sexta-feira, 27 de abril de 2012

Jornal de referência


1. Nos últimos dias, fora do jardim à beira mar plantado, não li jornais portugueses. Só hoje dei por uma pérola, no Público de 25 de abril, logo nesse dia. Uma jornalista que não conheço, Rita Siza, discorre sobre a política argentina, claro que centrando-se principalmente na nacionalização da filial da Repsol, sob o título “Os argentinos aplaudem a deriva populista de Cristina Kirchner”.
A minha primeira reação é de dizer “a jovem jornalista”. Não sei se é verdade, até pode essa senhora já estar bem instalada. A minha referência vai para toda uma geração que conheço bem (duas universidades) de diplomados em comunicação social que aprendem muita semiótica, leram muito Barthes, sabem imenso da psicologia da comunicação (a descambar para psicologia da manipulação), mas dão pontapés na gramática, não sabem com quem foi casado o nosso rei D. Fernando, confundem “fiscal” com “orçamental”, não sabem fazer uma regra de três, nunca leram sequer a nossa Constituição.
A política de Cristina Kirchner é uma deriva populista? A senhora jornalista far-nos-á (coisa arrevezada de português que os jovens jornalistas não dominam) o favor de explicar o que entende por populista? E demonstrar, nas coisas reais, o que isto tem de definidor da nacionalização da YFT (Repsol)?
2. É por acaso que isto vem no Público? Ainda é jornal de referência, não sei bem porquê. É o jornal que assino, porque do mal o menos. Mas, em tempos de predominante qualificação política de tudo o que é  a nossa vida, é um jornal de direita. Hoje não tenho tempo, mas prometo demonstrá-lo, com objetividade.
Desde logo um exercício: comparem a pluralidade dos colunistas de há uns meses com o panorama cinzento e guinado à direita do leque atual.
Vive de memórias antigas, a começar por um Vicente Jorge Silva que ninguém acusaria de direitista. Depois foi coutada de um exemplar rupestre da nossa direita que é exemplo do pior que há na Europa, José Manuel Fernandes (obviamente, um ultra-esquerdista em jovem!). Agora é dirigido por uma senhora de quem não se sabe nada, deve ser boa funcionária do patrão.
Estive uns dias em Espanha, tão próxima e tão distante. Uma das marcas de diferença tem um nome: El País.

Açoriano me confesso

video

Os romeiros de S. Miguel, em semana de penitência de andarilho de volta à ilha, com crença ancestral, do povoamento e do medo dos vulcões e sismos, crença que não tenho mas de que partilho com eles o sentido do profundo, do mistério, da transcendência. É a minha gente, rude como basalto negro e duro, firme de aprendizagem de aguentar com as ondas, sublime de espiritualidade alimentada pelo horizonte tão distante, mar a perder de vista. Ilhéus toscos! ("private joke" que me é muito querida).

Quem quiser saber mais alguma coisa sobre este património cultural único em Portugal pode ler uma descrição minha e outra da minha mãe.

A latere - nestes dois últimos dias, estive num congresso em Espanha. No jantar de ontem, conversei muito com duas colegas que se apresentaram como vindas de uma certa região, a que eu respondi logo "ah, macaronésias como eu". Depois, excelente conversa de ilhéus toscos, elas canarinas, eu açoriano.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Tenho muita pena

A minha intuição médica, apesar de 40 anos de falta de prática clínica, não me enganava, ao olhar para as fotos do Miguel Portas.

Eu não era amigo íntimo do Miguel Portas. Os nossos percursos foram diferentes, eu solitariamente fracionista em1980, ele só na leva coletiva do pós-golpe de Moscovo, dez anos depois, quem é que pode ter esperado por isso?

Até me defrontei combativa e lealmente com ele quando fez a OPA do meu MDP, mas é um dos casos em que fico a pensar, contra a brandura dos nossos costumes, que o obituário - obrigatoriamente conforme aos bons costumes - corresponde ao que eu pensava dele: homem honesto, sem pensar em mordomias resultantes dos seus cargos, estruturado na força da sua ideologia consequente. Para mim, de longe o melhor (carácter, mente aberta, afetividade, ideologia em construção permanente) da troika fundadora do BE, Louçã, Fazenda, Portas.

Fico a pensar em coisa transcendente do homem, sobre a qual falei há dias. Mesmo com muitas reservas em relação ao significado disso, tudo indicava que, numa provável convenção do BE lá para fins de 2012,  o seu grupo, com o espírito da Política XXI, pudesse trazer alguma novidade. Novidade, por exemplo, para o projeto que defendo de novo partido. Agora não sei.

Ao meu amigo, que descanse em paz, não tendo de saber se os seus amigos lhe continuarão as ideias. É a vida. Se sim, ótimo, cá estaremos para a luta conjunta.

Descanse em paz, que bem merece quem lutou em vida.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Economia de alcoólicos


O presidente do banco central alemão, o Bundesbank, Jens Weidmann, comparou hoje os países endividados às pessoas que têm problemas com a bebida
Questionado sobre se o BCE (Banco Central Europeu) está disposto a aumentar a compra de dívida soberana para ajudar os Estados-membros do euro com problemas, Weidmann indicou que isso seria o mesmo que dar um último trago a um alcoólico, refere a agência Efe.
"É como um alcoólico dizer que a partir de amanhã vai estar sóbrio e a respeitar as regras, mas que esta noite precisa de beber", salientou o mesmo responsável, citado pela Reuters. "Não creio que seja bom dar uma garrafa a um alcoólico. Não servirá para o ajudar a resolver o seu problema", acrescentou.
Ao que chegou a indigência mental da “economia moral”! Será que há pessoas, gente honesta mas simples, que vêm a economia nos termos herdados do salazarismo, “pobrinhos mas honrados”, que ainda vão nisto?
É isto hoje a Europa da teorização política de Maquiavel, da filosofia das luzes, do socialismo, do racionalismo, da história dos grandes homens de Estado?
NOTA - E esta cara seráfica e em estado de graça não lembra os zombies fanáticos que vemos por aí como missionários mórmons?

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Novo partido (III)


Quando falo na necessidade de um novo partido, como aqui e em outras entradas anteriores, partilho-me. Eu, político ainda com desejos porventura caducos de intervenção, gostaria de um partido em que visse os meus ideais revolucionários, mas sei que o ótimo é inimigo do bom. O que tenho defendido é outro partido, o que puder ser já será muito.

Há bastante tempo, adiantei algumas características que me parecem essenciais para o sucesso de um novo partido de alternativa, que combine a coerência e avanço das suas posições com a sua capacidade eleitoral de atração de tanta gente perplexa. Depois, fui escrevendo mais coisas a amigos. Agora recompilo tudo. E até estou disposto a seguir o conselho do meu grilo falante: “se queres chegar ao Sr. Zé, nem fales de esquerda!”
Então, para já, algumas coisas centrais e simples que cumpram o tal objetivo essencial de oferecer uma alternativa a muitos eleitores que não confiam na “esquerda radical”: 
– Um partido que ganhe uma imagem de credibilidade junto de eleitorado que até pode não se rever na esquerda partidária atual (desculpa, F, não consegui não escrever esquerda!) mas que é sensível à pedagogia política séria, à honestidade inteletual, ao rigor das análises e à informação correta.

– Um partido que, a pretexto disso, também não se acantone no convencionalismo da democracia representativa formal e que esteja aberto a todo o processo histórico revolucionário.
– Um partido que combine o respeito pelos valores e ideais tradicionais da esquerda com uma compreensão, traduzida na ação, das grandes mudanças sociais das cinco últimas décadas, na estrutura social, no trabalho, nas aspirações individuais.

– Um partido que dê aos eleitores a ideia de que realismo, bom senso, sabedoria proverbial, não são incompatíveis com a mudança e a luta.

– Um partido de gente séria, sem mancha, que nunca possa ser acusado de aproveitamentos por parte de seus dirigentes.
– Um partido que não sobrevalorize as reivindicações estritamente materiais em relação aos aspetos qualitativos de aspirações individuais, de bem estar, de qualidade de vida, incluindo os ambientais e a gestão racional dos recursos.
– Um partido que, sem prejuízo da convergência na ação, não prejudique a sua própria imagem específica e afirmação junto dos eleitores por preocupações irrealistas de unidade, nomeadamente com o PS tal como ele é hoje. 
– Um partido que articule de forma potencializadora a atividade a nível de Estado com a atividade junto dos corpos intermédios.
– Um partido que defenda um projeto progressista de união europeia mas que não fique refém desse projeto como quadro principal das lutas nacionais, muito menos de solução em prazo útil da crise do euro. Que saiba que a luta europeia não pode ser usada como manto diáfano de fantasia alienante, que exige a ação de governos por nós eleitos com a coragem de se defrontarem à mesa de Bruxelas.
– Um partido que esteja aberto, publicamente, à consideração e estudo, a curto prazo, mas sem ideias preconcebidas, de todas as hipóteses alternativas à política ordo-neo-liberal traduzida na austeridade que nos é imposta, nomeadamente a reestruturação da dívida e/ou a saída do euro.
Afinal, e obedecendo ao conselho do meu grilo, um partido que não tenha de falar de esquerda, porque quem o seguir é que aprenderá na prática e não nas palavras o que é ser de esquerda.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Interrogando Rui Tavares


Na sua crónica no Público, em 18.4.2012, Rui Tavares, eurodeputado eleito como independente nas listas do BE e hoje separado do BE, chama a atenção para a emergência de uma nova esquerda europeia. Concordo. Fala de Mélenchon e do Partido de Esquerda (Parti de Gauche, PG) francês, da Esquerda Democrática (ED) grega. Não me parece que os compare, o que seria abusivo em termos de posicionamento político e de posições programáticas.
Mas têm coisas importantes em comum. Primeiro, a ocupação de um espaço vazio, em ambos os casos, e também em Portugal, o de um socialismo com raízes na segunda internacional, mas sem renegar a herança marxista, e com a memória do que de melhor teve a social-democracia nórdica. Pessoalmente, desejo muito mais do que isto, mas bem gostaria que cá na casa o PS aparecesse assim.
No entanto, diferem nos sentidos opostos com que se moveram. O PG resulta de uma cisão da ala à esquerda do PS, e desloca-se da direita para a esquerda. A ED sai do Syriza (próximo do nosso BE) e vai da esquerda para a direita. O que interessa é a ocupação desse tal espaço, de esquerda firme, consequente, mas com oferta de soluções governativas, com cultura de poder e de governação, com propostas de luta forte contra o neoliberalismo e o pensamento hegemónico europeu, que nos está a impor o austeritarismo catastrófico. Com coragem de enfrentar os novos imperialistas e com determinação para a construção de uma frente de países periféricos que dê um murro na mesa da chancelaria de Berlim.
Esse espaço está vago em Portugal e não parece que possa ser ocupado por movimentos cisionistas que não se vislumbram, no PS, no BE, no PCP. Há quem aposte na convenção do BE, em fins deste ano, e na hipótese de fortalecimento, no partido ou fora dele, de um grupo portador da herança da Política XXI. “I don’t give a damn”.
Rui Tavares fala, em geral mas provavelmente pensando em Portugal, numa esquerda da moleza, que não se atreve a ocupar esse espaço. Grupos que se formaram nos últimos anos estão confortáveis em jantares de amigos e acham que o tempo não está para grandes atrevimentos.
Rui Tavares parece recusar esta esquerda de moleza e, ao mesmo tempo, sibilinamente, falando de experiências estrangeiras mas creio que pensando em Portugal, diz que “há uma coisa em comum: quiseram correr riscos e fazer parte da solução. Porque hoje há soluções para lá de manter a trincheira. Mas é preciso tentá-las.”
Como está a falar de novos partidos europeus, está também a falar de um possível novo partido português, de que tanto tenho falado? Está a declarar o seu empenho em tal projeto? Se é assim, vamos nessa, companheiro.
NOTA - Rui Tavares foi muito difamado quando deixou o grupo do BE no Parlamento Europeu. Eu não o critico. Se ele fosse militante do BE, era diferente. Eleito como independente, responde com a sua consciência perante os seus eleitores, não perante o aparelho do partido que o apresentou, com evidente lucro para esse partido.

Viva a Argentina!


A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, ao nacionalizar a filial da Repsol, deu um exemplo notável de coragem e de coerência política de esquerda (podem dizer que estou a qualificar abusivamente como esquerda, mas faz sentido se olharmos para a nossa situação política). Pouco tenho a dizer sobre isto a mais do que já tanto se disse. Mas uma coisa puxa outra.


Pensar na Argentina, desde a sua rotura com o embrulho de Menem e sucessores efémeros com o FMI, é pensar no exemplo de uma conceção pura e dura da política, sem tibiezas, sem prisões de moralidades. Maquiavel escreveu há cinco séculos, lembram-se?
Já aqui deixei expressa alguma surpresa pela frequência de uma discussão política entre nós, mesmo entre pessoas de boa cultura política, que tende a privilegiar um registo moral, de atribuição de culpas. De uma forma geral, vejo isto muito limitado temporalmente, quase que circunscrito aos tempos de Sócrates para cá e também muito determinado pelos aspetos morais, de caráter, de pessoa, dessa infeliz figura, muito menos sobre a sua ação política. Até acho que isto é fazer o jogo da direita, porque explora o inegável e justo sentimento geral de repulsa para com o homem contra a análise desta política de direita. É triste que um partido como o PS tenha oferecido tão fácil bombo de festa.
Quem me lê habitualmente sabe como execrei a imoralidade e a falta de caráter de Sócrates. Simplesmente, ao contrário de muitos milhares de pessoas - tristes pessoas, que hoje ouço a lamentarem-se com este governo - não transferi absurdamente o meu voto dele para Passos Coelho. O atual primeiro ministro parece mais sincero, mais honesto, mais verdadeiro (?), embora a sua matriz de jotinha, com a sua licenciatura tardia e talvez fácil, não se distinga muito de Sócrates. Mas o que vale isto, a não ser por nos termos livrado de uma dolorosa chaga moral, se a política concreta se está a revelar muito pior? Se o anterior era um oportunista e o atual é um fanático ideológico, o que é pior?
E como é que o PCP e o BE não assumem a sua responsabilidade por esse taticismo político?
O homem Sócrates, como pessoa, era execrável. Mas como pode muita gente ter imaginado que derrubá-lo e substitui-lo por uma coligação de direita pura e dura, ideologicamente fanática - mesmo que não imaginássemos que pudesse ir aos extremos de frei Gaspar Savonarola - fosse melhor do que coisas que me parece não terem sido tentadas (por exemplo pelo PR, a quem não convinha), a apresentação pelo PS de outro primeiro ministro? E o PEC 4 - é certo que pouco credível, depois de falharem os anteriores - não teria sido melhor do que o programa da troika?
Antes de avançar, digo desde logo que a minha crítica não significa a desculpabilização. Em alguns casos, como na Islândia, acho muito bem que a responsabilização vá até à incriminação penal. Mas temo que a procura das árvores nos retire a noção da floresta e do seu ecossistema. As causas e mecanismos da crise são demasiadamente complexos para podermos reduzir a discussão a coisas de política convencional. Se as quisermos fazer passar da teoria e da análise económico-política para o terreno prático da política, então que tiremos consequências sistemáticas e não fiquemos pela espuma superficial.
É claro que a vontade de culpabilização, num quadro tradicional de luta partidária e porventura com objetivos eleitorais próximos, arrisca-se sempre a ser redutora. Mesmo que entendamos a “culpabilização” no sentido da determinação objetiva das causalidades, querer-se focar só em pessoas é forçosamente redutor.
Até há tempos, os adeptos da culpabilização tinham uma base de discussão fácil, embora aceitando a argumentação do adversário: a crise era dos défices orçamentais. Logo, absolutamente decorrente de ações políticas de governantes identificáveis. Mas quem culpabilizar?
No ano de transição dos governos Durão Barroso e Sócrates, 2005, o défice foi de 6,1%, tendo-se depois reduzido a 2,7% em 2008, o ano de início da crise. Antes, nos governos de Cavaco, andou entre 5 e 6%. Os governos ditos despesistas de Guterres mantiveram o défice abaixo dos 3% do PEC. É claro que o défice explodiu em 2009 e 2010, mas por uma razão bem precisa: a injeção de dinheiros públicos no setor bancário, premiando o grande responsável pela crise. Eu alinho na culpabilização do governo, mas não por ter criado défice. Antes pelos motivos por que criou o défice.
Depois, os políticos tradicionais com esquemas simples tiveram de aceitar que o problema não era de défice orçamental mas sim de dívida. As coisas ficaram mais complicadas para a culpabilização, porque a economia não distingue dívidas. No entanto, para quem quer só olhar para os governos, lembre-se que a dívida pública é bastante inferior à dívida privada e nesta é preciso distinguir a dívida das empresas e das famílias da parte mais considerável da dívida do setor financeiro. Não é só uma questão quantitativa. É que aquelas dependem essencialmente da última, a bancária. 
Com a transferência de dinheiro barato para a periferia, houve uma enorme pressão bancária para o endividamento das famílias (desde logo no imobiliário, embora não tenhamos tido uma bolha como em Espanha - mas, por exemplo, vejam nos Açores, desde há anos, as casas que os bancos depois não conseguem vender, entregues por devedores insolúveis). Culpar generalizadamente os portugueses (e os gregos, e amanhã os espanhóis) por “terem vivido acima das suas possibilidades” é injusto, irracional e muitas vezes hipócrita, quando dito - e tenho ouvido - por pessoas com um padrão de consumo exagerado.
Chegados à discussão da dívida, fica difícil aos esquemáticos circunscreverem-se ao quadro nacional, às responsabilidades dos nossos governantes (que aceito, mas não como coisa exclusiva ou maniqueista). Os nossos bancos obtiveram dinheiro barato porque os países ricos, no sistema disfuncional do euro moeda única, lhes fizeram quase engolir esse dinheiro barato.  Como há tempos disse lapidarmente Helmut Schmidt, “o nosso excedente é o défice dos outros”.
Todavia, por absurdo, admitamos que os adeptos da nossa culpabilização têm razão. Isso justifica que o núcleo neoliberal da Europa rica, económica e ideologicamente hegemónico, nos imponha uma política de austeridade que até já o FMI critica? Uma política  fundamentada em razões de “economia moral”, de necessidade de os pecadores expiarem pecados para que os outros, vendo as penas do inferno, não sejam tentados a pecar? Isto parece - e é - uma atitude quase religiosa. Como é religiosa a atitude de crença irracional no deus mercado do ministro Gaspar, levando Passos Coelho como menino de coro, ignorante e um pouco tonto.
O protestantismo fez avançar a cultura europeia, mas também deixou um lastro pesado, de puritanismo (hipócrita, principalmente se pensarmos nas raízes puritanas do capitalismo americano) e de rigidez mental que não se compara com a "flexibilidade" - sem princípios - do Vaticano. 
Dou razão a um amigo meu que me critica quando falo na sargenta prussiana. Faço-o por conveniência fácil, assim como outro amigo comum costuma falar da campónia saxónica, mas de facto ela simboliza é a mistura de cultura extrema luterana (o pai era pastor) e do neo-estalinismo intelectualmente indigente da RDA em que se formou. Já pensaram que ela é a primeira governante “össie”? Podem vir mais.
Como isto já vai longo, deixo apenas uma referência telegráfica àquilo que ainda está mais fundo na pirâmide das “culpas” (entre aspas porque a palavra culpa não cabe num raciocínio científico) pela nossa situação: o euro. Com exceção do caso especial de paridade fixa no Benelux antes do euro, as moedas únicas ou paridades fixas (peso argentino e dólar, nos maus tempos de Benem) só funcionam em espaços de verdadeira unificação política, em particular nos estados federais: banco central emissor sob controlo do estado e “emprestador de última instância”, orçamento federal forte e redistributivo, emissão de dívida comum, possibilidade de monetarização da dívida, solidariedade entre estados, etc.
Querem responsabilizar pessoas individuais? Acho bem, mas não deixem de fora o primeiro ministro português que assinou o tratado de Maastricht ou aquele que fez entrar Portugal no euro, ou aquele que assinou o tratado de Lisboa, ou aquele que assinou recentemente o “tratado orçamental”.
Ao conduzir a discussão para um contexto largo e complexo, à escala europeia, corro um risco. Pareço alinhar-me com os eurófilos, mormente com uma fração da chamada esquerda radical, que, talvez por sentimento de impotência cá na terrinha, transferem para uma mítica luta europeia que não se vê (numa UE hoje hegemonizada pelo pensamento ordo-neo-liberal) a esperança de amanhãs que cantarão.
É claro que a atual UE é objetivamente (mas não subjetiva ou ideologicamente) contraditória. É óbvio, por exemplo, que uma união do sul - Portugal, Espanha, Itália, Grécia, mais os novos membros mediterrânicos - teria uma enorme força contra o centro dominante. Mas é no quadro europeu convencional que isto se fará ou no quadro de uma articulação política setorial forçada pelos povos?
Começa tudo por coisa à La Palisse: os nossos governantes ainda podemos mudar, a Sra Merkel não podemos. Então, a única possibilidade de intervirmos à escala europeia não é europeia, é nacional, é a de escolhermos governantes que se batam por mudar a situação política europeia. 
Mas isto tem dois planos. O político é o que temos estado a discutir. Mas mais determinante para o esclarecimento dos nossos eleitores, quanto à Europa, é o ideológico. É neste plano que o neoliberalismo domina, aí deve ser combatido. Mas, como os eleitores votam europeias baseados nas simpatias políticas nacionais, é importante que os partidos de esquerda ofereçam alternativas de conjugação da mudança por luta conjugada nas duas frentes, europeia e nacional.
A fechar, afinal o que tem toda esta conversa a ver com a Argentina, a coisa com que comecei esta conversa? Tem a ver com isto que disse acima, “forçado pelos povos”. Para nós, a tarefa prioritária de convencer os nossos compatriotas de que o orgulho nacional ainda compensa, como se vê com a Argentina, que não estamos condenados a nenhuma fatalidade de imposições de outros. 
Depois, que o confronto de clubite partidária no arco do bloco central, a transferência de votos dentro desse espaço, ou a crítica política diletante não nos levam a parte nenhuma, porque afinal todo o bloco central alinha no essencial. 
Depois ainda e principalmente, como tenho dito, a necessidade de uma nova força política que empunhe essa chama, como se está a ver na França e na Grécia.
Arraial, arraial, por Portugal!

NOTA - Afinal, ficou por dizer coisa importante, sobre a moral. Claro que a política tem uma fundamental dimensão moral. Mas tem uma dinâmica própria, em que a moral é um fator entre outros. Muito mais fortemente, a economia política é uma quase-ciência, "amoral". Como já tenho escrito, muita energia e boa vontade de gente querida minha anda perdida em coisas morais, como qualificar a legitimidade das parcelas da dívida. A rotura da Argentina com a sua prisão do FMI, fazendo a reestruturação radical da dívida em 2005, considerou moralmente as dívidas, legítimas e ilegítimas? Houve alguma auditoria de economia moral? E agora a nacionalização dos petróleos teve algum argumento moral? Política é guerra, não é conversa de sacristia. Vamos relembrar o nosso verão quente de 1975 (para elogiar e para criticar)?

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Referendo a sério ou a brincar?


O governo português subscreveu o novo tratado “europeu”, dito de estabilidade, coordenação e governação na União Económica e Monetária. A Assembleia da República vai certamente ratificá-lo, nestes dias, dado que o PS já anunciou o seu voto favorável.  
O tratado vai acrescentar crise política à crise económica, financeira e social. Vai consagrar um pseudo-governo económico europeu que desvaloriza a solidariedade, que fomenta os desequilíbrios e os egoismos nacionais dos países centrais, que limita consideravelmente as soberanias, que introduz penalizações a competirem a órgãos sem legitimidade democrática e que, reforçando a visão dogmática e quase de proselitismo da cruzada neoliberal, vai lançar mais petróleo no incêndio do edifício do euro.
Muito mais do que aquando da ratificação de tratados anteriores, achei que este caso merecia um referendo e que esse referendo poderia motivar os portugueses a refletirem um pouco sobre a crise que lhes estão a impôr, gente de dentro e de fora. Escrevi-o aqui e aqui. Amigos meus criticaram-me por, nestes tempos de perplexidade e de fácil demagogia baseada na “economia moral” ou na parábola do “velho devedor honesto”, um referendo poder ser um tiro no pé, legitimando, pela vitória quase inevitável do “sim”, o tratado que combatemos.
Não estou bem certo. A ratificação pela AR também o legitima, indiretamente, e com maior manipulação, porque o tratado vai ser aprovado pelos “representantes de 80% dos portugueses”. E perde-se uma grande oportunidade de discussão política e de esclarecimento de tanta gente confusa que por aí anda.
Coisa diferente é o que vai ser a atitude da nossa ala parlamentar mais à esquerda. O BE falou em referendo já há bastante tempo e calou-se. O PCP disse que ia ver e ficou mudo. Agora, anunciam que, no dia da ratificação parlamentar, vão apresentar propostas de convocação de um referendo. Nem me digno tentar demonstrar o absurdo desta posição descaradamente oportunista; seria desconsiderar a capacidade crítica dos meus leitores.
O que vale a pena perguntar é se podemos vislumbrar entre a santa trindade interna e este manobrismo da esquerda “radical” (entre aspas, porque radical é outra coisa) alguma alternativa. Virá ela, não se sabe como, de movimentos efémeros que se esfumam? Ou não é mesmo vital a criação de um novo partido

Rigor terminológico


Não há dia em que não leia jovens (?) jornalistas e comentadores americanizados escreverem ou falarem sobre pacto fiscal, política fiscal, défice fiscal e outros fiscais que mais. Assim não nos entendemos. 
Em bom português, política fiscal é a que diz respeito à fiscalidade, isto é, aos impostos e taxas. Como só tem a ver com receita e não com despesa, obviamente que não pode haver uma coisa chamada défice fiscal (a não ser que o Estado reembolse mais do que recebe...). Da mesma forma, quem ler o tratado recentemente aprovado e a que se tem chamado cá “pacto fiscal” estranhará não ler nele alguma coisa que tenha a ver com impostos.
O que esses escrevinhadores ou bem falantes querem dizer é pacto orçamental, política orçamental, défice orçamental. É este adjetivo português, consagrado, que em língua inglesa se diz e escreve “fiscal”. Será que tão primário erro, de tradução literal, é mais uma coisa para confundir propositadamente o cidadão comum ou é só mais um dos muitos sinais de ignorância de que está cheia a comunicação social?
NOTA - Não estranhem eu escrever “adjetivo” e “pacto”. É mesmo assim, segundo o AO, tão denegrido por pessoas que deviam saber que pacto e pato não se vão escrever da mesma forma – ao contrário de ato e a(c)to.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Calinadas

Ouvi há pouco o ministro Gaspar, naquele seu tom monótono, pausado e escolástico, que só tem rival no estilo de António Barreto desde que é sábio. Disse o ministro: "2015 é o ano que vem logo a seguir a 2014". Não ouvia uma pérola destas desde os tempos do venerando chefe de estado também conhecido como cabeça de abóbora. "Esta é a primeira vez que aqui venho desde a última vez em que aqui estive", lembram-se?

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Notas soltas (afinal atadas)


1. Um tal Sr. Peter Weiss, obviamente alemão, um dos muitos cinzentos e engravatadinhos euroburocratas, pasta à moda do velho “homem da Regisconta”, veio dizer que os subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos deviam ser definitivamente abolidos. Para já, reconhece ele, uma pequena dificuldade, não é constitucional, “mas trataremos disso”. Uma disposição constitucional portuguesa é uma pequena dificuldade de que um alemão vai tratar?! Este senhor é alguém com poder democrático legítimo, no meu país, em quem eu tenha votado? Um funcionário de Bruxelas vale mais do que o poder constituinte dos povos? A democracia não está em risco? Meus compatriotas, não vos arrepia nada pela espinha acima? Ou séculos da tal espinha vergada e submissa perante todos os poderes ainda hoje vos fazem pensar que devemos é beijar respeitosamente a mão a estes “benfeitores”?
Ao mesmo tempo, tão iluminada mente ficou confundida com coisa inesperada. A taxa de desemprego está a derrapar, maior do que todas as previsões da troica. O homem, a quem falta o mínimo de racionalidade e espírito científico, não diz o elementar: “é inesperado, vamos analisar, reconsiderar este facto no quadro do modelo em que nos baseámos para a política que impusemos no memorando, temos de repensar esse modelo se coisa tão importante como esta está a destoar”. 
Não, diz que não tem explicação lógica, mas não pode ficar calado, tem de adiantar uma explicação, por absurda que seja, porque mesmo uma asneira serve para “mostrar” que a cabecinha pensa. Afinal é porque as pessoas se despedem antecipadamente (alguém se despede voluntariamente?) enquanto não chegam piores condições de despedimento (é sintomático que ele admita que vêm aí piores condições de despedimento). No entanto, o homem admite não ter "nenhuma evidência disto" e que há o risco de termos de rever os números do desemprego na próxima avaliação da troika, em Maio. 
Estão a brincar com coisas sérias, estão a fazer um trabalho religioso e sectário de afirmação dogmática da sua crença, disfarçando-o com coisas intelectualmente rudimentares mas que vão ao encontro da “sabedoria” irracional do homem comum. Nós não estamos só a lidar com funcionários incompetentes, ou com altos funcionários robôs como Gaspar. Em ambos os casos, estamos a lidar com fanáticos e não há mais do que um centímetro entre o fanatismo cego e a burrice (e também a crueldade objetiva da insensibilidade humana e social).
2. Eu começo a já pertencer aos restos da geração que ainda viveu o salazarismo. Descontando os seguidores medíocres, a maioria, e o aparelho repressivo troglodita, o “botas” tinha qualidade intelectual, fundamentação teórica do seu pensamento político execrável, que esta canalha de hoje nem tem, escrevia excelentemente, com raciocínio articulado. E era a doutrina que estava ao seu serviço, como lhe convinha (Cerejeira que o diga), enquanto que Gaspar e outros são meros frades menores a entoar cantos à doutrina de um qualquer seu deus supremo que os iluminou como apóstolos da religião ultraliberal.
3. Há muitos parâmetros a considerar na análise da crise. Variação do PIB, balança comercial e de pagamentos, investimento, relação entre a produção de bens transacionáveis e não transacionáveis, défice orçamental, dívida pública, dívida privada, "saúde" do balanço dos bancos, etc. (isto não vai por ordem de importância). 
Para mim, como político leigo em economia, dou a mais alta importância ao desemprego. Não é só por ser uma chaga social e um problema pessoal, que se transferirmos para nós próprios, é um pesadelo. É que me parece não ser preciso ser-se economista para se perceber que o desemprego afeta tudo o mais. Do lado da receita, é menos gente a contribuir com impostos, que os desempregados não pagam. É menos gente a produzir e por isto a fazer diminuir a matéria fiscal coletável das empresas, IRC e IVA. É menos gente a consumir como dantes, logo a diminuir o PIB e as receitas fiscais de que falei. Do lado da despesa, são os subsídios de desemprego e outras ajudas sociais (sem ignorar as despesas de saúde pelos bem conhecidos efeitos psiquiátricos do desemprego).
Estive há dias em Madrid e conversei com velhos amigos muito preocupados. A Espanha ainda não está a sofrer a austeridade troikiana, mas está-se a agravar um problema crónico espanhol, o do desemprego. Vê-se por toda a parte: gente a desenrascar-se, vendedores de rua de tudo e mais alguma coisa, semi-mendigos (as estátuas vivas, os músicos de rua, gente a interromper-nos o jantar para vender uma flor) e também, por toda a parte, mendicidade pura e dura, até de portugueses com cartazes a dizerem “ajudem-me a voltar para o meu país”. Curiosamente, não sei porquê, ainda não vemos isto em Portugal. Ou sou eu que não ando muito pela baixa.
4. É notícia a demissão do vice-presidente da bancada do PS, Pedro Nuno Santos, manifestando publicamente o seu desagrado com as meias tintas de Seguro, que de seguro não tem nada, personificando a moleza, a ambiguidade, a redondeza, a insegurança. 
Não conheço Pedro Nuno Santos, mas fiquei a considerá-lo quando disse que Portugal tinha de dar um murro na mesa, porque isto poderia fazer pensar duas vezes o casal Merkozy, com um pequeno país a pôr em risco o seu tranquilo domínio da UE e a fantasia de que o euro está bem e se recomenda. O deputado foi achincalhado por tudo o que é bem pensante, que acha que se deve beijar a mão dos benfeitores. Infelizmente, até de gente de “esquerda” li que “o rapaz" não funciona bem. Peço a algum meu leitor que tenha contato com ele, que eu não tenho, que lhe faça chegar um meu abraço.
5. Este PS, onde não percebo como é que ainda estão - não é por estarem, é por estarem sem eficácia - meus caros amigos de esquerda, prepara-se para votar a ratificação do aborto do novo tratado europeu, o do “pacote orçamental” ("fiscal compact"). Contra isto, ouve-se hoje, no DN, o protesto forte de Mário Soares. Mal vai o PS quando é um patriarca retirado, sem influência prática, sem capacidade de mobilização de militantes, que aparece como alma de esquerda do PS. Ainda por cima, nunca o vi como exemplo de uma posição coerente de socialista não-marxista mas radical, como Jaurès influenciou o PSF. Por isto, mais estranho é que seja este homem já “inútil” (?) que se desmarca da situação dos socialistas europeus, herança da pior desgraça que lhes aconteceu nas últimas décadas, a terceira via e o “blairismo”, depois agravada pela vergonhosa capitulação perante a ideologia ordo ou neoliberal.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Praxe


Vou continuar ainda hoje com coisas da vida universitária, que muito me motivam. A foto ilustra bem, nenhum comentário necessário, a alarvidade da praxe académica. Se eu fotografasse tudo o que tenho visto, daria um álbum memorável para reflexão. Juntar-se-ia ao protesto de professores de Coimbra hoje noticiado.

Não há um reitor neste país que diga "não", proiba a praxe, esta coisa anacrónica, alvar?

Não há, porque, por muitas razões, de natureza empresarial, tanto na pública como na privada, é preciso tratar e acarinhar o estudante como "consumidor".

Vem também outra coisa a propósito indireto. Fala-se muito dos jotas partidários e dessa via de carreirismo político. E os dirigentes associativos? Eu fui, presidente de associação e secretário geral da RIA. Nessa altura, sê-lo era meio caminho para Caxias. Hoje é meio caminho para uma carreira videirinha.

Há algum tempo, vi um dirigente associativo praticar um ato da mais vergonhosa sabujice para com o poder universitário. E fiquei a pensar se devo ou não aceitar o saudável espírito de abertura e de relativismo dos que me dizem que os jovens de hoje são diferentes mas tão bons ou melhores do que os do meu tempo.