Mostrar mensagens com a etiqueta eleições. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta eleições. Mostrar todas as mensagens

domingo, 5 de junho de 2011

O PS vai acordar?

Pode um homem de esquerda, como eu, deixar de ficar triste por a direita pura e dura ter ganho as eleições e ir formar governo? É coisa complicada que não se compadece com o que se vai ouvir do PS oficial, que a esquerda radical traiu, fez o jogo da direita, provocou eleições que deram a maioria ao PSD com o CDS. Em primeiro lugar, a esquerda radical traiu quem? Traiu a esquerda em sentido amplo? O PS de Sócrates fazia parte dessa esquerda, em atos que não só palavras (e até nem sequer em palavras, a menos que bastasse falar em estado social para ser esquerda)? A esquerda radical e os seus eleitores como eu traíram a possibilidade de uma política menos neoliberal, menos obediente ao colonialismo troikista, como se alguém imaginasse que o PS de Sócrates seria essa possibilidade?
Não considero dramática a vitória do PSD-CDS, porque também vejo nela alguns aspetos secundários não inteiramente negativos. Claro que não deixo de ficar alerta para o maior risco desta maioria mais facilmente fazer com a “troika” festa de mal e caramunha. Mas sou realista e vejo que quase 80% dos eleitores votaram na “troika” interna que reflete a “troika” externa. Nada se fará sem parte considerável desta gente começar a sentir o que significa este seu encarreiramento na via do resgate que os vai empobrecer. Assim, não sendo adepto incondicional do quanto pior melhor, aceito suficientemente a dialética para pensar que, por vezes, uma agudização consentida (isto é, pelos adversários) da opressão pode criar mais rapidamente condições de luta.   
Não posso falar da derrota do PS sem a ligar à retirada de Sócrates. Só decidi escrever esta nota depois de o ouvir dizer que saía, preto no branco. Até lá, por mais inconcebível que fosse ele não se demitir, fiquei reservado, porque o homem já nos habituou a tudo. E daí vem a primeira nota sobre a minha “satisfação” (relativa, entenda-se) com estes resultados. Resolveu-se um problema de sanidade pública, abriu-se um abcesso que estava a causar danos à própria democracia, com muita gente a detestar a figura de Sócrates mas refletindo esse quase ódio num desgosto com todos os políticos, pior, com a democracia. Portugal vai ficar menos envergonhado por não ter de se rever, como imagem exterior do país nas esferas de governo, em tão incrível figura.
Mais importante, a substituição de Sócrates abre a porta a um acordar do PS. Pelo menos teoricamente. Naquilo que, nos próximos tempos, é o centro da luta política, a recusa da sujeição aos ditames externos, qualquer participação do PS, mesmo de militantes avulsos, era impossível. Não digo que agora, milagrosamente, vá ser possível mas, teoricamente, é hipótese menos fantasista. Pode-se contar mais, mesmo que minimamente, com um PS na oposição e sem Sócrates do que com o que era o PS até esta noite. O mesmo em relação à possibilidade de lutas conjuntas da CGTP e da UGT.
Nos próximos tempos, sem desprimor para a ação parlamentar, a luta estará cada vez mais na rua. Até agora, ninguém viu os anónimos PS, anestesiados. Vamos vê-los agora? Por mim, espero vê-los e dar-lhes fraternalmente o braço.
NOTA 1 - No entanto, o episódio caricato e incrivelmente inepto da declaração de Seguro não augura nada de bom. Não me lembro de algum exemplo tão falante da fábula do coice do burro no leão moribundo. Admito que, se fosse adepto de Sócrates, estaria chocado. O homem não podia ter contido a sua sofreguidão e ter deixado a noite de hoje para o luto dos seus camaradas socráticos? Vai haver ódios ferozes no PS, nesta renovação de liderança.

NOTA 2 - E Louçã?

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Como vou votar? (2)

O voto branco é tão significativo, como sinal de rejeição do apodrecimento do sistema partidário, que eu próprio já estava a habituar-me a ele. No entanto, pelas razões que aduzi, desta vez quero votar no que, sem ambiguidade, significa a rejeição do austeritarismo, da sujeição quase (?) colonialista à santa trindade resgatadora, acolitada pela sua trindade interna. Aparentemente, isto significa votar PCP (não quero falar em CDU…) ou BE. Em qual?
Pensei até há pouco, até um “clique” final, que ia ser muito difícil a escolha. Quantas coisas a ponderar! Num caso e noutro, a modernidade ou não da ideologia, a sua correspondência às enormes mudanças sociais derivadas da evolução do capitalismo, da estrutura social, da técnica e da estrutura do trabalho, à alteração da atitude psico-social em relação às aspirações sociais, etc. (vantagem para nenhum). O posicionamento internacional, em relação  às escolhas de “partidos irmãos” (ponto claramente negativo para o PCP) ou ao maior ou menor realismo de uma luta por uma União Europeia diferente, num caso vista com reserva talvez extremada, noutro caso como ideal. O comportamento interno, que de certa forma faz prever o comportamento no poder (vantagem para o BE?). Claro que também as propostas concretas, noutros domínios (também vantagem para o BE). E até, porque não, a minha reação intuitiva em relação à personalidade, temperamento, caráter adivinhado dos dirigentes, até porque conheço bem muitos, e de um lado e outro (vantagem para o PCP)?
Por toda esta complexidade, pensei que não iria escrever sobre isto, por risco de azedume de críticas e por não ser possível, neste espaço, analisar todas aquelas questões. Todavia, pensei que era atitude sem muita coerência. Então digo que nenhum dos partidos me agrada muito, digo que votaria branco como protesto e que só não o faço porque o crucial domingo é o “não” ao resgate, porque quero dizer claramente “sim” à reestruturação, digo tudo isto e vou ficar limitado por toda essa misturada de razões de dúvida? Parece-me que o lógico é votar, mesmo que de olhos fechados a muito lastro negativo, naquele partido que melhor me responda a esse meu objetivo central de votar “não”.
No meio de tanto jogo de palavras, repito o que quero que me proponham como reestruturação (ou renegociação se, honestamente, estiverem a dizer a mesma coisa): 1. Um processo com vários componentes, não obrigatoriamente todos necessários, mas nenhum excluído à partida: anulação da dívida odiosa, redução do valor de parte da dívida (“haircut”), redução das taxas de juro, dilação dos prazos de amortização. 2. Um processo em que o devedor não se limita a pedir respeitosamente um jeitinho, mas em que ele decide, obviamente que tentando ao máximo negociar a aceitação pelos credores, mas com capacidade de ter soberanamente a última palavra, claro que pesando e assumindo os custos.
Então o que dizem os dois partidos sobre a reestruturação? 
Do compromisso eleitoral do PCP/CDU: 
“A renegociação imediata da dívida pública portuguesa – com a reavaliação dos prazos, das taxas de juro e dos montantes a pagar (sublinhado JVC) – no sentido de aliviar o Estado do peso e do esforço do serviço da dívida, canalizando recursos para a promoção do investimento produtivo, a criação de emprego e outras necessidades do país. Esta decisão, condicionando desde já o pagamento de parte dos compromissos de curto prazo da Dívida Pública e a tomada de outras medidas – por exemplo, a transformação de créditos externos de entidades públicas, expressos em obrigações e títulos de dívida de longo prazo, em títulos portugueses – permitiriam responder às preocupações com as dificuldades de financiamento/liquidez imediatos do Estado!
A intervenção junto de outros países que enfrentam problemas similares da dívida pública – Grécia, Irlanda, Espanha, Itália, Bélgica, etc. – visando uma acção convergente para barrar a actual espiral especulativa, a par da adopção de medidas que libertem os países visados das inaceitáveis imposições e políticas da União Económica e Monetária e do BCE, da Governação Económica e do Pacto para o euro mais, e visem o crescimento económico, a criação de emprego e a melhoria dos salários.
A diversificação das fontes de financiamento, retomando uma política activa de emissão de Certificados de Aforro e de Tesouro e de outros instrumentos vocacionados para a captação de poupança nacional, bem como o desenvolvimento de relações bilaterais encontrando formas mais vantajosas de financiamento. Uma política de diversificação também das relações comerciais, mutuamente vantajosas, com outros países designadamente de África, Ásia e América Latina.”
Do compromisso eleitoral do BE:
Auditoria à dívida: (…) é necessário conhecer a composição das dívidas pública e privada, a sua origem, os seus prazos e os seus juros. A dívida deve ser paga por quem a cria. A parte do Estado é a mais pequena, mas inclui já hoje parcelas ilegítimas, resultantes de juros abusivos e negócios de corrupção e favorecimento. Para decidirmos sobre a dívida, é necessário separar o trigo do joio.”
Concordo, mas quais as consequências práticas da auditoria? Por exemplo, ainda hoje um comentador do Público acha que a auditoria deve servir para “identificarmos os erros do passado, e responsabilizando politica e legalmente os eventuais transgressores que tenham ajudado a aumentar a dívida (…) e compreendermos se é justificável, ou não, a imposição de um Estado social, económico e político cada vez mais austeritário”. É curto. Vejamos então o que diz o BE sobre a renegociação (dou o benefício da dúvida de que significando reestruturação), na sequência da auditoria.
O Bloco propõe uma renegociação que estabeleça novos prazos, novas taxas de juro e condições de cumprimento razoáveis, que acompanhem a recuperação económica, e que anule a dívida inexistente. Em vez de ser uma oportunidade de negócio para os credores dos países da periferia, as presentes dificuldades devem mobilizar uma política de cooperação europeia contra a especulação.”
O que é a dívida inexistente? Admite o BE também a redução do montante (“haircut”) de dívida existente? Só das "parcelas ilegítimas" (a dívida odiosa, presumo)? A renegociação é com a “troika” ou com todos os credores, incluindo os bancos portugueses? Quais as fontes alternativas de financiamento?
Mesmo assim, ainda estava em dúvida até ouvir ontem Louçã: “se contassem todas as opiniões que defendem a sensatez da renegociação da dívida o partido já tinha maioria absoluta”. Quais são todas essas opiniões sensatas (!) e identifica-se o BE com elas? Louçã estava a referir-se a Nogueira Leite e a muitos economistas de variados quadrantes que começam a defender a “renegociação”. Imagina-se facilmente que essa renegociação sensata, ao estilo desta recente convergência espúria, não é certamente a que me faz votar no “não”.
Mas não se ficou por aqui. Fiquei sem margem para dúvida sobre a renegociação ao gosto de Louçã (até duvido que seja ao gosto de todo o BE), dando "o exemplo dos portugueses que têm uma dívida de habitação e, desempregados, negociaram com o seu banco a taxa de juro ou o prazo de pagamento, (…) defendendo que renegociar a dívida é simplesmente proteger as pessoas do calote.” E puderam também negociar com o banco o montante da dívida?
De fora, compreendo racionalmente a habilidade eleitoralista de Louçã (que lhe deu problemas na convenção do BE, mas em que ele reincide) de aparecer como bem comportado, razoável, sensato. Mas, com tudo isto, claro que, pela primeira vez em 30 anos, vou votar no PCP.

NOTA - Chamo a atenção para a mesma atitude, de votação num dos partidos do "não", proclamada por Daniel Oliveira no Arrastão, embora a sua escolha seja oposta à minha. O que interessa é o objetivo comum.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Como vou votar? (1)

Primeiro dos primeiros, claro que vou votar. Portanto, a abstenção fica fora desta conversa. Voto nulo é coisa de anarca que escreve no voto “merda para os políticos” ou de velhinha com catarata que põe a cruz como aquele impagável zarolho no “Há festa na aldeia”. Voto de zarolho mental é qualquer voto na santíssima trindade. Voto de pateta senil que me parece que ainda não sou é no semilha folclórico, no advogado proletariamente rico e com iate, nos diversos beatos “humanistas”.
Contas feitas, ficam três: PCP (não vou nessa de CDU), BE e branco.
Nas últimas legislativas, votei branco. Nessas, noutras atrás e provavelmente nas próximas, está no seu pleno direito, direito que cá em casa se discute com prazer intelectual, mas é tudo e nada de pressionar, quem me é mais também vota branco. Ainda vem ao caso um caro amigo, mcr, que já anunciou o seu voto branco. É um voto com grande valor ético-político, de desgosto expresso com a melancolia da nossa democracia, mas a um nível de superioridade talvez incompreensível para a generalidade das pessoas.
Simplesmente, para mim que já o usei com esse intuito, embora sabendo que a opinião publica manipulada não iria perceber o significado da percentagem do voto branco, a situação é diferente nestas eleições. Haja o que houver de reservas minhas em relação a partidos como o PCP ou o BE, e há muitas, quero centrar-me no essencial. Estamos em pleno processo de resgate e de sujeição aos ditames externos. Há três partidos que se apresentam com a diferença nebulosa de como cada um vai gerir o programa que lhes foi imposto. O programa é o da austeridade, do desemprego, da espiral de afundamento de défice e de recessão, da punição em juros e condições pelos acertadinhos do norte europeu, da vassalagem, da vergonha nacional.
Neste momento, contra isto, com todo o respeito pelos meus amigos - e ela mais do que amigos - do voto em branco, acho que há coisa que sobreleva: dizer não às trindades. O voto em branco dilui-se, nestas eleições, o seu significado a prazo fica esbatido na tensão do que está em jogo. Quem vota em branco, como eu tenho votado, vota nestas eleições pelo resgate FEEF/BCE/FMI ou pela sua recusa (a reestruturação da dívida)? “That is the question!”.
Portanto, para mim, inevitavelmente, PCP ou BE. Mas que dilema! Fica para próxima escrita.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Uma não-notícia

Um velhíssimo Diário de Notícias trazia uma notícia bizarra: “SS MM e AA passam bem de sua real saúde”. É uma não-notícia ridícula. “No news, good news”. Foi o que, abismado, ouvi ontem fazer Sócrates. Não veio anunciar o que estava no acordo com a santíssima trindade, veio dizer o que lá não estava. Veio dizer que não haja medo porque o leão não fugiu do circo; veio dizer que a família do Zé deve estar muito feliz e a abrir champanhe porque ele não morreu; não disse foi que o Zé está internado nos cuidados intensivos com um enfarte e mais um AVC.
Ainda há vinte anos, havia gente muito respeitável, inteligente, com dignidade, nos órgãos de debate e decisão política dos partidos. Hoje, os seus sucessores são figuras decorativas e para disfarçar a degradação do sistema político, neste tempo em que emergiu a geração Barroso (vá lá, mesmo assim…), Santana, Sócrates, Passos Coelho. A direção dos partidos depende de facto é dos luíses que dizem se Sócrates fica melhor olhando para um lado ou para outro, é dos abomináveis gabinetes de comunicação de mercenários que servem tudo e todos, como se a política fosse cinicamente puro negócio. É esta gente, mais quem lhes paga, que é responsável por agressões despudoradas, como ontem, à inteligência das pessoas.
Todavia, não se pense que uma não-notícia pode ficar-se por um truque propagandístico. Pode ser mentira, como neste caso. Fico-me como exemplo por uma negação essencial da comunicação do PM, hoje repetida à exaustão, em particular pelo cada vez mais visivelmente nº 2 do PS, embora personagem parda, Silva Pereira: “o acordo não é, essencialmente, mais gravoso do que o PEC 4”. E que, em 2011, não são necessárias mais medidas punitivas. É descarada mentira. Compare-se o PEC 4 e o já divulgado memorando de entendimento(o acordo que vai ser assinado amanhã, com data de ontem - curioso!).
Vamos ter “eleições” daqui a um mês. As aspas significam a falta de verdadeiro conteúdo democrático, de capacidade popular de escolha, dessas eleições, em que muito pouco fica de margem de manobra de decisão para o futuro parlamento e para o futuro governo, simples capatazes dos donos do resgate. Em boa parte por causa disto, para disfarçar, a santa trindade interna vai-nos massacrar com propaganda, demagogia, falsidades. 
Daqui a um ano ou dois, terão de ser responsabilizados por tudo o que mentirem. Até porque não se pode excluir que daqui a um ano ou dois não se esteja outra vez em eleições. A memória é curta. Não se esqueceu já que ainda há dois meses Sócrates jurava que nunca governaria “com o FMI”? E não está a concorrer novamente? Por isto, vou fazer, e aconselho, um exercício tradicional, “pro memoria”: um livro de recortes, hoje facilitado por simples gravação para o meu computador de tudo o que se vai noticiando “online”.
Volto a ontem. “Um bom acordo!”. Só num aspeto concordo: o acordo é muito mau, mas podia ser péssimo. Parece que já estamos tão baixo na nossa capacidade crítica e de reação que alguém se vangloria de a desgraça não ser tão desgraça como ainda mais fantasticamente poderia ser. Este dizer “um bom acordo” é tão obsceno como igual afirmação feita à saída de um avião, há 73 anos, agitando um papel, por uma triste figura regressada de Munique, de seu nome Chamberlain. 
Nota final - Com isto, mais uma vez adio a minha partilha de dúvidas sobre o que me atrai mas que não domino como problema económico, a reestruturação da dívida. Entretanto, vou recolhendo informação, como a do artigo de hoje de Luís Daniel Abreu, que me parece desapaixonado e que aborda um aspeto que não conheço bem, o do “short selling”, afinal uma nada bem intencionada pressão para a reestruturação. Será? Os economistas que discutam, esclarecendo os não especialistas. Afinal, é principalmente isto que eu desejo escrever um dia destes sobre este assunto. Que quero ser esclarecido, até porque, quanto a isto, vai ser muito decisivo para o meu voto. Parafraseando, às avessas, pequeno voto para um país, mas grande voto para mim.
(A imagem refere-se ao Barão de Münchausen, cujas aventuras li deliciado em miúdo. Lembram-se?)

P. S. (5.5.2011) - Não discuto se com ou sem razão, a "troika" disse agora claramente, na sua conferência de imprensa, que o PEC 4 teria sido insuficiente e que, por isto, fica muito aquém deste acordo. Fico a pensar que não disse asneira quando, sobre isto, acima, acusei o primeiro ministro de mentiroso. Como se tivesse sido só esta vez...

sexta-feira, 8 de abril de 2011

PCP-BE, o que vai dar?

Esperei pelo dia de hoje com curiosidade, o dia do encontro PCP-BE. Deu pouco ou deu muito? Deu pouco como resultado palpável, propostas, resoluções, perspetivas. Todavia, quem esperava mais? Mas deu muito no que já tinha dito, o primeiro ato de abrir, mesmo com fresta, a porta até agora cerrada entre os dois principais partidos de esquerda.
Começo por isto, “partidos de esquerda”. E então o PS? É claro que o PS está cheio de gente que se sente de esquerda. Mas isto basta para legitimar o PS como partido de esquerda? Claro que não, para provável desgosto desses meus amigos socialistas. Dominado pelo rapazinho, as suas propostas são só cosmeticamente diferentes das do outro rapazinho. É claro que entre 80% de direita e das suas receitas por parte do PS e 95% das ditas por parte do PSD/CDS, sei fazer contas, mas ninguém me leva a votar nesses 80%. É menos do que os 95, mas é muito, inaceitavelmente muito. É demais, não sou masoquista, não dou para o peditório de um PS a jogar na chantagem e a manter tudo na mesma. Eu quero mudança, mesmo que o meu voto de 5 de Junho só dê mudança quando eu já estiver em cinzas.
E, sobre os partidos de esquerda, o PEV/Verdes? Desculpem, mas o meu forçado esquecimento tático de muitas coisas, neste momento, não me obriga a tudo. Até porque, em relação a esses apêndices, quem não se sente não é filho de boa gente. "Est modus in rebus!"

Há quem duvide de que uma aproximação de esquerda dê resultados eleitorais. Isto foi dito, por exemplo, grande tiro no pé, por um conhecido bloquista, João Teixeira Lopes (JTL). Mais daria, com o benefício do método de Hondt, uma coligação pré-eleitoral, mas que já não vai a tempo. Mas dará certamente para muitos que se absteriam, que votariam branco, como eu próprio tenho defendido. Mesmo sem se ter isto em conta, esta visão é o que de perigoso pode ter este entendimento, funcionar à luz morrinhenta da simples perspetiva eleitoralista.
Ainda vai passar muita água debaixo das pontes. Primeiro, em termos de sabedoria política, de bom senso, de  sentido da eficácia, vou esquecer o que, por exemplo, JTL não conseguiu esquecer. Os dois partidos têm enormes arestas conflituais por limar, os seus dirigentes têm traumatismos relacionais antigos, não resolvidos, têm conflitos ideológicos hoje ridículos, coisas passadas no México em 1940, com um Trotsky que hoje ninguém sabe quem é, muito menos Mercader, coisas cómicas de livrinho vermelho na mão, horas e horas da minha juventude a discutir com maoistas que afinal eram meus grandes amigos pessoais. Têm uma rivalidade mais convencional porque, face ao partidarismo ferozmente aparelhístico do PCP, o “diferente” BE acabou por ser sua imagem e semelhante, projetando um líder com tão fanática imagem pública como Jerónimo (que até acho mais simpático, menos Savonarola).
Para as próximas eleições, vou dar de barato coisas que não digo que não sejam importantes, mas que podem esperar para outra altura: o antiamericanismo primário, o trotskismo, o marxismo-leninismo, o embevecimento de Fazenda com a Albânia (a mim mo disse), a OPA de M. Portas sobre o "meu" MDP em reconstrução de independência de alternativa de esquerda, o centralismo democrático, o apoio à Coreia do Norte e à Líbia, as FARC na festa do Avante, a diabolização primária das empresas, a desconfiança em relação a tudo o que cheire a mercado, etc. Tudo isto é dramático e/ou ridículo, tudo isto me impede de dizer que me revejo intectual e politicamente nos senhores Jerónimo e Louçã.
Mas eu vou votar no dia 5.6 olhando para o dia 6.6, para o imediato, a menos que ache que é mais importante olhar para o 6.6 mas de 2012 ou 2013. Não excluo, e então, claramente, o meu voto é branco.
Para já, os partidos de esquerda começam a apresentar propostas muito importantes que discutirei nos próximos dias, propostas em que muita gente tem vindo a pensar: venda de ativos, reestruturação da dívida, verdadeiro corte de cabelo da despesa pública, frente sulista na UE, berro de “basta” à sargenta prussiana (até Freitas do Amaral disse isto!), disciplinização e nova fiscalidade da banca, estímulo ao financiamento da dívida pelos portugueses, até, não é tabu embora seja coisa muito difícil, a saída do euro. São tudo coisas que tentarei discutir nos próximos tempos, na perspetiva de quem só escreve como cidadão e político, sem domínio da economia. Mas aberto à ideia essencial de que hoje quem não sabe de economia tem de a aprender com urgência.
Outra coisa essencial é que a aproximação dos partidos de esquerda, hoje encetada, é só o topo do icebergue. Se tudo for só conversas de jogo partidário até às eleições e a favorecer apenas a propaganda eleitoral de um e outro, não contem comigo para nem sequer um cêntimo para esse peditório. Se as direções partidárias sairem dos seus gabinetes, ouvirem as opiniões dos independentes e, principalmente, do povo zangado que hoje está a falar, mesmo que a dizer tolices - para os senhores ideólogos aparatchiks - aí sim, pago o que for preciso.
Resta saber, porque vai haver (ou melhor, há português técnico da Independente, vão haver) duas opções de voto na alternativa de esquerda, PCP/PEV e BE, em quem votar? História complicada, ainda vou ter de conversar bastante sobre isto.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Para a esquerda, uma porta aberta ou não?

Para gente de esquerda que é muito mais gente do que os meros militantes dos dois partidos PCP e BE (vá lá, aceitemos também o PEV…), a notícia de hoje sobre o seu próximo encontro não é nada, se pensarmos em como estamos “escaldados” com o seu enquistamento, o seu passado, os seus tiques, os seus vícios sectários - mesmo que já muito atenuados.  
Mas, pelas mesmas razões, se agora pensarmos em como afinal se pode dar facilmente um passo para as ultrapassar, a notícia é muito. Os analistas de serviço dirão asneira, como já hoje ouvi: “os comunistas e os bloquistas são tão antagónicos que qualquer entendimento tira votos a ambos”. Asneira. Comunistas e bloquistas quê? Militantes? Eleitores, dez vezes mais? E quantas vezes mais serão os eleitores de esquerda que se têm abstido, votado em branco (como eu), até engolindo o sapo de votar PS, que, com este sinal de esperança não se sentirão motivados a reforçarem o sinal? Mais, até genuínos eleitores PS.
O que já hoje ouvi de dirigentes do BE e do PCP, com a “sensibilidade” para os entender que me vem de anos de traquejo da sua linguagem, já me daria motivos interessantes de conversa, mas vou esperar pelo encontro formal, sexta-feira.
A blogosfera de esquerda vai-se animar nos próximos dias. Levam a mal que também queiramos ter uma palavra a dizer, quando quase diariamente nos damos ao manifesto, sem qualquer proveito que não seja o da consciência política e o velho protesto “merda, sou lúcido”? Assim como todos os que, ingenuamente na maioria dos casos, mas sempre com boa intenção e vontade de participar no debate democrático, estão a pôr por escrito no 12/3 do Facebook as variadas razões pelas quais saíram à rua no 12 de março.
É que se qualquer entendimento entre PCP e BE não tiver em conta, com humildade democrática - mas isto quer dizer, principalmente, inteligência política - todo esse contributo, não se vai longe. No quadro estritamente partidário, degradado, mesmo que se pense só na sua ala esquerda, “assim não se vai lá!”. É claro que ainda não será desta que se vai para o “governo patriótico e de esquerda” de que hoje falava Bernardino Soares. Mas se este entendimento beneficiar ambos os partidos digamos que em 20% de votação - não me parece irrealista, nesta situação de crise, revolta, descrença no respeitável “arco governativo” de Dupont e Dupond - são 21% dos votos, 39-40 deputados (benefício do método de Hondt, que ainda seria maior em caso de coligação pré-eleitoral) significando 17% da composição da Assembleia. Hoje são 31.
Pela minha parte, vou pôr claro o que são as minhas exigências para me sentir atraído a votar numa “aliança” (? Vamos ver) de esquerda, ou melhor, num dos partidos, porque não é viável que haja uma coligação pré-eleitoral. E eu com tanto que fazer… Ou então, mais eficazmente, porque não uma ação urgente dos blogues de esquerda (e estou a incluir os “periféricos” do PS) para um meta-blogue de que resulte uma posição de desafio a resposta programática clara dos partidos de esquerda?

Nota - Lembram-se do programa comum de esquerda, Mitterrand-Marchais, e de como que ele foi mobilizador?

domingo, 23 de janeiro de 2011

Presidenciais 2011 - III

Algum bloguista deixará de comentar as eleições? Claro que eu também não, mas depois de assentar a poeira. E de se poder ter uma resposta mesmo que muito incerta, a "e agora, José?".