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sexta-feira, 11 de maio de 2012
Guiné-Bissau
A quem quer seguir com boa informação o que se está a passar na Guiné-Bissau (que voltas estás na dar no túmulo, Amílcar!) recomendo vivamente a leitura diária deste blogue de António Aly Silva, "Ditadura do Consenso".
quinta-feira, 22 de março de 2012
Salut, la France (III)
Embora com alusões à rua, tenho estado a falar principalmente no plano institucional, partidário, da democracia formal. É neste que faço uma pergunta. Mas nós somos a França? De forma alguma. A Frente de Esquerda pode corresponder um pouco, entre nós, ao conjunto de partidos e movimentos que são o PCP, o BE, a Renovação comunista (RC) e uma ala esquerda indefinida e não organizada do PS. A Frente de Esquerda inclui também alguns pequenos grupos “esquerdistas”, incluindo um irrelevante partido comunista maoista.
PCP e PCF nada têm de comum. O PCF era eurocomunista desde os anos 60, sempre esteve aberto ao diálogo com o PSF, chegou a um programa comum e frentes eleitorais. Ao contrário do PCP, nunca teve dissensões à sua “direita”. Não há nada em França que se assemelhe à RC.
É interessante analisar-se a RC e outras dissensões comunistas. Primeiro, nos princípios dos anos 80, houve muitas saídas do PCP, silenciosas, desorganizadas. Não vou falar disto, estou em causa. Depois, foram as saídas mediáticas. Do grupo dos seis, pouco ficou. Veiga de Oliveira e Silva Graça acabaram em apoiantes de Cavaco, Vital Moreira é um entusiasta de Sócrates mesmo depois dele retirado. Próxima desse grupo foi a saída de Zita Seabra. Não vale a pena dizer nada.
Lembre-se que, nessa altura, houve um acontecimento que poderia ter tido consequências importantes no PCP: a rotura do MDP, que muito me disse. No entanto, não me lembro de um único membro do PCP que nos tivesse acompanhado. Mais tarde, veio a grande rotura, em 1991, depois do golpe de agosto na URSS. Fora os que fizeram carreira no PS, de que não vou falar, houve o grupo influenciado por Miguel Portas, Plataforma de Esquerda, que “usou” o MDP para organizar e legalizar como partido a Política XXI, depois constituinte do Bloco de Esquerda.
Os atuais RC ainda continuaram no PCP. Sairam em consequência das punições de homens distintos, como Carlos Brito. Mas veja-se o livro de Carlos Brito sobre Cunhal. Ele é e será sempre um comunista tradicional, embora certamente não estalinista. Mas onde é que hoje o estalinismo serve para marcar uma fronteira? Tenho grandes amigos na RC, mas nada de prático ou mesmo ideológico me atrai a acompanhá-los. São um excelente grupo de amigos e assim os respeito, mas com reduzida eficácia política na ação quotidiana e no quadro político convencional.
Com a génese do nosso BE, também não há nada em França. O trotskismo de Krivine e o “anarquismo” de Cohn-Bendit foram pujantes nos tempos de 68, bem como o completamente esquecido terceiro-mundismo guerrilheiro de Régis Debray, mas depois não deram nada, muito menos a constituição de um partido com o sucesso eleitoral do nosso BE. Até se desviou foi para a direita, como se vê por “Danny le rouge”. A extrema-esquerda francesa é hoje irrelevante, em nada se comparando com o BE português.
O que em França se compara, mas só em termos de ser outro polo de esquerda em contraponto ao PCF é o Parti de Gauche (PG). Todavia, há uma diferença essencial: o PG tem origem não na esquerda “radical” mas sim numa dissidência da ala de esquerda mais afirmada do Partido Socialista. Os seus principais dirigentes, com destaque para Mélenchon, já o eram no PS. Simbolicamente, a sua inspiração é Jaurès (foto), sem prejuízo de muitas das suas bandeiras evocarem também Marx.
Recorde-se, aliás, que o PS francês sempre teve uma ala de esquerda forte e com posições nada concordantes com a degradação progressiva das sociais-democracias europeias nas últimas décadas. Um bom exemplo foi a entrada para o PS do PSU de Rocard, muito diferente das assimilações “ideologicamente canibais” do PS português, seja dos ex-MES, seja do grupo Pina Moura e outros de ex-PCP. Assim, onde se vê no PS português a perspetiva de dele se autonomizar uma nova formação política, de esquerda claramente oposta à ideologia ordoliberal e à sua prática consagrada na Europa?
Precisamos de tal partido novo, mas a sua génese e desenvolvimento terão de ser diferentes do PG. Portugal não é a França.
quarta-feira, 21 de março de 2012
Salut, la France (II)
Há muitas ruas. “A la calle”, à anarquista espanhol, giro, romântico, imprevisível, com panache. Pode ser apimentado com uns molotovs, como em Atenas (e quando em Lisboa?). Com um punhado de gentes da rua se fez o 5 de outubro, com mais gente “arruada” a acompanhar uma meia dúzia de tanques se fez o 25 de abril.
Na rua se mostram hoje dezenas e dezenas de milhares a chamamento da CGTP, incomparavelmente menos a chamamento de coisas ainda muito embrionárias. Mas tudo é certinho, jogada de peão, nada aponta para um dia próximo de decisão.
A rua também pode ser um comício. Já tivemos comícios grandiosos, mas poucos como o da foto deste “post”, na Bastilha, para ouvir Jean-Luc Mélenchon. Como só vemos metade da praça, tão grande como o Terreiro do Paço, não estão menos de 100.000 pessoas.
Um comício enquadra-se num objetivo concreto, uma campanha eleitoral, mas claro que se alimenta do sentimento popular anterior. Imaginemos que temos eleições este ano. As pessoas começam a estar zangadas, mas também perplexas. Não sabem bem o que querem, muito menos saberiam encontrar uma alternativa política como esta francesa que lhes fosse bater na sua emoção de homens atordoados pelo sistema político-partidário. Alguém imagina uma nossa frente política de esquerda partidária a levar toda esta gente à rua?
E veja-se que, sem menosprezo pelas novas formas de intervenção política, este fulgor de esquerda em França se situa no mais convencional quadro político, institucional e partidário. Por isto, continuo a dizer: é urgente uma nova alternativa partidária de esquerda em Portugal.
Salut, la France (I)
A minha geração falou francês. Não fosse a ideia do meu pai, nos fins dos 50s, de que o inglês é que me serviria e de me ter metido em lições semanais de inglês, bem como me comprar todos os meus livros de medicina em inglês, estaria hoje tão afrancesado ainda como tantos meus amigos de “letras”.
Todavia, ainda nos vem surpreendentemente alguma coisa dessa nossa segunda pátria tradicional. Nestes últimos dias, tenho lido menos em inglês, menos do que habitualmente os nobeis da economia ou a imprensa internacional. Leio e ouço um homem notável, Jean-Luc Mélenchon.
É um homem com a qualidade notável de não só dizer coisas certas como as dizer muito bem. Um grande orador, como só estávamos habituados a ouvir em inglês, por exemplo Martin Luther King.
É o candidato da frente de esquerda (Front de Gauche) às próximas eleições presidenciais francesas. O FG inclui o PCF, o Parti de Gauche (PG) e alguns grupos menores. Claro que não vai ganhar mas, na segunda volta, Hollande vai ter de considerar as posições do FG. Palpita-me que, depois das eleições francesas, muito do que tem sido marcado na Europa pelo coitadinho eixo Merkozy vai mudar. Por si só, Hollande já promete diferença. Com a pressão do FG, o sistema europeu da tristeza ideológica e económica dominante que se cuide.
Vai só aqui uma lista muito sucinta das posições do FG, os títulos dos capítulos do programa. Melhor é lerem-no.
- Partilhar a riqueza e abolir a insegurança social.
- Reconquistar o poder da banca e dos mercados financeiros.
- Planeamento ecológico.
- Modo de produção alternativo.
- Uma verdadeira república.
- Assembleia constituinte da VI República.
- Denúncia do Tratado de Lisboa.
- Mudança do caminho da globalização.
- Emancipação humana.
Provavelmente por dificuldades de entendimento entre os participantes no FG, as posições quanto à crise e ao euro ficam diluídas e ambíguas. Mas já as do PG são muito claras, como direi noutra ocasião. Agora fico por aqui, mas vou ter de escrever mais sobre esta esperança que nos vem da Bastilha. Sempre a Bastilha, sempre a rua.
NOTA - Ainda antes do próximo “post”, fica claro que é difícil transpor isto para Portugal. O PCF não é o PCP e, principalmente, o PG não tem mesmo nada a ver com o BE. Depois explicarei.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
A China aqui tão perto...
Recebi de um amigo alerta para este vídeo sobre os riscos das fantasias imobiliárias na China. Não me digam que isto não é assustador e não nos deve fazer duvidar de alguma coisa perversamente messiânica que por vezes ouço, “mas afinal, como último recurso para a crise mundial, há a China, que não vai deixar cair a ordem económica internacional”. Há alguns vídeos no YouTube, muito bem feitos, sobre a bolha imobiliária espanhola, para quem não leu toda a informação técnica disponível. Também não se esqueça que toda a atual crise começou com o "subprime" imobiliário nos EUA. Mas isto, à chinesa, é multiplicação por 1000.
Mas será que damos a devida atenção a estas coisas? Fico por vezes com a impressão de que ainda há muita gente a pensar paroquialmente, em termos de política tradicional. A nossa desgraça genética, os nossos políticos, a nossa corrupção, “as nossas culpas”, etc. Ao mesmo tempo, aquele elétrico que vamos a ver se apanhamos. Meninos, o mundo já não é só o Chiado do confronto entre João da Ega e Gouvarinho, a civilização já não nos vem só de comboio parisiense para uns escolhidos, nós somos um pequeno casinhoto da aldeia global.
Como Graciliano satirizava Getúlio, pensando no nazi-fascismo, “até o nosso fascismo é pequenino, tupinambá”. Em contrapartida a esta visão de crítica política tradicional - mas merecedora do maior respeito, enquanto no seu tempo histórico -, os que, como eu, reduzem ao seu devido nível o que é a nossa política interna e mandam para a miséria do ridículo os que lá devem estar, como os gurus, os opinadores de serviço e os novos Malagridas, são uns lunáticos que só sabem ver a crise de hoje como sistémica. Dá mais jeito usar a crise para a farpa paroquial. Quase que parece haver um clube espúrio de gente "bem pensante", só porque é superior à canalha da política. O VPV, o MEC, o MST - estão a ver como todos os conhecemos por siglas? - até são gente muito inteligente. E basta! Por mais farpianas e com magnífica verve que sejam algumas crónicas que se leem ao estilo de tertúlia, os tempos hoje são outros, em termos de análise e debate político. Sistemática, global, com bom fundamento de economia política.
O filme que referi logo no início dá boas razões para pensar que há ameaças sistémicas para além da Europa. Da China de hoje, não se quer perceber que é uma das mais perversas experiências da história, isto, obviamente, quando confrontado com a nossa visão euro-afro-americana de paradigma de civilização, a mescla da herança greco-romana e da civilização semítica, da revelação, nas suas diversas variantes.
A civilização chinesa é diferente. Não é só uma questão de cultura, costumes, tradições. É uma civilização milenarmente diferente. Por exemplo, é vulgar lerem-se coisas a defender que há uma irredutibilidade entre nós e o mundo islâmico por diferença de civilização. É falso, partilhamos as raízes da civilização construída pelo homem africano quando ocupou o crescente fértil, que, milhares de anos depois, deu a civilização da revelação monoteista, do livro, da ética radicada na religião, depois magnificamente imbricada com a civilização greco-romana. É experiência muito mais próxima para nós, na origem longínqua, do que a do homem primitivo que foi povoar o leste. Ou julgam que a a evolução do homem biológico-cultural não conta?
Marx percebeu esta dificuldade de inserir uma civilização diferente na sua teoria da evolução económica e da estrutura social de classes. A sua genial análise da história do capitalismo é circunscrita à Europa centro-ocidental e isto explica que a sua concretização prática na Rússia, fora do enquadramento marxista mas invocando-o abusivamente, tenha “destruido” (?) a credibilidade do pensamento de Marx. Contra alguma facilidade do pensamento comunista das últimas décadas, entendo que a contradição entre o "socialismo real", soviético, e a racionalidade flexível e intelectualmente estimulante da obra de Marx não data da aberração estalinista. Já está em Lenine, até mesmo no primarismo ideológico de Plekhanov. Mais ainda nas coisas absurdas de Trotsky (a propósito, Louçã, V. ainda é trotskista?)
A civilização chinesa é diferente. Não é só uma questão de cultura, costumes, tradições. É uma civilização milenarmente diferente. Por exemplo, é vulgar lerem-se coisas a defender que há uma irredutibilidade entre nós e o mundo islâmico por diferença de civilização. É falso, partilhamos as raízes da civilização construída pelo homem africano quando ocupou o crescente fértil, que, milhares de anos depois, deu a civilização da revelação monoteista, do livro, da ética radicada na religião, depois magnificamente imbricada com a civilização greco-romana. É experiência muito mais próxima para nós, na origem longínqua, do que a do homem primitivo que foi povoar o leste. Ou julgam que a a evolução do homem biológico-cultural não conta?
Marx percebeu esta dificuldade de inserir uma civilização diferente na sua teoria da evolução económica e da estrutura social de classes. A sua genial análise da história do capitalismo é circunscrita à Europa centro-ocidental e isto explica que a sua concretização prática na Rússia, fora do enquadramento marxista mas invocando-o abusivamente, tenha “destruido” (?) a credibilidade do pensamento de Marx. Contra alguma facilidade do pensamento comunista das últimas décadas, entendo que a contradição entre o "socialismo real", soviético, e a racionalidade flexível e intelectualmente estimulante da obra de Marx não data da aberração estalinista. Já está em Lenine, até mesmo no primarismo ideológico de Plekhanov. Mais ainda nas coisas absurdas de Trotsky (a propósito, Louçã, V. ainda é trotskista?)
Em relação à Rússia e à China, Marx fala, honestamente com menor fundamentação científica, do “modo de produção asiático”, em que a dinâmica do desenvolvimento capitalista estaria muito condicionada pelo domínio político de toda a sociedade por um sistema e cultura imperiais, fortemente centralizado, totalmente dominado pelo Estado, sem verdadeira tensão dialética "livre" entre as forças e relações de produção. O que “o grande filósofo renano” (lembram-se de a gente ter de escrever assim?) certamente não pensou é que foi agora essa estrutura política imperial, invocando uma caricatura horrorosa do marxismo, que deu a base de poder para o atual sucesso económico chinês.
O sucesso do capitalismo chinês é indissociável de um sistema político arrasante de toda a dignidade humana, a começar pelos direitos dos trabalhadores. A economia chinesa não é, no seu sucesso quantitativo, a prova da razão do mercado. Ela é o anti-mercado, o domínio da economia por um aparelho político totalmente oposto à ideologia económica liberal que nos hegemoniza. E só por isto tem sucesso.
O sucesso do capitalismo chinês é indissociável de um sistema político arrasante de toda a dignidade humana, a começar pelos direitos dos trabalhadores. A economia chinesa não é, no seu sucesso quantitativo, a prova da razão do mercado. Ela é o anti-mercado, o domínio da economia por um aparelho político totalmente oposto à ideologia económica liberal que nos hegemoniza. E só por isto tem sucesso.
O mundo ocidental, particularmente a Europa, forçado pela crise, está a abrir as portas (“as pernas”…) à China. O que é que isto nos vai custar como fim possível da nossa civilização? Queremos competir no mesmo terreno? Queremos adotar a civilização chinesa? Trocamos a nossa democracia pela cultura política de império? Reconhecendo que é caso anedótico (no sentido anglo-saxónico do termo), vamos aceitar a execução de um pobre ladrão com a família a pagar a bala, quando há já século e meio alguém na Europa escreveu um imenso romance sobre um ladrão de um pão, um pobre mas magnífico Jean Valgean?
Querem continuar a discutir o Terreiro do Paço, ignorando que quem manda é uma sargenta qualquer que pode ter da vida e da história uma conceção imperial à chinesa? Que nunca leu Hugo? Nem sequer o seu Goethe? Obviamente muito menos Eça ou Ramalho, que nos vão deliciando na retro-projeção psicológica da nossa grandeza.
Querem continuar a discutir o Terreiro do Paço, ignorando que quem manda é uma sargenta qualquer que pode ter da vida e da história uma conceção imperial à chinesa? Que nunca leu Hugo? Nem sequer o seu Goethe? Obviamente muito menos Eça ou Ramalho, que nos vão deliciando na retro-projeção psicológica da nossa grandeza.
A propósito, o suplemento Ypsilon (13.1.2012) do Público traz um grande artigo sobre os maoismo em Portugal. O que é verdadeiro dá vontade de rir, tantos anos depois. Há coisas de que já nem me lembrava. Por exemplo, do Eduino, da AOC e do castelo de Guimarães! O que não é verdadeiro, e é muita coisa, inquieta, em termos de desconhecimento jornalístico de um passado afinal não tão distante. Por exemplo, expoente da extrema esquerda maoista, o Veiga de Oliveira! E outra coisa omissa neste trabalho e em que ainda ninguém pegou de forma sistemática e elaborada: quais as motivações políticas, ideológicas, sociais, psicológicas, para que toda uma data de gente tenha passado diretamente do maoismo para o PSD (Barroso, Pacheco Pereira e tantos mais), sem transição sequer pelo PS (como Lamego, M. João Rodrigues, Ana Gomes e poucos mais)? Não me digam que a minha pergunta é ingénua. Eu sei bem a resposta, estou só a provocar.
Ainda uma nota final, a roçar o ridículo. O tal suplemento fala só de maoistas portugueses e de relações com a China. Não é verdade, houve os pós-maoistas. A partir de certa altura, já depois do 25 de Abril, confundida com a maluqueira do circo dos grupos de extrema esquerda, a China fechou a torneira. Desconfio de que também havia nisto alguma coisa ligada às ex-colónias, com quem a China só se prejudicaria, em relações de todo o tipo, mostrando relações com o folclore português. O resultado é que, como se devem lembrar, a referência ideológica do único grupo que se manteve (fora o caso especial do MRPP, porventura sustentado por outros lados opostos), a UDP, era… a Albânia. Até um hoje conhecidíssimo político atual me chegou a oferecer um folheto panegírico do Enver Hoja, quando lhe sugeri um BE imaginado 10 anos antes do tempo devido.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
O suicídio da Europa?
A cimeira europeia de amanhã continua agendada, mas não se percebe como será profícua quando os ministros das finanças já anularam a reunião prévia, essencial, que devia realizar-se amanhã de manhã. Se os ministros dão este sinal de desentendimento, quanto à reestruturação da dívida grega, à recapitalização dos bancos e ao aumento dos recursos do FEEF, como esperar que a cimeira resulte?
Como trocadilho a Churchill, “nunca, na história da Europa, tantos sofreram tanto por causa de tão poucos”. A praga do neoliberalismo acabou por contagiar a política. A política europeia é “um bairro onde miam gatas e o peixe podre gera os focos de infeção”. Não há memória de tão grande coleção de medíocres, figuras menores, a governar com cada vez mais poder (dos outros, dos senhores da finança!) este pequeno mas enorme canto do mundo.
As grandes economias, desde logo os EUA e a China, têm estado a observar com preocupação o triste espetáculo europeu. Claro que se moderarão, levarão ao limite a sua paciência; sabem que, na globalização, todos dependem de todos. Mesmo assim, com o fogo a chegar às suas casas, não esperarão que os bombeiros da Europa apaguem lá na sua área o incêndio que ameaça ser planetário. Esses bombeiros estão a dormir ou não atendem o telefone quando a Casa Branca chama, em desespero. Também os emergentes não esperarão. Não sou economista, mas creio que não é preciso sê-lo para se acreditar que daqui a dias o G20 vai decidir o que tem de fazer, com ou sem Europa. Infelizmente, palpita-me que sem Europa.
NOTA - Como se vê, estou a fazer futurologia próxima, em relação a amanhã. É coisa de que gosto, como exercício. Não faz mal nenhum eu enganar-me, antes pelo contrário.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
O Egito, hoje
Notas soltas:
1. Hoje sou egípcio, como muitos egípcios devem ter sido portugueses no dia 25 de Abril de 1974.
2. Tenho o palpite que nada mais vai ser o mesmo no mundo dito árabe e que, importante, o fantasma do perigo fundamentalista islâmico vai perder influência como argumento de política internacional. Até agora, só valia a Turquia (com algumas limitações) como exemplo de laicismo islâmico - não contando com o caso distante da Indonésia agora democrática. Turquia e Egito juntos são um enorme "atrator" de influência no Magrebe e no Próximo Oriente.
3. No dia 25 de Abril, os meus amigos suíços passaram o dia a perguntar-me o que eu próprio, lá longe, não sabia bem: "o que são esses militares?". Também eu hoje me pergunto: "o que são e serão agora os militares egípcios? O vice-presidente? O alto conselho, presidido pelo até agora ministro da Defesa, não pelo vice-presidente? Quer isto dizer exército ou serviços secretos? E os oficiais jovens da geração da net e dos manifestantes? Os militares na rua que não reprimiram os manifestantes e até os acarinharam? Mas também os militares de topo cujo salário e negócio industrial-militar é garantido pelos EUA?"
4. A Suíça congelou os bens da família Mubarak. Hipocrisia abjeta. Só agora suspeitaram de que os bens podiam não ser legítimos? Ou têm é medo do que nunca se poderia ter passado em 30 anos, as autoridades egípcias os responsabilizarem?
5. Dizia esta tarde um jornalista da TSF: "parece uma festa, bandeiras, música. É como se o Egito tivesse ganhado todas as medalhas olímpicas e o campeonato do mundo de futebol". Inacreditável, a inversão de valores! Atemorizante, a mediocridade do nosso "quarto poder".
P. S. - 6. Quem são os dirigentes desta revolução? É claro que ela teve dirigentes. O controlo da entrada na praça (aparentemente em colaboração com os militares), a distribuição dos espaços, a montagem das tendas, bem organizada no centro da praça, como vemos na TV, o abastecimento de milhares de pessoas, os "cordões de simpatia" à volta dos tanques, o apoio aos jornalistas estrangeiros que se viu facilmente nas reportagens, a convocação posterior para o palácio ou para a televisão, tudo mostra um grande trabalho de organização, mesmo para quem nunca teve traquejo de ação política de rua, nos velhos tempos não saudosos.
Trabalho de quem? Dos jovens da net, seja lá isto o que for, e para rendição incondicional de quem, como eu, justamente critica aspetos negativos da net. Em nenhuma reportagem vi piquetes, gente a organizar. Tudo deve ter sido feito por sms ou twitter, via-se toda a gente de telemóvel ao ouvido. Esta revolução foi a primeira revolução da pós-modernidade. Mas como é que esses jovens idealistas, espontâneos, generosos, vão acordar no dia seguinte à vitória? Quem os vai representar? Que força política os vai reconhecer e ouvir como os reais revolucionários?
Faz-me lembrar os capitães atrapalhados quando os generais (fora os comandantes da Armada) da Junta apareceram na TV a enquadrar o discurso do monoculado. Felizmente, deram-lhe a volta. Vão os jovens ignotos revolucionários da Praça Tahrir (da Libertação) dar a volta aos generais e aos políticos do "reviralho" à egípcia?
1. Hoje sou egípcio, como muitos egípcios devem ter sido portugueses no dia 25 de Abril de 1974.
2. Tenho o palpite que nada mais vai ser o mesmo no mundo dito árabe e que, importante, o fantasma do perigo fundamentalista islâmico vai perder influência como argumento de política internacional. Até agora, só valia a Turquia (com algumas limitações) como exemplo de laicismo islâmico - não contando com o caso distante da Indonésia agora democrática. Turquia e Egito juntos são um enorme "atrator" de influência no Magrebe e no Próximo Oriente.
3. No dia 25 de Abril, os meus amigos suíços passaram o dia a perguntar-me o que eu próprio, lá longe, não sabia bem: "o que são esses militares?". Também eu hoje me pergunto: "o que são e serão agora os militares egípcios? O vice-presidente? O alto conselho, presidido pelo até agora ministro da Defesa, não pelo vice-presidente? Quer isto dizer exército ou serviços secretos? E os oficiais jovens da geração da net e dos manifestantes? Os militares na rua que não reprimiram os manifestantes e até os acarinharam? Mas também os militares de topo cujo salário e negócio industrial-militar é garantido pelos EUA?"
4. A Suíça congelou os bens da família Mubarak. Hipocrisia abjeta. Só agora suspeitaram de que os bens podiam não ser legítimos? Ou têm é medo do que nunca se poderia ter passado em 30 anos, as autoridades egípcias os responsabilizarem?
5. Dizia esta tarde um jornalista da TSF: "parece uma festa, bandeiras, música. É como se o Egito tivesse ganhado todas as medalhas olímpicas e o campeonato do mundo de futebol". Inacreditável, a inversão de valores! Atemorizante, a mediocridade do nosso "quarto poder".
P. S. - 6. Quem são os dirigentes desta revolução? É claro que ela teve dirigentes. O controlo da entrada na praça (aparentemente em colaboração com os militares), a distribuição dos espaços, a montagem das tendas, bem organizada no centro da praça, como vemos na TV, o abastecimento de milhares de pessoas, os "cordões de simpatia" à volta dos tanques, o apoio aos jornalistas estrangeiros que se viu facilmente nas reportagens, a convocação posterior para o palácio ou para a televisão, tudo mostra um grande trabalho de organização, mesmo para quem nunca teve traquejo de ação política de rua, nos velhos tempos não saudosos.
Trabalho de quem? Dos jovens da net, seja lá isto o que for, e para rendição incondicional de quem, como eu, justamente critica aspetos negativos da net. Em nenhuma reportagem vi piquetes, gente a organizar. Tudo deve ter sido feito por sms ou twitter, via-se toda a gente de telemóvel ao ouvido. Esta revolução foi a primeira revolução da pós-modernidade. Mas como é que esses jovens idealistas, espontâneos, generosos, vão acordar no dia seguinte à vitória? Quem os vai representar? Que força política os vai reconhecer e ouvir como os reais revolucionários?
Faz-me lembrar os capitães atrapalhados quando os generais (fora os comandantes da Armada) da Junta apareceram na TV a enquadrar o discurso do monoculado. Felizmente, deram-lhe a volta. Vão os jovens ignotos revolucionários da Praça Tahrir (da Libertação) dar a volta aos generais e aos políticos do "reviralho" à egípcia?
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