quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Coelho fora, mas como votar a seguir (III)?

E concluo com o aspeto mais determinante desta discussão, o de maior interesse prático para os eleitores: seja em 2015, seja antecipadamente, o que mudará com o voto? O que mudou passando de Sócrates a Passos Coelho? Valerá a pena haver eleições ou não será melhor encontrar uma solução tecnocrática, um Monti que deve haver por aí? Alguém acredita numa verdadeira alternativa de governo de esquerda?

O que mudará com o voto? Há logo uma maneira muito simples, talvez radical, de responder: pior do que isto não pode haver, é matéria de salvação nacional retirar urgentemente do poder este bando de loucos que está a arruinar o povo português como nem o fascismo conseguiu, por muito que também lhe estivesse na sua “fé” política. Chegou-se a um ponto tal que essa urgência é tão premente que passa à frente de qualquer ponderação do que será o que venha a seguir. 

De qualquer forma, admitindo que seja vencedor o PS e mesmo receando que possa governar encostado à direita, penso que sempre tem alguma vantagem: mesmo que obedeça à troika e ao pensamento europeu dominante, e oficialmente obedece, parece-me que, ao menos, não faz gala em ser muito mais troikiano do que a troika. Que, por afinidade partidária, tenderá a ir mais venerar Hollande que Merkel. Claro que tudo isto pode ser menor, mas do mal o menos.

O que mudou passando de Sócrates a Passos Coelho (ou de Teixeira dos Santos a Gaspar)? Que pensem nisto todos os tais eleitores, de entre o pântano ou centrão dos 80%, que transitaram do voto num partido para o voto no outro. É verdade que já ninguém podia aceitar Sócrates sem vergonha ou ofensa à honestidade de cada um, mas a política não é só emoção ou reação primária. 

Muitos me dizem que se deixaram enganar, mas nunca mais. Gostaria de acreditar nisto, dito por quem se deixou enganar por Cavaco e lhe deu a maioria absoluta, por quem trocou Guterres ou Ferro Rodrigues por Durão fujão, por quem trocou Sócrates por Passos Coelho. Nunca mais se vão deixar enganar? Só quando se libertarem da influência desinformativa, ideológica, de comodismo de vida, de egoismo, de des-socialização, também de medo, que a sociedade hegemónica, à “big brother”, tem usado para os dominar.

Valerá a pena haver eleições ou não será melhor encontrar uma solução tecnocrática, um Monti que deve haver por aí? Assim começaram sempre as soluções autoritárias. Por detrás de cada “tecnocrata” está um político autoconvencido, arrogante, movendo-se no círculo fechado dos poderosos mundiais do neoliberalismo e com grandes raízes profissionais e de amizades na banca internacional, os homens do Goldman-Sachs. Gaspar, Borges? Ou então, qualquer provinciano senil (ou intelectualmente pouco honesto?), que só pode ser tido a sério num país de tão forte marca messianista sebastianina. 

Os pergaminhos técnicos servem para fazer esquecer a falta de cultura e valores éticos democráticos. Pior, talvez não só a falta, mas a existência dos contrários. A Dra. Manuela Ferreira Leite proferiu aquela célebre afirmação de que Portugal talvez precisasse de seis meses de suspensão da democracia. Foi tida como blague. Têm a certeza? E têm a certeza de que o Presidente da República, por quem passaria obrigatoriamente esta solução de governo, garantiria, como jurou, a obediência à democracia e à Constituição de um governo “tecnocrático”?

Alguém acredita numa verdadeira alternativa de governo de esquerda? Esta é a grande questão. Também eu, no imediato político, não acredito. Mas antes é preciso entendermo-nos sobre o que é uma alternativa de governo de esquerda. Estamos num momento muito propício a discursos ambíguos. Começo por falar da esquerda apartidária, em que me situo. É coisa muito fluida e complexa, extremamente plural (e bem bom!) e que, por não obedecer a disciplinas e instrumentalismos partidários, preza muito a ética pessoal e a sua independência mental.

Para esta esquerda, o que é a esquerda? O que interessa mais é o que é para ela a esquerda organizada, partidária. Joga muito aqui um velho e louvável sentimento radicado na unidade antifascista, que partilho (embora, pessoalmente, no âmbito do movimento associativo em que tive ações políticas destacadas, tenha tido por vezes de dizer não, mesmo contra a unidade).

Esta atitude unitária, ainda louvavelmente prevalecente, usa um critério inegavelmente útil: é fácil definir a direita; portanto, tudo o resto é esquerda. Infelizmente, não é assim. Por exemplo, nas eleições marcelistas de 1969, sabe-se muito bem como as ilusões de aceitação pelo regime, mesmo como o mendigo a provar a caridade do senhor, não atraíram só a ala liberal, também causaram a criação das três CEUD. As CDE eram indiscutivelmente esquerda. E as CEUD eram esquerda ou não? Depois, por exemplo, os conflitos dentro dessa “esquerda” muito larga – com reflexos no MFA – sobre a luta antimonopolista e sobre a descolonização, depois do 25 de abril?

Afinal, parece-me inegável e a ter sempre presente que esse entendimento muito ambíguo sobre “a esquerda” teve sempre avanços e recuos, de natureza tática. Creio que estamos numa situação única, simultaneamente de avanço e recuo. Pode parecer isto estranho, mas já explico a ideia, obrigatoriamente circunscrita já não a uma luta estratégica, contra o fascismo, mas a um ciclo político curto, em duas fases.

Para o grosso da esquerda, consequente, o ciclo político que vivemos tem como eixo de luta a recusa do austeritarismo; a recusa da ideologia neoliberal; a defesa acima de tudo do emprego, do bem estar mínimo garantido dos portugueses. E, para tudo isto, o crescimento económico; a obrigação de assumirem responsabilidades os causadores do principal problema, a dívida privada e nomeadamente a banca; e, se necessário, a aceitação das últimas consequências, como a suspensão do serviço da dívida e mesmo a sua reestruturação, para não falar da eventualidade de saída do sistema monetário do euro. Tudo isto é, essencialmente, a denúncia do memorando com a troika, obviamente que com negociações subsequentes.

Muita gente de esquerda, e dois dos partidos desta área, pensam que isto é absolutamente necessário para solução da crise e que, mesmo com custos elevados, eles serão inferiores aos custos terríveis, sempre a crescer e a derrapar, da política de austeridade.

Então, a plataforma de uma desejável alternativa de governo deve exigir esta base comum? É óbvio que o PS não está minimamente aberto a sequer discuti-la. Até onde ele pode ir é a) à pretensão de renegociação, com todos os cuidados, dos prazos do resgate, dos juros, de novas condições para recapitalização da banca e das condições para compra de dívida pelo BCE; b) à exigência, mesmo que só com efeitos propagandísticos internos, de compromissos do memorando que foram acrescentados pelo fervor gaspariano, depois da assinatura pelo PS.

Perante esta situação, PCP e BE, sem esquecer a importância de posições a defender por movimentos não partidários e pelos sindicatos, têm uma árvore de bifurcações de opções. 1) Mantêm a exigência da denúncia do memorando, e não há plataforma eleitoral, mas: 1.1) o PS tem maioria sobre o conjunto PSD/CDS (o que, para já, vai contra as sondagens) e o bloco PCP/BE fica em posição confortável, destacando-se da política do PS. 1.2) o PS precisa dos votos do PCP/BE (e/ou, não vou esmiuçar isto agora) mas exige-lhes apoio quase incondicional e estes ficam numa posição muito delicada. 2) O PCP e o BE dão sustento antecipado a um governo do PS essencialmente com o programa deste e então não podem colaborar na governação, tendo sempre que afirmar a sua posição e justificando cada voto com o “entre o péssimo e o mau, seja este”, mas com total liberdade de esclarecimento dos eleitores.

Porque é que falei em duas fases do próximo ciclo? Por causa de 1.1 ou de outra hipótese ainda, a de o PS, com maioria relativa, fazer um grande bloco troikiano ou então só com o CDS/PP. A meu ver, um primeiro ciclo legislativo para o PS, completo ou incompleto, nestas condições, seria catastrófico, eleitoralmente e em termos de fracionamento interna. Era a “pasokização”.

As posições vencedoras dos congressos recentes do PCP e do BE parecem apontar para esta estratégia de desgaste do PS e, por parte do BE, de um mimetismo com a Syriza, o que está longe de ser “cientificamente” sustentado. Parece-me claro que a moção A da convenção do BE aposta nisto, contra o que me parece ser uma posição mais flexível taticamente, mais atenta à psicologia especial dos possíveis dissidentes do PS, que era a da moção B, perdedora. No entanto, findo o predomínio Louçã, e apesar de não perceber como vai funcional a nova direção dual do BE, mantenho alguma expetativa positiva em relação ao traquejo político, do meu tempo, de João Semedo.

A hipótese 1.2 é de cortar à faca e desafia qualquer prognóstico. É imprevisível, depende do calendário, da reação popular às exigências da troika e à degradação económica, do nível de asneira do PS. É seguir a cada momento. À primeira vista, será catastrófica para o PS, mas não excluo consequências indesejáveis, mesmo golpes antidemocráticos.

Na hipótese 2) não acredito, pelas idiossincrasias de cada um dos partidos. No entanto, seria a via mais segura para a “pasokização” do PS, para a emergência de alternativas intra-partidárias. Até agora não falei disto, que me parece essencial. Um dos nossos problemas mais velhos na esquerda é a ausência de qualquer coisa entre o PS e o conjunto PCP/BE. 

Ficam ainda duas notas. Neste contexto, com tanta margem de imprevisibilidade, com uma dinâmica política que ultrapassa o sistema partidário, os movimentos podem ter um papel determinante. Alguns diluiram-se ou perderam dinâmica, até por terem sido coisas impreparadas a cavalgar a onda, outro remeteu-se a um trabalho muito circunscrito (a Iniciativa da Auditoria Cidadã da Dívida), muito dedicado mas teórico. Resta o de maior ambição de globalidade política e o de maior impacto público, o Congresso Democrático das Alternativas (CDA).

Em relação a tudo o que agora escrevi, parece-me ter o CDA um papel muito importante, como mediador: defende sem ambiguidade a denúncia do memorando; defende eleições antecipadas e declara-se a favor de uma alternativa eleitoral comum de esquerda; não hostiliza o PS oficial e mantém todas as portas abertas à discussão amigável e leal; procura relações com margens do PS. Pode ser que nada disto resulte, mas toda a muita gente que participou no Congresso ao menos fica de consciência política tranquila.

Também continuo a pensar que a esquerda portuguesa precisa de um novo partido, como tantas vezes discuti neste moleskine. Simplesmente, tentativas em que me empenhei, também as de outros, mostraram-me a inviabilidade, por razões que em boa parte lamento profundamente, de uma tal convergência de esforços. Embora admita uma boa dose minha de irrealismo, creio que só será possível um novo elemento de jogo partidário na esquerda por gemulação a partir do PS, desde que não feita por diletantes, mas sim por políticos a sério que sabem o que são as bases estruturais, financeiras e organizativas necessárias à criação de um novo partido.

E também o debate político e a coerência de posições que assemelhem esse novo partido a um Parti de Gauche francês e não à Esquerda Democrática grega, hoje no governo troikiano.

Faltou falar da rua. Não foi esquecimento. Disse logo de início que, por agora, ia falar só de eleições. A rua fica para depois.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Coelho fora, mas como votar a seguir (II)?

Tendo falado do troikismo, passemos à recusa. Não há muito a dizer, no essencial, embora haja nuances. No essencial, é cada vez mais gente que recusa o programa combinado com a troika, que recusa os programas e orçamentos do governo que ultrapassam em devoção esses compromissos, que recusa a ideologia neoliberal fanática que lhes está na base, que recusa a noção de que a austeridade a conduzir ao empobrecimento nos vai fazer sair da crise.

Não há dúvidas sobre a posição comum: é preciso denunciar o memorando, é preciso substituir urgentemente este governo. Mas há divergências, penso que resolúveis.

Uma tem a ver com a questão (e o termo) da “denúncia”. Há quem discorde por achar que não temos força para tal, que é uma aventura, que há é que propor renegociações. Afinal, é principalmente uma questão de bandeira política. É claro que ninguém imagina que “denunciar” é fazer uma declaração estrondosa e ficar calmamente à espera. O que se segue imediatamente é exatamente o que os outros propõem, uma negociação. Simplesmente, e isto politicamente é essencial, é uma negociação por parte de quem um murro na mesa, sabendo ao que se arrisca, não por quem, à Egas Moniz, vai de baraço ao pescoço ao Afonso troikiano.

Isto pode parecer uma pequena diferença tática. Não é. Faz-me lembrar tempos meus antigos de horas e horas de discussão com a principal corrente minha rival no movimento estudantil (antes dos maoistas), em que, sobre a luta antimonopolista ou sobre a descolonização, cada palavra não tinha só sentido tático; sentíamos que traduzia uma postura política e uma maior ou menor força de luta.

Mais importante e divisiva é a questão do euro. Há quem defenda como ponto de partida indiscutível a nossa auto-exclusão da zona euro. Na prática, penso ser a posição do PCP.  Pelo contrário, os europeístas utópicos recusam qualquer solução nacional que não seja no quadro da “refundação do euro”, numa via trotsquista à Syriza. Era claramente a posição dominante de Louçã no BE, verei como evolui o partido com a nova direção.

Sem desprimor para a legítima participação de militantes partidários nas mais recentes discussões sobre este tema, parece-me que se deve dar maior atenção a um grupo crescente de gente de esquerda não alinhada, em que me situo. 

Creio que foram muito instrutivas as intervenções na sessão de trabalho sobre economia no Congresso Democrático das Alternativas. Destaco as da mesa, de João Ferreira do Amaral, de Jorge Bateira e de Ricardo Cabral, todos concordantes em que a questão do euro é técnica, no quadro muito mais importante da requalificação económica e financeira do país. Ficar ou sair? É um fator, certamente muito importante, mas um fator entre outros. E cada coisa a seu tempo, no processo da negociação. Mesmo o relator, João Rodrigues, creio que publicamente identificado com o BE, teve a posição intelectualmente correta de não considerar a questão do euro como um tabu político.

Falta então o cenário do “nim”. Infelizmente, é decisivo, porque corresponde à posição oficial do PS, afinal a força política determinante na viragem (?) da nossa política recente.

Posso estar errado, mas parece-me que a posição oficial (e porventura maioritária entre os seus membros) tem uma vertente troikiana, como já discuti: o compromisso essencial com a troika é para se cumprir (tanto mais que, contra-natura, foi o PS que o subscreveu), a ida rápida ao mercado é essencial, os mercados não se discutem, nacionalizações paciência, também fizemos muitas. 

Ao mesmo tempo, coisas meramente cosméticas. Era bom termos mais tempo, juros um pouco mais baixos, menos pressão austeritária. Já alguma vez o PS disse como faria para pressionar os senhores da troika, mais os amigos banqueiros portugueses, mais os neo-liberais da casa de quem todos são amigos, a sentarem-se à mesa e discutirem tudo isto, quando a troika tem as coisas bem escritas no memorando, pelo próprio PS, e a que propósito ia aparecer como uma espécie de Madre Teresa de Calcutá? Principalmente quando a sua linha de defesa contra o cada vez maior erro das suas medidas os está a empurrar contra a parede, em vez de uma atitude científica de auto-crítica?

Já não há pachorra para este blabla, principalmente quando protagonizado por alguém tão baço, tão banal, tão Seguro/inseguro, como António José Seguro. E com uma equipa, um governo sombra, que se desconhece.

Com tudo isto que ficou dito, qual o cenário eleitoral? Chega por hoje. Amanhã continuo.

Coelho fora, mas como votar a seguir (I)?

Finalmente, tenho tempo para escrever alguma coisa, sempre prometida e adiada, sobre o quadro político numa dimensão muito bem definida: o quadro parlamentar, eleitoral, a breve prazo, com atores que provavelmente serão só os atuais partidos. Começo por isto. Defendi, a seu tempo (?) a criação de um novo partido que desencravasse mesmo que minimamente o impasse do nosso sistema político parlamentar. Por razões que compreendo bem, e até diferentes de grupo para grupo, não me parece viável a tempo de ir às próximas eleições (2015, mas muito provavelmente antes). Não vou discutir isto, porque poderia criar tensões entre pessoas bem intencionadas mas com visões e até interesses pessoais diferentes sobre esta questão.

Ainda hoje recebi mensagens de amigos com textos excelentes sobre a necessidade de propor aos cidadãos novos modelos de sociedade, novas perspetivas de felicidade coletiva, novas regras de cidadania. Claro que alinho, mas, neste momento, e contra muita coisa que tem sido escrita, a prioridade vai para a reflexão e o discurso teórico e prático da economia política, articulada com as soluções práticas e a curto prazo da intervenção política, bem como o grande fundo de movimento social, só indiretamente e em grau menor influenciando a decisão política do calendário quadrienal.

Parece-me importante distinguir três grandes campos, político-ideológicos e com efeitos no eleitorado, com nuances que discutirei a seguir: o troikismo, a recusa, o nim.

Começou por ser o arco da troikismo, 80% do eleitorado: 1. os governos anteriores deixaram-nos cheios de dívidas; 2. não há alternativa; se não conseguirmos ir ao mercado em breve não temos dinheiro; 3. além disto somos honestos e temos de pagar as nossas dívidas; 4. a formiga não tem culpa da cigarra, etc. Falácias! Vejamos, coisa coisa, e muito mais haveria.

1. Até à grande crise de 2008, os nossos indicadores (balança de pagamentos, défice orçamental, dívida pública) eram muito satisfatórios, em alguns casos e anos, sabem?, melhores do que os da Alemanha. Porque é que hoje toda a gente “emprenha pelos ouvidos” e não vai ler as estatísticas, tão fáceis de obter na net? Não gastamos mais do que podíamos, gastamos o que o sistema do euro nos impôs.

O que se passou a seguir – e ninguém que me tenha lido suspeitará de que eu tenha simpatia pelo execrável Sócrates – é que o seu governo, seguindo uma linha geral, neo-keynesiana e fortemente inspirada por Obama, decidiu investir dinheiro público na economia, principalmente por intermédio do apoio à banca e às novas tecnologias. Foi o seu erro fatal, porque foi a banca que acabou por lhe dar o beijo de Judas. Lembram-se de quem fez a grande pressão sobre Teixeira dos Santos para a vinda da troika? Pudera, em 78 mM €, 12 eram para recapitalizar a banca!

A Alemanha, a princípio, também alinhou na política do fomento público da economia, embora não se sentisse muito pressionada, dado o enorme excedente de balança comercial de que gozava. Por isto, e porque esta política keynesiana repugnava aos seus dirigentes políticos e financeiros, fanaticamente neoliberais como fanático só pode ser um alemão, e porque entretanto a pressão dos mercados, dos ratings, dos juros, começou a pôr gravemente em risco os ativos dos bancos alemães em dívida dos países meridionais, rapidamente se virou para o modelo oposto, o do austeritarismo que estamos a viver.

2. “Não há alternativa”. Isto é o máximo da manipulação política e ideológica, impede qualquer discussão. Foi, parece-me que indiscutivelmente, a razão do quase unanimismo da votação de 2011, independentemente do resultado, coisa de menor, de cada partido do “arco”. Seria longo discutir aqui como isto já está posto em dúvida pelo homem comum. Na TV, no jornal, na net, cada vez mais ouve e lê coisas alternativas, contraditórias, que talvez não perceba mas que lhe mostram que aquele coro unânime desafinou. Afinal, Manuela Ferreira Leite e Paredes não são do PSD? E Bagão Félix não é do CDS? E o inefável perito João Duque já não começa a dar uma no cravo e outra na ferradura?

3. “Somos honestos e temos de pagar as nossas dívidas”. Sabem, vocês gente ainda com fundas raízes camponesas, que esta mentalidade indiscutivelmente honesta mas primária, foi a base da “economia moral” de Salazar? “O país governa-se como uma família”. Estupidez! Ou melhor, coisa inteligente do beirão rural que tinha uma grande intuição sobre a natureza do Zé Povinho. A economia familiar é fechada, o investimento é mínimo, não há circulação financeira de mercado, não há relações internacionais, etc. E a economia do Estado obedece a deveres essenciais, os do desenvolvimento e bem estar do seu povo. Porque não se ver isto numa família? Os pais têm o seu “povo”, os filhos; há dívidas a pagar que passem à frente do mínimo de pão para os filhos? Há pai que vendo filho à fome não diga "não pago"?

4. “A formiga alemã não tem culpa da cigarra portuguesa”. Só um bom economista, não eu, é que consegue o poder de síntese para, num parágrafo, desmentir esta falácia. Primeiro, na década de 90, a Alemanha, ainda por cima sobrecarregada com a reunificação (que os outros europeus também pagaram!), só foi formiga porque os seus trabalhadores, com sindicatos que até tinham mentalidade empresarial, com grandes empresas deles dependentes, aceitaram uma enorme degradação do seu poder de compra, da sua segurança social, sem comparação com sacrifícios dos patrões, para uma competitividade de “desvalorização interna” que permitiu um grande excedente de balança de pagamentos.

Esta liquidez bancária serviu para uma campanha agressiva de crédito barato nos países da periferia europeia. Os bancos alemães (e franceses, bem como os holandeses na Islândia, por exemplo) ganharam fortunas. Em geral, foram movimentos especulativos, relativos a finanças e a bens não transacionáveis, que não acrescentaram valor às economias periféricas. Antes as tornaram mais frágeis quando, vendo-se a crise, os capitais voltaram aos bancos alemães. Se fomos cigarras, foi porque a riqueza das formigas exigia que houvesse cigarras. Com tudo isto, os mercados predadores da dívida pública viram a sua oportunidade. Não porque ela fosse grande, não porque o défice orçamental também o fosse, mas só porque tudo isso tinha resultado numa economia fragilizada, em que muito mais grave, como problema, não é o gasto público mas sim a dívida privada.

Afinal, só em prolegómenos, isto já vai longo. Nem passei do primeiro dos tais três campos ideológicos de que falei. Vou fazer uma pausa e continuarei.

Um vigarista até me pode fazer sorrir

O caso Artur Baptista da Silva, para mim, é principalmente divertido. Confesso que com alguma simpatia infantil, para quem leu Arsène Lupin ou achava que os truques toscos dos ilusionistas dos raros circos que iam à minha terra eram uma transgressão magnífica das regras certinhas em que era educado.

O homem não é um burlão, não ganhou dinheiro com as entrevistas ou com a conferência no Grémio. Aldrabão lá isso é, e aldrabou um jornalista que eu gosto de ler, Nicolau Santos, mas também com o efeito positivo de nos fazer sermos muito críticos em relação à comunicação social, como aqui tantas vezes tenho dito. 

E convenhamos que, se Nicolau Santos se deixou levar por ele, tanto numa crónica de jornal como num programa de TV, ou se uma assistência seleta o ouviu no Grémio sem desconfiar, é porque o homem deve ter um discurso económico e político consistente. Ou julgam que Alves dos Reis não teria sido melhor banqueiro do que Inocêncio Camacho, cuja assinatura conseguiu com o truque mais incrivelmente infantil, o da última página só com data e assinatura?

Agora o mais estranho é que, nesta “estória”, ainda ninguém tenha discutido o que o homem de facto disse. Veja-se uma das suas intervenções, que por acaso gravei e fui rever agora. O essencial é que o homem diz verdades! Como escreveu um comentador do vídeo, "o mais irónico nisto tudo é que um impostor tenha mais razão e perceba melhor a situação do que os nossos governantes". Talvez seja isto, afinal, que não lhe perdoam. Será que já chegamos ao ponto – claro que eticamente inadmissível – de se forjar toda uma história para se poder exprimir as suas ideias?

É muito pior do que os poemas ridículos e lamechas, de pé quebrado, que põem na net assinados por Pessoa, ou, vindos do outro lado do oceano, também por Carlos Drummond? Ou as cartas ditas de João Ubaldo ou, em Portugal, de Eduardo Prado Coelho, como se já tivesse desaparecido a capacidade mínima de identificar estilos e arquétipos mentais? Este vigarista, ao menos, gozou – e usou bem – este meio inculto em que vivemos, crédulo e acrítico, apesar das suas certezas com pergaminhos “académicos”. “It’s the press/TV/net, stupid!”

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Ça ira!


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Ça ira! Está há muito tempo como ícone na barra lateral deste blogue. Hoje tem honras de destaque na coluna central, porque um dia destes talvez estejamos todos a dizer "ça ira". Foi uma célebre canção revolucionária da Revolução francesa. Este episódio, protagonizado por Edith Piaf, é do excelente filme de Sacha Guitry, “Si Versailles m’était conté”. Não o o encontro à venda, mas tenho uma versão digitalizada que posso fornecer a amigos.

A letra é atual, se substituirmos “les aristocrates” por “les banquiers”. Também deixando alguma ambiguidade entre “on les pendra” e hoje “on les prendra”. 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Manifesto contra o manifestismo

O título é contraditório, mas haja lugar a algum humor de escrita, mesmo que se trate de coisas sérias. A pensar em humor na escrita séria, coisa queiroziana que nos ficou de jovem, tenho logo de mandar um abraço virtual ao Marcelo. Há tempos, deixei aqui e aqui as minhas reservas em relação ao último da infinda lista de manifestos de gente que parece que não tem mais nada onde exercer a devida ação política. 

Desde já digo que me é muito reconfortante ler a lista dos subscritores. Não vou procurar quem assinou, mas antes quem NÃO assinou e nestes, felizmente, encontro os meus maiores amigos políticos. E nem preciso de lhes perguntar porque não assinaram. Simplesmente porque “há, nos olhos seus, ironias e cansaços”, porque “sabem que não vão por aí”. Mesmo que Régio não fosse o poeta de estimação da minha gente dos 60s.

Tudo isto vem a propósito de uma notícia a que talvez não devesse dar qualquer crédito, porque publicada no pasquim Sol. É jornal que prenuncia o que vai ser o domínio da nossa comunicação pelo gangue da corrupção angolana (e isto é dito por um velho simpatizante do MPLA do tempo da guerra colonial).  Leio-o na diagonal, masoquisticamente, quando distribuído gratuitamente (porquê?...) num sítio por onde passo.

Diz-se que o grupo soarista do tal manifesto prepara uma coisa à Monti (fracassada ao fim de um ano), tentando influenciar o PR para nomear um primeiro ministro aceitável por amplos quadrantes, até sindicalistas, Silva Peneda, presidente do Conselho Económico e Social, ex-ministro de um ou mais governos de Cavaco. Até vai longe a notícia, identificando como apoio, que não imagino de todo, Manuel Carvalho da Silva. É o jornal do arquiteto Saraiva, iluminado pelo sol do título, artista português, palavras para quê.

Não quero crer. Vejo na lista de subscritores muita gente que, como eu, a haver como é urgente o derrube deste governo, só aceitam uma subsequência eleitoral, que não querem abrir as portas a nenhum cesarismo, que não veem no atual PR a grandeza política para garantir que uma tal solução fosse mesmo apenas e só uma coisa muito excecional e transitória, completamente à margem da sua agenda política. 

Deve ser coisa do tal pasquim, que não passou pela cabeça de alguns subscritores do manifesto. Mas este é o perigo do manifestismo. Ou a cada especulação vai cada um dos manifestistas explicar a sua posição?

NOTA 1 – Há dias, Filomena Mónica atirou-se que nem gata a bofe a Boaventura Sousa Santos, subscritor do manifesto soarista. Lembrei-me disto porque BSS é hoje o nosso manifestista-mor. Vai a todas, como vai a todos os financiamentos para o seu centro. Eu acho que MFF é uma diletante menina-bem e que atacando BSS há nisso muito prima-donismo das “ciências” (?) sociais, muitos ressabiamentos e invejas num meio em que afinal estão todos bem para os outros. Mas também é facto que o homem expõe todo o flanco. É o nosso expoente do manifestismo. Tanto assina coisas a favor da austeridade como dá entrevistas bombásticas de extrema esquerda. 

NOTA 2 – Vendo o tal pasquim dirigido pelo inefável arquiteto autor do mais ridículo e literariamente inepto romance policial de cordel, em folhetins a cada número do jornal (inimaginavelmente abaixo de José Rodrigues dos Santos, porventura o seu émulo), reparo que muitas páginas ímpares são ocupadas com anúncios de página inteira da Boutique dos Relógios. Não é publicidade para Portugal. O pasquim é hoje muito vendido em Angola, que se sabe fornecer boa parte da clientela das lojas de luxo da Av. Liberdade. Quem é hoje o dono da loja? Ao que chegou a “grandeza lusitana”, a “ditosa pátria minha amada”...

O americano armado

As discussões sobre o massacre de Newtown têm focado muito o problema das armas. Não me parece o essencial, embora o considere muito importante. Mas, afinal, quem quiser matar em massa, pode lançar uma bomba artesanal, um Molotov, ou até esmigalhar crânios com um taco de baseball. O problema é outro. As armas são apenas o instrumento de uma cultura de violência e de des/para-socialização da construção da sociedade americana.

A América é uma realidade complexa, desafiadora de qualquer mente aberta. Foi muito fácil, na guerra fria, fazer a sua diabolização. Lembro-me de uma colega, cientista supostamente racional mas comunista ultra-sectária, ter sofrido com a necessidade de ir a um congresso aos Estados Unidos, ter um passaporte para o inferno.

Não há uma América, como é que podia haver. Há o leste gravitando em torno de Nova Iorque, das univerrsidades Ivy League, há a Califórnia; há o sul texano; há o polo dos grandes lagos; tudo o que eu conheço. E mais, há o interior, "middle west", que só conheço por uma imagem talvez estereotipada do cowboy, dos filmes com os clientes brutos dos bares e dos motéis. 

Talvez tenha sido mais importante para mim conhecer americanos antes de conhecer a América, quando tive excelentes colegas americanos no meu instituto suíço. 1973, era o Vietnam e o Watergate. Na maioria, eram liberais ou radicais, coisa difícil de definir, fora dos esquemas ideológicos e partidários europeus. Eram contra a guerra do Vietnam, eram Woodstock, interrogavam-me entusiasticamente sobre a revolução em Portugal. Muitas vezes eram mais radicais do que eu, outras vezes pareciam-me presos à "democracia americana". O que não percebiam era isso de eu então ser comunista! E eu não percebia coimo eles podiam desconhecer o simples significado da palavra "socialismo".

Mais tarde, em idas sucessivas aos EUA, quase anuais, passei por muitas conversas com amigos anti-Reagan, depois apoiantes de Clinton em plena campanha eleitoral, estive num “meeting” científico que alterou o seu programa para podermos todos assistir, pela TV, à libertação de Mandela, muito mais tarde, já reformado mas recordado e convidado pelos meus amigos, assinei manifestos promovidos por amigos americanos contra a guerra do Iraque e contra a prisão de Guantanamo. Saravá, Dick, Sue, Bob, Linda, Mark, Steve, Donald, Paula, Enzo, Daram, etc., etc. Para além do muito que desde então conheço da América, hoje cada vez mais vejo que é de lá, dos seus economistas progressistas, que nos vem alento e bons conselhos, na nossa crise económica e financeira.

Um dos livros mais importantes que li nos últimos tempos foi o “The American Future”, de Simon Schaman. A história da construção da América, da solidificação dos seus valores, depois dos conflitos entre esses valores na guerra da Secessão, da síntese entre a cultura dos pais fundadores, puritanos, "wasp" e as mais diversas culturas de imigrantres (até os meus patrícios ilhéus) é fascinante. Não é possível que um país passe facilmente de um espaço limitado na costa leste, das 13 colónias fundadoras até ao domínio do enorme território atual. 

Foi essencial um grande sentido prático de ordenação das comunidades colonizadoras, de “lei natural” da sua origem inglesa, de supremacia do direito de defesa individual, de proteção armada da família. “Wild west”. Ou o juiz Roy Bean e o seu urso. Também, mais execravelmente, “a good indian is a dead indian”. Também que, sem o poder armado do homem comum, não teria havido KKK. Mas, infelizmente, a história não é feita por madres Teresa de Calcutá. Felizmente, também não por Gaspares, que vêm e vão, a onda bate e rebate mas a praia fica e nós a nadarmos.

E os massacres loucos de “mass murders”, como este de Newtown? Não tenho competência de Psicologia e de Sociologia para os discutir. Tendo a associá-los, em termos de desumanidade, a atentados de 11 de setembro ou de Atocha, a bombistas suicidas e coisas do género, ao monstro norueguês, mas talvez haja diferença, porque os últimos invocam uma ideologia. Os “mass murders” são só psicopatas. Ou sociopatas? Caso possível de interseção é o do norueguês. Claramente um psicopata, mas também alimentado por uma ideologia sociopática, o que não vemos nos casos americanos.

Concluindo, sou absoluto adepto do controlo das armas, do controlo dessa tenebrosa instituição americana National Riffle Association, até pelo menos há algum tempo presidida por Carlton Heston, mas julgo que há muito mais de patológico por detrás de uma respeitável professora, mãe de família, ter quatro armas mortíferas em casa, nem sequer resguardadas da possibilidade de acesso por um filho jovem. Um filho jovem que ela – e mais quem? – criou como um monstro.

NOTA – Veio bem a propósito uma apresentação que me mandaram: "Supermercado como este, só nos EUA".

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Universidades privadas (I)

Quando sedimentada a poeira do caso Relvas, dentro de dias (e aqui direi do que resultar), no que respeita à universidade que lhe conferiu o grau - mal ou bem, mas estou certo de que sem dolo, a nível institucional - é altura de se refletir sobre a chamada “acreditação de aprendizagem prévia experiencial” (”Accreditation of prior experiential learning”, APEL). 

Tanto se disse que era coisa indiscutível do processo de Bolonha, quase que a sua essência, sem mais regras nem considerações de prudência, como se disse que era uma ofensa a quem cumpre o seu percurso académico padrão. Nem uma coisa nem outra. Escrevi algumas reflexões mais elaboradas e documentadas sobre isto, no meu sítio, que sinto merecer reanimação, embora com respeito pela transparência dos eventuais conflitos de interesses.

Fez-se muita asneira sobre este assunto, em públicas e em privadas. Reflexo, afinal, de que a maioria das instituições, seus responsáveis e professores, nunca estudou a sério o processo de Bolonha e por isto a sua transposição para Portugal é uma caricatura vergonhosa. Não só asneiras, também aldrabices. A Lusíada, hoje na presidência da associação das privadas, veio dizer que nunca tinha feito creditações profissionais. Mentira, como eu sei pelo estudo que tenho estado a fazer de todos os processos da Lusófona, bom número de casos transitados da Lusíada. Começo a sentir que tudo isto entre universidades é coisa demais para a minha carroça.

Este caso veio também novamente pôr em discussão, com boa dose de preconceitos, a questão das universidades privadas. Ninguém que me leia duvida da minha defesa do serviço público, na educação, na saúde, na segurança social. Mas isto não significa que não admita o privado, não por qualquer espécie de direito natural, mas como complemento obrigatoriamente de qualidade controlada quando o serviço público é insuficiente. Ou como coisa de mercado, para quem quer pagar, sem qualquer contributo público. 

Se, com tudo isto, continuo com responsabilidades numa privada, é porque ainda acredito que é esforço que vale a pena e que me poderá gratificar. Se não...

No caso das universidades privadas, a pergunta óbvia é: com propinas altas, porque é que ainda têm tantos alunos? Luxo de ricos? Não é verdade, porque têm alguma conotação pejorativa que até afastaria os ricos, ao contrário das clínicas privadas. E não é verdade porque eu, que lá ando, vejo uma pequena minoria de meninos-bem preguiçosos e ostentadores de riqueza, que passam o dia na cervejada, contrastando com uma maioria que almoça sopa e sandes e que não tem estacionamento para o Porsche que não tem.

Como é que, apesar de tudo isto, as melhores privadas - uma ou duas - conseguem sobreviver face às públicas que recebem do financiamento público e das propinas uma verba por aluno muito mais alta? Tem a ver, principalmente, com a sua natureza de “universidades de ensino”, contra a de “universidades de investigação” do setor público. E será mau ser-se “universidade de ensino”? Algumas das melhores americanas assumem este estatuto. Escreverei sobre isto, um dia destes.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

"Tem pai que é cego..."

Hoje, no Expresso, sobre o vice-reitor do Seminário do Fundão, suspeito de pedofilia: 
“Um antigo bispo da Guarda admite ter conhecimento de que o padre detido por suspeitas de pedofilia se deitava com rapazes, embora não acredite que tenha chegado a praticar ‘atos físicos’. Segundo declarações de D. António dos Santos à SIC Notícias, o vice-reitor do seminário do Fundão, padre L... M..., está a pagar o preço da sua ‘imprudência’.”
Era como o Michael Jackson! "Neverland".

NOTA – A omissão do nome do padre é minha, não do Expresso.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A praga dos manifestos (II)

Manifestei-me ontem como antimanifestos. Foi a propósito do último, reunindo tudo o que é gente respeitável à volta do patriarca. De uma leitura admito que apressada, porque já não tenho pachorra, conclui que era coisa que não aquecia nem arrefecia, banalidade de intervenção política de fase buco-anal de política, como escreveu o meu amigo Marcelo.

Hoje vejo que é manchete e com os jornalistas a titularem sempre coisas como “personalidades políticas exigem demissão do governo”. Fiquei angustiado: terei lido mal, induzido em erro os meus leitores? Afinal, há muita gente que considero a subscrever, tenho recebido hoje dezenas de solicitações nesse sentido. Fui ler melhor e o que lá se diz é:
Perante estes factos, os signatários interpretam – e justamente – o crescente clamor que contra o Governo se ergue, como uma exigência, para que o Senhor Primeiro-Ministro altere, urgentemente, as opções políticas que vem seguindo, sob pena de, pelo interesse nacional, ser seu dever retirar as consequências políticas que se impõem, apresentando a demissão ao Senhor Presidente da República, poupando assim o País e os Portugueses ainda a mais graves e imprevisíveis consequências. 
Os signatários "interpretam", iluminadamente, o enorme movimento popular? Os signatários admitem que o "Senhor Primeiro Ministro" possa alterar, sequer repensar refletivamente, sequer perceber com mínimo de inteligência, com ou sem Gaspar, as suas políticas? Os signatários admitem que o pobre homem tem coerência ética para, não podendo rever a sua política, tirar a consequência de demissão? Os signatários não percebem que, com tão triste carta, se estão a pôr ao nível intelectual do Sr. Passos Coelho? Os signatários lembram-se das ridículas cartas deste género que os seus pais ideológicos mandavam a Salazar (e que a censura nem deixava vir a público), certamente para grande gozo do tenebroso sacrista?

Eu escreveria essa carta aberta como exercício de humor negro, mas os tempos não são de humor. Escreve-se uma carta aberta a pedir a Passos Coelho que altere a sua política, e depois diz-se ao homem que, senão, é seu dever demitir-se. Redigo, tal tontice só pode ser lida como humor e eu não ando nada para humor.

Tudo entre gente politicamente bem educada, que, propondo a Passos Coelho que se demita, parte do princípio que ele, com a sua ética, vai pensar pelo menos durante um minuto sobre essa proposta. Senão, como se diz no fim da carta aberta, ainda vamos deixar isto entre as mãos pilatamente impolutas e milagrosas do venerando chefe de estado.

Este país já virou um imenso manicómio? Ou pelo menos, neste caso, um lar de terceira idade?

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Cartoon (I)


A praga dos manifestos

Recebi hoje mais uma carta aberta, manifesto, sei lá o quê, desta feita endereçada ao primeiro ministro (!) e prevendo-se enviar cópia ao PR. É claramente promovida por notáveis que, talvez com alguma imprecisão, poderia designar como da esfera soarista. Conta com as assinaturas dos que vão a todas, desde logo o inefável coimbrão que vai desde o célebre manifesto soarista/sampaista de apoio à troika (tenho boa memória e bom álbum de recortes) até aos apoios demagógicos aos contestatários do Rossio, passando por estas coisas inócuas. Infelizmente, também assinam esta pobre carta aberta pessoas com grande comprometimento com coisas muito importantes e afirmativas, também minhas, como o Congresso Democrático das Alternativas e que aqui, a meu ver, comprometem a sua coerência.

Respondi, com conhecimento da grande lista de correio eletrónico a quem foi enviada: 
“O que é que se pretende com isto? Que efeito político, a não ser exibir mais uma vez uma lista de pessoas respeitáveis que já não dizem nada ao cidadão comum, ou que até estão identificados com "os políticos, todos, que deram cabo disto"? O que é que se lê nesta carta de alguma proposta alternativa, mobilizadora?  Desculpem, caros amigos, mas não dou mais para estes peditórios.”
Em meia hora, já são reconfortantes as mensagens de apoio que recebi. Mas a mais notável, do meu velho amigo MCR, inclui esta frase magnífica: “Este desgraçado país não consegue sair da fase buco-anal do abaixo-assinadismo!”

À MARGEM – Fiquei a pensar em coisa bizarra. Imaginem que Marx e Engels, escrevendo o manifesto, o tinham feito como carta aberta aos governantes europeus da altura, e logo na época de 48!... Espírito revolucionário está mesmo esquecido? Há coisas talvez pequenas com grande significado político, simbólico. Quem é que hoje se lembra de escrever uma carta ao cunículo governante? O destinatário, mesmo que apenas formal, de qualquer mensagem política, hoje, é o povo português. Tudo o resto é coisa de quem sempre fez política de gabinete ou de clube burguês. E porque envelheço reconfortando-me com a ainda frescura das memórias vividas, lembro-me com isto de 1969, CDE e CEUD.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Lumpen não, obrigado

Anda pela net, e já vários amigos meus mo enviaram, um texto de protesto contra a intolerável carga policial na última manifestação, com prisões que se estenderam de S. Bento até ao Cais do Sodré. Até não deixa de ser curioso o contraste entre esta atuação e o autocontrolo impecável da polícia em 15 de setembro. Obviamente que concordo com este protesto, mas quis esperar pelo esclarecimento da minha posição, nesta entrada, para subscrever.

Não quero confundir-me com muitos que se têm solidarizado com os marginais que se destacaram nos desacatos nem sequer confundir-me com amigos que têm tido posições a meu ver ambíguas. Note-se que não me estou a referir a estes amigos promotores do protesto de que falei. Há companheiros de lutas que me vão criticar, como me criticaram quando manifestei a minha total falta de solidariedade com os arruaceiros dos tumultos de Londres. Não há nada de revolucionário nessa gente, só prejudicam a revolução e o movimento popular. Dizer que eles são uma forma particular de revolta popular é racionalmente abusivo e é politicamente perigoso.

É certo que são produto de toda uma sociedade, tal como os gangs dos bairros degradados, os hooligans, os seguranças de discoteca peritos e amantes da violência e, já agora, porque não? os viciados em drogas, todos “produtos sociais”. Aliás, muitos dos desordeiros encapuçados de S. Bento também são tudo isso. Começam de pequeninos. São os que assaltam os colegas de escola para lhes roubarem os ténis de marca, os que fazem "bullying", os que gozam a filmar uma miúda a ser espancada por duas galdérias da mesma idade, os que estragam um prédio novo com grafitis, os que rasgam a canivete os estofos do metro, os que riscam a todo o comprimento a pintura do meu carro. Mais ou menos jovens, são sociopatas. Coitadinhos, porque são uma esperança revolucionária?

Que sejam "pobres e inocentes produtos" da sociedade – ou do sistema, coisa ainda mais vaga e mais desculpabilizante – não chega nada para eu simpatizar. Seria determinismo primário e tonto eu considerar que as influências sociais, que não enjeito, anulam por inteiro as responsabilidades morais e cívicas individuais. Atenuante é atenuante, nunca anula o crime.

Essa gente é lumpen. Só já não digo "lumpenproletariat", à Marx, porque saem é da burguesia, mesmo muitos, se calhar, produtos de “boas famílias”. E nunca o lumpen foi revolucionário ou aprovado pelos grandes pensadores políticos de esquerda. Pelo contrário, o que sempre deram, na mudança política, foram agentes de mão e de cacete dos fascismos. Isto hoje é especialmente nefasto porque estamos, nesta crise, numa fase de grande ambiguidade política dos cidadãos, de oscilação. O que estão a sofrer puxa-os para uma política alternativa, mas coisas destas enquistam-nos nos seus valores ordeiros e tradicionais.

Repito que vou subscrever o protesto, mas deixo claro que o faria com muito maior gosto se nele lesse isto.

E estas coisas não dão tanto jeito ao governo e aos comandos mais conservadores da polícia? Porque é que os agentes à paisana da PSP, aqueles que podiam identificar e prender logo os vândalos, foram mandados retirar logo que Arménio Carlos abandonou a praça, sabendo-se bem que só então, sem a segurança da CGTP, é que se agravariam as provocações?

Mais umas notas pontuais.

Parece-me que a experiência recente aconselha a que não se convoquem manifestações para S. Bento. É verdade que o espaço tem grande simbologia política, mas grandes inconvenientes práticos. É pequeno e dá logo para a escadaria, considerada já terreno proibido, o que torna em fator de risco qualquer derrube de barreira. Os polícias estão obrigatoriamente muito próximos, a 10 metros ou menos. Manifestantes pacíficos e desordeiros estão quase que obrigatoriamente misturados. Sá há três canais de fuga: a D. Carlos, a Calçada da Estrela com grande inclinação para quem foge, a subir, e a R. S. Bento, estreita e com fácil atuação em tenaz de um corpo de polícia vindo do Rato.

A residência do primeiro ministro é outra que tal, com a agravante de que nem sequer os protestos têm visibilidade televisiva, por a polícia cortar a rua. Já Belém é diferente. Há um terreno neutro largo (toda a largura da rua), muito espaço na Praça Afonso de Albuquerque, muita fuga, que limita a ação da polícia de choque, e toda aquele conjunto de canteiros de jardim que impede uma frente compacta de polícia. Todavia, dar ênfase a Belém é exagerar o papel político do PR, o que, sem servir para desculpar a sua ambiguidade (o menos que posso dizer), também tem riscos de estímulo a qualquer cesarismo.

Isto são também memórias velhas. Ao contrário dos 1º de maio na baixa, cheia de caminhos de fuga e de lojas abertas que nos acolhiam a comprar retrozelos, a manifestação em que mais “porrada” apanhamos foi tecnicamente uma estupidez (também minha, dirigente estudantil): contra a guerra do Vietnam – de facto contra a nossa guerra colonial – frente à embaixada dos EUA, na Duque de Loulé. Avenida estreita, com carga policial vinda simultaneamente de cima e de baixo. À frente, a polícia de choque e os cães,  a fazerem-nos cair, atrás a “brigada de recolha”, os pides e os seus VW pretos. A partir desse dia, comecei a ter presente que tudo isto tem muito de técnica. Passei a saber muito bem onde me colocar.

Também me parece que é ilusório e perigoso ir-se a S. Bento para tentar controlar as coisas. Viu-se que é impossível. Aquela gente não é controlável, assim como os adeptos dos clubes que assistem pacificamente ao jogo do seu clube não controlam as claques. Pura e simplesmente, essa gente tem de ser isolada e deixada ao seu destino (nessa altura, se calhar desaparecem ou a polícia não lhes bate). Quanto ao seu “protesto político”, reparem que essa gente, bem identificável até por estilo pessoal, indumentária, tatuagens violentas e adereços grupais, não vai nas manifestações, só aparece em S. Bento.

Lumpen não, obrigado.

NOTA – Num bom texto no Arrastão, com que que concordo, Daniel Oliveira fala daqueles desordeiros como uma “minoria de idiotas”. Minoria sem dúvida, mas de que sejam simples idiotas é que duvido. Uma organização clandestina e difusa de mão-de-obra para toda a violência, política, clubística, de negócios escuros, de vida noturna, até de simples prazer pessoal e grupal, estilo "Laranja mecânica"? E com rede internacional? Dirão que é teoria da conspiração. "No creo en brujas, pero que las hay, hay!".

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Senhora Dona...

Carta de um passado futuro, de Isabel do Carmo:

O primeiro-ministro anunciou que íamos empobrecer, com aquele desígnio de falar "verdade", que consiste na banalização do mal, para que nos resignemos mais suavemente. Ao lado, uma espécie de contabilista a nível nacional diz-nos, como é hábito nos contabilistas, que as contas são difíceis de perceber, mas que os números são crus. Os agiotas batem à porta e eles afinal até são amigos dos agiotas. Que não tivéssemos caído na asneira de empenhar os brincos, os anéis e as pulseiras para comprar a máquina de lavar alemã. E agora as jóias não valem nada. Mas o vendedor prometeu-nos que... Não interessa.

Vamos empobrecer. Já vivi num país assim. Um país onde os "remediados" só compravam fruta para as crianças e os pomares estavam rodeados de muros encimados por vidros de garrafa partidos, onde as crianças mais pobres se espetavam, se tentassem ir às árvores. Um país onde se ia ao talho comprar um bife que se pedia "mais tenrinho" para os mais pequenos, onde convinha que o peixe não cheirasse "a fénico". Não, não era a "alimentação mediterrânica", nos meios industriais e no interior isolado, era a sobrevivência.

Na terra onde nasci, os operários corticeiros, quando adoeciam ou deixavam de trabalhar vinham para a rua pedir esmola (como é que vão fazer agora os desempregados de "longa" duração, ou seja, ao fim de um ano e meio?). Nessa mesma terra deambulavam também pela rua os operários e operárias que o sempre branqueado Alfredo da Silva e seus descendentes punham na rua nos "balões" ("Olha, hoje houve um ' balão' na Cuf, coitados!"). Nesse país, os pobres espreitavam pelos portões da quinta dos Patiño e de outros, para ver "como é que elas iam vestidas".

Nesse país morriam muitos recém-nascidos e muitas mães durante o parto e após o parto. Mas havia a "obra das Mães" e fazia-se anualmente "o berço" nos liceus femininos onde se colocavam camisinhas, casaquinhos e demais enxoval, com laçarotes, tules e rendas e o mais premiado e os outros eram entregues a famílias pobres bem- comportadas (o que incluía, é óbvio, casamento pela Igreja).

Na terra onde nasci e vivi, o hospital estava entregue à Misericórdia. Nesse, como em todos os das Misericórdias, o provedor decidia em absoluto os desígnios do hospital. Era um senhor rural e arcaico, vestido de samarra, evidentemente não médico, que escolhia no catálogo os aparelhos de fisioterapia, contratava as religiosas e os médicos, atendia os pedidos dos administrativos ("Ó senhor provedor, preciso de comprar sapatos para o meu filho"). As pessoas iam à "Caixa", que dependia do regime de trabalho (ainda hoje quase 40 anos depois muitos pensam que é assim), iam aos hospitais e pagavam de acordo com o escalão. E tudo dependia da Assistência. O nome diz tudo. Andavam desdentadas, os abcessos dentários transformavam-se em grandes massas destinadas a operação e a serem focos de septicemia, as listas de cirurgia eram arbitrárias. As enfermarias dos hospitais estavam cheias de doentes com cirroses provocadas por muito vinho e pouca proteína. E generalizadamente o vinho era barato e uma "boa zurrapa".

E todos por todo o lado pediam "um jeitinho", "um empenhozinho", "um padrinho", "depois dou-lhe qualquer coisinha", "olhe que no Natal não me esqueço de si" e procuravam "conhecer lá alguém".

Na província, alguns, poucos, tinham acesso às primeiras letras (e últimas) através de regentes escolares, que elas próprias só tinham a quarta classe. Também na província não havia livrarias (abençoadas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian), nem teatro, nem cinema.

Aos meninos e meninas dos poucos liceus (aquilo é que eram elites!) era recomendado não se darem com os das escolas técnicas. E a uma rapariga do liceu caía muito mal namorar alguém dessa outra casta. Para tratar uma mulher havia um léxico hierárquico: você, ó; tiazinha; senhora (Maria); dona; senhora dona e... supremo desígnio - Madame.

Os funcionários públicos eram tratados depreciativamente por "mangas-de-alpaca" porque usavam duas meias mangas com elásticos no punho e no cotovelo a proteger as mangas do casaco.
Eu vivi nesse país e não gostei. E com tudo isto, só falei de pobreza, não falei de ditadura. É que uma casa bem com a outra. A pobreza generalizada e prolongada necessita de ditadura. Seja em África, seja na América Latina dos anos 60 e 70 do século XX, seja na China, seja na Birmânia, seja em Portugal. 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A troika a partir-se?

Está a haver um jogo de braço em relação à Grécia. De facto, são dois jogos misturados, como direi adiante. A Grécia precisa desesperadamente da libertação imediata de uma grande tranche do segundo resgate, cerca de 30 mil milhões de euros, sem os quais não pode cumprir compromissos da dívida a vencer nos próximos dias, nem pagar salários da função pública e pensões.

A posição alemã é de arrastar, de não decidir, escudada no argumento formal de que a troika ainda não aprovou o último relatório. Claro que isto só significa uma coisa. A Alemanha e os seus países capatazes vão deixar cair a Grécia, vão-lhe secar os recursos financeiros, vão obrigá-la, finalmente, a declarar falência e sair da zona euro, assim saneada. Saneada? A seguir virá Portugal, depois a Espanha, talvez a Itália, se calhar a França. Tenho como certo que, se continuar a haver moeda única, serão duas, o euro do norte e o euro do sul.

Mas porque é que a troika está a fazer o jogo, adiando o seu relatório? Pela razão simples de que não se entenderam. E isto é um fator novo  muito importante também para nós: deixou de haver o consenso da troika! É um impasse. Como diz o Guardian, “o eurogrupo não pode chegar a um acordo sem o relatório da troika. Mas não pode ter um relatório da troika sem antes eles próprios terem um acordo”.

De facto, não há troika, há dois parceiros. De um lado o FMI, do outro ambas as entidades europeias, CE e BCE, regidas pela mesma ideologia, pelo mesmo domínio político da Alemanha e seus amigos. O FMI tem vindo a desmarcar-se. Dominique Strauss-Kahn pode ser homem execrável, a fazer explodir de indignação virtuosa algumas bloguistas de feminismo à antiga. Mas é verdade que fez alguma inflexão da ideologia neo-liberal do FMI, assim como a sua sucessora Lagarde (gosto muito de mulheres cinquentonas que assumem os seus cabelos brancos).

Quem diria, há meses, que podia haver tal clivagem? Talvez os islandeses, que tiveram uma experiência com o FMI muito mais favorável do que nós com esta troika, parece que dominada pela União Europeia, a tal de “a Europa connosco”.

Ainda há tempos, caros amigos meus defendiam as teses de emprenhar pelos ouvidos: a culpa foi de gastarmos demais, agora temos de pagar a dívida como gente séria, assumimos o compromisso com a troika e temos de cumprir, as finanças de um país são como as da nossa casa, conhecemos as virtudes do povo alemão (esquecendo o nazismo) e já o Eça dizia que nós é que somos uns desgraçados, é tão giro e acariciador do ego escrever hoje novas Farpas, etc. Hoje, já os ouço muito mais incertos.

Com esta atitude das pessoas e com a mudança na opinião das instituições, a conclusão óbvia é que, nesta crise de processo histórico tão acelerado, só há campo para a incerteza, quase que dia a dia. Certezas só têm os fundamentalistas desta espécie de religião ultra-dogmática do neo-liberalismo, com Gaspar a celebrar a missa e Passos Coelho, pobre diabo, pouco dotado mentalmente, a acolitar.

Mas são criminosos políticos, objetivamente. Por uma simples razão: não veem estes fatores de mudança, não os aproveitam para negociar em favor do país, não veem mais nada do que a patética ambição pessoal de figurarem na história como protagonistas do seu projeto socialmente troglodita de inversão do progresso social.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Partidos - públicos ou privados?

Escrevi que nada do que é Esquerda me é alheio. Mas, não sendo militante de nenhum partido, até que ponto posso escrever sobre eles, criticá-los, fazer propostas? Claro que tenho total direito de expressão sobre tudo e todos, mas lembro-me da máxima de um grande amigo meu e “bloguista” muito lido: tudo é política e, criticando o que está do meu lado, estou a dar armas aos meus adversários, do outro lado.

Não concordo inteiramente. A esquerda é plural, fez-se muito com base em conceções globais de que derivaram experiências práticas diferentes, muitas vezes lesivas de um mínimo de possibilidade de convergência, muito mais de unidade. Isto levou a caricaturas dos mais nobres ideais de esquerda e à ideia bem infiltrada na opinião pública de que toda a esquerda é um grupo de lunáticos e/ou facínoras em que não se pode confiar. Assim, uma crítica serena, objetiva, não sectária, da esquerda por parte de gente de esquerda parece-me muito importante.

Há limites para essa crítica? Creio que sim, no que depende da ideia que temos do grau de posição dos partidos na dualidade público-privado. São associações de cidadãos livres, que a eles aderem por convicção ou por comunhão de interesses, que têm o direito de não serem condicionados nessa sua esfera de ação privada. Neste sentido, como não tenho de criticar a associação dos jogadores de matraquilhos ou o clube das gravatas de rato Mickey, também só deveria criticar os partidos se lá estivesse ou, claro, penalizá-los com o meu voto.

É óbvio que estou a caricaturar. Os partidos fazem parte do nosso sistema político, figuram na constituição e não é possível debater política sem os criticar. Os seus programas, as suas propostas a cada dia, as suas posições públicas devem ser escrutinadas por todos os cidadãos. Afinal, é a todos os eleitores que eles se dirigem, não só aos seus militantes. Elementar, Sr. La Palisse.

Esta é a sua natureza indiscutivelmente pública. Mas os seus estatutos e organização, os seus procedimentos eleitorais, as suas normas de funcionamento, os seus debates internos, as moções ou propostas em confronto, são matéria do público ou do privado? À primeira vista, muita gente pensará que é matéria privada dos partidos e dos seus membros. Se não sou membro, não vou interferir na casa de outros. E até acho ridículo que, como se tem visto, se levem a decisão do Tribunal Constitucional coisas internas e tricas partidárias.

No entanto, parece-me que tudo isso, no caso especial dos partidos, não é matéria privada, decorre, como coisa semi-pública, da sua natureza como alicerces do sistema democrático representativo. Para mais, muito deste semi-público tem grande importância política, porque a vida interna de um partido exemplifica muito o que seria uma sociedade dominada por esse partido. O comportamento, seriedade, rigor intelectual dos dirigentes; a conceção das regras de convivência, respeito, liberdade, afirmação de diferenças, etc., na vida interna de um partido podem ser transpostos para o modelo de sociedade que o partido defende.

Isto é tanto mais importante quanto hoje o eleitorado é cada vez menos sensível às propostas programáticas – que nem lê muito menos a quadros ideológicos globais e suas etiquetas. Quem é se rala com Louçã ser trotsquista ou Fazenda ser maoista em versão final albanesa? No entanto, para quem está mais metido dentro da história política e a viveu, cada um deles traduz ainda, transparentemente, os tiques, o estilo, os comportamentos que bebeu em jovem dessa influência de seita iluminada.

O que conta hoje é a imagem mediática, antes das eleições, e a avaliação da governação, depois das eleições. Da mesma forma, para muita gente, infelizmente, até “esquerda” é já uma etiqueta. Já houve tempo em que se julgava, acertadamente, que dizer que já não havia esquerda e direita definia logo quem o dissesse como pessoa de direita. 

Hoje não é assim. Para muita gente, as dicotomias são de outro tipo, revelando em muito uma crise do sistema democrático tal como o temos. É sério ou é aldrabão. É coerente ou é oportunista. É verdadeiro ou é mentiroso. É generoso ou é oportunista. Interessa-se pelos desprotegidos ou é lacaio dos ricos. É honesto ou é corrupto. Etc. Infelizmente, há de tudo em todos os partidos. A questão essencial é que há partidos em que um dos termos é dominante, outros em que esse termo negativo é exceção. Para mim, isto ainda coincide bastante com a velha dicotomia esquerda-direita. Não me parece velho romantismo meu. É que a esquerda ainda é fundamentalmente o campo da utopia e a direita o campo dos interesses. Ou se calhar, talvez para ser mais honesto, da esquerda são os meus amigos e da direita são os outros...

Vinha tudo isto como prólogo a uma nota sobre o que me parece estar a ser alguma evolução positiva (a meu ver) do Bloco de Esquerda: a convenção e as duas moções em confronto, uma muito instrutiva entrevista de João Semedo. Como isto já vai longo, continua na próxima entrada.