dar - tenho medo - é alimento ao populismo, à demagogia, ao niilismo de que se fizeram os fascismos. Até com maioria eleitoral dada por gente que achava que os monstros anunciados não eram também políticos e do pior - como se, mal comparando, Medina Carreira, o guru que se cita diariamente em todos os programas de palavra ao ouvinte, não tivesse sido político e não o seja hoje até à medula. 
O que não compreendo é que não venha ao de cima coisa tão elementar como é a surpresa com o que esta história mostra de muito mais grave. Não a corrupção dos políticos, mas sim a sua abismal mediocridade. Não a indignação do Zé, mas a sua visão popular rasteira, mas também patuleia (cuidado!), de pão e copo de vinho, na taberna de província. Não o grande caso político, mas sim a pequenez do caso.
Quanto era o tal subsídio dos ministros? Um pouco mais de 1000 euros. Quanto é a tal mordomia dos políticos (fora o caso aberrante de Melancia, coitado, falido, e com a coisa bizarra no passado de ter ofendido os chineses com a sua noção pequenina do dinheiro)? 2000 a 3000 euros mensais. É claro que é imenso para o pensionista que vai perder os subsídios por ter uma pensão de metade ou um terço desse valor. 
Mas o que é isso em percentagem do rendimento de pessoas como Bagão Félix, Dias Loureiro, António Vitorino, Armando Vara, Rui Gomes da Silva, Ângelo Correia, Duarte Lima, Jorge Coelho, Ferreira do Amaral, Zita Seabra, Álvaro Barreto,  todos os referidos nas notícias de hoje? É gente que provavelmente recebe por mês 10.000, 20.000, muitos mais euros.
Como é que se deixam manchar por tão mixoruca fração dos seus rendimentos? Um vigésimo dos seus rendimentos valem o risco de serem expostos em público, quando uma das regras dos grandes dos negócios é saberem ocultar-se? O problema destes políticos não é o de serem corruptos. É o de serem estúpidos! E nisto incluo a arrogância de quem nem pensa no juízo dos outros, de quem se sente superior e impune. Porque a maior forma de estupidez é pensar-se que todos os outros são estúpidos. É por isso, principalmente por isto, que merecem serem expostos no pelourinho da opinião pública e da crónica nacional, infelizmente longa, da mediocridade dos Abranhos e Gouvarinhos.

O suicídio da Europa?

A cimeira europeia de amanhã continua agendada, mas não se percebe como será profícua quando os ministros das finanças já anularam a reunião prévia, essencial, que devia realizar-se amanhã de manhã. Se os ministros dão este sinal de desentendimento, quanto à reestruturação da dívida grega, à recapitalização dos bancos e ao aumento dos recursos do FEEF, como esperar que a cimeira resulte?
Como trocadilho a Churchill, “nunca, na história da Europa, tantos sofreram tanto por causa de tão poucos”. A praga do neoliberalismo acabou por contagiar a política. A política europeia é “um bairro onde miam gatas e o peixe podre gera os focos de infeção”. Não há memória de tão grande coleção de medíocres, figuras menores, a governar com cada vez mais poder (dos outros, dos senhores da finança!) este pequeno mas enorme canto do mundo.
As grandes economias, desde logo os EUA e a China, têm estado a observar com preocupação o triste espetáculo europeu. Claro que se moderarão, levarão ao limite a sua paciência; sabem que, na globalização, todos dependem de todos. Mesmo assim, com o fogo a chegar às suas casas, não esperarão que os bombeiros da Europa apaguem lá na sua área o incêndio que ameaça ser planetário. Esses bombeiros estão a dormir ou não atendem o telefone quando a Casa Branca chama, em desespero. Também os emergentes não esperarão. Não sou economista, mas creio que não é preciso sê-lo para se acreditar que daqui a dias o G20 vai decidir o que tem de fazer, com ou sem Europa. Infelizmente, palpita-me que sem Europa.
NOTA - Como se vê, estou a fazer futurologia próxima, em relação a amanhã. É coisa de que gosto, como exercício. Não faz mal nenhum eu enganar-me, antes pelo contrário.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Conhecem algum "nerd"?

Nerd - é um termo que descreve, de forma estereotipada, muitas vezes com conotação depreciativa, uma pessoa que exerce intensas actividades intelectuais, que são consideradas inadequadas para a sua idade, em detrimento de outras atividades mais populares. Por essa razão, um nerd muitas vezes não participa de atividades físicas e é considerado um solitário pelas pessoas. Pode descrever uma pessoa que tenha dificuldades de integração social e seja atrapalhada, mas que nutre grande fascínio por conhecimento ou tecnologia.
A expressão é utilizada desde o final da década de 1950 no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Na década de 1960 difundiu-se a sua conotação pejorativa, aplicado a pessoas com inteligência geralmente acima da média, com alguma dificuldade em se relacionar socialmente, e que não obedece aos padrões da sociedade - principalmente físicos e intelectuais - tornando-se uma pessoa marginalizada, tímida e solitária. 
(…) "Existe uma relação entre ser esperto/inteligente e ser nerd, ou melhor, há uma correlação inversa maior ainda entre ser nerd e ser popular. Se ser esperto parece fazer a pessoa não popular" de forma análoga vem a conotação pejorativa.
(…) Apesar de serem uma tribo urbana, pode ser difícil reconhecê-los no dia-a-dia pois, ao contrário das outras tribos, não tem um estilo facilmente reconhecível à primeira vista, porém com um convívio prolongado, é possível claramente diferenciá-los. Tampouco gostam dos mesmos tipos de música, e nem todos frequentam os mesmos lugares (apesar de uma grande parte frequentar convenções de quadrinhos e ficção científica ou mesmo, preferirem ficar em casa envolvidos em suas atividades).
Mas é importante ressaltar que nem sempre os nerds querem isso para suas vidas, uma certa faixa da respectiva população nerd busca mudar para o grupo considerado antónimo dos nerds, os populares, fazendo-os usar o seu dom para isso, a inteligência, desse modo o nerd analisa todo o funcionamento da sociedade e porque ela é assim. Isso costuma acontecer com os adolescentes, que por terem tido uma infância controlada pelos pais, não souberam como agir com a sociedade no começo da adolescência, ficando assim sozinha, tendo que apelar para coisas do mundo nerd.
(…)

Ao ser convidado por uma escola para dar uma palestra, o bilionário Bill Gates, uma das pessoas mais ricas do mundo, leu para os alunos 11 regras. A última delas se refere aos nerds: "Seja legal com os NERD's. Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar para um deles."
(Adaptado de uma entrada - brasileira, como se vê - na Wikipedia)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Pela boca morre o peixe (II)

O ministro da Economia, o Álvaro, como quer ser chamado à maneira de académico canadiano pré-ministro, ficou muito conhecido por livros até muito interessantes, escritos em linguagem simples, a explicar a economia. No último, “Portugal na hora da verdade”, um dos seus cavalos de batalha, e muito bem, foi a denúncia do escândalo, porventura fraudulento, das parcerias público-privadas (PPP).
Vê-se agora na proposta de OE que os encargos líquidos das PPP para 2012 vão baixar 35%. Parece muito, mas ainda ficam 1036 milhões de euros de compromissos, só num ano. E se pensarmos nos compromissos totais, pelos anos fora, não só para este OE, são 26 mil milhões de euros. Não desvalorizando a redução de 35%, acho que pode ser vista como muito, mas também como muito pouco para estes meses de governação de um ministro que considerava antes as PPP como um cancro da economia portuguesa. Eu bem disse que pela boca morreria o peixe.

sábado, 15 de outubro de 2011

Porque ficaram em casa?

100.000 em Lisboa, segundo a organização? É errado e contraproducente inflacionar a dimensão de manifestações e comícios. Descredibiliza o valor intrínseco do acontecimento, é tiro no pé em termos de propaganda. Sempre disse isto na minha vida político-partidária de há muitos anos, mas tendo dissabores com essa posição. Eram tempos em que se enchia o Terreiro do Paço com meio milhão de pessoas (cheguei a ler um milhão), quando a coisa é de simples aritmética: 4 pessoas por m2 (e é bem apertado), 170 m de lado da praça, contas redondas 115.000 pessoas atulhadas. Muito longe de um milhão.
A manifestação da “geração à rasca”, de 12 de março, foi dita como de 300.000 pessoas. Mesmo que tenha ocupado toda a zona central de toda a Av. da Liberdade, e com uma média de 1-1,5 pessoas por m2 (o que é muito para uma manifestação, teria de ser compacta), são 1500 m x 40 m x 1,5, logo 90.000 pessoas.
Isto para diminuir um pouco, em termos comparativos, a minha tristeza e preocupação com a manifestação de hoje em Lisboa. Inegavelmente, foi fraca e é preciso perceber-se porquê. Desta vez estive lá e pude contar, com algum jeito que tenho, quer pelo método da contagem centena a centena, o que é fácil, quer pelo método da conversão do tempo de passagem em número de manifestantes (5 pessoas por segundo). Descontando as pessoas que estavam no passeio e que provavelmente se foram integrando na manifestação, não se chegou a 10.000 manifestantes. Praticamente um décimo da manifestação de 12 de março. É pouco e faz pensar.
Coisa evidente era o perfil largamente maioritário dos manifestantes, coerente com o que se conhece dos grupos que a convocaram: muitos jovens, com a aparência quase estandartizada de símbolos (vestuário, adornos, piercings, rastas) de uma postura de protesto (claro que não estou a criticar). É hoje uma grande camada social de excluídos, sabemos que em muitos casos de nível cultural e académico alto - o que permite pensar que também de bom nível social e económico (claro que com isto não estou a negar a sua justeza de luta, estou só a tentar uma análise com atitude de objetividade).
Não vi notoriamente aquilo que saltaria logo à vista como o ar típico do manifestante de há dias, da CGTP. Sei que me podem acusar de estar a fazer uma apreciação impressionista, mas creio que, com a devida margem de desconto, é válida. À primeira vista, isto é muito estranho. 

A “geração à rasca” ou os “indignados” provavelmente não são um conjunto muito elástico, em termos de reação aos fatores de momento. Saíram à rua os do 12 de março, estiveram no Rossio, voltaram hoje a sair, talvez um pouco mais, mas com motivações já sedimentadas. Não são, diretamente, os mais afetados pela brutalidade das medidas austeritárias, quase de sadismo político ou de autismo de economistas fanaticamente ortodoxos, que foram agora anunciadas. Por isto, esperava que a manifestação engrossasse enormemente com aqueles que, se ainda não sabiam, acabaram de saber agora o que vão sofrer. Afinal, ficaram em casa.
Os novos movimentos jovens têm alguma responsabilidade num certo divórcio com todo o grande movimento social convencional. É natural, ainda são inexperientes, embora a falta de consciência dessa inexperiência e até todo um "patronizing" hipocritamente disfarçado de embevecimento por parte de gurus e de jornalistas os possa levar - espero que não - a alguma arrogância. Estou a ser senilmente sobranceiro? Admito.

A sua linguagem e postura é muitas vezes quase iniciática ou grupal e alguns dos seus “slogans” são duvidosos para muita gente, mesmo que os fundamentos da revolta sejam aceites por essa muita gente. Por exemplo, hoje, a manifestação ia cheia de cartazes a apelar a uma democracia direta que ninguém discute a sério e que se sabe, na teoria e na prática, que tem muito a discutir (a começar pela diferença para uma democracia participativa). De cartazes pouco sensatos do tipo “temos fome, vamos comer os ricos”. Pior, por toda a parte a rejeição absoluta e generalizada dos partidos. E outras manifestas palavras de ordem populistas, com os riscos que a história nos ensina.
Assim, é de admirar que militantes ou simpatizantes de partidos de esquerda não se tenham sentido atraídos por esta manifestação? Ou que até, para a desvalorizar, algum partido tenha passado palavra para não ir lá o seu pessoal? A atitude anti-partidos de muitos dos novos grupos de ativismo político (daí a movimentos ainda vai alguma distância) é infantil e sectária. Até posso citar um caso próximo de mim. Como podem ver ao lado, destaco, com muito interesse, um grupo político de que me sinto próximo, o Convergência e Alternativa. Não foi tido como promotor desta manifestação, pela simples razão de, numa declaração sem grande importância, um dos seus ativistas - sem a responsabilidade de porta-voz ou dirigente, coisa que este grupo não tem - não ter rejeitado (repare-se na diferença, não foi afirmar, foi não negar) que um dia o grupo pudesse pôr a hipótese de conversão em partido.
Outra possibilidade a justificar a falta de adesão à manifestação é a da anestesia, do martelo pilão da  indoutrinação e desinformação sobre a crise, a causar tal perplexidade que as pessoas ainda não caíram em si, “ainda não são gregos”. Afinal, 80% votaram há meses na troika interna, convencidos da inevitabilidade da política de austeridade demencialmente levada ao limite. As pessoas estão atordoadas, mas vão acordar. A menos que vingue o atávico fatalismo português.
E essa do martelo pilão é coisa que tirei de um artigo de hoje de Pacheco Pereira. Quem diria! Amanhã ou depois falarei sobre isso. 
Nota - Afinal, embora provavelmente sem a concordância dos promotores, a manifestação não foi completamente apartidária. Lá iam, bem identificados com faixa e cartazes, uma dúzia de MRPPs, com destaque para o revolucionário do iate, Garcia Pereira, a quem a televisão brindou com mimo especial.

P. S. (17.10.2011) - Lembrei-me agora. O grande sucesso de 12 de março e a saída à rua de outros tantos ou mais de gerações mais velhas do que os "à rasca", ao contrário de ontem, não terá tido muito a ver com a época do ódio a Sócrates? Passos Coelho ainda não teve tempo para despertar essa reação e até tem a seu favor um estilo diferente, mas que se cuide.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Um banco vale mais do que um país?

O estado belga que parece que nem é bem estado acaba de resolver o caso (nem digo escandaloso porque o adjetivo está tão vulgarizado que já perdeu força) do banco Dexia, comprando-o por 4 mil milhões de euros (mM€). Ao mesmo tempo, para poder garantir os depósitos, abriu com a França e o Luxemburgo uma linha de crédito de 90 mM€. Estranho que não esteja em causa qualquer coisa de recapitalização do banco, mas deve ser ignorância minha, de leigo. É que basta comprar o banco e garantir por valor muito mais alto os compromissos, sem recapitalizar? Fico a pensar que, afinal, quando dirigente de organismo, nunca aprendi nada de contabilidade, de ativos e passivos.

Esta é a primeira razão de espanto. Um banco vale 4 mM€ mas tem riscos de débito de mais do que 20 vezes mais. Na prática, o esforço financeiro do estado comprador, neste processo especial de nacionalização, é de uma aquisição de capital a preço efetivo muito superior ao que corresponde ao verdadeiro proveito público, em termos de posse do banco. Os seus acionistas privados, depois, na reprivatização, vão reaver o seu capital ao nível proporcional dos tais 4 mM€, sem entrar um tostão para a proteção dos depositantes, os tais 90 mM€. Ou sou eu, não economista, que estou a ver mal? Admito, sou leigo.

E fiquei a pensar nestes números por comparação com o que aqui nos vai pela casa. Por exemplo, o BPN. O valor do banco, a valer para a sua privatização, foi de 40 milhões - 0,04 mM€ para usarmos a medida acima. Mas já os contribuintes entraram, a vários títulos, com coisa como 4 mM€, se não estou em erro. 100 vezes mais do que o valor do banco, assim como os belgas, franceses e luxemburgueses se comprometeram hoje com 22,5 vezes o valor do Dexia. A ver vamos se não chegarão também às 100 vezes. Se não me engano, as nossas 100 vezes começaram por 15 vezes (600 M€).

Pensemos também na "ajuda" que recebemos da troica. 78 mM€! Não é zero a mais ou a menos, é mesmo menos do que os tais 90 mM€ do Dexia. É o que vale todo um país, menos do que a linha de crédito para salvar um único banco franco-belga. As pessoas não estão a pensar no que representa o poder e o volume do setor financeiro (e só falo dos bancos, nem sequer dos investidores mais ou menos ocultos) em comparação com aquilo que é mais visível, a economia dos estados, os seus défices, as suas dívidas.

Dos tais "nossos" 78 mM€, os "responsáveis", isto é, nós todos, estamos a pagar a fatura com impostos, cortes nos vencimentos, metade do subsídio de Natal, aumento do IVA, da conta da eletricidade, dos transportes. E os banqueiros do Dexia o que é que vão pagar? E não irão até lucrar quando reouverem na reprivatização o banco depois de o dinheiro dos contribuintes, na nacionalização, ter salvo e possivelmente valorizado o banco, com isso valorizando a sua carteira pessoal de ações do banco?

Nos nossos 78 mM€, 12 podem ir para recapitalização da banca. Sabe-se que ela está com a corda na garganta, embora aparentemente protegida das bolhas com que "subprimes", bancos islandeses, espanhois e irlandeses, Dexia e outros nos rebentaram a crise na cara. Mas nenhum banco português estará mesmo na situação do Dexia? Não sei, não sou economista, mas tenho espírito de Zé para desconfiar. Porque é que precipitaram o recurso à troica e agora resistem ao máximo à recapitalização?

Claro que não querem a consequente nacionalização, mesmo que por um estado atento, venerador e obrigado ao capital e principalmente ao capital financeiro, aquele nas mãos de "gente fina é outra coisa!". Não querem, nem que simbolicamente, um administrador nomeado pelo governo, mesmo que tão-financeiramente-tão ortodoxo como eles. Não querem arriscar o rearranjo das relações de poder e da repartição das participações sociais. Não querem jogar na imprevisibilidade do seu peso na altura da reprivatização (porque, não se esqueça, estas privatizações hoje espantosamente "aceitáveis" - ah! PREC! - são sacrifício sempre provisório e quanto mais provisório melhor). Porque afinal eles são medíocres, são tacanhos, são provincianos, como provinciano é todo o mundo político, económico, até académico, que faz esta choldra.

Mas tudo vai bem na frente ocidental! Como sempre entre nós, mesmo quando, com ou sem feliz luar do lado de cá, sempre havia do lado de lá, em Paquetá, uma perninha, de frango ou de galinha.