terça-feira, 18 de setembro de 2012

A jornada de 15 de setembro

Há sempre a guerra dos números. Desde há muitos anos que aprendi a medir manifestações, normalmente sempre muito por baixo do que depois apregoavam os organizadores. Na velha manifestação da fumaça, um milhão a encher o Terreiro do Paço que, no máximo dos máximos, apertados, 3 pessoas por metro quadrado, leva 150.000 pessoas. Um milhão de peregrinos em Fátima, segundo a Igreja, num recinto com capacidade para 300.000 pessoas. Outra técnica é a da amostragem de quantas pessoas passam por minuto e depois multiplicar pelo tempo de passagem da manifestação. Com tudo isto, para mim, e dividindo metodologias de cálculo com a minha mulher, tentando sermos objetivos, a manifestação de Lisboa, sábado, envolveu cerca de 200.000 pessoas.

Mas interessa mais ter uma ideia qualitativa. Saíram à rua muitas e muitas famílias com crianças ao colo e carrinhos de bebé. Coisa desconfortável, sinal de nem terem meios para contratar a entrega das crianças, exige forte motivação. Viam-se pessoas - principalmente com alguma idade - vestidos modestamente, outras notoriamente de burguesia até agora relativamente protegida. Via-se gente de todas as idades. Via-se gente com hábito de manifestações, respondendo sempre às palavras de ordem, muitos outros com um não sei quê de atitude que dava a entender ser a primeira manifestação a que iam. Via-se espontaneidade, no humor de muitos pequenos cartazes que cada um preparou em casa.

Principalmente notório, o caráter inorgânico da manifestação. Nenhuma “cabeça” com notáveis organizadores, apenas meia dúzia de anónimos com a bandeira portuguesa. Na praça de Espanha, nem havia o tradicional palco para os discursos finais. Houve-os, mas sem que eu conseguisse perceber quem os proferia. Dois colegas meus, ontem, diziam-me como comentário mais importante para eles: “lá estivemos, sem ser à ordem de partidos”. Quantos eleitores do arco troikiano, os tais 80%, estarão hoje a dizer o mesmo?

Não é difícil ter uma ideia. Nas últimas eleições, os que votaram protestando foram 20%, 1,5 milhões. Se em Lisboa saíram à rua 200.000, não é abuso pensar que, em todo o país, foram 400.000. Também não me parece irrazoável pensar que, da grande massa um pouco amorfa de descontentes, só saem à rua 1/8 ou 1/10. Significa que a rejeição sociológica da certeza da política do governo e da troika passou de 1,5 milhões para cerca de 3 ou 4 milhões, metade do eleitorado. O país está dividido a meio. E sempre que se passou isto, veio uma revolução ou, pelo menos, uma crise insurrecional.

Onde está já a legitimidade democrática do apoio acrítico à política de austeridade, até para além troika? Na votação de 2011? Como o tempo passa depressa!

O PSD e até o CDS não percebem que estiveram na rua muitos dos seus eleitores? E o PS não percebe que muitos dos seus eleitores que estiveram na rua quiseram dizer “a troika que se lixe”, querem uma alternativa à política do memorando que o PS subscreveu e que continua a não renegar? E alguma coisa pode mudar na enorme inércia da outra esquerda, PCP e BE? Fica para a próxima entrada.

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