quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A ciência em tribunal

Desde a inquisição que não se condenava cientistas por crimes de opinião científica. Foram agora condenados a penas pesadas seis sismólogos italianos que não previram adequadamente o terramoto de Aquila, em 2009, que matou cerca de três centenas de pessoas. Foram condenados por homicídio por negligência. É um precedente perigosíssimo, que fará com que muitos cientistas não arrisquem opinião, quando a sua opinião pode ser decisiva.

É de conhecimento geral que as grandes catástrofes não são previsíveis. Até os que só têm informação sobre isto pela leitura do célebre livro sobre a teoria do caos, de Gleick, conhecem o efeito borboleta. O que se faz normalmente como previsões (até na meteorologia) são principalmente extrapolações a partir de dados estatísticos. O que os geofísicos italianos fizeram foi isto mesmo: os dados dos dias anteriores, mesmo com muitos pequenos sismos, o que se chama um enxame, não indicavam a probabilidade de terminarem num grande sismo. Probabilidade, nunca certeza.

Não deixa de estar aqui em causa o peso da opinião pública, da comunicação social, de um justicialismo primário e populista, típico de sociedades – também a nossa – que, paradoxalmente, não acreditam nos seus sistemas judiciais e que os veem como peneiras por onde passam os corruptos e poderosos.

Este caso faz-me lembrar o da gripe de 2009, em que estive muito envolvido. A probabilidade de uma pandemia era alta, em termos científicos e tendo também em conta dados reais, da altura. A Direção Geral da Saúde, muito bem, encomendou grande número de doses – até insuficiente para um pior cenário – de vacinas e de medicamentos (Tamiflu). Felizmente, a situação evoluiu muito favoravelmente. Por isto, todos, oficiais e privados, fomos acusados de alarmismo e de gastos inúteis de dinheiros públicos.

Mas se tivesse havido a provável pandemia e não estivéssemos preparados? Se fosse como agora em Itália, o meu caro amigo Francisco George, D. G. S., e até eu próprio estaríamos hoje na prisão.

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