quinta-feira, 30 de maio de 2013

Fábula

Estava-se em guerra entre o Império e o pequeno Lusigal. Os exércitos imperiais já dominavam quase todo o território lusigalês, arrasavam fábricas e queimavam quintas, fechavam escolas e hospitais e deixavam um rasto de miséria.

O exército lusigalês tinha cinco divisões. Duas passaram-se logo para o inimigo mal ele passou a fronteira. Os comandos das outras três reuniram demoradamente para tentar concertar uma estratégia de guerra. 

Os generais da primeira divisão insistiam no combate sem medo e no recurso a todas as armas e a todas as reservas de tropas, mas ninguém lhes ligava. Tinham tido mau comportamento na juventude, com amigos estrangeiros indesejáveis, tinham fama de lunáticos e não estavam a perceber que resistir naquelas condições era um suicídio, havendo que encontrar soluções mais moderadas e sensatas.

A segunda divisão, cujos generais eram a nata da elite intelectual do exército, todos com curso doutoral de estado maior, confiava em que a guerra provocaria grande descontentamento também no Império, cujos soldados iriam perceber que os lusigaleses eram tão bons soldados como eles. Era só questão de esperar pela revolução no Império, mais nos outros países da Federação. O lado bom da Força ganharia.

Finalmente, a terceira divisão propunha que não se combatesse de facto, só em discurso. Ao mesmo tempo, emissários discretos, eventualmente com a ajuda das primeira e segunda divisões, iriam mostrar aos generais do Império que, se fossem mais compreensivos e invadissem a menor velocidade, tomaria o poder um general da terceira divisão, Petano de seu nome.

Esta discussão prolongou-se por meses e meses, enquanto os soldados, na rua, eram bombardeados e morriam que nem tordos. Ao mesmo tempo, um rei mago famoso clamava que, a longo prazo, Lusigal ganharia. Esquecia uma máxima célebre de um economista muito falado nesse tempo, John Maynard Keynes: “a longo prazo, estaremos todos mortos”.

(Imagem: La Fontaine)

terça-feira, 28 de maio de 2013

Alto e baixo

Quando Paul Krugman veio a Portugal receber o seu honoris causa, afirmou que há uma diferença de 20% entre os custos unitários de trabalho entre Portugal e a Alemanha, problema que é necessário resolver para que a nossa economia ganhe competitividade. A tese, para alguns economistas que tenho lido, não é tão linear, mas eu leigo vou admitir nesta nota o argumento de autoridade, que Krugman tem razão.

Como provavelmente recordam, isto foi interpretado como um apoio de Krugman à desvalorização interna. A direita política e económica e os seus acólitos da comunicação embandeiraram em arco: “veem, não dizíamos? O que é preciso é reduzir os custos de trabalho (salários, segurança social, etc.) para o nível alemão”.

Claro que não é bem assim. Uma relação é sempre bidirecional. O exemplo a seguir parece parvo ou simplório, mas olhem que não. Eu posso ter uma mesa com 70 cm de altura e o meu colega de escritório, ao lado, ter uma de 80 cm. Elas fazem diferença de 10 cm, 13,3% em relação à média. Mas é a minha mesa que é mais baixa ou a do meu colega que é mais alta? E para que fiquem da mesma altura, tanto posso acrescentar 10 cm aos pés da minha mesa como o meu colega cortar 10 cm à dele. Ou até eu aumentar 5 cm e ele cortar outro tanto.

É isto que agora Krugman vem lembrar, num “post” recente (tradução minha).
“Quando se diz que ‘os salários nominais portugueses são demasiado altos’ tem de se explicar ‘relativos a quê?’. A resposta, claro, é ‘relativos aos salários alemães’. (…) Mas Portugal não compete assim tanto com a Alemanha. Hum! Suponha que eu podia agitar uma varinha mágica (ou tocar umas notas numa flauta mágica) e fazer aumentar subitamente em 20% os salários alemães. O que pensa que aconteceria ao valor do euro contra o dólar e outras moedas? Cairia bastante, não é? E as exportações portuguesas ficariam muito mais competitivas em toda a parte, incluindo os destinos não-alemães ou, mais geralmente, não-europeus. 
(…) A diferença crucial entre as relações económicas entre a Alemanha e Portugal e, por exemplo, entre os EUA e El Salvador é que a Alemanha e Portugal partilham a mesma moeda. Isto cria obrigações à Alemanha, goste ela ou não. “ 
NOTA – Talvez haja quem pense que tudo o que há de “mau alemão” nesta crise tem marca da Senhora Merkel. Quanto à desvalorização interna que ocorreu na Alemanha na primeira década deste século, não é verdade. Para vergonha da social-democracia alemã (mas o Sr. Blair e tudo o que foi terceira via na Europa também fizeram o mesmo) a degradação da situação salarial e social dos trabalhadores deve-se à Agenda 2010 do governo Schroeder, de coligação entre o SPD e Os Verdes. Primeiro foram as leis imaginadas pelo guru de Schroeder, Peter Harz, principalmente a famigerada lei Harz IV, depois todos os acordos sociais em que os sindicatos se puseram a jeito, resultando tudo num grande “dumping” salarial.

domingo, 26 de maio de 2013

Não podia ser mais claro

Segundo o I, e manifestando-se contrário a eleições antecipadas, Marques Mendes lembrou  que hoje em dia “a política é da troika, não é do governo” e que, por isso, “não mudava a política mudavam, quanto muito, as pessoas”.

No entanto, há que ter em conta que a responsabilização da troika, por muito que signifique considerar-se o governo cobarde e até traidor, não é inteiramente verdadeira. Aproveitando o alibi da troika o governo tem ido muito mais longe na política ultraliberal austeritária, de transferência do rendimento para o capital e de destruição do estado social.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Clarificação necessária

A Assembleia da República foi hoje palco de uma importante clarificação política, por parte do PCP. Não ouvi a declaração do deputado Honório Novo mas, quando me chamaram a atenção, ainda ouvi o debate seguinte. Deu para julgar perceber o que foi a declaração do PCP sobre a saída da zona euro. Na verdade, o essencial já tinha sido dito em outros locais e por responsáveis do PCP, mas não com tanta ênfase e em tão importante tribuna.

Lembrou a posição desde início do PCP sobre os riscos de uma moeda única sem as condições de uma zona económica ótima e à revelia de todos os estudos e das bases científicas e económicas, deparando-se desde início com grandes diferenças entre os países membros quanto às suas economnias, às suas estruturas produtivas e os seus estados de desenvolvimento. Eram inevitáveis os choques assimétricos, sempre em prejuízo dos países periféricos e sendo inevitável a sua repetição cíclica, a cada vez agravando as divergências económicas.

Segundo o PCP – e muitos mais setores políticos e de opinião – tudo isto conduz a uma tentativa de desvalorização interna com cortes nos rendimentos e com desemprego, que só deixa alternativa real ao desmantelamento da União Económica e Monetária (UEM) e ao fim do euro. Este processo, ou o processo unilateral de saída do euro, tem custos, mas que o PCP antecipa serem sempre menores do que os custos da situação que estamos a atravessar e que continuaremos a atravessar. Em síntese, o PCP defende no imediato a preparação da eventualidade da saída do euro, com o estudo dos seus custos.

A perspetiva da saída do euro tem sido o grande papão desta crise e principalmente nos países em que a alternativa mais se coloca, em particular Grécia e Portugal. É preciso admitir que esta ação tem sido eficaz. Nas últimas eleições gregas, a Syriza teve grande apoio eleitoral com a sua oposição ao acordo com a troika mas, ao mesmo tempo, as sondagens mostravam que a defesa da saída do euro era minoritária. Não me custa a crer que o mesmo se passe em Portugal. Isto levou a que, depois das eleições, a Syriza tenha moderado bastante as suas posições, com a sua proposta em cinco pontos, nenhum dos quais inclui a renegociação da dívida, nem sequer a sua reestruturação, muito menos, é claro, a eventualidade de saída do euro.

Eu próprio, como muitos outros, aliás a maioria dos participantes, votei no Congresso Democrático das Alternativas contra a inclusão taxativa no documento final de uma proposta de saída do euro. A meu ver, seria extemporânea (até pela falta de estudos) por não ter ainda suficiente acatamento popular e poderia mesmo dividir os próprios participantes no Congresso. Por isto, ficou só a proposta – ela própria aliás avançada – de denúncia do memorando, embora, para mim, seja quase inevitável que uma coisa leve à outra.

A saída do euro tem custos, como esta declaração do PCP admite. Em nada na vida há risco zero; é coisa que bem se sabe na minha medicina, em que tem sempre de se fazer o balanço entre o tratamento e os efeitos secundários. É o mesmo em política, nas decisões financeiras, nos investimentos, etc. O que há é que estudar bem os prós e contras e pesá-los. Não é o que se está a passar com o tema da saída do euro em que os políticos do setor troikiano, mesmo os que já começam a criticar os excessos austeritários, nem deixam espaço de discussão sobre a eventualidade – repito, eventualidade! – da saída do euro. Isto, claro, com o coro dos acólitos comunicativos. “É uma solução inaceitável, é uma tragédia impensável, é coisa de loucura”. Porquê? Porque é… 

Isto instila-se em todos os ouvidos, na gente da rua, mesmo que interessados em política. Há dias, conversando com uma pessoa que se considera informada, não lhe consegui arrancar um único argumento contra a saída do euro que não fosse “toda a gente sabe que seria muito mau”. 

Também não há quem não venha com a Argentina, que seria um caso excecional de rotura com uma paridade monetária fixa, mas com um sucesso que custou uma enormidade (será?). Há muitos trabalhos que demonstram o contrário, que não é um caso excecional, que não dependeu, como se diz, da capacidade de produção agrícola e que resultou numa recuperação económica notável. Deixo como exemplo de material de estudo o estudo de Weisbrot e Sandoval, de 2007. No entanto, mesmo entre nós e com autoridade académica, publicaram-se inacreditáveis deturpações dos factos, mesmo da simples cronologia.

De facto, não conheço um único texto que negue os custos da saída do euro. Exemplo expressivo é o de João Ferreira do Amaral, que sempre criticou a adesão ao euro e agora defende a saída, mas considerando muito importante que ela se faça em condições ótimas, de negociação e de situação económica europeia. Simplesmente, como em tudo mas principalmente em política, muitas vezes o ótimo é inimigo do bom.

Quem fica bastante em aperto é o Bloco de Esquerda, que parece não se ter dado ainda conta de como a atitude das várias forças políticas e movimentos sociais quanto à política troikista dos de fora e dos de dentro tem evoluído aceleradamente. Desde Manuela Ferreira Leite a Pacheco Pereira, Peneda, Bagão Félix, articulistas como Sousa Tavares, economistas antes bem alinhados, como Sarsfield Cabral e, pasme-se!, João Duque, já se desmarcam do fanatismo gaspariano.

Mas mais importante é o PS, onde hoje parece ser lugar comum, com maior ou menor ênfase e clareza, a aceitação de uma forma de “renegociação”, com alívio das constrições relacionadas com as maturidades e juros, mas sem pôr em causa o montante da dívida, como seria no quadro de uma verdadeira “reestruturação”. Para mim, esta posição do PS é inconsequente e irrealista, não constitui uma verdadeira alternativa, mas ela existe e temos de imaginar que valor terá no “mercado” político e eleitoral.

O BE, que mantém uma posição semelhante – ou, se não é, creio que ninguém percebe a diferença – está a ficar entalado. Começou a defender em 2011 uma pseudo-renegociação dando a entender que era uma reestruturação e ainda não dei por nenhuma modificação essencial dessa sua posição, a não ser, na moção vencedora da última convenção, o apoio à auditoria cidadã da dívida, uma iniciativa não partidária interessante e empenhada, mas com reduzido impacto político. Louçã, que ainda deve ter grande influência interna, é transparente, como mais uma vez num artigo no último número do Monde Diplomatique: saída do euro, nunca!

Por isto, parece-me que o BE foi hoje apanhado em contra-pé no Parlamento. O líder da bancada, Pedro Filipe Soares, titubeou, reconhecendo os malefícios do euro mas, em forma de pergunta a Honório Novo, falou de expetativas que ainda se podem ter em relação a novas políticas europeias, nomeadamente por ação do BCE. E que, não sendo a Europa resgatável pelas suas elites, não poderá sê-lo pelos seus povos? E se o que a esquerda deve dizer não é que a solução é a destruição do projeto europeu mas uma alternativa? O discurso da fada do europeismo milagroso…

Dito tudo isto, resta saber se a posição de hoje do PCP foi taticamente acertada. Não terá sido precipitada ou prematura, sem adesão popular mínima garantida? Não prejudicará a possibilidade de diálogo à esquerda? Creio que não. As clarificações são sempre vantajosas. Obrigam os parceiros de jogo (neste caso, não quero dizer adversários) a “ir a jogo” e, mais importante, fazem as pessoas refletir e motivam-nas. 

Também não me parece uma declaração prematura, porque está a haver uma confusão grande de posições, como disse, principalmente no PS, que pode dar a ideia de que o PS tem uma alternativa real à política de austeridade. Assim, o PCP aparece marcando a distância. Para mais, poderá vir a ser importante o encontro “unitário” promovido por Mário Soares e o PCP não pode ir sem uma posição bem diferenciadora. Tem uma grande experiência de compromisso difícil entre cedências unitárias e firmeza de posições próprias.

Finalmente, recordemos que há uma palavra que não existe em política: nunca. Tanto quanto entendi, o PCP não se está a comprometer com uma saída do euro. Diz que tudo indica que os custos dessa saída serão menores e que precisam de ser avaliados, como preparação para a eventualidade da saída. A diferença é que mais nenhum partido aceita essa saída nem sequer como eventualidade.

P. S. – Afinal, acabei por ouvir a declaração, na gravação "postada" no Tempo das Cerejas.

terça-feira, 21 de maio de 2013

O bom alemão

Isabel Arriaga e Cunha volta à carga, hoje, no Público (só em papel ou para assinantes).

O grande encontro da esquerda?

Vem no último Expresso, e ontem confirmada pelo I, a notícia da promoção por Mário Soares (MS) de uma sessão pública da esquerda sobre o tema “libertar Portugal da austeridade”. Fico perplexo e a minha opinião, até se clarificar este assunto, é muito ambígua. A primeira razão de perplexidade é não perceber bem o que é, com este imenso tema, uma “sessão”. Não me parece que possa ser mais do que uma ação simbólica e de propaganda, coisa a que me referirei adiante.

Também fico perplexo quando vejo que a promoção da iniciativa é assumida em pleno por MS, que falou com as direções dos partidos de esquerda e das centrais sindicais para se fazerem representar neste “grande encontro da esquerda” (o adjetivo é de MS). A notícia é omissa quanto a esse ponto essencial para a novidade e impacto da iniciativa. Vão os partidos participar, mesmo que por intermédio de representantes intervindo a título pessoal? Os nomes que constam da notícia são meia dúzia de personalidades que pouco adiantam para transmissão de um imagem pública de um encontro com algum significado interpartidário.

Não percebo também a forma atabalhoada de anunciar esse encontro. É fácil ver que foi o próprio MS a fornecer a informação. Ela não podia ser feita mais tarde, quando estamos a 10 dias do acontecimento. Mas que anúncio é este, feito por pessoa tão experiente politicamente como é MS, que não garante o principal objetivo do encontro – o encontro, mesmo que inconclusivo, dos três partidos de esquerda – que não dá alguma perceção do que será a reunião, de documentos preparatórios (se os há), de propostas, de intervenções de fundo (porque os nomes anunciados, se poucos para formarem assistência, são muitos para todos intervirem).

A ambiguidade da minha opinião prévia (depois verei) decorre de toda esta incerteza. Já tem havido tantas iniciativas e manifestos que, mais um menos um, mal não faz. No entanto, gostaria de ver maior convergência entre elas, embora provavelmente seja promissor já haver maior trabalho em rede, fora da rigidez partidária. Bons exemplos são a anunciada participação nesta iniciativa, com “vasos comunicantes” de influência noutros setores, de uma sindicalista (recente mas um caso de sucesso) como Rosário Gama ou de um “mestre de sapiência e cidadania” (claro que não estou a ridicularizar um muito caro amigo) como António Nóvoa. Já pessoas que vão a todas, que se movem em círculos de iniciados que nada dizem às pessoas, pouco adiantam para a clareza de uma iniciativa política.

Pesa a favor da minha eventual adesão o papel adicional que esta iniciativa pode ter, com outras, para fortalecer a pressão sobre Cavaco para a demissão do governo. Para imensa gente, é a prioridade política. É diferente daquilo que se sentiu e conduziu à expulsão do poder de Cavaco primeiro-ministro e de Sócrates. No primeiro caso, já enjoava a mediocridade e arrogância do cavaquistão, gente depois simbolizada pelo caso BPN. Sócrates era execrado e os eleitores expulsaram-no mesmo sem saberem se o depois seria melhor – e não foi. Com este governo é diferente, porque, com exceção de uma ditadura fascista extrema, não pode haver maior ruindade económica e social e maior degradação da democracia.

Acima de tudo, simpatizo com a possibilidade, mesmo remota, de MS começar a promover iniciativas, como esta, que “prendam” dirigentes socialistas, deputados, quadros partidários influentes, ao diálogo de esquerda, para já forçosamente muito superficial (repito: como me palpita que seja o deste encontro, e já não será mau) e à perceção de indisponibilidade para aquilo que muitos desejam, fora do PS mas também dentro: uma grande coligação PS-PSD, com ou sem CDS/PP.

Não custa crer que haja no PS quem prefira uma morte a mais longo prazo do que um suicídio a curto prazo. Falo da pasokização do PS, como na Grécia, recebendo o poder da direita para executar uma política só cosmeticamente diferente, condicionada na prática pela mesma subordinação aos ditames da troika e penalizando fortemente o PS nas eleições seguintes. Contra isto, e também a exemplo da Grécia (governo atual de coligação “centro-direita”), será forte para setores do PS  a tentação de se ancorar num bloco central, com o apoio de Cavaco e da generalidade dos interesses económicos. 

Esta perspetiva de combater desde já este cenário será reconfortante para os eleitores, que começam a impressionar-se com a rua mas que desejam alternativas de política convencional a curto prazo. Muitos não podiam já votar Sócrates, votaram Passos Coelho. Hoje estão arrependidos e não querem correr mais riscos com soluções de alternância sem alternativa. Todo este eleitorado com desejo de mudança (leiam-se as sondagens) precisa também de caras, mas duvido de que as que mais aparecem sejam as mais entusiasmantes para as pessoas menos politizadas.

Esta questão do protagonismo ou personalização tribunícia da política, nos tempos de hoje e em situação de crise com falta de perspetiva de alternativa político-partidária, é a primeira razão para o outro lado, negativo, da minha ambiguidade de opinião sobre esta iniciativa. Começando por MS, a iniciativa ganha ou perde com o seu protagonismo? Creio que é preciso estar-se muito longe do homem da rua para se ignorar a sua má imagem, hoje até agravada pelas contradições entre as suas opiniões atuais (havendo quem as qualifique em termos não políticos) e a sua atuação austeritária nas intervenções do FMI, no seu tempo. E qual o significado dos seus resultados eleitorais recentes?

Poderá argumentar-se que isso conta pouco, porque de qualquer forma este tipo de iniciativas não mobiliza a generalidade dos eleitores, reúnem só umas centenas de pessoas empenhadas. Que, às vezes, são fogachos, enfraquecendo iniciativa a iniciativa. Que, em alguns casos infelizes, são coisas instrumentais para acolher órfãos potenciais da vida política institucional ou para lançar candidaturas prematuras. Que o que fica, a cada vez, é o impacto mediático de momento. Então, o que falta fazer, como ação política mais eficaz, continuada e sustentada?

Como muitas pessoas de esquerda, porque não sou iluminadamente clarividente, estou convencido de que estamos a ver mais as árvores do que a floresta. Estamos a viver tempos confusos que favorecem um exagerado taticismo político, sem a perceção do processo histórico, com risco de degradação de valores, de falta de referenciais ideológicos, com incompreensão da grande mudança social, tecnológica e cultural das últimas décadas, desde logo das consequências da globalização.

Neste contexto, a menorização da importância de iniciativas deste género pode também ser levianamente perigosa, embora com justificação. Raramente como hoje é exigente a velha dialética entre estratégia e tática. Enfraquecida quase ao limite a democracia institucional (Estado e partidos), com ineficácia dos corpos intermédios, com hegemonia ideológica, informativa e cultural das forças anti-populares ou anti-trabalho, com o domínio da comunicação social, é patente a necessidade de articulação, em nova experiência, de movimentos novos de rua, protestativos, e de ações de assembleia, verbalizadas e propositivas. É a democracia que precisa de ser reinventada (discussão que, obviamente, não cabe agora aqui). 

Por isto, não se leia este texto como menorizador da iniciativa promovida por MS. Pelo contrário, preocupa-me é parecer-me que está a ser candidata a fiasco. E fiasco é, entre muitos outros significados, qualquer coisa em que o eleitor não vê importância, que lhe entrou em casa entre duas notícias e que no dia seguinte já esqueceu, ao contrário do impacto das grandes manifestações de forças populares a que temos assistido.

(Imagem: foi curta a festa...)

domingo, 19 de maio de 2013

Tempo acelerado

Uma sondagem de ontem, da Eurosondagem, divulgada pelo Público, revela que apenas 10,8% dos inquiridos entende que o programa de resgate acordado com a troika deve ser cumprido. A esmagadora maioria, no total de 82,5%, é contra o respeito pelo acordo, dividindo-se quase igualmente entre os que defendem o não cumprimento – 41% – e os que defendem a denúncia do memorando – 41,5% (a diferença entre ambas as coisas parece um pouco subtil).

47,8% acham que o memorando nunca devia ter sido assinado. 45,4% que o governo tem cedido excessivamente à troika. Mais importante talvez para se aferir do grau de confiança na atual política austeritária e recessiva, apenas 11,8% dos inquiridos acreditam em melhores perspetivas de futuro, enquanto que  uma maioria significativa, embora ainda não esmagadora (55,1%), está convencida de que, após o fim do programa, o nosso país estará “em piores condições, com a economia em colapso e mais desemprego”.

Outra sondagem anterior, da Pitagórica, publicada pelo jornal i, mostrava resultados bem diferentes. O respeito pelo memorando e o seu cumprimento integral, agora com10,8%, era defendido por 63,5% dos inquiridos. De quando data essa sondagem? De 28 de novembro de 2012, há menos de seis meses! Como será daqui a mais seis meses? Ainda haverá memorando ou os portugueses já o terão rasgado?   

NOTA - O erro máximo da sondagem de 2013, para um intervalo de confiança de 0,95 (numa escala entre 0 e 1), é de 3,06%; o da sondagem de 2012 é de 4,5%.

(Imagem: jornal Público, 18.5.2013)

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A viragem alemã...

Vi-me hoje na obrigação de comprar o Público, que já há bastante tempo deixei de assinar. No espaço de acesso livre da página online li o título surpreendente “Alemanha junta-se ao coro de críticas contra a austeridade das troikas”. No pequeno texto acessível escreve Isabel Arriaga e Cunha, em Berlim, que “Responsáveis alemães demarcam-se da austeridade imposta aos países periféricos. Críticas são particularmente duras contra a Comissão Europeia e o seu presidente, Durão Barroso.” 

Adiante, “Já não é só em Portugal, Grécia ou Irlanda que as receitas de austeridade impostas pelas troikas de credores internacionais estão a ser criticadas: na Alemanha, as equipas da Comissão Europeia, Banco Central Europeu (BCE) e Fundo Monetário Internacional (FMI) também são acusadas de impor receitas erradas aos países sob programa de ajuda externa. Mais de três anos passados desde o início da crise da dívida europeia, os responsáveis alemães já estão mais do que habituados, e mesmo resignados, a serem apontados como os responsáveis pelas dificuldades vividas pelos países periféricos. Esta resignação não os impede, no entanto, de se demarcarem muito claramente do mantra da austeridade a todo o vapor que tem imperado na Europa desde 2010.

Tive dificuldade em acreditar e fui ler o artigo completo. 

– É certo que cresce o coro dos que põem em dúvida a razoabilidade político-social e a sustentação económica – teórica e empírica – da tese do austeritarismo gerador de crescimento ("austeridade expansionista") e redutor das dívidas, externa e pública. 
– É certo que já não são só economistas americanos que, na tradição europeia, chamaríamos de esquerda, que publicam diariamente artigos ou “posts” a alertar para o perigo que o austeritarismo representa para a Europa. 
– É certo que os gurus dessa tese neoliberal estão a ser questionados cientificamente, como Alesina e Ardagna ou Reinhart e Rogoff, estes últimos autores do livro apresentado por Gaspar, no meio de mais uma vaia. 
– É certo que o enorme coro doméstico do pensamento dominante batutado pela troika e por quem está por detrás dela ainda continua hegemónico, mas cada vez mais desafinado.
– É certo que mesmo Durão Barroso, ao contrário da notícia, já tem a lata de alertar para os riscos de uma austeridade que não deve ser excessiva (o que é uma austeridade não excessiva?) e que só se mantém fanaticamente nos carris da CE aquele senhor finlandês muito amigo de Gaspar e com expressão de baixa velocidade das ligações neuronais.

Mas a Alemanha, senhores? Não é só o governo, nem a Alternativa para a Alemanha, nem o apoio dos cidadãos a tudo o que seja postura egoista de “não pagamos para esses preguiçosos”. No extremo, o fervor neoliberal (ou ordoliberal, se preferirem) do Bundesbank e do seu jovem presidente Jens Weidmann põe em causa todo o sistema do euro quando sujeita ao Tribunal constitucional alemão a constitucionalidade do programa “outright monetary transactions” do BCE de Draghi (não é que eu ache que do OMT venha milagre, mas já ajudou alguma coisa).

O artigo fala de mil e uma expressões de crítica à troika e especialmemnte à CE por parte de responsáveis, dirigentes, ou só “Berlim”, sem alguma vez referir um nome. Não obstante, ficamos a saber que “os alemães” ou “a Alemanha” está em desacordo com a austeridade excessiva, que não perdoa a Barroso a hipocrisia de também a criticar, sendo o maior responsável, que está contra a taxa de IVA imposta à restauração grega e portuguesa, que apoia derrogações dos tratados para os países periféricos defenderem as suas exportações não competitivas, que critica a falta de avanço da união bancária (JVC - que a Alemanha tem protelado!), que apoia regras de facilitação do uso dos fundos estruturais para promover o crescimento da economia portuguesa, etc.

A mais poderosa economia europeia, potência regional indiscutível à boa maneira imperial, desavergonhada nos seus "diktats", está contra tudo isso ou apoia tudo aquilo, contra a troika e a CE, e é impotente para impor as suas posições? Como diz muito tipicamente um animador de festas que eu conheço, "estamos a brincar ou quê?".

Cada vez leio menos a imprensa portuguesa. Se calhar fico mal informado, porque o conteúdo deste artigo nunca o li no NYT, no Guardian, no Le Monde ou no El Pais. Cada jornalista tem as fontes que tem. Ou a capacidade crítica que tem.

P. S. (23:21) – Paulo Portas declarou hoje na Câmara de Comércio Luso-Alemã que “conseguimos” (quem?) não ceder à troika, que há limites e que a taxa sobre as pensões não será um objetivo estrutural. Conversa entre Portas e alemães, no dia do artigo do Público. Coincidência? Um novo amigo para Merkel? 

P. S. (15.5) – Um artigo de hoje no iOnline vai ao encontro da notícia do Público, dizendo que declarações nesse sentido foram proferidas pelo ministro Schäuble, o que, no entanto, é desmentido pela chancelaria. Na Alemanha, os ratos já começam a deixar o navio?

sábado, 11 de maio de 2013

Surrealismo

O deputado do PSD e candidato à Câmara de Gaia, Carlos Abreu Amorim, surpreendeu tudo e todos ao afirmar que “o país precisa de uma nova etapa neste combate tremendo à crise económica financeira e social em que estamos e o tempo político de Vítor Gaspar terminou. (…) é preciso pedir o regresso da política, é preciso que os problemas sejam tratados através de uma perceção dos anseios e necessidades das pessoas e isso é muito mais vasto do que a visão tecnocrática afunilada com que muitos dos problemas do país têm vindo a ser tratados até agora” (ler).

Claro que teve logo resposta, como era de esperar e nos termos que eram de esperar: “Este discurso completamente inócuo e contraditório e oportunista merece-me a maior das censuras. Se o dr. Amorim está assim tão indisposto com a ação do ministro Gaspar, ele só tem uma coisa a fazer: é demitir-se da vice-presidência da bancada porque é a direção da bancada que suporta o Governo, e tem essa obrigação de lealdade com o Governo” (ler).

Quem lhe respondeu assim? Passos Coelho? O líder da bancada do PSD? Não, foi o seu adversário Eduardo Vítor, candidato do PS à mesma Câmara de Gaia! A política partidária está um manicómio.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Cinema político

Estão em écrã dois filmes políticos, “O capital”, de Costa-Gravas e “Não”, de Pablo Larraín. Têm objetivos políticos, senão não eram filmes políticos… É só nesta base que vou compará-los. Há logo uma diferença de contexto e de referências históricas. “O capital” tem um argumento totalmente ficcional e procura chamar a atenção para mecanismos gerais do capitalismo financeiro atual. “Não” é semi-ficcionado (e muito bem, senão seria apenas um documentário), é claramente situado no tempo e no espaço – o referendo chileno de 1988 que terminou com a ditadura de Pinochet. No entanto, desde logo o início, a total improbabilidade da vitória do não e a utilização simplesmente tática do referendo pela aliança democrática, assim como a largura desse “arco-íris”, colocam questões essenciais, porventura muito mais subtis e exigentes do que as bandeiras de “O capital”.

“O capital” é a história da ascenção, queda e reascensão de um banqueiro “moderno”, que rejeita o que ainda poderiam ser alguns resquícios de velho estilo de homem da finança, e que entra no jogo da especulação, da chantagem, da ligação a tubarões anónimos do mundo dos “hedge funds”. Marc Tourneuil é um homem sem escrúpulos, que defende e procura um ciclo vicioso de dinheiro, respeitabilidade e poder, coisas que diz que vão sempre juntas e que tudo corrompem mas que tudo dão, até sexo.

Quase todas as personagens do filme, umas mais do que outras, se inserem sem forte crítica neste mundo, mesmo que dele não tirem qualquer proveito. Simplesmente, acreditam que “assim se fazem as cousas”. Onde é que se está a ver isto?! Fora a bancária empenhada que escreve sobre a fraude do banco japonês, ressalta a figura, mas de breve aparição, do tio militante de esquerda desde a juventude, e o que ele diz a Marc, mais ou menos isto: “Vocês banqueiros, ganham três vezes. Despedem trabalhadores dos vossos bancos. Exploram e levam à insolvência os devedores a quem enganaram com as promessas de crédito fácil e abundante. Roubam os contribuintes que pagam ao governo para vos resgatar e capitalizar. E o pior é que os primeiros, os segundos e os terceiros são as mesmas vítimas”.

Em geral, a mensagem é forte, mas um pouco linear e talvez um pouco ridícula para quem nunca soube ou já nem se lembra do que foram os anos finais de 60, muito mais os anos de ditaduras. Muitos que, felizmente, já não tiveram de resistir, ainda não perceberam que vão ter de resistir, a começar por se convencerem de que lhes estão a fazer uma das mais inconcebíveis manipulações (há muitos conceitos possíveis de tortura…). 

A nova ditadura em que vivemos (e Costa-Gravas afirma numa entrevista que, para ele, essa ditadura é a banca) não só nos explora como nos convence, com a sua “economia moral”, de que merecemos ser explorados, de que cometemos (nós, quem?) o nefando pecado de vivermos acima das posses, de que a democracia já não interessa nada porque, seja qual for o governo e os seus tecnocratas, as receitas orwellianas são obrigatoriamente as mesmas. O resultado inevitável é a passividade.

No entanto, repito, a mensagem é transmitida com algum simplismo. Por exemplo, a cena quase final de alegoria de uma aclamação, em que Marc é aplaudido pela sua máxima “sou um novo Robin dos bosques, mas vou roubar aos pobres para dar aos ricos” não é nada motivante, cai como coisa de passado. Também não me parece de forma alguma acertado o final em que, perguntando ao público porque é que os banqueiros jogam esse jogo perverso, Marc responde que são umas crianças grandes que precisam de se divertir.

Passemos ao “Não”. Não é um filme de ficção, mas também não um documentário, embora sempre nos fazendo pensar que estamos a conviver com um país e um ano concretos. Esta ideia de documento testemunhal até é reforçado por coisas como reflexos de luz e imperfeições de imagem em filmagens de exterior, como se estivéssemos em presença de uma reportagem. 

O filme não me parece importar-se com deixar uma mensagem globalizante ou uma visão do capitalismo atual, mesmo que o caso chileno seja muito instrutivo, como primeira experiência mundial da aplicação prática das receitas neoliberais dos rapazes de Chicago e do seu guru Milton Friedmann, com Kissinger por detrás. 

Em contrapartida, vão-se colocando, ao longo do filme, questões muito interessantes e hoje muito pertinentes (já há 25 anos), que o relativo esquematismo panfletário de “O capital” omite. Desde logo, a origem do referendo. A aliança antiditadura faz valer a importância da luta popular mas reconhece que foi determinante a pressão internacional, embora essa pressão só se tenha feito sentir com força nos anos seguintes, no resto da América latina, na península Ibérica, na África do Sul, etc. 

Em determinada altura do filme, ainda ao princípio, parece que esse papel internacional é a única esperança, não se acreditando que, por si só, a ditadura se suicidasse. E até nem se acreditando, embora sem se falar muito disso, que o “arco-íris” (a aliança antiditadura, desde o PCC – de que não se pode pronunciar o nome – aos socialistas, a outros partidos de esquerda e até a Democracia Cristã, que tinha sido a grande oposição a Allende) tivesse forças para vencer.

Ao começarem a programar a campanha, os dirigentes do “arco-íris”, confrontados com questões técnicas que lhes são postas pelos seus especialistas de comunicação, têm de refletir sobre coisas impensadas da sociedade chilena. Desde o golpe de Pinochet, 15 anos antes, o discurso político de oposição centrava-se na memória dos crimes da ditadura, mortes, tortura, desaparecimentos. Há dirigentes que dizem no filme que uma campanha que não faça disso o essencial é branqueamento, é uma traição. 

Entretanto, à custa da miséria da camada mais baixa do povo, cresceu uma pequena burguesia para quem Pinochet era benfeitor. Como falar para pessoas tão díspares? Como falar para os velhos reformados com situação de pobreza mas com receio da memória do golpe e do que se lhe sucedeu; e para todos os demais da tal pequena burguesia que se sentia em melhor situação? E, ao mesmo tempo, para os jovens desenraizados, preocupados acima de tudo com o desemprego juvenil e para quem a recordação do que os pais viveram era mortificadora e uma espécie de vergonha coletiva? Como ter uma mensagem coerente, nova e unificadora capaz de chegar a grupos que, numa sociedade violentamente dividida, tinham perdido o sentido nacional da identificação e da solidariedade?

Claro que houve mensagens parcelares, mas a centragem chave foi na rejeição da tristeza, do “mal de viver” imposto por um regime pardacento. Sim à alegria! Pode isto parecer romântico ou utópico? Resultou, foi como um “yes, we can!” lá ao norte, muito depois. Paralelamente, a afirmação da dignidade e do orgulho da cidadania. Não se esqueça que isto se ligou, num e noutro sentido, com uma enorme mobilização popular, quase espontânea e muito corajosa (o filme mostra bem o que foi a repressão durante a campanha), mobilização necessária porque, em ditadura, os partidos do “arco-íris” estavam muito limitados e os seus aparelhos seriam insuficientes para a vitória do Não.

Ainda um outro ponto, que creio que, tendo sido posto em prática em diversas partes, suscita grandes dúvidas: a “moderação”, ou o “realismo”, ou a “reconciliação” (vide África do Sul). Como disse, o “arco-íris” incluía tanto a esquerda como a Democracia Cristã, que tinha aberto caminho ao golpe de Pinochet. A esquerda foi tão longe que, realisticamente, até escolheu o presidente do partido democrata-cristão, Patricio Aylwin, como seu representante e indicou-o como candidato presidencial. Como se vê no filme, em cena real, engoliu o sapo de se ver Aylwin receber a faixa presidencial das mãos de Pinochet, como se fosse a transmissão de poder entre dois presidentes democratas.

Terá tudo isto alguma coisa a ver com Portugal, hoje? Há em tudo isto alguma coisa que mereça a nossa reflexão em termos da mudança de poder? Alguma coisa que nos obrigue a nova mensagem e nova linguagem. Alguma coisa que nos mostre que a “tristeza de vida”, o sofrimento, a doença da democracia e da cidadania em que nos afundam todas as troikas, internas e externas, serão uma fatalidade se não encontrarmos alternativas à atual situação partidária.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A culpa é dos gays! Ao que se chegou...

É das mais antigas desonestidades intelectuais: quando não se consegue desacreditar uma ideia ou uma proposta, tenta-se desacreditar o autor. Cheguei quase por acaso a um exemplo recente, que ilustra algum desespero com que estão economistas académicos da corrente mais ultraliberal para manterem os seus dogmas austeritários depois de desmistificados casos como Alesina-Ardagna ou Rogoff-Reinhart

Numa entrada recente, Paul Krugman escreve: “Please tell me this report is false!” (“por favor, digam-me que esse relato é falso!”). Fui ver o artigo de Tom Kostigen no Finantial Advisor, em que ele relata que, numa conferência internacional na California, o professor de Harvard Niall Ferguson afirmou que a filosofia económica de Keynes era deficiente porque, sendo Keynes homossexual e não tendo filhos, não se preocupava com as gerações futuras. Inacreditável!

Quem diz Keynes se calhar diz toda a comunidade gay que porventura vive acima das suas possibilidades. É a homofobia em grau máximo, mas é também uma enorme estupidez e uma loucura. Estão a ver as consequências políticas, quando já larva o populismo perigosamente com potencial proto-fascista?

NOTA - Há outras formas mais subtis de tentar descredibilizar o adversário. Ainda há pouco tempo vi um exemplo de técnica de sobranceria paternalista (“patronizing”) no debate sobre a saída do euro, no Prós e Contras. A reforçar o débito de posições convencionais que não respondiam à ousadia de propostas do lado pró, os contras arvoraram sempre um sorriso e expressão de quem estava a ouvir patetices de um jovem aluno que seria chumbado no fim do exame.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O jovem alemão

Tem sido vastíssima a discussão sobre a eventualidade de abandono do euro por parte dos países da periferia em dificuldades, assim como sobre as prováveis ou possíveis consequências (certas, ninguém sabe) dessa saída para esses países, para a zona euro e, logo, para os restantes países da eurozona. Tudo isto por se considerar a dificuldade, senão impossibilidade, de coexistência, com a mesma moeda, de economias excedentárias, como a alemã e economias deficitárias e não competitivas, como as dos países periféricos.

Mas se não podem estar juntos na mesma casa, tem de ser obrigatoriamente o Sul a sair? Ou, teoricamente, o mesmo efeito não é obtido pela saída da Alemanha? Pode parecer brincadeira, mas é tese desde há algum tempo defendida pelo especulador financeiro George Soros. Igualmente, é a principal base programática do novo partido alemão “Alternativa para a Alemanha” (AfD), “credibilizado” pelos seus reputados economistas fundadores.

Essa falta do sentido de simetria, mesmo que como simples exercício argumentativo, tem a ver também com a discussão que houve entre nós quando a direita rejubilou com a opinião de Paul Krugman de que havia uma indesejável diferença de 20% entre os custos unitários de trabalho de Portugal e da Alemanha. Temos de os diminuir em Portugal, disse o coro de economistas e opinadores de serviço. Mas porque não deve ser a Alemanha a aumentar os seus? Claro que não estou a falar com realismo, mas de qualquer forma fica a pergunta, que nem é tola de todo: a Alemanha não beneficia a prazo de um reequilíbrio das economias europeias?

Dir-me-ão que não há risco de a Alemanha sair do euro e, com isso, provavelmente destrui-lo (ou não? pelo contrário, salvá-lo, a um euro então desvalorizado). É o que se depreende de todas as firmes declarações de fé da chanceler e dos principais políticos alemães. No entanto, há sinais preocupantes. Em primeiro lugar, esse apego alemão ao euro passa obviamente pela sujeição de toda a restante Europa, até da França, aos ditames alemães: obrigação da regra de ouro e do pacto orçamental, negação até agora da compra direta de dívida pelo BCE e fortíssimas restrições e penalização às operações de OMT, recusa de medidas do BCE que possam ser consideradas inflacionárias, resistência à descida das taxas de juro, etc.

Neste quadro, estranha-se que não tenha tido muito eco entre nós a última iniciativa alemã contra o euro, objetivamente, descrita e comentada no blogue de Yanis Varoufakis. Como se sabe, o banco central alemão, o Bundesbank, na gíria o Buba, é muitas vezes mais papista do que o papa, neste caso, a Sra Merkel e o seu governo. Não se esqueça que o anterior presidente, Axel Weber, se demitiu por discordância com a “moleza” do BCE e que o seu sucessor, Jens Weidmann, é o “wonder boy” do mais retinto ordoliberalismo-austeritarismo alemão.

Em resumo, segundo as informações e considerações de Varoufakis, que, como leigo, não vou discutir, o Buba impugnou junto do Tribunal Constitucional alemão a legalidade do programa de OMT que permitiu no verão passado aliviar transitoriamente a pressão sobre a economia do euro. Mesmo que o Tribunal não venha a corresponder totalmente à posição do Buba, poderá amarrar de tal forma o plano Draghi com condicionalismos que o podem tornar ineficaz. Para se ver até que ponto surrealista vai a visão fundamentalista do Buba – e falamos nós do dogmatismo fanático de Gaspar! – a impugnação inclui aspetos tão inesperados como considerar que não compete ao BCE preservar a integridade do euro; que o programa de OMT foi invalidado por o governo grego ter utilizado o seu próprio banco central; que, ao contrário da queixa de Draghi, é positivo que se tenha perdido a possibilidade de passagem à periferia das reduções da taxa de juro de refinanciamento.

Conclui Varoufakis: “O Sr. Weidman pode ver muito bem o que é apresentar esta deposição no campo constitucional, conscientemente e como parte de uma estratégia que leva o euro a uma morte por mil golpes quase silenciosos. Faça a sua escolha, caro leitor: vemos um grande erro do Bundesbank ou uma grande estratégia, cujo objetivo é trazer uma nova moeda forte a leste do Reno e ao norte dos Alpes, livre dos países deficitários e da França? Eu sei qual a interpretação em que eu iria apostar o meu dinheiro”.

NOTA – OMT, sigla de "outright monetary transactions": compra pelo BCE, no mercado secundário, de títulos de dívida pública emitidos pelos estados e sob condicionalismos penalizadores do tipo dos atuais resgates.