sexta-feira, 22 de abril de 2011

Não sou precário, mas sou solidário

Está disponível na net, para subscrição, uma iniciativa legislativa de cidadãos, com uma proposta de “lei contra a precariedade”. Claro que vou subscrever. É pena que não possa ser “online”, mas são os formalismos legais. 
Algumas pequenas notas. Primeiro, pequenas propostas de alteração que eu e outros fariam, eu porque tenho dúvidas pontuais e de pormenor, só iriam ser pau na engrenagem e, aliás, em tempos de guerra não se limpam armas. Segundo, foi precisa a iniciativa dos grupos difusos que, depois do 12 de março, estão a confluir para um movimento mais organizado e mais eficaz, porque os partidos de esquerda não conseguiram propor tão simples lei. Terceiro, é um exemplo, sem demagogia ou populismo, de democracia real (prefiro a expressão à mais duvidosa “democracia direta”).
É fácil adivinhar-se que a proposta não passará. É fácil anteciparem-se todas as críticas acomodadas, de que tudo o que for agora contra a “flexibilidade” do mercado de trabalho vai contra o objetivo essencial de redução da dívida, redução esta por maior movimento de exportações com maior competitividade e “desvalorização interna”. Mas nunca a quase certeza da derrota me fez desanimar, muito pelo contrário. E, afinal, no dia 25 de Abril de 1973 (1973, não é gralha), não havia quase a certeza de ainda muitos anos de repressão e guerra?

A tempo: e "a coisa" está a crescer! Agora são "os 74 nascidos depois de 74". Leiam!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Quem vai ganhar as eleições?

Quem vai ganhar as eleições? Sem dúvida, o partido FEEF/BCE/FMI. Mas pensemos agora nos seus “boys”, tal como se vê pela última sondagem Marktest. Lendo e analisando a ficha técnica, muito teria a dizer, mas, “ad usum lectori”, aceite-se que o empate técnico PS/PSD, com o PS até um pouco à frente, justifica conversa mesmo que sem rigor estatístico.
Eu não dizia? Nada me garantia que Sócrates (JS) fosse penalizado pela sua visceral aldrabice. É sabido que, em situações de crise, os eleitores se partem entre a revolta contra o governo aldrabão que conhecem e o medo do governo alternativo que desconhecem. Muitas vezes vão pelo seguro, e mais neste caso em que o mano jota Dupond coelhinho não é assim tão diferente do mano jota Dupont sapatilhas. Afinal, são ambos clientes Armani, são ambos aldrabões, são ambos cultural e intelectualmente medíocres. E quando o coelho só está a fazer asneiras, até de “nobrezas”, mesmo a mentir tanto como o outro Pinóquio, venha o diabo e escolha.
Deixo claro que tudo isto me é completamente indiferente. PS (desculpem lá, amigos PS da animação folclórica do partido), PSD e CDS vão a eleições sei lá com que diferença, porque o seu programa - comum! - está definido pela “troika” (raio de nome; sabem quando foi inventado, com base nos cavalos do carro russo tradicional? Coisa de má memória, Brejnev-Kossiguin-Podgorny).
No entanto, não me é indiferente em termos de analista, de tipo espertalhaço que gosta de brincar com cenários. Esta última sondagem põe o PS ligeiramente à frente, embora com empate técnico e com 36% de indecisos. Mas o simples facto de estar PS/JS à frente tem efeitos futuros, de mobilização partidária e de atração dos eleitores, daqueles que gostam de, na noite das eleições, dizerem à Maria “tás a ver, sou esperto, ganharam aqueles em que votei”. Quanta gente vota principalmente em função das sondagens, porque querem estar no clube ganhador, psicologia de futebol? Dizerem ufanos aos amigos, no dia seguinte, “é pá, ganhou o partido em que eu votei”.
É inteiramente razoável prever que o PS pode ganhar. Se o PS ganhar, este PS saído de congresso norte-coreano, com um Sócrates execrado por toda a gente e inaceitável como parceiro pelo PSD e pelo CDS, abre-se uma crise política inimaginável, como já discuti. Será o PR a forçar uma coligação tripla. Serão todos os "manifestistas” bem pensantes a exigi-lo. Virão também na procissão Merkel, Juncker, Trichet, depois os nossos banqueiros. Serão as agências de “rating” e os grandes especuladores sobre a dívida a darem logo sinal.
Como o PR não pode dissolver novamente a AR recém-eleita, convida JS a formar governo. Pode ser que ele o consiga, porque este país é louco. Provavelmente não consegue e Cavaco indigita o PSD, que também não consegue, e a seguir um seu fiel (Manuela, Catroga). Com toda a pressão sobre os partidos, com os homens da pasta preta a dizerem "Manuela, Catroga", eles até amocham. É a tal magistratura ativa a começar. Passamos a ter um presidente-rei (à Sidónio) com um governo tecnocrata de estrangeiros cinzentos, a manejarem marionetes caseiras mais coloridamente folclóricas, Arlequim, Polichinelo e, claro, para disfarçar, Ferrabrás. Os militantes socialistas, que votaram a noventas por cento em Sócrates, que berraram no congresso que estavam com o querido líder, não percebem em que buraco meteram o seu partido e o país?
Finalmente, uma nota sobre os dados desta sondagem em relação aos partidos do “não”. O PCP cresce, a nível de empate como terceiro partido. O Bloco desce 2%, é quase tão penalizado como o PS. Ninguém pensa que o PCP tem um programa eficaz para a saída da crise, mas “o partido” (é importante lembrarmos esta referência que vem de trás, para comunistas ou não, “o partido”) aguenta-se sempre, porque ninguém o acusa de aldrabice, de malabarismo político, de contorcionismo. São o que são, lamentavelmente, mas são honestamente o que são, coisa de que ninguém está bem certo em relação ao BE.

Pode não haver pão, desde que haja futebol

Isto é o tal "viver acima das posses". Não é tanto o coitado do Zé, mas ele tem culpa quando clubaliza a sua alienação e, sendo adepto, como os do Marítimo na Madeira, permite isto: "A SAD do Santa Clara, clube da II Liga de futebol, anunciou ter regularizado o pagamento dos salários aos jogadores, após ter recebido verbas do Governo regional dos Açores."

Com consciência dos riscos de vindicta política, de falta de isenção no julgamento, começo a pensar se atos irresponsáveis, contra a bolsa dos contribuintes, por parte dos dirigentes políticos só devem ser julgados politicamente, em eleições, ou se não devem mesmo ser julgados criminalmente.

É triste, a degradação...

Não dá para acreditar! Continuando a desvariar, sem perceber como a imprensa o está a aproveitar tristemente, Otelo volta a falar, agora em entrevista ao Jornal de Negócios, sintetizada - a meu ver corretamente - nesta nota do Público:
Otelo Saraiva de Carvalho afirma que o país precisava hoje de um homem com a inteligência e a honestidade de Salazar. Em entrevista ao Jornal de Negócios o capitão de Abril afirma, recusando a ideologia fascista do ditador, que não há políticos hoje com um perfil assim.
“Falta-nos quem saiba orientar o povo com honestidade, generosidade, com espírito de missão. Salazar foi uma pena, porque era um crânio em economia e finanças, podia ter feito maravilhas pelo povo, mas era um tipo de miopia política.”

Cada um pode dar o exemplo

Em greve original, surrealista, eu, se fosse funcionário público, recusava a benesse demagógica da tolerância e ficava hoje à tarde a trabalhar (5ª feira), assim como vou trabalhar para a minha instituição privada, bem como a minha mulher para o seu "patrão" empresa multinacional que até tem uma verdadeira política estimulante e recompensadora de pessoal, sem oferecer amendoins destes (porque é que te demitiste da função pública, há um mês? Não podias ter esperado um pouco, estavas hoje à tarde no remanso?).

Ora aí está uma ideia: ponham os dirigentes da função pública a fazer estágios em empresas de fronteira, que já cá temos muitas. Ou que o INA organize com elas os seus cursos. E, em ambos os casos, que essas empresas tenham poder para aprovar ou não os alunos, com o rigor com que segui essa recente contratação para cargo sénior que referi. Ela que conte o que foi o processo de seleção. Nem Sócrates teria sido admitido como "manager".

P. S. - E há casos extremos. Férias de Páscoa para os alunos, porque não para os professores? Entrei hoje numa universidade. Nenhum lugar ocupado no estacionamento, tudo vazio. O colega com quem me fui encontrar é carola, estava a trabalhar num edifício deserto.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Diálogo de surdos do ouvido esquerdo

“Manuel Alegre considerou ontem que o líder do PSD, Pedro Passos Coelho, manifestou "falta de respeito" pelo Parlamento e por "figuras" sociais-democratas ao prometer apoiar Fernando Nobre para presidente da Assembleia da República. (…) O que me assusta é que um candidato a primeiro-ministro tenha mostrado uma tal falta de consideração e de respeito pelo Parlamento. Falta de consideração e de respeito até por figuras do seu próprio partido que poderiam naturalmente aspirar e tinham o direito de ser presidentes da Assembleia da República". (Público)
Tem toda a razão, mas parece-me fotografia desfocada. Nos tempos de hoje, com a troika da pasta preta instalada no Terreiro do Paço, ainda há quem veja a política desta forma acaciana, redonda, convencional, lusateniense, “Forte ad Coimbram…” Tenho de estender a mão à palmatória, eu que fui membro, parece que de honra, da candidatura poética. Pergunta o meu grilo falante, que não vai em mitos de gerações heróicas, “como é possível, se a tua única justificação para nos tirares tempo, e muito bem, aos nossos grandes prazeres tardios de vida, merecidos, é a diferença de qualidade e a coerência, até a tua vingança compreensível contra o domínio da mediocridade de hoje?
É o peso enorme, merecido, a confortarmos o passado, das velhas solidariedades. Um querido amigo telefonou-me a pedir o nome, não podia recusar (?). Mas é verdade que há que distinguir os afetos, as identificações construídas ao longo de muitos anos e de sofrimentos comuns, a partilha da cultura, o prazer das patuscadas no ninho da águia - “cuidado, já são matinas e os vizinhos de baixo estão a dormir” - e a noção muito exata, no fio da navalha, do que justifica ou não algum posicionamento no espaço exterior de quem já devia viver no seu fechado apartamento de professor viscontiniano, do Albergo.
Comentei sobre isto e o manifesto abrangente, com excelentes mas insignificantes figuras do PS, no Grande Zoo. Rui Namorado, que muito prezo, respondeu-me na forma mais correta, mais educada, mais democraticamente respeitosa das opiniões alheias, mas, a meu ver, mais vazia politicamente. Percebem porque não assino o manifesto “de esquerda”?

Tenham juízo!

PCP e BE entenderam deixar o terreno do confronto acerca do resgate só àqueles que não querem nenhum confronto. Devem ter ficado encantados os homens da pasta preta. Já não iam ler os jornais dos partidos de esquerda nem os seus comunicados, agora nem os vão ouvir ao vivo a dizerem verdades; que vida fácil Lisboa de rio e sol lhes vai propiciar.

Deixei aqui manifestos o meu agrado e a minha expetativa favorável sobre o encontro dos dois partidos. O seguimento deixou-me duvidoso, esta de agora deixa-me espantado com tal infantilidade "heróica". Heróico seria ir lá ao Terreiro do Paço dizer àqueles senhores o que eles não costumam ouvir. Felizmente, Carvalho da Silva mostrou que há esquerda adulta e sensata, sem perda de capacidade de luta. Que pena que não tenha sido possível que ele se tivesse candidatado a PR!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Albergue espanhol


Não posso deixar de considerar como louvável a iniciativa de um manifesto de convergência nacional em torno do emprego e da coesão social, que foi divulgado pelo Público e que aparece no Ladrões de Bicicletas. Não fui confrontado com assiná-lo, mas sou agora, como qualquer cidadão, por ele ter dado origem a uma petição. Claro que não estou contra, já assinei coisas do mesmo tipo, bem intencionadas, politicamente corretas. Todavia, desta vez, não vou assinar, porque não contribuo para peditórios de tão boas intenções aglutinadoras que resultam em mão cheia de coisa nenhuma.
Confesso que me sinto à beira da contradição; ou melhor, de ser entendido como contraditório. Não defendi aqui, várias vezes, uma convergência de esquerda? Dirão: "afinal não é isto que consegue o manifesto, agora petição"? Mas convergência para quê? Obviamente que deve ser para um programa de ação consequente e que vá ao cerne das questões. Mas quantos “programas” se podem extrair deste manifesto, programas díspares? PCP e BE não poderão apresentar os seus programas tais quais hoje e reivindicarem correspondência ao manifesto?
O ponto crucial desta questão não será o de os promotores do manifesto terem sobrevalorizado a necessidade de meia dúzia de assinaturas do lado do PS romântico, pelas quais certamente pagaram preços? Vale a pena? Esses PS riscam alguma coisa na política atual, a começar no seu peso no seu partido? Não serão até assinaturas descredibilizantes, como é a de um Alegre depois do seu discurso no congresso do PS? Talvez tristemente, mas realisticamente, incluir o PS numa frente do “não” é tolice, por muito respeitáveis que sejam alguns socialistas.
Daí vem, em continuação, a minha pergunta: este manifesto representa “a frente do não”? Alguns bloquistas, dois comunistas marginais, dois ou três ex-PCP, dos quais pelo menos um bloguista sempre claramente na órbita de Sócrates, mas ninguém dos reformadores, mais alguma gente da cultura que está sempre à mão, para isto ou para o dos 47 (Expresso, 9.4.2011), com aquela forma particular de articulação de pensamento político que se conhece na gente da cultura, Mais uns históricos de quem ninguém sabe o que pensam desde há anos para cá ou de que agora se sabe estranhamente, como Boaventura Sousa Santos, que assina tanto este como o dos 47; mais, obviamente, alguns ativistas do 12 de março, agora as flores de estimação a enfeitar o cenário mas de quem não se conhece uma ideia.
Isto é muito bom, muito animador para quem se quer reconfortar na sua luta de poltrona, mas é “vira o disco e volta a tocar”. Senhores, quero ser lúcido e vocês continuam a pensar em antigamente, quando os nossos filhos jovens que gozam com os nossos tiques políticos convencionais já não acreditam que lhes possamos oferecer mais do que estas coisas que os fazem rir ou de que descrêem. E fazem rir, garanto, eu que sou professor de muitos jovens com quem converso. 
Claro que, sentimentalmente, acho muito positivo que se tenham congregado tantas e tão variadas pessoas para este manifesto. Simplesmente, a consequência política era inevitável e agora eu tenho de pensar é como político. Um texto bem intencionado mas vago, inerme, nenhuma bandeira de luta agora absolutamente necessária. Nada que motive os eleitores a votarem num verdadeiro “NÃO” que fica diluído em tão consensuais propostas. Mais, aposto que não se apanha uma única assinatura daqueles que saíram à rua a dizer que estão fartos. Porque também estão fartos de nem sequer conseguirem compreender o que para eles é ruído, o discurso político convencional (provavelmente, admito, também o meu).
Reparem bem nestas quatro propostas quatro, mas sem resposta ao que pergunto entre parênteses. 
1. Garantir o objetivo de promoção do crescimento económico (sector primário, secundário ou terciário, e em que proporção? Que peso de bens transacionáveis e não transacionáveis) e do emprego (duas ou três propostas concretas, façam favor, em termos do trabalho pós-taylorista e da sociedade do conhecimento e da inovação). 
2. Auditar a dívida pública (mas omitindo o que fazer com os resultados dessa auditoria - rejeitar a dívida "imoral", como eu defendo, assinam todos?). 
3. Impossibilidade de privatização da educação (não há já, e há muitos anos, educação privada? o que quero saber é como propõem "socializá-la"), da saúde (não há já saúde privada? idem) e da segurança social (não há já reformas privadas? idem). 
4. Regulação da banca e manutenção da Caixa Geral de Depósitos como banco público (em que é que a CGD é diferente do BES e companhia? Como deve ser diferente?). 
São estas as posições do manifesto, não estou a caricaturar. Já sei o que me dirão: como meter tudo o mais em uma página A4, o máximo que as pessoas lêem hoje? Para já, fazendo um “haircut” - termo bem adequado! - a muita palha preambular. É típico. Ainda há dias ouvi uma conferência com meia hora de introdução para criancinhas antes dos dez minutos finais de propostas apresentadas em atropelo. Quem hoje, com tanto que se escreve, não é capaz de saltar por cima de toda aquela introdução e subscrever propostas, seja em manifesto seja em petição, não adianta muito a não ser a fazer número "ad usum media".
Como está, é bom como plataforma abrangente, documento para a história a ler daqui a anos, à lareira, embrulhado na manta, à velha maneira unitária (aquele programa para a democratização da República, tão tosquiado por uns e outros que ficou coisa morna). É curto como programa operacional. Se o PCP ou o BE apresentarem só isto como programa, voto branco.
Eu quero mais. Vou votar daqui a mês e meio, ainda vou considerando isso tanto ou mais importante do que ir para a rua. O que é que me sugerem como indicação de voto, é esse manifesto? 
Onde é que eu leio no manifesto - claro que não podendo deixar de ser simplesmente como frases de título - as coisas que hoje mais me preocupam, como homem de esquerda que quer dar o seu voto a quem me garanta um verdadeiro NÃO? Qual é o programa para o crescimento? O que vamos fazer a banca pagar? Vamos ter compensação de usarmos alguma coisa da "ajuda" para recapitalizar a banca, vamos nacionalizar essa recapitalização, vamos impor limites à distribuição de dividendos, vamos taxar ao máximo os lucros da banca? Reestruturamos a dívida ou não, e quando e com quem? Dizemos ou não “basta” à camponesa saxónica e como? Combatemos por uma frente dos periféricos e como? Por que propostas vamos combater na UE para um sistema europeu de “rating” credível e isento? O que vamos propor e defender como revisão dos tratados em relação ao BCE, ao orçamento europeu, à solidariedade na dívida (“eurobonds”)? Que sacrifícios certamente inevitáveis temos de fazer e como os vamos explicar aos portugueses, mobilizando-nos solidariamente porque sabemos que esses sacrifícios são... para quê? Batemos o pé à "ajuda”, mas como e por que preço e como nos mobilizamos por valer a pena pagar esse preço? Estamo-nos nas tintas para os critérios de Maastricht e logo se vê, vamos a ver quem tem coragem de nos expulsar do euro, sabendo que seria o primeiro passo para a catástrofe europeia? Como falar com o Brasil e com Angola, até Timor e o seu petróleo, como acabei de ouvir pela boca de Ramos Horta? Etc.
A tudo isto, os costumes do manifesto dizem nada. Eu queria que dissessem, senão não ponho o meu nome, "clique subscrevo". Como é que economistas que muito prezo e que têm escrito coisas frontais e corajosas alinham nesta “banalidade económico-política”? Repito que compreendo que é inevitável numa congregação tão larga de subscritores. Mas é esta largueza balofa a prioridade neste momento quase eleitoral? Ou antes a clareza de posições, o definir terrenos? 
Ou, como já foi defendido, quer-se criar condições para um pseudo-referendo, embevecidos com a Islândia, mas um referendo que para ser manejável como arma política, para ser muito consensual,  acaba por ser um referendo sobre coisa nenhuma?
E não é indiferente ser só um manifesto grupal, a ganhar por 10 nomes ao do Expresso, ou transformá-lo numa petição, que obviamente se deseja assinada por muita e muita gente. Está-se a pedir quase um cheque em branco. Está-se a desvalorizar o que verdadeiramente conta, em favor da abrangência e do engano dos grandes números, dos milhares de assinaturas. Está-se a dar aos peticionários a ideia de que já fizeram o que tinham a fazer, marcar esse relógio de ponto, podem ir descansar sem exigir mais nada de propostas políticas. Está-se a dar aos partidos do “não” a boa desculpa para não terem de dizer preto no branco o que nos prometem como ação política, não só as boas intenções do manifesto/petição. Este manifesto não cumpre o que me parece ser o papel importante da esquerda independente, interventiva, bloguística, etc.: obrigar os dois partidos do “não” a dizerem, preto no branco, o que defendem como alternativa. Porque, insisto, ao menos o “partido dos brancos”, por ser só protesto, não tem de ter programa.
Fico de fora desta coisa e, apesar da modéstia de quem sabe que, neste canto, escreve para uma centena de pessoas, vou exigir mais, vou exigir mesmo respostas agudas às questões agudas. As tropas estão claramente posicionadas no terreno. Num lado, bem perfiladas, bandeiras bem desfraldadas e impantes, as direitas, nelas se contando, infelizmente, o PS agora ainda e sempre comandado pelo “querido líder”. No outro lado, a esquerda, mas infelizmente tropa fandanga, desorganizada, gentes nada amigas, mesmo atavicamente inimigas, a atropelarem-se, a assobiarem cantigas da sua rua estreita de bairro popular e a cuspirem para o céu a ver se o cuspo cai no vizinho. Mas com uns capelães bem intencionados a rezarem-lhes preces de “tão amigos que nós somos”. Para além do moderno Savonarola.
Este manifesto e esta sua derivada petição são convencionais, baços, não imaginativos. É bafio dos meus tempos juvenis de assinatura de coisas piedosas. Valia ao menos, como desculpa, que então assinatura podia dar prisão. Mas hoje, senhores, com o trio do nosso futuro governo desembarcado na Portela e engabinetado no Terreiro do Paço, é tudo o que me propõem?
E já pensaram, pensando bem, que, fosse eu Sócrates e sentindo-me espertalhaço como sem dúvida ele é, nada neste manifesto me impediria de pensar que o primeiro signatário fosse José Sócrates?
Nota - Esta caso parece-me ser um exemplo de coisa bem nossa. Temos tendência para atuar reativamente, não proativamente. Há semanas que se vem a apelar para uma ação exterior aos partidos de esquerda, a provocá-los para se verem consequências do seu célebre encontro. Todavia, na prática, toda a gente assobiou para o lado, eu também. Há uma semana saiu o dos 47. Então foi um ver-se-te-avias, a responder. Tinha de sair coisa chocha de resposta. Temo que a petição ainda mais chocha. Ainda não vi um único alerta daqueles que fazem sucesso, cadeias de mail, referências cruzadas nos blogues, mensagens no Facebook; fui lá ver e ainda vai, passado um dia, em 353 signatários. Se não se sabe fazer as coisas, é melhor não fazer! Claro que não renego a petição, aceito piamente tudo o que nela se diz, mas “hoje soube-me a pouco, hoje soube-me a pouco”.

domingo, 17 de abril de 2011

Uma questão de saúde pública

Não vou sujar este espaço escrevendo sobre Fernando Nobre. Nada nele, desde há meses, mais desde há dias, muito mais desde há uma hora (entrevista na RTP) me faz apetecer escrever sobre tal desviante da mínima normalidade ética. É um caso médico-psicológico individual de interesse, mas não se fica pelo individual, academicamente interessante. É uma questão de saúde pública

Este país é pequeno, “soturno, melancólico, a despertar desejo absurdo de sofrer”; este pequeno país a fazer sentir um ocidental, país pequeno que nem um bairro, “um bairro onde miam gatas / e o peixe podre gera os focos de infecção!
Saneamento básico desta enorme cloaca máxima que é esta gente indigna, precisa-se urgentemente. Eu, que sempre achei Guerra Junqueiro bastante ridículo, ou pelo menos definitivamente datado, começo a gostar de reler a Pátria.
“Demitam todos os políticos, já!”. Disparate perigoso, a alimentar todos os fascismos, ou, se não quiserem ir tão longe, todos os populismos objetivamente antidemocráticos. Tenho medo disto que ouço por todo o lado, mas não posso enfiar a cabeça na areia. O grito ouve-se. E, se acredito bem no papel revolucionário - isto é, de avanço da história - do povo na rua, se acho que ele não acabou em Paris de 1870, mesmo falhando depois em 1968 em Paris e em Praga, também sei que o povo na rua vai sabe-se lá para onde. 
Há dias, escrevia-me um amigo uma coisa lapidarmente simples: “a principal diferença, nesta Europa de hoje, nem é a ideologia maioritária de direita, nem a hegemonia da visão económica neoliberal. É principalmente que a geração dos grandes políticos de há vinte anos, concorde-se ou não com as suas posições, deu lugar a uma geração de arrivistas incultos. Vê só a diferença entre Delors e Barroso”.
E, com isto, vem-me à cabeça outra coisa importante. É que atrás desta gente até houve, por vezes, pessoas de qualidade que se deixaram encantar pela “eficácia” dos jotinhas malandros para lhes porem em prática as ideias. Sempre houve esta veleidade de pensadores respeitáveis. Por exemplo, não concordo muito com Anthony Giddens, mas reconheço-lhe qualidade e gosto pelo desafio de novas ideias, li com prazer crítico "A Terceira Via", anotei-o à margem, coisa que só faço parcimoniosamente. Imperdoável é que tenha sido o sustentáculo do maior e primeiro exemplo, detestável, desta nova geração de políticos Armani e telepontísticos, “ó Luís, como é que fico melhor?”. Quem? Claro que Tony Blair.
E há algum Giddens atrás de Sócrates? Se calhar, até era bom que houvesse. Mas o PS secado por Sócrates nem sequer um pensador permite. O mais académico dos socráticos, Santos Silva, degrada a imagem do professor, virando trauliteiro, José Agostinho de Macedo reincarnado (não sei é se igualmente anti-maçon...). Mais, nestes tempos de blogosfera, nem sequer um blogue PS que se leia sem desgosto.

sábado, 16 de abril de 2011

Ainda me vou espantando

1. Marinho Pinto, bastonário da ordem dos Advogados, a defender a abstenção nas próximas eleições. Chama a isto "um dia de greve à democracia". Repare-se que não apela ao voto em branco, mas sim à incivil abstenção. O representante dos nossos juristas? Ou mais um populista demagogo a perfilar-se sabe-se lá para quê? Olhe que Medina e Nobre já estão à frente na fila.

2. Uma notícia de hoje no sítio do Público, "Eleições na Finlândia não põem em causa financiamento a Portugal", interessou-me. Deixa lá ver quem diz isto, quem é que eles foram consultar, alguém a quem o jornalista chama especialista, com todas as letras. Não se acredita: Viriato Soromenho Marques, pessoa que estimo, ecologista interessado e ativista de boas causas mas, em termos de formação e atividade, filósofo e professor da Faculdade de Letras de Lisboa. Que jornal é esse?
Mas isto também levanta outro problema. Permitam, sendo feio falarmos de nós, que eu refira que são incontáveis as ocasiões, ao longo da minha vida, em que respondi a jornalistas uma coisa elementar "não conheço bem esse assunto, não sou especialista". Entre nós, um filósofo até pessoa estimável e muito inteligente não resiste ao microfone, mesmo para falar sobre as consequências das eleições na Finlândia!

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Gato por lebre, ou um artigo a encher a net

Está em foco o artigo de Robert Fishing (RF), no New York Times, “Portugal’s Unnecessary Bailout”, frequentemente em versões de tradução muito pobre ou até falsa. Comecemos por algumas precisões. Ao contrário do que se diz, RF é sociólogo, não é economista. Isto não o diminui, mas é bom definir bem os termos de qualquer discussão.

Não me parece que o artigo seja tão interessante como estão a propagandeá-lo. É estreito em culpabilização, parece-me pouco fundamentado, come gato por lebre de propaganda governamental, no fundo quase que apoia o PEC 4. Entre a culpabilização dos mercados - muito bem - e a conclusão de que o resgate não era necessário, vai uma distância de falta de argumentação convincente.

Há quem tenha usado o artigo com pouca convicção. Por exemplo, João Rodrigues, no Ladrões de Bicicletas, divaga sobre o artigo do "cientista social" (?) mas tem a cautela de dizer que é excessivamente idealista, que se refere só ao período democrático (isto é, a seguir ao 25 de Abril), que o entusiasmo do autor não tem em conta as desigualdades salariais. Então o que fica do artigo?

Comece-se por isto: “this third national request for a bailout is not really about debt”.  Espantoso! O nosso principal problema, reconhecido por  toda  a gente e de todos os quadrantes,  não é mesmo o da dívida nacional, até mais  privada  do que  pública?

“Na Grécia e na Irlanda, o veredicto dos mercados refletiu profundos problemas económicos. A situação portuguesa é radicalmente diferente; não havia verdadeira crise estrutural.” Como é que algum economista sério, ou mesmo algum cidadão que se quer lúcido, merda, como eu, pode continuar a ler tal artigo?

O artigo é simpático para alguma esquerda - em que eu me situo, mas sou crítico! - porque o autor sonha toda a realidade portuguesa à luz da coisa estimável que é pensar que ainda hoje Portugal é a sua recordação revolucionária do 25 de Abril. Mas sou eu, homem de Abril, que não vou nessa. Já não tenho idade para infantilidades. Com isto, a maior das maiores infantilidades, o embevecimento com as palavras, e acima de tudo “socialismo”, “partido socialista”. "Words, words, words!"

Claro que o nosso “socialismo” recente, socrático, só fez coisas brilhantes, segundo RF, nenhuma documentada. A dívida não é importante, é menor do que a italiana. O défice orçamental é inferior ao de outros países europeus (e certamente menor do que o dos EUA!). A inovação, a qualidade do ensino superior (!), o crescimento das exportações, são notáveis. Essencial é que Portugal seja hoje invejado por quem percebe que mantém (?!) os padrões revolucionários de baixo desemprego, solidariedade social, economia mista (???) que ainda cheiram ao 25 de Abril. O homem conhece mesmo o Portugal de hoje? É bonito que ainda haja algures tal admirador do 25 de Abril, mas cuidado, quando se escreve assim no NYT!

Em relação aos últimos anos, de governação socrática, só elogios. “Domestic politics are not to blame. Prime minister José Sócrates and the governing socialists moved to cut the deficit while promoting competitiveness and maintaining social spending; the opposition insisted it could do better and forced out Mr. Sócrates this month, setting the stage for new elections in June. This is the stuff of normal politics, not a sign of disarray or incompetence as some critics of Portugal have portrayed it.”

E até mesmo a afirmação praticamente explícita de que, não fossem os malandros externos, o PEC 4 nos tinha defendido do resgate.

Sem querer alimentar ideias de conspiração, interrogo-me sobre uma coisa estranha à volta deste artigo. Tem havido dezenas de artigos muito mais interessantes, mais fundamentados, com maior autoridade económica, com assuntos verdadeiramente provocadores em termos de futuro próximo (por exemplo, prós e contras de uma reestruturação da dívida). Porque é que todos esses ficaram à margem da nossa net e estou a receber muitos mails sobre este?

Este artigo é coisa americana, académica, NYT, tudo muito recomendável. Também com o romantismo PC que só os americanos conseguem. Também, apesar de tudo isto, com a qualidade que nenhum socrático caseiro, medíocre, teria conseguido escrever. A quem interessa? Não será ao governo que assim tem uma defesa da sua excelente política até à crise, depois ter sido simples vítima dos bandidos e até ter sido obrigado (?!) a um resgate que não teria sido necessário?

Um artigo a elogiar e a divulgar por toda a net como está a ser? Nem tudo o que luz é ouro. Merda, quero ser lúcido!

Nota - Como se vê, a máquina PS está em pleno. “Está comigo todo o PS?” Está sim, querido líder! O mano Dupond começa a parecer-me, em comparação, menino de coro tonto. Começo a dar de barato que o PS vai ficar em primeiro lugar. E depois, Zé? Impossibilidade da grande coligação, porque ninguém aceita o sapatilhas? Magistratura ativa? Governo Cavaco por intermédio de Manuela ou Catroga? E viva a democracia!

P. S. (26.4.2011) - Veja-se uma carta de discordância com este artigo, também no New York Times (18 de Abril), de David R. Cameron, professor de ciência política na U. Yale e diretor dos estudos sobre a UE: "Portugal's Economy".

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Se Otelo soubesse...

Otelo já nos habituou a muitos disparates (e se fossem só dislates verbais!...). Hoje, mais uma enormidade: “Não teria feito o 25 de Abril se pensasse que íamos cair na situação em que estamos actualmente. Teria pedido a demissão de oficial do Exército e, se calhar, como muitos jovens têm feito actualmente, tinha ido para o estrangeiro”.

Não tendo feito o 25 de Abril, teria sido melhor termos continuado no fascismo?

P. S. (14.4.11) - Leia-se a resposta de Vasco Lourenço, que já não deve ter pachorra para aturar Otelo.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

5 de junho: eleições=referendo?

Se bem percebi, José M. Castro Caldas (JCC), no Ladrões de Bicicletas, sugere que se transformem as próximas eleições legislativas de 5 de Junho num referendo sobre o programa de austeridade que nos querem impor (gente de dentro e gente de fora). Quem me lê ou quem tem lido frequentes comentários meus deixados no Ladrões sabe que tenho com esses amigos alto grau de concordância e estima. Desta vez, não estou nada de acordo. Ou melhor, estou obviamente de acordo com os considerandos mas não com a tese. Claro que tenho em conta que há muito de metafórico no escrito de JCC, mas com perigos de má interpretação. Há sempre quem leia à letra uma metáfora, mormente quando o assunto, como neste caso, tem alguma subtileza - vejam-se os comentários ao "post" de JCC.
Podia começar logo pelos bem conhecidos riscos, até de ricochete, do aproveitamento de eleições, sua campanha e resultados, para objetivos diferentes. No entanto, como isto poderia ser considerado mera conversa de teoria política - mas com casos práticos bem conhecidos - vamos a coisas mais práticas e desta situação.
Parece inegável que a proposta de JCC decorre muito da reação de satisfação (minha também) com o resultado do referendo islandês - embora ainda seja muito incerto se, daqui a algum tempo, os islandeses não estarão a precisar de lutas mais duras do que ir pôr o voto na urna. É claro que o caso islandês nos pode inspirar, mas com muitas cautelas. É raro haver situações tão semelhantes na história que as soluções se possam copiar.
O ponto central da crise islandesa foi a bolha financeira e a falência dos bancos, não a dívida nacional e o défice orçamental. Os bancos foram nacionalizados. A Islândia tem a sua própria moeda. A Islândia não pertence à UE e não tem de cumprir os critérios de Maastricht. A Islândia estava muito melhor do que nós em termos de crescimento e de balança comercial. Os juros sobre a sua dívida são muito menores, apesar de ratings penalizadores e só vai pagar cerca de 3% de juros aos credores ingleses e holandeses dos seus bancos nacionalizados. JCC, que é economista e investigador, sabe isto muito melhor do que eu. Não estou a dizer que estas diferenças nos tolham, estou a dizer é que não me parecem permitir cópia nem pensar que referendo lá, referendo cá...
Também politicamente, se não me engano - claro que não consigo seguir a imprensa islandesa - há uma situação muito particular. Os partidos estavam separados metade-metade a favor do sim e do não (embora, neste sábado, a primeira ministra já estivesse em posição muito recuada). Nós temos um entendimento austeritário e vassálico de partidos que representam 80% dos eleitores. 

Por isto, só quem não lê os comentários nos jornais “online” ou não ouve os programas de TV e rádio com os ouvintes é que pode pensar que as pessoas estão fortemente motivadas para uma luta anti-sistema. Nem sequer estão para considerar alternativas a curto prazo, como a reestruturação da dívida. Muito menos, claro, a saída do euro. As pessoas queixam-se, sofrem, zangam-se por lhes irem ao bolso mas, no fundo, aceitam que é quase castigo divino inevitável. Se até o conselheiro se interrogava "ele há cada problema..."
Nem os devemos criticar. O massacre da ideologia dominante usando toda a comunicação social dá uma imagem arrasadora, catastrófica, de inevitabilidade do dogma prussiano sob pena de um 1755 económico. Como é que o homem da rua não há-de ter medo de que o levem para ainda maiores desgraças, teme ele? O povo está zangado, acha que entre Dupont e Dupond leve o diabo a escolha, está até suscetível a populismos que sabemos como começam mas não sabemos como terminam (venha o padre Malagrida saneado da SIC Notícias!). Mas também está tão condicionado pela noção hegemónica do sistema partidário baseado no “arco do poder” que ainda não está preparado para sair desse labirinto.
Não atender  a isto, a meu ver, é dar tiro no pé. O nosso momento atual é de luta, é coisa indubitável para quem se queira de esquerda. Mas também de serenidade clarividente. Eu não defenderia agora um referendo em Portugal, porque um referendo faz-se para ganhar, como qualquer luta política (desculpem a lapalissada). A derrota em coisa tão importante não tem efeitos temporários, a emendar na próxima. É que a próxima pode tardar muito; um ciclo referendário não é um ciclo de quatro anos eleitorais legislativos. Veja-se o aborto e a regionalização.
Fazer coincidir agora um objetivo referendário, mesmo que informal ou simbólico, com o resultado eleitoral dos partidos do “não” é coisa que não lembra ao diabo. Ou eu não consegui interpretar bem o texto de JCC? Comecemos logo por coisa prática. PCP/PEV mais BE foram, em 2009, 17,7%. Imaginemos que se consegue engrossar isto com os 1,74% de brancos, temos 19,4%. Mais 10% de eleitores, e só se podem ir buscar, significativamente, ao PS e um pouco à abstenção, votarão na esquerda, por protesto e motivados pelo que espero que seja uma movimentação político-social iniciada com o encontro partidário? Já será muito, politicamente mesmo muito, a abanar o sistema, mas mesmo assim, 30% no final. Queremos transformar este resultado num resultado referendário à islandesa?
Como isto já vai longo, deixo só nota curta sobre outras coisas, talvez menores. Dar significado referendário implica, nesta associação, considerar um governo PCP-BE, porque é irrealista, e muito mais depois do espetáculo plebiscitário do congresso do PS, pensar em qualquer aliança partidária mais alargada. Quem acredita no necessário resultado eleitoral? E como fazer decidir por esse voto “referendário” na esquerda muitos eleitores a quem meteram na cabeça (valha a verdade que com muita ajuda do PCP e do BE) que a esquerda só tem vocação para a oposição, que só faz propostas de bota-abaixo?
Concluindo, e para não haver dúvidas. Estou inteiramente de acordo com aquilo em que JCC é autoridade, as propostas de alternativa económica que faz. Estou em desacordo com esta sua proposta política. Afinal, a situação atual não é só para discussão de economistas :-)
A latere. Isto faz lembrar o entusiasmo com as revoluções Facebook e a tentativa de imitação. É a imitação, contra a imaginação. É claro que em 12 de março, a mobilização pela net fez lembrar a praça Tahrir, mas a semelhança ficou por aí. No Egito, foram dias e dias de ocupação da rua; foi a aliança de facto com os militares; foi a capacidade visível de organização, na ocupação do espaço e na sua “infra-estrutura”; foi a existência de um mínimo de propostas políticas a serem negociadas com o poder "à rasca" (aí está a diferença!) por jovens que - não se iludam os “à rasca” - já se estavam a organizar pela net mas há dois ou três anos. E, sobretudo, foram 300 mortos.
Em Portugal, foi uma única saída à rua, que os cansou/deslumbrou e nem sequer se juntaram à CGTP uma semana depois; foi a incapacidade para, mesmo na net, promoverem um verdadeiro debate político, reduzido a uma caldeirada de propostas bem intencionadas mas de uma ingenuidade inoperante e sem credibilidade. Infelizmente - repito, infelizmente - tenho o palpite de que o movimento 12/3 não vai ser capaz, como seria necessário, de participar numa eventual ação unitária gerada pela recente aproximação preliminar entre PCP e BE. E em que a rua tem papel importante!
Nota final - Nada disto que escrevi vai contra uma coisa essencial dita por JCC, talvez não tão brutalmente como vou dizer: as próximas eleições são uma fraude! Já tudo está decidido, o programa governamental está feito, o verdadeiro governo chegou já hoje a Lisboa. Tudo o que nos deixam decidir é quem será o palhaço desse espetáculo circense.

sábado, 9 de abril de 2011

Estou preocupado com Cavaco

O “post” precedente fez-me lembrar uma coisa aligeirada. Em fim de semana e em época de tristezas, valha um pouco de humor. Aqui vai o que recebi de um amigo.
A crise política começou e Cavaco não disse nada.
O Sócrates ameaçou demitir-se e Cavaco nada disse.
O Sócrates demitiu-se mesmo e Cavaco continua sem nada dizer.
Pergunto eu, não será melhor alguém passar lá em casa a ver se está tudo bem?
Nos dias de hoje todo o cuidado é pouco com idosos sozinhos em casa.

A minha alma chora!

Ouvi sem desejar ouvir; anotei sem, egoisticamente, desejar anotar. Escrevo desejando escrever, mas porque se deve. Uma senhora idosa, isolada num prédio de bairro dormitório, foi descoberta na banheira, putrefacta, 3 anos depois de morta. Parece déjá vu, temos visto recentemente outros casos. Este parece-me ter uma novidade: a senhora tinha cinco filhos!
Em que sociedade estamos a viver? A política, o governo da sociedade, é só o convencionalismo da democracia formal, institucional, ritual, limitada ao voto ocasional? Uma sociedade de eleitores em que afinal toda a gente exerce o seu poder? Ou isto assim não vai lá, porque não podemos admitir que aconteçam coisas destas a "gente". Sei que os meus amigos sentem o que eu sinto ao escrever "gente". Não é "número de eleitor". Já nem é "povo", com as conotações que tinha na minha ideologia iniciada/iniciática na juventude. É simplesmente gente, "homo sum", que se lixe a luta de classes, embora que ela existe é verdade. E, muito mais, que se lixem as brincadeiras perversas dos meninos ex-jotas de fatinho Armani.
Claro que mantenho a minha perspetiva ideológica, porque, com abertura não sectária (a melhor coisa que aconteceu a Marx foi o colapso do mundo comunista) e porque acho que ela me permite refletir com abertura mas num quadro mental enquadrador e facilitador. Todavia, com dificuldades. O conflito de classes determinava mudanças, mas muitas vezes sem mudança de sistema. De longe em longe, revoluções, às vezes fracassadas (1848, 1870, mesmo 1917 muitos anos depois). Hoje, parece-me diferente. Não é só o fim de um ciclo político-económico, é a mudança para novo paradigma de civilização.
Desviando a conversa, mas ainda sobre "todo o mundo é composto de mudança", refleti há dois dias com os meus alunos (disciplina de "Racionalidade científica", na licenciatura em Biologia da Universidade Lusófona) com muito interesse e com sucesso, sobre o sentido otimista do progressismo, sobre a dialética, sobre o novo humanismo científico, sobre o princípio antrópico, sobre a espiral dos "retrocessos" aparentes mas a nível superior de evolução, sobre Hegel e Marx (percebendo eles que eu estava a falar do Marx filósofo e cientista, sem intenções minhas propagandísticas). 

O resultado, em primeira reação, foi de perplexidade. Muito menos, afinal, do que há umas semanas atrás, quando me disseram "ó professor, esse gajo é um chato!". O gajo era Descartes... mas esse desabafo foi no princípio da aula. Depois, desta vez, eles mais abertos para a filosofia - ou melhor, como tento fazer, apenas uma conversa inteligente, para que só me falta o jardim, peripateticamente - uma discussão interessantíssima, para que o horário da aula não chegou. Nunca me gratificou tanto ser professor. Geração à rasca? Talvez, mas com todas as condições para vencerem essa batalha.
Voltando ao princípio da conversa: e essa tal pobre senhora pertencia à geração à rasca de licenciados com emprego precário? 

Aprender com a Islândia?

Fala-se muito no exemplo islandês e muito bem, mas deve-se ter presente uma ressalva importante. É que nada do que os islandeses e o seu novo governo têm feito seria possível se eles pertencessem à União Europeia e muito menos se tivessem adotado o euro. Ou melhor, poder podia, mas com grande luta política, coisa se calhar possível quando vemos a coragem e verticalidade desse povo, que tem mais habilidades e instrumentos do que só saber fazer manguitos. Por isto, nunca consegui entender que, depois do seu corajoso referendo, tivessem decidido preparar o pedido de adesão à União Europeia.

E não fiquemos pela Islândia. Apesar de mais distante e menos conhecido, caso mais marcante, pelo muito mais que estava em jogo, foi o da revogação da paridade com o dólar e a reestruturação da dívida feita pela Argentina de Kirchner, em 2005, com desconto de 75% (!) do valor nominal da dívida.

Vêem o que seria isto em Portugal, baixar de uma penada a dívida pública de 90% do PIB para 22,5%, muito menos do que a Alemanha e os outros AAA? Até nos podíamos dar ao luxo de pagar com essa poupança um défice orçamental à americana (9%) e de grandes investimentos na produção e na promoção do emprego.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

PCP-BE, o que vai dar?

Esperei pelo dia de hoje com curiosidade, o dia do encontro PCP-BE. Deu pouco ou deu muito? Deu pouco como resultado palpável, propostas, resoluções, perspetivas. Todavia, quem esperava mais? Mas deu muito no que já tinha dito, o primeiro ato de abrir, mesmo com fresta, a porta até agora cerrada entre os dois principais partidos de esquerda.
Começo por isto, “partidos de esquerda”. E então o PS? É claro que o PS está cheio de gente que se sente de esquerda. Mas isto basta para legitimar o PS como partido de esquerda? Claro que não, para provável desgosto desses meus amigos socialistas. Dominado pelo rapazinho, as suas propostas são só cosmeticamente diferentes das do outro rapazinho. É claro que entre 80% de direita e das suas receitas por parte do PS e 95% das ditas por parte do PSD/CDS, sei fazer contas, mas ninguém me leva a votar nesses 80%. É menos do que os 95, mas é muito, inaceitavelmente muito. É demais, não sou masoquista, não dou para o peditório de um PS a jogar na chantagem e a manter tudo na mesma. Eu quero mudança, mesmo que o meu voto de 5 de Junho só dê mudança quando eu já estiver em cinzas.
E, sobre os partidos de esquerda, o PEV/Verdes? Desculpem, mas o meu forçado esquecimento tático de muitas coisas, neste momento, não me obriga a tudo. Até porque, em relação a esses apêndices, quem não se sente não é filho de boa gente. "Est modus in rebus!"

Há quem duvide de que uma aproximação de esquerda dê resultados eleitorais. Isto foi dito, por exemplo, grande tiro no pé, por um conhecido bloquista, João Teixeira Lopes (JTL). Mais daria, com o benefício do método de Hondt, uma coligação pré-eleitoral, mas que já não vai a tempo. Mas dará certamente para muitos que se absteriam, que votariam branco, como eu próprio tenho defendido. Mesmo sem se ter isto em conta, esta visão é o que de perigoso pode ter este entendimento, funcionar à luz morrinhenta da simples perspetiva eleitoralista.
Ainda vai passar muita água debaixo das pontes. Primeiro, em termos de sabedoria política, de bom senso, de  sentido da eficácia, vou esquecer o que, por exemplo, JTL não conseguiu esquecer. Os dois partidos têm enormes arestas conflituais por limar, os seus dirigentes têm traumatismos relacionais antigos, não resolvidos, têm conflitos ideológicos hoje ridículos, coisas passadas no México em 1940, com um Trotsky que hoje ninguém sabe quem é, muito menos Mercader, coisas cómicas de livrinho vermelho na mão, horas e horas da minha juventude a discutir com maoistas que afinal eram meus grandes amigos pessoais. Têm uma rivalidade mais convencional porque, face ao partidarismo ferozmente aparelhístico do PCP, o “diferente” BE acabou por ser sua imagem e semelhante, projetando um líder com tão fanática imagem pública como Jerónimo (que até acho mais simpático, menos Savonarola).
Para as próximas eleições, vou dar de barato coisas que não digo que não sejam importantes, mas que podem esperar para outra altura: o antiamericanismo primário, o trotskismo, o marxismo-leninismo, o embevecimento de Fazenda com a Albânia (a mim mo disse), a OPA de M. Portas sobre o "meu" MDP em reconstrução de independência de alternativa de esquerda, o centralismo democrático, o apoio à Coreia do Norte e à Líbia, as FARC na festa do Avante, a diabolização primária das empresas, a desconfiança em relação a tudo o que cheire a mercado, etc. Tudo isto é dramático e/ou ridículo, tudo isto me impede de dizer que me revejo intectual e politicamente nos senhores Jerónimo e Louçã.
Mas eu vou votar no dia 5.6 olhando para o dia 6.6, para o imediato, a menos que ache que é mais importante olhar para o 6.6 mas de 2012 ou 2013. Não excluo, e então, claramente, o meu voto é branco.
Para já, os partidos de esquerda começam a apresentar propostas muito importantes que discutirei nos próximos dias, propostas em que muita gente tem vindo a pensar: venda de ativos, reestruturação da dívida, verdadeiro corte de cabelo da despesa pública, frente sulista na UE, berro de “basta” à sargenta prussiana (até Freitas do Amaral disse isto!), disciplinização e nova fiscalidade da banca, estímulo ao financiamento da dívida pelos portugueses, até, não é tabu embora seja coisa muito difícil, a saída do euro. São tudo coisas que tentarei discutir nos próximos tempos, na perspetiva de quem só escreve como cidadão e político, sem domínio da economia. Mas aberto à ideia essencial de que hoje quem não sabe de economia tem de a aprender com urgência.
Outra coisa essencial é que a aproximação dos partidos de esquerda, hoje encetada, é só o topo do icebergue. Se tudo for só conversas de jogo partidário até às eleições e a favorecer apenas a propaganda eleitoral de um e outro, não contem comigo para nem sequer um cêntimo para esse peditório. Se as direções partidárias sairem dos seus gabinetes, ouvirem as opiniões dos independentes e, principalmente, do povo zangado que hoje está a falar, mesmo que a dizer tolices - para os senhores ideólogos aparatchiks - aí sim, pago o que for preciso.
Resta saber, porque vai haver (ou melhor, há português técnico da Independente, vão haver) duas opções de voto na alternativa de esquerda, PCP/PEV e BE, em quem votar? História complicada, ainda vou ter de conversar bastante sobre isto.

O congresso do PS

“Eu não tenho medo das eleições nem do julgamento democrático dos portugueses”, disse Sócrates. Patético (e, pensando em patético-cómico, vou esquecer o “patriarca" Almeida Santos e o seu delirante discurso, coitados dos velhos, lá chegarei eu espero que só daqui a muitos anos). Toda a sala do congresso do PS se levantou em grande aplauso à declaração de que não tenho medo, porque ser teso, dito lá no Norte, é coisa bem são-mamedense, contra os mouros, lisboetas e elitistas (lembram-se?). 

Mas também não se esqueça que, à portuguesa, ser teso é "agarrem-me, senão eu mato-o", o mais ridículo provérbio definidor de nós próprios.
Visivelmente, os grandes segundas-linhas, Assis, Costa, César, outros, (curiosamente, não vi Seguro) armaram o mais feliz e respeitador sorriso. As facas afiadas estão ainda embainhadas. Na ordem das prioridades desses senhores, os interesses nacionais vêm no fim, os partidários antes, muito antes os pessoais.
Vejo ali à frente, com desgosto, o meu velho amigo Jaime Gama, pinto da minha mesma capoeira política micaelense, a fazer o frete. Ao menos, não vejo outro pinto da mesma ninhada, José Medeiros Ferreira. 
O discurso de Sócrates é, como esperava, a abertura da sua campanha eleitoral, como candidato a primeiro ministro. Ninguém no PS percebe a estupidez catastrófica deste delírio egocêntrico de um psicopata que vai destruir o PS? E é que já me começa a interessar diretamente este assunto, porque o PS - este outro - é indispensável para a solução de esquerda que espero.

O que não pode é ser o PS que se levanta aos gritos e aos aplausos em grande quando Sócrates pergunta (é verdade, inconcebível, passou-se ontem esta aclamação do chefe) "Está comigo todo o PS?". Um grande partido de muita gente respeitável, democrata, cidadã, republicana, transformado em máquina de propaganda e poder pessoal de um homem medíocre. Custa a ver, mesmo a um adversário (não um inimigo).
Mas, afinal, devia estar a ligar a isto? Para bom teatro, pago, com gosto, sem precisar de congressos partidários.

P. S., 9.4.2011 - E até Manuel Alegre, que se devia resguardar porque a possibilidade de entendimento à esquerda, necessariamente a alargar-se para o seu lado, lhe abre boas perspetivas, acaba por se comprometer neste congresso unanimista. “Sublinhou ainda o seu apoio à liderança do PS, afirmando que será eventualmente com José Sócrates que o PSD terá de se entender” (TSF).

Uma foto bem apanhada!


Há outros aparatchiks partidários, bosses, sub-bosses, caporegimes, boys, que eu gostava de ver neste enquadramento fotográfico tão sugestivo. Mas gostava de os ver nele para além da sugestão. Obviamente que com "sentença transitada em julgado"...

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Até quando, Catilina?

"Sócrates revelou hoje que não está disponível para governar o país com a ajuda do Fundo Monetário Internacional". Sol, 19.3.2011.
"Eu não estou disponível, da minha parte, para governar com o FMI", DN, 19.3.2011.
"Primeiro-ministro reafirmou hoje que Portugal não precisa de ajuda externa e assegurou "não estar disponível" para governar o país com a ajuda do Fundo Monetário Internacional". Expresso, 19.3.2011.
"Sócrates, revelou hoje que não está disponível para governar o país com a ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI) e reafirmou que Portugal não precisa de ajuda externa". Público, 19.3.2011.
Etc.
Isto foi há duas semanas e meia. Não é aquele tempo longo em que a memória falha e permite as cambalhotas sem vergonha. E agora, Sócrates?

Claro que não o interrogo sobre aquilo que é o seu dever elementar, mesmo como governo em gestão, estar disponível para lutar ao máximo pela melhor concretização possível da "ajuda" externa. Mas depois, em relação às eleições que resultarão num governo que vai ter de lidar com o FMI?

Repare-se que essas declarações taxativas não se referem a culpas, a condicionalismos, a fatores de processo histórico mesmo que pequeninamente a curto prazo. Não são propaganda eleitoral, esgrima politiqueira, chicana partido-rasteirinha. São, pura e simplesmente, ou deviam ser, para quem ainda sabe o que é palavra, uma declaração de intenções. Não podem deixar de serem tomadas à letra, se ainda se acredita na honra.

Deixou então Sócrates de estar indisponível para governar com ajuda externa, como dizia há menos de três semanas, e encara ser primeiro ministro da próxima legislatura? Vai concorrer a primeiro-ministro, à cabeça do PS, agora que o ganhou novamente com votação terceiromundista? Se ganhar, vai renegar o que disse tão enfaticamente há menos de três semanas? Ou se mostra definitivamente como aldrabão que toda a gente acha que é, salvo os patéticos militantes do PS reduzidos a lixo e ofendidos na sua muito frequente dignidade? Ou, para surpresa geral, vai mostrar que Zapatero não é exclusivo espanhol?
Quousque tandem abutere patientia nostra? (googlem...)

P. S. - Ou será que ainda vamos ser insultados com a aldrabice máxima (até com ajuda, talvez involuntária, do PR, como se viu pelo seu "recado" recente aos jornalistas)? A aldrabice de que há semanas JS falava era da sua indisponibilidade para governar com ajuda do FMI, mas afinal vai ser com ajuda da União Europeia e do FEEF (Fundo Europeu de Estabilização Financeira). Mas não sabe toda a gente, desde logo gregos e irlandeses, que o FEEF só ajuda de braço dado com o FMI?

P. S., 8.4.2011 - Quanto ao P. S. anterior, a notícia de hoje do Público não deixa dúvidas: "O comissário europeu dos Assuntos Económicos, Olli Rehn, disse hoje que tanto a Comissão Europeia como o FMI [itálico meu, JVC] já receberam o pedido formal de ajuda externa financeira de Portugal".

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Para onde vamos?

Vamos mesmo pedir a “ajuda” externa (não é ajuda, é preferível chamar resgate, "bailout"), e já. Depois das declarações de hoje (no Público) de Teixeira dos Santos, reforçadas por um comunicado do Ministério das Finanças, não há dúvidas.
“O país foi irresponsavelmente empurrado para uma situação muito difícil nos mercados financeiros. Perante esta difícil situação, que podia ter sido evitada, entendo que é necessário recorrer aos mecanismos de financiamento disponíveis no quadro europeu em termos adequados à actual situação política. Tal exigirá, também, o envolvimento e o comprometimento das principais forças e instituições políticas nacionais.”
Vamos ser massacrados com isto durante os próximos dois meses. Os grandes propagandistas políticos do século XX eram aprendizes face a estas eficazes máquinas de “imagem” que fizeram grandes políticos (?) de rapazinhos medíocres política, cultural e moralmente, mas com enorme esperteza ao serviço do seu carreirismo e de um egoismo desenfreado. 
E nem sequer são só declarações assim elementares, como esta do ministro. Foi toda uma encenação muito bem feita, passando por uma delirante “ajuda intermédia”, que deve ter deixado estarrecidos os euroburocratas com pouco sentido de humor, e pela comédia de enganos desempenhada pelos banqueiros.
A maior habilidade neste truque político é o jogo da dúvida impossível de esclarecer. Como em tantas coisas na vida em que não sde pode voltar atrás para se ver o que teria sido o resultado se não tivesse acontecido o que aconteceu, porque “regresso ao futuro” só no cinema. “Vamos para a ajuda por causa do chumbo do PEC 4 e da crise política”. Mas alguém consegue saber de certeza se não iríamos irremediavelmente para a ajuda mesmo sem a crise política? É certo que a crise afeta a credibilidade política internacional do governo, enerva mais os mercados, irrita a prussiana. Mas que peso têm estes fatores? Alguém sabe?
Com tudo isto, e não sendo adepto de teorias da conspiração, estou convencido de que o governo sabia de certeza certa, por Bruxelas, Frankfurt e Berlim, que a “ajuda externa” estava à porta. Não podia fugir, diretamente, da consequência daquilo em que se tinha empenhado, de nunca ser responsável pela entrada do FMI. Também não tinha tempo para passar rapidamente a responsabilidade para um novo governo PSD ou PSD/CDS, mesmo que custando isto uma saída temporária do poder.
Só lhe restava esta fuga indireta. Vai ficar responsável pela vinda do FEEF/FMI mas “só ficticiamente”, por dever de governo responsável, dever patriótico de pensar superiormente neste pobre país quando a oposição é tão irresponsável que precipita essa tal ajuda externa - quando era garantido que ela não era necessária se o PEC 4 não tivesse sido chumbado (?).
Se foi assim, a jogada de Sócrates foi de mestre e Passos engoliu isca e anzol até ao carreto. Diga-se que não vejo como pudesse ter escapado à rasteira. E sabem o que prevejo? Que o PS, massacrando com esta propaganda desonesta e demagógica, aproveitando dúvidas de muita gente sobre a incerteza acerca do outro jota, tão postiço como Sócrates, venha a ficar novamente em primeiro lugar nas próximas eleições. Não excluo.
Como, apesar disto, a hipótese de maioria absoluta me parece fantasista, essa vitória de PS/Sócrates abre um enorme buraco de atrações abismais impensáveis. Impossibilidade de formar governo, com situação de arrastamento até ser novamente possível convocar novas eleições? Governo de “salvação nacional”, certamente só possível sob o patrocínio de um PR quase convertido com isso a candidato a Sidónio? Pronunciamento dos poderes fácticos, à margem da democracia? Colapso, à italiana, do sistema político-partidário, com emergência de populismos que andam aí à espreita?
Claro que há uma saída, a renúncia de Sócrates, por reconhecer que ele é o problema. Mas Sócrates não é Zapatero e o PS está castrado. Com isto, fechando o círculo desta conversa, como é que um homem que não tem o mínimo de grandeza e de sentido de responsabilidade para perceber que devia sair, poderia pôr a responsabilidade e o sentido de dever (à verdade, desde logo) a condicionar esta sua apresentação como alguém que não tem qualquer culpa da atual crise, de que é pobre vítima?
Nota - Sócrates vai falar já depois de eu publicar esta nota. Não é difícil adivinhar que é para anunciar a ajuda, anúncio preparado por Teixeira dos Santos, como naqueles telegramas que se recebia “avô muito mal” sabendo-se que uma hora depois vinha “avô morreu”.