sábado, 9 de novembro de 2013

Entendam-se!?

Pela enésima vez, enjoativamente, acabei de ouvir o “entendam-se”, desta vez dito por Silva Peneda. Entendam-se em quê?

Uma ampla frente ideológica, de centrão, de rendição ao (neo)ultraliberalismo, pode de facto entender-se. Considera que quanto menos Estado melhor. Consideram que a origem de todos os males é a derrapagem dos défices orçamentais e da dívida, ou a injecção de dinheiro na economia (por exemplo, por “quantitative easing”). Consideram que a preocupação central é o controlo da inflação, mesmo que, em situação de crise e de recessão continuada, isto ameace com a deflação. Consideram que o estímulo ao crescimento depende mais da oferta do que da procura. Consideram que as despesas das prestações sociais (educação, saúde, solidariedade) são coisas de estado gordo. Consideram que a austeridade pode ser expansionista. Consideram, no caso europeu, que o euro é uma construção inatacável e que o paradigma alemão é generalizável a toda a Europa, como se os excedentes de uns não tivessem de ser obrigatoriamente os défices de outros. Etc.

Uma outra frente, de esquerda, considera que há funções do Estado necessárias não só para a justiça social como também para a vitalização da economia. Considera que os défices podem ser um instrumento do crescimento económico. Considera que o estímulo ao crescimento depende essencialmente do nível da procura interna. Considera que a austeridade é asfixiante, que faz acumular dívida sobre dívida, pobreza sobre pobreza, desemprego sobre desemprego, emigração sobre emigração. Considera que a austeridade arrasta consigo a espiral recepcionista, com menor PIB a gerar menor receita fiscal, a aumentar o défice, etc. Considera que o euro foi uma invenção aberrante, contra todas as regras de um espaço monetário óptimo, e que hoje serve o capitalismo avançado europeu, principalmente dos países nórdicos, com rendição a ele da social-democracia, dos sindicatos e das forças populares.

A pedra de toque é a da alternativa à política troikiana. Um pouco menos de austeridade, um pouco mais de crescimento, mas com que financiamento? Ou uma rotura determinada com as imposições troikianas, tendo principalmente em conta que, em relação ao problema da nossa dívida, devemos olhar para o défice primário (sem serviço da dívida) e discutir ao máximo tudo o que sobre ela suportamos?

Há muitos que discordam da solução radical da rotura com a troika, que têm medo dela, que são sensíveis aos argumentos – até propalados por um sector de esquerda, o do BE – de catástrofe inevitável causada por uma saída do euro. Mas, ao que tenho ouvido, concordam com que, ao menos, é uma posição que não sofre da pergunta inevitável e lógica ao PS: onde vão buscar recursos para o crescimento e manutenção do estado social, no quadro da austeridade troikiana, mesmo que um pouco atenuada?

Essas duas perspectivas políticas são minimamente compatíveis, podem permitir o “entendam-se”? O povão, de bons costumes, acha que sim. Infelizmente, desinformado e manipulado, dá suporte eleitoral aos quase 80% da frente troikiana. Queixa-se mas vota neles, pensa que há lugar para compromissos. Para mim, não há meio termo.

Infelizmente, também são muitos os que, à esquerda, gritam “entendam-se”. Entendam-se como?, se o PS está na frente troiana e os outros partidos de esquerda (e movimentos e organizações não partidárias) na frente alternativa? Por exemplo, se tivéssemos hoje um governo de “unidade de esquerda”: a troika exige para 2014 uma meta de défice de 4%, um corte de despesa pública de cerca de 4000 milhões de euros. O PS vai dar um murro na mesa, a dizer que não? Ou vai buscar esse dinheiro a outro lado, não aos ordenados e pensões? Onde? Ou o PCP e o BE, seus eventuais companheiros de governo, vão, suicidariamente, aceitar esse corte dos 4000? Não se desfaz o governo de "unidade" no dia seguinte, e com razão? Amigos da “perspectiva geográfica" PS-PCP-BE, façam lá uma proposta de programa comum. Pago para ver.

Parece-me que há muita gente que ainda não percebeu o que está em jogo e continua a pensar em velhos termos de unidade de esquerda. Como Jesus Cristo à Pessoa, não sabem nada de finanças. Também o fechar de círculo sobre a utopia europeia, entre a direita e sectores da extrema esquerda.

Em próxima entrada, tentarei desmontar – apesar de não ser especialista – a completa falta de bases objectivas, económicas, das propostas que o PS tem apresentado como programa de “troika sim, austeridade sim, mas um pouco menos”. Já basta de embustes. Mas também já basta de pessoas respeitáveis, gente estimável de esquerda, a entrarem neste jogo. Ouvi-los-ei quando me explicarem onde se vão buscar os milhares de milhões de euros necessários em alternativa à denúncia do memorando, à reestruturação da dívida, eventualmente à suspensão do seu serviço e à saída do euro. Até lá, como é o refrão do animador de festas angolanas a que costumamos ir, "estamos a brincar ou quê?".

NOTA – Explicando uma longa hibernação do Politeia, José Manuel Correia Pinto escreve que “tinha decidido não voltar à escrita tão cedo por entender que as palavras estão esgotadas e estar convencido que já não vai ser por via delas, por mais inflamado que seja o seu uso, que a situação portuguesa poderá ter a reviravolta que os portugueses – os portugueses silenciados pelos grandes meios de comunicação social - verdadeiramente desejam e que a todo o momento esperam para nela poderem entusiasticamente participar.” Mas eu sei que esse meu querido amigo não é homem de desistir. Também eu começo a pensar que estou a escrever em circuito fechado, para já convencidos. Temos de encontrar uma porta para outro caminho, mais eficaz.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Mais uma reflexão sobre a esquerda

Nos tempos que vivemos, quem pode criticar que haja uma vaga notória de emotividade, de alguma falta de reflexão objectiva sobre a política e, no caso que me interessa, sobre a política de esquerda? E até, porque o principal é a acção, não esquecendo que no clássico triângulo da nossa mente, razão-afecto-acção, não é só a razão que conduz à acção. Mas cada um contribui como melhor pode e julgo que, até por treino profissional de muitos anos, o meu é o de desafiar a uma reflexão racionaliza. 

Merda, sou lúcido!

Neste sentido, seguem-se algumas notas, ainda sobre a renovação da esquerda. 

Permita-se-me antes o desabafo de que detesto a pseudo-humildade, que li há dias, de quem declara que não pode entrar em polémica comigo por eu ser depreciativo em relação aos que não são intelectuais como eu (mas eu sou qualificado academicamente em política ou economia, como sou de facto em biologia molecular e microbiologia?). É o argumento mais tartufiano para fugir à discussão aberta de ideias, em áreas em que, como cidadãos, somos iguais em oportunidades.

Mais uma vez, é uma entrada longa e, por isto, aqui vai um índice:


Creio que muito do que se tem escrito sobre a necessidade de criação de um novo partido peca pela grande indefinição do que se pretende com ele e do que ele deve ser. Muitas vezes, fica-se pelo circunstancial e não se vai ao essencial. Por exemplo, a definição pela negativa, em vez de pela positiva.

É recorrente a afirmação de que o PCP é isto e aquilo, de que o PS é outro isto e outro aquilo e que é preciso um novo partido que não seja nem istos nem aquilos. Raramente tenho visto um esboço de proposta programática e, quando alguém o faz e, inevitavelmente, tem de ir ao âmago da política de hoje – a economia política, a hegemonia neoliberal, o euro, a crise, a austeridade – muitos fogem como diabo da cruz porque é muito mais fácil falar em termos políticos tradicionais do que assumir que é preciso pensar, à Clinton, que “it’s the economy, stupid”, em que não se sentem minimamente à vontade. Muitos pensam como os partidos velhos, dizendo que querem um partido novo.

Daí a perspectiva geográfica, que discuti, de ocupação de espaço, a meu ver uma fantasia, entre PCP e PS. Não vou repetir-me, mas lembrar que isto não faz sentido. Quer-se é um partido um pouco ou muito mais à esquerda do que o PS? Em quê? Em programa e em que aspectos concretos do programa? Em ideologia? Ou apenas em estar disposto a preferir alianças com o PCP e o BE, em vez da sua irresistível atracção pela direita? Então é o tal “verdadeiro partido socialista” de que se fala há 40 anos. Não serão muitos dos que então o proclamavam que agora voltam ao mesmo? É um pequeno clube de políticos saudosistas ou são os novos contestatários de hoje?

A ideia de um novo partido que seja uma “coisa” definida só por desafiar o PS a assumir-se como esquerda não é nova. Não se lembram do PRD? Não contribuiu em nada para qualquer inflexão do PS, antes o enquistou. Não serviu de pretexto para qualquer sinal de renovação do PCP e, afinal, abriu foi o caminho ao cavaquismo. Também todas as tentativas de construir o “verdadeiro” PS foram ilusórias, desde a tendência Manuel Serra às sucessivas vagas de entrada no PS de grupos salvadores que acabaram por se transformar à imagem e semelhança, como os ex-MES. 

Muito menos hoje, com um eleitorado socialista conformado e rendido à inevitabilidade da política troikiana. Com um aparelho cada vez mais carreirista e sem valores ideológicos firmes. Com inserção do PS num movimento europeu de assimilação ideológica da social-democracia pelo neoliberalismo. Com ausência, ou pelo menos com grande debilidade e inviabilidade pública de uma oposição interna de esquerda. 

Também não conheço na Europa nenhuma experiência recente de um partido que tenha conseguido trazer o partido social-democrata para a esquerda. Até agora mesmo, na Alemanha, o SPD recusou qualquer hipótese mesmo de conversa com os Die Linke e os Verdes para ir pressurosamente aliar-se à Sra Merkel, como já o Pasok se tinha aliado com a Nova Democracia e a extrema direita e não com a Syriza ou o KKE. Por que milagre será diferente em Portugal? Por espírito santo de Hollande, a maior fraude recente na social-democracia europeia?

Volto a dizer que desejo sinceramente uma convergência entre a esquerda e o PS, mas sou suficientemente realista para, como se fosse num jogo de roleta, não pôr nessa casa todas as minhas fichas.

Um lema mais recente é o da falta do sentimento de representação. É o que Rui Tavares usa mais enfaticamente na sua entrevista de sábado ao Expresso, em que anuncia o seu empenhamento na criação de um partido à medida pessoal para as eleições europeias de 2014, em que é parte interessada. Segundo ele, as pessoas não sabem em quem votar e abstêm-se. É provavelmente verdade, mas não generalizável. 

Acredito que isto se passa, à esquerda, com muitos dos que votam em branco, mas que ainda têm expressão diminuta. Mas dizer que um novo partido – de esquerda! – pode atrair percentagem considerável dos quase metade de abstencionistas é ignorar completamente a ciência política e a sociologia eleitoral. Os abstencionistas situam-se principalmente no pântano central, cansados do seu balanço entre, no nosso caso, PS e PSD. No caso presente, de situação de crise e de hegemonização ideológica e desinformação, são provavelmente pessoas que pertencem ao grande arco troiano que continua a dar cerca de 80% nas sondagens, que têm medo de uma política económica alternativa e que não sabem bem qual o partido de centrão que lhes dá essa segurança com o mínimo de sacrifício. Ou os desalentados que acham que já tanto faz porque todos – nesse pântano – são iguais.


Honestamente, ainda não li um único texto sobre a mítica unidade de esquerda (traduzida mecanicamente para unidade PCP-BE-PS) que avançasse minimamente com a perspectiva de ganhos políticos efectivos – não apenas simbólicos ou afectivos – dessa unidade. A intenção é louvável, claro, é a fábula do molho de vimes, mas há sempre que pesar prós e contras. E, desde o princípio, reflectir sobre o que o mito tem de bases objectivas e racionais ou se é só sonho ou sombra de história passada e hoje ultrapassada.

Creio que um bom marco temporal de partida para esta reflexão é o da década de 30 do século passado, em que a III Internacional promoveu as frentes populares. Em alguns casos, numa atitude defensiva para combater o fascismo, noutros ofensivamente, para o prevenir, como no caso da frente popular francesa. Toda a gente conhece esta história e não vale a pena desenvolver, mas saliento duas coisas importantes: 1. por mais ameaçadora que pareça ter sido a política capitalista da época, por via dos fascismos, não correspondeu a uma mudança estrutural do capitalismo, como hoje (veremos adiante); 2. a social-democracia europeia ainda não tinha passado pela sua grande viragem de conciliação com a direita que foi marcada pelo congresso alemão de Bad Godesberg, em 1959.

O caso português (e também o espanhol) é específico, por ter tido uma ditadura de tipo fascista perdurando muito para além do desvio de direita da social-democracia, mas diferindo do espanhol por não ter então um partido socialista forte, como o PSOE. Creio que só por muito má vontade é que se pode dizer que, até ao 25 de Abril, não houve uma busca sistemática da unidade, mesmo quando o campo republicano tradicional impôs a candidatura de Delgado (no que, afinal, tinha razão) ou bloqueou a afirmação da solidariedade anticolonial, ou quando o sector socialista se deixou cativar pela ilusão marcelista, concorrendo eleitoralmente nas CEUD.

É verdade que, a seguir ao 25 de Abril, a meu ver, a perspectiva unitária, necessária para a defesa da revolução, teve contradições, nomeadamente a afirmação partidária, muitas vezes com expressões inaceitáveis de sectarismo e de triunfalismo, principalmente por parte do PCP. Também foi inviável, em parte por acções externas, até estrangeiras, mas em boa parte pelo sectarismo entretanto acumulado, resolver a crise do verão de 75. O refluxo revolucionário após o 25 de Novembro, em que o PCP teve uma atitude inteligente, podia ter sido outra oportunidade, se o PS tivesse compreendido que a sua revanche podia fazer-lhe correr o risco de prisão pela direita, como aconteceu, principalmente porque os rancores viscerais de Mário Soares, no caso contra Eanes, arrastaram o PS para uma via que, culminando no bloco central, abriram definitivamente o caminho à AD e depois ao cavaquismo. 

Com tudo isto, sedimentou-se uma quezília mútua, na altura compreensível, mas que hoje é só um álibi. A maioria dos militantes partidários e dos cidadãos que falam disto não a viveram e falam por ouvir dizer.  Não a viveram o suficiente para que, hoje, essa história justifique a falta de entendimento.

Entretanto muito mudou. 

No mundo, implodiu o sistema soviético e a concepção marxista-leninista do partido e da organização e vida sociais. O PCP, aparentemente, não tirou as devidas lições. Por “devidas” claro que não estou a falar de rendição tardia ao paradigma social-democrata, ainda por cima quando esta está em acelerado desvio da sua natureza fundadora. 

No mundo, impôs-se a globalização, a financeirização, o neoliberalismo (melhor dito, o ultraliberalismo) e, na Europa, uma construção aberrante de um espaço económico e monetário unificado no euro. O PS, se se quisesse manter como partido de esquerda, não tirou as devidas lições. Por “devidas” claro que não estou a falar de rendição tardia ao paradigma comunista, ainda por cima quando este entrou em falência.

Em Portugal, mudou a relação de forças, em favor da direita, mudou a origem, carreira e cultura dos actores políticos – os jotas! –, mudou o domínio dos instrumentos de hegemonia cultural e ideológica (comunicação social, influência económica nos media, venalidade dos informadores e comentadores). Mais importante, porque menos perceptível, mudou a estrutura social, mudou o padrão do trabalho, mudou a estrutura demográfica, uniformizou-se à direita a matriz ideológica formadora das universidades, mudaram as relações geracionais, mudaram as relações de solidariedade, mudaram as aspirações sociais e as projecções psicossociais, etc.

Os partidos convencionais ainda não abordaram estas mudanças. Um único o fez, ingloriamente e antes do tempo, mas já desapareceu, o MDP dos princípios dos anos 90, de que tenho de falar um dia destes. Em relação aos actuais, a sua convergência ou unidade não pode ser mais do que adição das suas características insuficientes. Esta unidade não resultará em nenhum salto qualitativo. Voltarei a isto, adiante. 

Creio que um salto qualitativo é o que esperam aqueles sectores sociais de que tanto se fala, e que oscilam imenso, como se vê pela participação dos jovens, dos intelectuais precários, dos filhos da pequena e média burguesia, dos reformados, pouco representados pelos sindicatos, participação muito oscilante em manifestações de rua, por exemplo.

Atrevo-me a pensar que esta coisa da unidade PCP-PS é caturrice de velhos de esquerda que pouco diz a essa tal gente da nova movimentação social. Essa gente nova não acredita muito é nos próprios partidos, PCP e PS e nada lhes acrescente a esse descrédito que eles lhes apareçam de braço dado. 

Infelizmente, até o termo sagrado de esquerda lhes é muitas vezes indiferente, embora o que desejam seja essa esquerda, mas sem o saberem, como M. Jourdain não sabia que escrevia em prosa. Como me diz sabiamente a minha morena, “escreve tudo isso, mas retira as palavras que afastam primariamente os leitores que merecem ler-te”.

No entanto, insisto, longe de mim afastar qualquer aproximação entre ca esquerda e o PS, como esclareci devidamente, acho eu, na última entrada. Simplesmente, é uma aproximação táctica, não estratégica.

Tenham-se também em conta as consequências das cedências estratégicas e programáticas, na história recente, principalmente no caso italiano. Abrindo parênteses para manifestação pessoal, é coisa que me dói, porque, mesmo na minha vida de comunista e principalmente durante o processo checoslovaco, o chamado eurocomunismo (com que depois tive muito contacto na Suíça, junto de amigos espanhóis) sempre me interessou muito. A implosão do comunismo italiano, em organização e em afirmação ideológica, na magnífica herança de Gramsci, é penosa.

O PCP está longe, a meu ver, de ter produzido tão rica obra teórica (creio que Cunhal foi muito mais um grande organizador político do que um teórico) mas é portador de um exemplo de capacidade de luta que não se pode perder. Desde Melo Antunes, na noite do 25 de Novembro, até muita gente hoje, é dito frequentemente. Não é e não será facilmente governo, mas é essencial para “hold the fort”.

A situação é assimétrica, porque o PS é completamente inexistente na produção teórica do socialismo, mesmo que, naturalmente, da social-democracia. Portanto, falando só do PCP, interessa a toda a esquerda que o PCP não seja pressionado (se é que se deixa pressionar) a descaracterizar-se e a contribuir para uma italianização da esquerda portuguesa. 

Claro que, com isto, não estou a dizer a dizer que o PCP não tem graves vícios. Desculpem a este “teórico” voltar a dizer que são os vícios do marxismo-leninismo, contra as virtudes do simples marxismo (melhor, da obra de Marx). Digo que o PCP deve corrigir esses vícios para ser o partido que aspira à confiança de largas camadas do eleitorado, que não tem, apesar da sua coerência de lutador. Até digo mais: o escape ao risco de italianização, no caso do PCP, depende, a meu ver, de uma ofensiva de renovação ideológica. Senão, o tempo fará de moinho.


Com excepção de situações extraordinárias de resistência (como a plataforma PCP-PS de 1973) não conheço alianças de esquerda que não se tenham baseado num programa comum. Nesse caso português, por exemplo, até houve esse programa mínimo, o consenso do Congresso de Aveiro. Mesmo sem isso, era fácil a unidade. Acções institucionais, de rua, internacionais, etc., contra o fascismo, solidariedade com os presos políticos e luta pela sua libertação, denúncia da repressão, publicação de coisas proibidas pela censura, etc.

Também depois do 25 de Abril, e principalmente depois do 11 de Março, devia ter sido fácil: desfascistização do aparelho de estado, quebra do poder monopolista e latifundiário, descolonização realista e tanto quanto possível fraterna, independência nacional, democracia participativa, desenvolvimento comunitário, educação e consciencialização cívica, estado social (educação, saúde, segurança social), etc. Nessa altura é que se devia ter perguntado; “porque é que os partidos de esquerda não se entendem para um programa comum?”. Não era então o PS um partido marxista, como gritava Mário Soares nos comícios? Não era o PCP o partido que tinha defendido programaticamente que a “revolução democrática e nacional” exigia uma ampla base social de apoio?

Hoje, a questão está ultrapassada ou colocadas em termos radicalmente diferentes. 


Como escrevi, todas as experiências mais ou menos sucedidas de aliança de esquerda – e agora nem vou discutir o que é hoje e cá a esquerda – se situaram em quadros de ofensiva ou de defensiva mas sempre de guinadas, de “curvas apertadas” da evolução do capitalismo. Julgo que a situação actual é diferente. É a de uma crise (no sentido histórico e dialéctico), de uma mudança qualitativa e estrutural do capitalismo. 

Um século depois do anúncio do imperialismo como nova fase do capitalismo, um século depois do início da financeirização da economia, meio século depois da adaptação eficaz do capitalismo à perda das colónias, meio século depois da assimilação pelo capitalismo da nova estrutura do trabalho resultante das novas tecnologias e do fim do taylorismo, poucas dezenas de anos galopantes de internet, profundas mudanças nos padrões de comportamento e aspirações psicossociais das pessoas, subtis alterações dos sistemas de relações familiares e comunitários, etc., etc., quem pode dizer que se pode pensar o quadro político, os grandes domínios (esquerda e direita), os partidos, as suas relações, como nos habituámos a pensar em jovens?

Nota intercalar – Esta referência etária é porque desconfio de que muita desta discussão é entre marretas ainda presos a esquemas formais e a que não correspondem em nada os jovens que devemos chamar à luta de todos, que até é mais deles do que dos que se perdem em coisas antigas de uma esquerda moribunda. 

Virandomo-nos para a situação prática que vivemos, colocam-se duas perguntas essenciais: 1. o quadro da aliança é o tradicional ou mudou? 2. se mudou, que aliança é possível?

Qualquer das perguntas exigiria ainda um desdobramento: em que plano? estratégico ou táctico? o que também significa a médio-longo prazo ou a curto prazo. Vou deixar agora isto de lado, que complicaria a discussão. 

Listei acima alguns aspectos teóricos da mudança, mas interessa mais ir ao concreto, na situação que vivemos. Há uma política troikana que nos afoga, suportada por um peso enorme de forças políticas e económicas mundiais e europeias. Ninguém do “arco governamental” (os tais 80%) ainda disse não, como até a Grécia parece que vai fazer. Ainda ninguém desse sector conseguiu avançar com propostas alternativas, porque as do PS, como escreverei um dia destes, defrontam-se com a sábia pergunta do meu grilo falante (“mas onde é que eles vão buscar o dinheiro? Não concordo com a tua solução para ires buscar dinheiro, mas ao menos é uma proposta objectiva”). Considero, como já escrevi, que a posição do PS em relação ao troikismo, de que nunca se dissociou, é uma vigarice.

Pelo contrário, a esquerda, com alguma ambiguidade do BE, e apoiada por entidades inorgânicas como o Congresso Democrático das Alternativas, defende a denúncia dos memorandos, a reestruturação da dívida e, embora não aprovando explicitamente, não recusa liminarmente a saída do euro e a suspensão do serviço da dívida.

É isto que, a meu ver, mudou radicalmente a discussão de uma unidade de esquerda. Já não se trata de avançar em medidas estritamente políticas, como os direitos sociais nas frentes populares, nem de resistir à repressão das liberdades. Neste momento, é o âmago da luta contra o essencial da ofensiva capitalista, é a distinção absoluta de quem está com o capital e contra o capital. Não há meio termo.

Não há meio troikianismo (quem é que nos permitiria isto?), a que irei em próxima entrada, lembrando de que também não há estar “meio grávida”.

Simplesmente, esta demagogia da virtude do meio, austeridade mas suave, sem se explicar como, corresponde a coisa bem problemática na nossa situação política. Quem fala com o homem da rua sabe como ele protesta, mas amocha. Ouve o massacre das televisões e fica perturbado. Se até consciente da culpa deste governo, tenta alternativas e apanha com o inacreditável Seguro (mas a culpa não é de um PS que o escolheu e o vai candidatar?). Se calhar, ouve o que de pouco lhe passam de posições de esquerda, mas tem imenso medo de soluções radicais e nem pode ouvir falar da eventual saída do euro.

Veja-se o caso do Orçamento de Estado para 2014. Alguém ficou com alguma ideia de propostas do PS alternativas e sustentadas? A ministra disse que não havia margem para propostas que não fossem de resultado zero (isto é, diminuir a despesa mas com equivalente aumento da receita). Isto é fazer o jogo. O PS apresentou propostas radicalmente diferentes, anti-troika? Tudo está condicionado ao cumprimento das metas, por exemplo os 4% do défice orçamental em 2014. Não ouvi o PS dizer que não aceitamos, que nós é que definimos o défice como queremos. Até os gregos já começam a dizer que não se submetem mais, mas nós não somos gregos...

Claro que isto significa corrermos o risco de os credores se zangarem. E depois? Estamos sempre com o dito a jeito?

O PS – e até o BE – sabem desse medo das pessoas e embrulham o eleitor em conversa fiada. Contra este compromisso estrito com o pensamento económico-político dominante, dada a referida ambiguidade do BE, até nem é a posição institucional de esquerda que se contrapõe. É principalmente a opinião informal, por exemplo a de blogues. Honra lhes seja feita. 

Resumindo: como fazer a conciliação entre as esquerdas, em abstracto? Blá-blá. Mas como fazer a conciliação de posições entre uma esquerda troikiana e uma esquerda anti-troikiana? Que me respondam os fieis da fada da unidade PCP-PS. Eu tentarei dizer alguma coisa em próximas entrada.


Tenho sempre a suspeita de que toda esta discussão é muito característica de pessoas que, dentro ou fora dos dois partidos, raciocinam muito em termos do que eles são e do que porventura neles viveram. Ser ex-qualquer coisa exige tempo para se ser clarividente.

A ideia do “verdadeiro partido”, seja comunista seja socialista, é recorrente. Um partido é o que é, com a sua multiplicidade de factores definidores. Não é ninguém de fora que pode ter a arrogância de ensinar a milhares de seus militantes o que devia ser o partido. Ou então adira e lute pela sua transformação.

Muito menos sentido faz, como escrevi na entrada anterior, fazer uma espécie de clube político em encontro de duas ondas, a de descontentamento com o PCP e a de descontentamento com o PS. Parece-me que é o que se passa. Que se entendam, mas só vão a coisa amorfa, definida pela negativa. 

Como disse acima, estou convencido de que nada disto atrai os potenciais novos eleitores e activistas de esquerda, a começar pelos que respondem aos apelos de rua como os de 15 de Setembro de 2012. Eles querem lá saber do espaço desocupado entre o PC e o PS, da necessidade de um partido à medida para reeleger Rui Tavares, da medida de forças numéricas entre manifestações.

Eles poderão ser atraídos por um partido novo, mas não o medirão em contrapeso com os actuais. Por isto, como tanto tenho insistido nos meus últimos textos, esqueçamos a perspectiva geo-partidária de políticos à antiga. Esqueçamos o partido “entre” e pensemos no partido “sobre”. 

Tenhamos em conta que, infelizmente, e como mostrou a história recente de criação de partidos à pressa  em países em crise, um novo partido não vai a tempo de ser parte decisiva na solução desta crise. Para isto, temos de mobilizar outras forças e, concordo com os meus contraditores, recorrer ao máximo à unidade tradicional.

Não precipitemos, por razões oportunistas até fulanizadas, a reflexão sobre esse novo partido. Concentra-se, tradicionalmente, na luta pelo emprego, pelas condições de trabalho e pela titularidade dos serviços públicos? Ou, questão primeira, nesta época histórica: aceita ou não, e em que termos, fazer a gestão socialista do capitalismo? Como vê questões modernamente desafiadoras do pensamento de esquerda, como a economia social, o ambiente sustentável, a solidariedade comunitária, o emprego social, etc.?

Em entradas anteriores, já adiantei algumas propostas, mas admito que abusivamente, porque não é coisa de “iluminado”. Elas devem vir de todo um movimento de geração e discussão de ideias, com múltiplos contributos. Quando defendo um novo partido, é isto que pretendo. Se não, com cada um a dizer bocas, estamos à macaco a coçar a comichão. E coçar a comichão é coisa compreensível, muitas vezes exigência imperiosa do corpo, mas que nada tem de racional.

Para terminar, e porque disse acima que muita gente, aflita nesta crise, quer uma solução imediata, desejando para isto coisas irrealistas, lembro que a paciência é uma virtude revolucionária!

NOTA – Um velho amigo acha que eu, insistindo no reforço da esquerda, estou a menosprezar a importância de captar o centrão. Não julgo que seja verdade. Simplesmente, não é o meu terreno principal de luta, em que ele está muito melhor situado e tem feito esforços notáveis. Se calhar, até eram necessários dois novos partidos, um de esquerda e um de centro. Isto é que talvez tivesse consequências bem radicais, a mexer com todos os partidos.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Em resposta

Escrever e receber comentários simultaneamente no blogue e no Facebook é complicado. Uso a minha página do Facebook principalmente para dar aviso de novas entradas no blogue, mas há amigos que as comentam aí, onde fico tecnicamente impossibilitado de responder nas melhores condições. por isto, vou remeter para esta resposta os amigos que comentaram a minha última entrada, “Mais uma vez, sobre um novo partido”.

1. Esquerda sozinha?

Acerca de eu ter dito que era necessário, para nos entendermos, começar por definir o que é esquerda (e aceito o desafio do Martins Coelho, claro que com a sua ajuda), uma comentadora, Matilde Ramalho, pergunta, e muito bem, “se, na actual conjuntura, o rumo se muda apenas com essa esquerda definida, ou se é preciso agregar-lhe o centro esquerda”. Claro que sim, como direi adiante, mas, de certa forma, está a vir ao encontro da minha tese, embora usando outra nomenclatura, quando fala de esquerda e de centro-esquerda, distintamente.

Também não gostaria que se pensasse que ao defender a análise rigorosa do que é esquerda, historicamente, politicamente, psico-sociologicamente, culturalmente, esquecesse outro plano essencial referido por outro comentador, o da práxis. Como ele escreve, “tem que ser ela [esquerda] a definir-se, não por definições teóricas, ou não só através delas, mas sobretudo pela práxis, e nela devemos todos participar sem a presunção de possuir a verdade ou que a mesma seja imóvel e eterna.

Dito isto, não tenho qualquer dúvida sobre que o entendimento entre forças políticas que possam convergir na luta contra a direita pura e dura é positivo e deve ser procurado. Creio também que ele é desejado, até com certo idealismo utópico, por muita gente progressista, de esquerda em sentido largo, e que pensa, com alguma razão prática, em termos para mim linearmente eleitorais: se o PS não consegue maioria absoluta e vai ter de se coligar, é importante prendê-lo a uma unidade de esquerda, para que o actual governo não seja substituído por coisa parecida e ainda por cima legitimado pelo PS. Se isto faz ou não sentido, discutirei depois. Também o que de conjuntural e dialéctico tem a unidade de “esquerda” (e a própria noção de esquerda, como escrevi acima).

O que respondi à minha comentadora foi que “com certeza, mas ‘cada coisa no seu sítio’. Ter noção disto é importante para elucidar a acção e permitir decisões coerentes. Não ter a noção disso é criar confusão e não se ir a parte nenhuma. A meu ver, claro.” Não me parece difícil explicar isto, mas vou recorrer a uma parábola. 

Tenho irmãos e tenho bons amigos. Os seus “sítios” são diferentes, apesar de ambos cheios de afecto, compreensão e espírito de ajuda. Custa-me muito perder um amigo, mas custa-me mais perder um irmão. Tenho festas de família em que se conversa de coisas que são íntimas, tenho festas em que os irmãos convivem com os meus bons amigos. É difícil perceber isto? 

Quando escrevi, como se vê acima, que isto “é importante para elucidar a acção e permitir decisões coerentes” quero muito simplesmente dizer que o entendimento com sectores afins, desejavelmente amigos, mas não do mesmo núcleo duro, não deve prejudicar a imagem de coerência e a limpidez de acção dessa área “de família próxima”. Esta é a questão essencial: nesta crise, que é uma mudança qualitativa na evolução do capitalismo – outra coisa de que falarei depois – qual é a fronteira das cedências em favor da convergência? Também discutirei isto.

2. A crítica da coerência e da cedência

Escreve outro comentador, Daniel Santana: “Para haver convergências é necessário que cada partido tenha ideias, e mesmo tendo-as essas carecem sempre tradução para o momento. Se todos cumprirem isto pode então nascer confrontação e daí eventuais convergências pontuais ou a médio prazo. Ora, mesmo de longe, parece-me que nenhum da "ambos os três" reuna essas condições. E pior parece que nem sequer desconfiam! (…) Basta analisar um qualquer momento para verificar-mos que cada vez que surge uma qualquer dúvida, ou proposta que pareça que se desvia da linha, afirma-se logo que há cedências, compromissos com o inimigo, traições....sem ter a menor consciência que não temos nenhuma linha. Mas tão somente uma quantidade de chavões mal alinhavados e com frequência contraditórios. Condição a todos comum, rebatem-se os chavões de outrem com os próprios ostentando sempre uma ufana bazófia. Se analisarmos um qualquer documento, não importa de qual, confrontamos-nos quase sempre com uma linguagem estereotipada, adialéctica, nefasta...., em tempos a um dos partidos chamava-se "cassete" e era-o. mas eram criticados com cassetes (eventualmente menos monolíticas, mas daí não passavam) afinadas por outros músicos!!!

Tem muita razão, a meu ver. Quase que ele poderia resumir como “quem tem telhados de vidro…” Mas esta é uma longa história da esquerda, do socialismo, do movimento operário. Entre esquerdismo e conciliação de classe, entre sectarismo e oportunismo, nem sempre foi fácil traçar a linha certa e fazê-la ser compreendida. Marx que o diga. Novamente, escreverei depois, como me provoca o meu caro (e respeitado com humildade minha, o que é muito importante) Martins Correia.

Mas já não me parece que Daniel Santana tenha razão quando, acerca do que eu escrevi e que cito acima, diz que: “A resposta do João à Matilde tem já incita a impossibilidade de qualquer hipótese de convergências. ‘Cada coisa no seu sítio’, quer dizer os sítios são à priori por mim decididos (traduzo a verdade é minha e só minha). ‘Ter a noção disto é importante para elucidar a acção e permitir decisões coerentes coerentes’. Quer dizer que só um tem capacidade de elucidar e decidir a coerência, obviamente o portador de verdade.”

Quase que sou acusado de uma espécie de puritanismo político, coisa que detesto, a começar pelo “politicamente correcto”. Não me referi a uma coerência com sentido universal mas sim àquela que é direito – e dever – de cada um, em relação à sua actuação. E, por consequência, ao que, de fora, lhe tentam impor. Aliás, este é um dos aspectos mais importantes do impacto dos actuais partidos e que revela um muito apreciável sentido ético dos eleitores. Por exemplo, em relação aos dois partidos da “esquerda radical”, não é vulgar ouvirmos dizer que “no PCP não voto, não o quero no governo, mas não há dúvida de que é coerente”? Ou, pelo contrário, “os rapazes do BE podiam bem juntar-se ao PS, mas não se pode confiar muito neles porque não são coerentes”? 

Coerência e cedências não são contraditórias. Pelo contrário, cada um dos termos enriquece o outro e dá-lhe força, ganhando significado eficaz, no concreto. É a dialéctica... Sobre isto das cedências, voltarei de novo, acerca do risco de italianização da esquerda se não cuidar da sua coerência.

Ficam por aqui as respostas directas, mas, como disse, mais teria a dizer, que uma coisa puxa outra. Fica para a próxima entrada, talvez ainda hoje.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Mais uma vez, sobre um novo partido

A questão de um novo partido não é de geografia partidária. Não se trata de qual o seu espaço no plano bidimensional dos partidos existentes, com quais se aproxima ou com quais se intersecta. Tem outras dimensões, noutro plano, e mede-se por poder dar mais esquerda à esquerda.

Muito tenho escrito sobre o que penso ser a necessidade de um novo partido de esquerda. Para não repetir citações, deixo só a última, que pode servir para irem às anteriores. Não estou sozinho nesta opinião, muito pelo contrário, mas receio que esta aparente concordância de muita gente encerre um equívoco.

Começo por um estrénuo defensor desta tese, Jorge Bateira, que ainda ontem voltou a ela, na sua coluna do ionline, “O trilema”. Não vou comentar a sua posição porque, tanto quanto a entendo e conforme muitas conversas pessoais, creio que estamos de acordo no que direi adiante. Aproveito só para chamar a atenção para a forma muito articulada como Jorge Bateira, nesse artigo, liga sem o dizer a questão do novo partido à do trilema, popularizado por Dani Rodrik, cujos vértices são a globalização (no nosso caso, a União Europeia e o euro), o estado-nação e a democracia, mas em que cada país só pode escolher dois dos vértices.

Jorge Bateira defende, como eu, “o binómio estado-nação - democracia, deixando cair a Zona Euro e protegendo-nos da globalização. É este o caminho de saída da crise que as esquerdas se têm recusado a assumir. Por isso é que continuamos sem luz ao fundo do túnel.” Creio que é aqui que entra a questão do novo partido, necessário ao sucesso desse binómio. Também a da crítica ao privilégio a outro dos binómios defendido quase religiosamente por euro-utopistas, “o binómio democracia - integração, neste caso deixando cair o estado-nação e transferindo para um nível superior os mecanismos da democracia representativa.”

Ambos os temas me fazem logo lembrar o último artigo de Rui Tavares (RT) no Público, “Por que estamos bloqueados?”. RT já tem  escrito sobre um novo partido, mas com alguma ambiguidade. Na sua grande actividade “manifestista”,  encabeçou um “Manifesto para uma esquerda livre” que advogava uma esquerda (novo partido?) que – palavras de RT – fosse livre, que não fosse nem de esquerda mole nem de esquerda inconsequente (em ambos os casos, uma esquerda não corajosa). Para quem tanto defende a unidade, não deixa de ser uma posição arrogante e até provocadora. É o que chamo a tese geográfica, o partido ao mesmo plano do PS e do PCP, num espaço ainda não demonstrado e promovendo a unidade entre eles.

Agora, volta outra vez à criação de um novo partido, polo de um outro dilema, para nos desbloquearmos e à esquerda (que esquerda, é coisa que RT nunca esclarece): “É hoje evidente que só há duas maneiras de os partidos mudarem: ou com um revolta interna dos seus militantes, que leve a uma profunda reforma democrática dos partidos, ou com criação de novos partidos que funcionem segundo regras diferentes, levando os partidos antigos a acompanhar a evolução para não ficarem para trás.” Parece ser um recuo de RT. Antes era um novo partido de esquerda, livre. Agora, novos partidos já são para mudarem os actuais, em geral, não se sabe quais, se moles, se inconsequentes, se até de direita.

Mas deixo agora RT e passo a outro assunto bem mais importante. Por comentários amigáveis que me chegam a escritos meus noutro sentido, parece-me que a visão “geográfica” de um novo partido tem impacto e merece ser discutida. Em resumo, significa o seguinte. 1. O PS  é um partido de esquerda, embora sempre tentado a condescender com a direita. 2. O PCP é um fóssil vivo que, apesar de se lhe reconhecer firmeza e coerência, nunca será poder. 3. O BE está em decadência. 4. O PCP tem como principal inimigo o PS. 5. Em conclusão, e daí em ter falado em geografia, há um espaço vazio entre PCP e PS, para promover a sua aliança. A meu ver, pouco disto faz sentido.

1. O PS só é partido de esquerda numa visão romântica e ultrapassada da história e da política. Aceito inteiramente que me digam que, na sequência do 25 de Abril, o PS devia ter sido estimulado a integrar uma grande frente antifascista e progressista, mas não obrigatoriamente identificada como esquerda, em vez de, também com a sua cumplicidade de vitimização (caso República, etc), ter sido alvo de muitas atitudes sectárias por parte do PCP, mas principalmente a nível dos fanáticos de última hora, mal enquadrados e mal controlados.

Depois, o socialismo na gaveta é esquerda? E o bloco central? E mais tarde todo o alinhamento com a social-democracia europeia pós-Blair quase tão neoliberal como a antecessora Sra. Thatcher? Podem dizer-me que um governo do PS não estaria a fazer agora as mesmas barbaridades que o actual governo, o que logo o marcaria como de esquerda. Será só um pouco menos de austeridade (e como a conseguir?) que define esquerda? É só questão de um pouco menos ou mais?

2. Que o PCP, apesar de crescer eleitoralmente num período ou noutro, não tem condições de apoio eleitoral e de confiança das pessoas para ser poder, é verdade óbvia. Por sua culpa, antiga e actual; por se manter a memória de comportamentos sectários e arrogantes de seus quadros e militantes; por continuar agarrado a estereótipos; por misturar críticas justas a que deve resposta reflectida e honesta e críticas preconceituosas e malévolas a que compreensivamente não pode responder; por nunca ter feito a autocrítica de atitudes duvidosas; por não ter reflexão teórica sobre os seus fundamentos ideológicos e mesmo sobre os grandes desenvolvimentos do pensamento marxista, continuando preso de uma cartilha marxista-leninista; o PCP ainda é, para muita gente, o partido contraditório, que serve para resistir e lutar mas que não se deseja que governe, porque se tem medo de ele não respeitar a democracia.

Reconheço sem dúvidas a contradição. As posições do PCP são consequentes, a sua capacidade de luta é reconhecida, mas não será governo pela via que respeitamos, a eleitoral. A questão de um novo partido não deve esquecer esta contradição. É errado querer ultrapassá-la pela obsessão do problema táctico, porventura oportunista, da ponte para o PS, para o que, segundo alguns, serviria um novo partido.

3. A decadência do BE pode corresponder só a uma fase transitória, conjuntural, como foi conjuntural o seu sucesso de 2009 que serve de termo de comparação e que se deveu a uma transferência de votos PS de esquerda anti-Sócrates mas que não quiseram ir para o PSD. De qualquer forma, este tipo de partido está com relativo sucesso na Europa em crise (Syriza, por exemplo) e corresponde a uma camada social crescentemente importante, a de intelectuais e trabalhadores qualificados oriundos da classe média. Com isto, diriam os teóricos tradicionais que sofre do radicalismo pequeno-burguês. Muitas vezes também com oportunismo e demagogia, como, por exemplo, na forma como tem usado o caso diplomático entre Portugal e Angola.

4. O PCP parece ter o PS como principal inimigo. Mas alguém duvida de que essa atitude é inteiramente correspondida? Antes de se defender, linearmente, que um novo partido iria ser a chave milagrosa para essa mirífica unidade de esquerda (?) não era bom estudar bem as causas, condicionantes, alianças estratégicas políticas, sociais e económicas, internas e externas, bases negociais possíveis? Seria um bom contributo teórico com impacto prático para um passo em frente.

5. Em conclusão, ao desejar a criação de um novo partido de esquerda, não defendo de forma alguma uma espécie de sua localização geográfica, na horizontal, entre o PCP e o PS, com um programa ajustado a esse posicionamento. Aliás, isto de posicionamento, coisa muito antidialéctica, daria muita discussão, que não cabe agora aqui.

A questão principal é que não faz sentido pensar-se, nesta época de crise e nos anos que se seguem, que será possível aproximar o PS, como “partido de esquerda”, da restante esquerda, consequente. Não estamos em época histórica de conquistas populares passo a passo, negociáveis entre as forças populares em ofensiva. Também não estamos em resistência antifascista (talvez não seja bem assim!). Estamos numa época de opções radicais. Voltando ao artigo de Jorge Bateira, há que escolher binómios do trilema, com toda a clareza. A posição do PS, apenas superficialmente distanciada no respeito pela política centro-europeia e da troika, é incompatível com a posição da esquerda radical. Não se pode misturar homogeneamente azeite e vinagre.

Dir-me-ão que chamar o PS à esquerda é melhor do que deixá-lo ficar preso à direita. Mas como é que um partido tem de ficar preso por uma maioria absoluta com a qual não tem de negociar nada nem consegue fazê-lo? É que o PS quer jogar simultaneamente em vários tabuleiros: na respeitabilidade perante a Europa; na confiança dos poderes sociais e económicos internos; na adesão de um eleitorado timorato que, afinal, está condicionado pelo dogma de que é preciso pagar.

Claro que não esqueço a questão eleitoral, porque a solução da crise, pelo menos a abertura a dinâmicas sociais que a equacionem de outra forma, passa pelo derrube deste governo. O PS pode recusar a sua política, fazer uma grande mudança e, no entanto, ter a perspectiva de ganhar eleições. Teria de ser o polo de atracção de eleitores moderados para uma frente de esquerda alternativa e patriótica, escolhendo que a salvação nacional se faz no movimento popular, dos trabalhadores, dos reformados, dos desempregados, dos jovens e não numa aliança de arco-íris conservador que tenta instrumentalizar muitas dessas pessoas.

O papel que vejo para um novo partido não é o de corredor entre PCP e PS, com ou sem BE. É o de portador de uma nova dinâmica de esquerda, mobilizadora, a inspirar confiança pelo seu espírito renovador. Respeitando as diferenças mas criticando lealmente, o que mostra às pessoas que não é mais um do mesmo. Ouvindo e negociando, mas sendo firme nas posições e esclarecendo as pessoas sobre o que está em jogo para a salvação do seu futuro e dos seus filhos, combatendo decididamente a manipulação ideológica e a desinformação, em vez de se envolver na pequena propaganda partidária convencional.

Não chamo a isto situar-se num determinado lugar na esquerda. Chamo dar mais esquerda à esquerda.

À MARGEM – RT termina o seu artigo com uma tirada para efeito, “é preciso ir buscar coragem à imaginação”. É coisa que cheira a 68, que o seu amigo Dany lhe deve ter contado, embora na altura fosse coisa com sentido diferente (“l’imagination au pouvoir!”). É que, lendo o tal manifesto, fiquei com a ideia de que RT entendia que “alternativas concretas e decisivas para romper com a austeridade e sair da crise” só podiam ser apresentadas por “uma esquerda corajosa”. Agora vejo que é o contrário, primeiro a imaginação, a coragem vem lá atrás. RT lá saberá. Embora sem perceber bem esta confusão toda e a literatice dessa tirada, mas entrando no jogo, prefiro a minha versão: “é preciso ir buscar imaginação à coragem”.

P. S. (2.11.2013) – São José Almeida, hoje, no Público, escreve, segundo a onda geral: “… a incapacidade de convergência que assola os três partidos da esquerda: PS, PCP e BE.” Ou eu sou muito sectário, ou muito ignorante, ou sem a capacidade de análise profunda das pessoas dessa tal onda, mas não consigo perceber o que é que hoje (porque o passado é passado) define o PS como esquerda – e o que é que define a social-democracia europeia como esquerda – do ponto de vista social; de ideologia; de aceitação dos fundamentos do ordoliberalismo, senão mesmo de um neoliberalismo envergonhado; de que compromissos internacionais; de posicionamento anticapitalista ou não; de propostas sobre economia política; de que tendências para diálogo privilegiado, cooperação e alianças entre partidos; etc., etc. Ou é de esquerda porque é de esquerda, é tudo e não se discute mais?

sábado, 26 de outubro de 2013

Com tristeza e preocupação (II)

Como disse há dias, compreendo a consideração, por cada força política e social, entre a convergência para a unidade comum e a defesa de interesses próprios, legítimos quando essenciais para a afirmação dos seus fins particulares. 

A meu ver, não é o que se está a ver em Portugal, no que respeita à mobilização popular contra a política de austeridade, contra os troikianos externos e internos.

Não vou falar dos institucionalistas, ou dos utópicos de uma esquerda fantasista, que obviamente em nada contribuem para essa luta popular efectiva, porque nela só participa uma pequena minoria honrosa do PS, à revelia da direcção do seu partido. E disse institucionalistas porque, geralmente, são pessoas que se movem estritamente no quadro formal da democracia parlamentar, muitas vezes até com horror à voz do povo na rua ou nos seus movimentos de base.

Assim, o meu apelo à unidade não é o que mais se vê por aí, a coisas entre cúpulas partidárias, onde talvez alguns se vejam já sentados à mesa. Proclamo outra coisa.

A unidade necessária, que talvez alguns carreiristas ambicionem para seu proveito, não é só entre partidos, mediada por uns independentes de serviço. É a unidade entre coisas diversas convergentes a vários níveis para a luta popular. 

É urgente que partidos da esquerda consequente, sindicatos, organizações não partidárias e movimentos inorgânicos apelem, com base programática apelativa, à adesão dos cidadãos a uma plataforma de alternativa popular e patriótica, com base num bloco social de revolta popular contra o golpe (não vêem que ditatorial?) que o novo fascismo, encapotado e sob a ideologia dominante neoliberal está a fazer. Depois, que para essa adesão se chamem todos os cidadãos motivados, e aqui é que cabe um lugar fraterno para os eleitores e simpatizantes do PS que não se revêem na política do seu partido.

Para isto, todos os promotores têm de dar o exemplo de abertura ao diálogo, de negação do sectarismo, de humildade revolucionária.

E que programa? Obviamente que não sou eu a ditá-lo, mas, para aderir com o entusiasmo que me resta no fim da minha década de 60s, gostava de ver coisas como:
  • Planificação democrática da economia, com respeito por um modelo de sustentabilidade social e ambiental, discutido com as organizações do sector.
  • Uma atitude firme do governo na afirmação da nossa soberania junto dos órgãos internacionais e de outros países.
  • Código rigoroso de ética dos agentes políticos.
  • O recurso sistemático aos meios de defesa dos cidadãos, a começar pelo Provedor de Justiça.
  • A resistência passiva, cidadã, contra a violência do governo, nomeadamente no que respeita às imposições fiscais.
  • A resistência passiva, cidadã, contra os roubos praticados pela banca.
  • O boicote à comunicação social desinformadora e manipuladora, diminuindo-lhe as audiências e, logo, as receitas de publicidade.
  • O reforço do acesso fácil e gratuito dos cidadãos aos procedimentos da administração pública.
  • Rejeição categórica do cheque de ensino.
  • Rejeição da dívida ilegítima, nomeadamente a resultante dos movimentos bancários de crédito barato e especulativo do centro para a periferia, durante a construção da euro-zona.
  • A denúncia do memorando com a troika e reestruturação da dívida, com estudo da eventual saída do euro e da suspensão do serviço da dívida.
  • Uma política contracíclica, a fomentar a procura interna por aumento dos salários, do emprego, dos investimentos públicos.
  • Um sistema fiscal justo, na relação entre trabalho e capital (embora me pergunte o que é aqui justo, porque sou anticapitalista).
  • Refundação do sistema bancário, condicionada pela perspectiva da sua inserção na economia nacional pública.
  • Defesa intransigente, custe o que custar em termos de dívida, do estado social.
  • Uma política de, pelo menos, igualdade no que se pede ao capital e ao trabalho como contribuições para solução da crise.
  • Na situação actual de dificuldades no crédito à habitação, mesmo aos já em curso, aprovar a dação em pagamento com efeitos retroactivos, a suspensão imediata dos despejos e a reconversão das hipotecas em alugueres sociais.
E mais não digo, que muito seria, porque não sou candidato a primeiro ministro.

Com tristeza e preocupação (I)

Neste fim de tarde de ida à rua, escrevo com desgosto. À boa maneira de uma velha atitude política, podia fazer como a avestruz, para não fazer o jogo do adversário, mas o dever de um revolucionário racionalista é o de encarar as coisas de frente e tirar lições.

Não comentei o semi-fracasso da manifestação da CGTP, há uma semana. Não me senti com domínio dos factos. Foi a confusão da proibição, o provável receio de insegurança, também a chuva? Honestamente, creio que não estariam mais de 10.000 manifestantes. Hoje a do “Que se lixe a troika” foi muito pior, em fracasso. Encheu o lado poente do Rossio, não mais do que 5000 pessoas. 

Ao contrário do que esperava, como escrevi há dias, não vi lá a “malta típica da CGTP”, apesar de ter visto Arménio Carlos e mais alguns seus camaradas da CGTP. Não vi quadros partidários conhecidos e até nem vi personagens mediáticas conhecidas, que tanto apelam “a la calle” nos seus blogues. Também desapareceram muitos dos manifestantes do 12 de Março (quantos do PSD então anti-socráticos e hoje acomodados conflitualmente entre a formatação ideológica e a sensação de serem roubados?). Também não os engraçados acampados do Rossio, que só o guru coimbrão levou a sério. 

O que se passa? O povo está anestesiado? Ou não tem confiança em quem lhe apela para sair à rua? Ou já não acredita em nada, nem em partidos nem em movimentos não partidários, nem na sua voz e no seu poder na rua?

Tenho escrito muitas vezes a defender a necessidade de um novo partido. Não é um partido a querer ocupar seja que espaço for, entre X e Y, mas um partido que seja diferente na igualdade (noutra entrada discutirei isto), que traga mais esquerda à esquerda. No entanto, infelizmente, e como vi hoje, é “wishful thinking” pensar que esse partido pode ser criado atempadamente.

A ideia da criação de um novo partido, pela minha parte, em nada significa a desvalorização dos actuais partidos da esquerda radical – expressão que escrevo com gosto – ao contrário do que leio de alguns, que pretendem “o verdadeiro partido de esquerda”. Não sei o que é isso, porque não sou iluminado, limito-me a saber o que quero, sem o impor. Considero o pluralismo uma riqueza, desde que abertamente debatidas as diferenças.

Parece-me que está a haver uma separação, porventura por razões instrumentais, entre quatro esferas da intervenção da esquerda: partidos, sindicatos, organizações não partidárias, movimentos. Não falo dos dois primeiros casos, bem conhecidos.

As organizações não partidárias têm sido relativamente fluidas, pouco eficazes e por vezes contaminadas de início, como é o caso da Intervenção Democrática, uma criação do PCP depois do Ipiranga do MDP, em que participei (bem como o partido dos Verdes, cuja história conheço bem e sobre a qual não me digno pronunciar-me).

Cronologicamente, vem a Renovação Comunista. É um simpático grupo de amigos, alguns da minha boa lista pessoal, mas não vale mais do que isso. Também os movimentos, se lhes podemos chamar assim, derivados das candidaturas de Manuel Alegre, reféns da falta de coragem política do candidato, afinal, lamentavelmente, o único político que, agora, reagiu contra as subvenções aos políticos “profissionais”. Da última candidatura resultou um movimento em que participei com interesse, a Convergência e Alternativa (C&A), que acabou por se auto-extinguir, ao que sei por a Renovação Comunista, seu forte componente, não se querer confundir com qualquer posição de defesa da criação de um novo partido.

Com isto, note-se que, na C&A, havia um conjunto significativo de pessoas que, não tendo ilusões quanto à unidade com um sector alegrista (?) do PS, estava aberto à criação de um novo partido e que, depois da crise e da política troikiana, assumiu posições de abertura à discussão da saída do euro, contra algum conservadorismo dos membros mais sensíveis a um entendimento com o PS.

Por outro lado, quanto a “movimentos de rua”, praticamente defunto o 12 de Março e com os seus principais protagonistas absorvidos por partidos (se já não o eram), resta hoje, e bem, o “Que se Lixe a Troika”. Ao lado, com outro perfil, os movimentos mais “convencionais”, de estudo e debate, em que sobressaem o Congresso Democrático das Alternativas e a Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívida

Claro que falta aqui uma longa lista de associações de intervenção política (lembrando logo, simbolicamente, a Associação 25 de Abril) ou de defesa de interesses particulares, dos reformados, das mulheres, dos jovens, dos emigrantes, dos imigrantes (mesmo sem voto), das minorias sexuais, da defesa do ambiente, do desenvolvimento comunitário, etc

Dito tudo isto, entretanto, o que fazer? Como há leitores que não gostam de ler entradas muito extensas, continuo a seguir, ainda hoje, em entrada que, contra as regras da blogosfera, se segue a esta apesar de posterior. 

Robôs políticos

Numa entrada anterior, procurei alertar para as deficiências actuais de uma democracia muito vulnerável à falta de informação dos eleitores quanto a problemas económicos cada vez mais técnicos, bem como à sua vulnerabilidade em relação às máquinas mediáticas de construção/destruição de robôs políticos.

Esses fantoches, produtos medíocres desta lógica político-partidária, não podem deixar de ser medíocres, porque alguém que tenha ideias e grandeza intelectual e ética ameaça a lógica deste sistema e os interesses bem defendidos dos caciques partidários. Concorde-se ou não com eles, Guterres, Durão Barroso e até Santana Lopes e Sócrates, são o fim da geração anterior. Portas é caso à parte, sui generis. Passos Coelho e Seguro são irmãos numa tendência de banalização da mediocridade na política.

São papagaios que debitam coisas que lhes ditam, com postura, indumentária e expressão que lhes são maquilhadas logo de manhã pelos construtores de imagem. Ainda hoje, a boa crónica de Daniel Oliveira no Expresso, referindo uma intervenção do deputado Miguel Frasquilho, do PSD, é arrasadora, ao citar afirmações recentes de Seguro que Passos Coelho não enjeitaria.

Eu valorizo mais a posição colectiva de um partido, porque resulta mais significativamente de um balanço da relação de forças das correntes e influências internas. Mas considero, não é nenhuma descoberta, que a figura do líder é hoje eleitoralmente determinante. Estranho é que, em alguns casos, os partidos tenham uma atitude quase suicida nessa escolha, a não ser que, como disse, prevaleçam os interesses aparelhísticos.

Só assim compreendo que, antes das eleições de 2011, o PS não tenha escolhido outro líder (Costa?) a substituir um Sócrates completamente desgastado e a conduzir certamente o PS – e todos nós – para o desastre, como se viu.

Da mesma forma, com Seguro de triste figura, o PS só pode confiar em que as eleições sejam o mais tarde possível para beneficiar mais da política criminosa do governo, porque com Seguro não é seguro. Mas isto dá tempo para que uma ala esquerda de militantes influentes do PS – há? – se concentre na sua tarefa prioritária e urgente: mostrar aos militantes do PS que a sua “salvação” partidária passa obrigatoriamente pela regeneração da noção de liderança e pela escolha atempada de um novo líder. E, para quem noutra esquerda se interessa, e não pode deixar de ser, pelo que se passa no PS, apoiar este esforço é mais importante do que defender aproximações espúrias com a sua actual direcção.

NOTA – Esta semana, realizou-se a sessão habitual de abertura do ano lectivo da minha escola, em que há sempre um prelector de honra. Foi Carlos César, que todos conhecem como ex-presidente do governo regional dos Açores. O tema era o mar, de que falou muito bem, mas só durante metade do tempo. O resto foi para um importante discurso político, de grande amplitude.

Sabe-se que eu não sou um adepto da social-democracia, mas, nos tempos que correm da sua rendição ao neoliberalismo, ouvir um socialista dizer que a democracia está a ser aprisionada pela dívida, que a política está a ser feita à margem do povo, que o bloco político necessário é para a luta pelos direitos sociais, e até que é necessária a reestruturação da dívida e que se isto resultar em crise política, tanto melhor, ouvir tudo isto, dizia, surpreendeu-me. 

Ou muito me engano, ou foi um discurso de lançamento, como compreenderam os jornalistas que, no fim, longamente o entrevistaram. António Costa está preso à câmara de Lisboa, Carlos César está livre. Seguro que se cuide!