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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Conhecem algum "nerd"?

Nerd - é um termo que descreve, de forma estereotipada, muitas vezes com conotação depreciativa, uma pessoa que exerce intensas actividades intelectuais, que são consideradas inadequadas para a sua idade, em detrimento de outras atividades mais populares. Por essa razão, um nerd muitas vezes não participa de atividades físicas e é considerado um solitário pelas pessoas. Pode descrever uma pessoa que tenha dificuldades de integração social e seja atrapalhada, mas que nutre grande fascínio por conhecimento ou tecnologia.
A expressão é utilizada desde o final da década de 1950 no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Na década de 1960 difundiu-se a sua conotação pejorativa, aplicado a pessoas com inteligência geralmente acima da média, com alguma dificuldade em se relacionar socialmente, e que não obedece aos padrões da sociedade - principalmente físicos e intelectuais - tornando-se uma pessoa marginalizada, tímida e solitária. 
(…) "Existe uma relação entre ser esperto/inteligente e ser nerd, ou melhor, há uma correlação inversa maior ainda entre ser nerd e ser popular. Se ser esperto parece fazer a pessoa não popular" de forma análoga vem a conotação pejorativa.
(…) Apesar de serem uma tribo urbana, pode ser difícil reconhecê-los no dia-a-dia pois, ao contrário das outras tribos, não tem um estilo facilmente reconhecível à primeira vista, porém com um convívio prolongado, é possível claramente diferenciá-los. Tampouco gostam dos mesmos tipos de música, e nem todos frequentam os mesmos lugares (apesar de uma grande parte frequentar convenções de quadrinhos e ficção científica ou mesmo, preferirem ficar em casa envolvidos em suas atividades).
Mas é importante ressaltar que nem sempre os nerds querem isso para suas vidas, uma certa faixa da respectiva população nerd busca mudar para o grupo considerado antónimo dos nerds, os populares, fazendo-os usar o seu dom para isso, a inteligência, desse modo o nerd analisa todo o funcionamento da sociedade e porque ela é assim. Isso costuma acontecer com os adolescentes, que por terem tido uma infância controlada pelos pais, não souberam como agir com a sociedade no começo da adolescência, ficando assim sozinha, tendo que apelar para coisas do mundo nerd.
(…)

Ao ser convidado por uma escola para dar uma palestra, o bilionário Bill Gates, uma das pessoas mais ricas do mundo, leu para os alunos 11 regras. A última delas se refere aos nerds: "Seja legal com os NERD's. Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar para um deles."
(Adaptado de uma entrada - brasileira, como se vê - na Wikipedia)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O prazer perverso dos economistas

A satisfação profissional é um grande prazer de vida. Gostar de se exercer a profissão que se escolheu é ótimo, só sendo pena que não seja coisa mais vulgar. O que complica as coisas é que, para quem observa de fora, pode ser difícil definir o que é que determina esse prazer profissional. Num médico é simples. Curar doentes, prevenir doenças, melhorar a saúde. Num professor, idealmente, formar gente que, depois, vai ser mais sabedora e mais competente do que o professor. Mas isto é linear, não tem muito de idealismo? No curso da vida, com o vir à tona de cada vez mais frustração e cinismo, não será também muito o sucesso, o bem estar, a riqueza?

E também a felicidade profissional tida como cumprimento/satisfação dos objetivos pretendidos não tem muito a ver com aquilo que em muito influencia a determinação desses objetivos, isto é os valores pessoais, as conceções de vida, a ética, afinal a ideologia?

Esta deambulação talvez pernóstica tem a ver com o caso particular dos economistas. Claro que da “massa dominante” dos economistas, com muito respeito por tantas e tão excelentes exceções. Falo dos “economistas de serviço”. Descontando a política, que não quero (“hélas”!) considerar como profissão, não há hoje profissão mais determinada ideologicamente do que a dos economistas e/ou gestores (já foi o Direito, hoje muito menos).

Dê-se o benefício da dúvida de que Gaspares, Álvaros, Duques, Cantigas, acima deles Trichet e Constâncio, mais as eminências pardas de Merkel, os homens da “troika”, e todos os cinzentos economistas robôs de Wall Street até Frankfurt, são honestos, tecnicamente motivados e informados e até felizes no seu trabalho, no cumprimento dos objetivos profissionais para que foram preparados. Mas este é que é o problema: para que foram preparados!

É inegável que hoje a política mudou radicalmente de discurso. Curiosamente, foi este o tema do primeiro “post” deste blogue. O discurso político tradicional é hoje irrelevante sem fundamentação na economia política. Com isto, foi-se ao exagero de bastante apropriação do debate político pelos economistas. O que obriga os não especialistas, como eu, a um grande esforço de estudo, mas sempre com a dúvida do amador inseguro.

No entanto, esta apropriação da política, manifesta na comunicação social, esconde-se na falácia da competência técnica, da informação especializada, do raciocínio “científico”, quando essa apropriação resulta de facto, essencialmente, de um pensamento ideológico, no caso enquadrável no que podemos chamar de “neoliberalismo”.
“O peso do Estado deve ser mínimo. O funcionalismo público é uma cambada de privilegiados, com emprego para a vida, incompetentes, sugador dos nossos impostos. A escola privada é muito melhor do que a pública. Nada deve ficar fora da privatização, água, energia, indústrias de defesa, até prisões, um dia destes a polícia e as forças armadas. A competição é muito maior fator de enriquecimento do que a solidariedade e a motivação social. Deve haver uma grande flexibilidade para coisas tidas tradicionalmente como imorais (por exemplo, a agiotagem, juros de 130%! a um ano, à grega; pecado de usura que nem é do cristianismo, já vem no Velho Testamento); flexibilidade aceitadora porque são coisas que se enquadram no “sistema”. E este “sistema” é indiscutível, principalmente depois do fim do pseudo-comunismo. O estado social contribui para a preguiça, para o parasitismo. A economia deve favorecer os audazes, num novo circo romano. As empresas e principalmente os bancos são intocáveis, porque sem elas e eles vai-se a “economia nacional” e, com ela, a “economia doméstica” de nós todos, que devemos ajoelharmo-nos aos benfeitores do futuro dos nossos filhos, ainda por cima bons exemplos de virtudes, os banqueiros, gente fina.”
Descontando a caricatura, não é isto que os “economistas” apresentam como indiscutível, como se houvesse alguma coisa "indiscutível" para além de axiomas e postulados? E isso tem alguma sustentação racional, é economia “científica” ou é pura e simples ideologia? E, transmitindo-se pela máquina de produzir opinião, não é isto que faz a tal “razão” da maioria dos 80% de votantes na “troika” interna marioneta da “troika” externa? Isto chama-se, pura e simplesmente, ideologia neo-liberal, estado hoje mais avançado do capitalismo. Não é um sistema económico racional, cientificamente estruturado (“porque não?”), é simples ideologia, “porque sim”.

Uma visão porventura um pouco redutora faria dizer que boa parte dos economistas que por aí vemos, a todos os níveis, com exceções gratificantes, mas minoritárias e com influência reduzida (por agora!), são os homens de mão do capital, ou mesmo, pessoalizando, dos grandes capitalistas. Não é bem assim, é mais complicado. São produtos de uma formatação ideológica que não conseguem criticar, são criaturas de um sistema que não se aguenta só a nível infra e estrutural (seria visão esquemática do marxismo), mas hoje, cada vez mais, também a nível superestrutural, do pensamento, dos valores incutidos, da ideologia. Isto é a hegemonia.

Só assim compreendo que os economistas “chapa-um” possam ser felizes, com a felicidade que se lhes vê na cara quando defendem coisas que a qualquer pessoa bem formada fazem pensar “estes homens são sádicos”. Como é que se pode sentir profissionalmente útil e feliz alguém que está a propor e a levar à prática a miséria de muita gente, o desemprego, a redução da proteção social, o corte de salários da função pública, a diminuição do rendimento dos mais vulneráveis - os reformados? Pode-se dizer que o fazem por obrigação, até para evitar males maiores. Mas a impressão que deixam, por todas as formas de expressão, até facial, é que também o fazem com algum prazer. Talvez isto seja exagero, mas ao menos parece inegável que, não sendo porventura prazer, é pelo menos insensibilidade  e frieza desumana e tecnocrática.

Admito que esta nota seja um bom exemplo de “economia moral”, pelo lado esquerdo, talvez tão criticável como a “economia moral” hoje dominante, do tipo “não podemos ser caloteiros”. Admito, mas não me arrependo de a escrever. Há uma dimensão ética na política sem a qual ela fica exercício cínico e desgostante.

Finalmente, uma nota de professor. Se esta atitude da “classe económica” tem muito a ver com o “para que foram preparados”, escrito acima, então há que olhar bem a sério para as escolas de economia. Já houve tempos em que foram ambiente fértil de debate, de confronto de escolas de pensamento económico - e, inevitavelmente, político. O confronto era estimulante para os estudantes, favorecia-lhes o gosto pela reflexão e pela análise.

Hoje, parecem cada vez mais padronizadas e são sem dúvida um aval do pensamento único ou hegemónico que está a fazer uma opinião pública (com reflexos eleitorais) também padronizada. Como universitário que contata bastante com jovens, noto muito mais variedade de opiniões, de mundivivências, entre universitários de outras áreas do que entre os mais “formatados” estudantes de economia e gestão. Pode-se recear que se esteja perante um mecanismo formatador auto-alimentado e permanente: os professores de hoje preparam os estudantes que serão os professores seus sucessores.

NOTA - Um pouco a despropósito, ou talvez não. Vejam-se os “sites” das mais celebradas escolas de economia portuguesa e as suas designações oficiais, embora não estatutárias. Já foram Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa e Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica Portuguesa. Hoje são NOVA School of Business and Economics e Catolica-Lisbon School of Business & Economics. Repare-se que não são traduções para uso em documentos redigidos em inglês; são as designações agora oficiais, em documentos em português! Não é ridículo, pretensioso, novo-rico? Não consigo encontrar coisa equivalente em universidades espanholas, francesas, alemãs. “Esta é a ditosa pátria minha amada”, mas é pena que lhe falte coluna vertebral.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Em tempo de crise, os polos afastam-se

Um amigo meu enviou hoje para a Time este comentário sobre um artigo arrogante de um finlandês:
Sirs, 
I think that you will probably consider my comment (on a comment…) outdated at this moment and, thus, I understand if you discard it, simply. However, on my view it may have some relevance.
In fact, when Mr. Leif Lukander uses the term 'selfishness' he recalls the very core of the issue, which has nothing to do with a certain moral. If any common territory inside borders is worth the name of 'country', nobody talks about 'help' when referring to the co-natural solidarity that term implies. It's constitutional solidarity, it's matter of governance, paragraph. 
With Europe there are a few equivocal things and that is the biggest problem. The contradiction between national sovereign powers and convergence without the institutional tools will lead to the end of Europe and rebirth of dangerous nationalisms, unless the so-called 'better-run' countries have memory and the intelligence to understand that their well-succeeded market is fed in a large measure by the near insolvent member States of a just monetary union. 
Thank you. 
Subscrevo este comentário. Mas, entretanto, não há muita gente a dizer coisas opostas: mas o que nos impede de exportarmos para o norte, não sabemos é produzir riqueza? E os países ricos, disciplinados, trabalhadores, têm de pagar os nossos erros? E haviam de deixar de exportar para nós? E os cidadãos pagantes desses países o que hão-de pensar? Não chega já de dizer que na Europa há os mauzões do centro e norte que produzem mas à custa dos do sul, e os pobres inocentes e vítimas do sul que são explorados pelos outros?
É o discurso hegemónico (ah, Gramsci!). Mais o da diabolização de qualquer défice, da maldade inata do Estado, da virtude do “mercado eficaz”, da veneração das figuras inacessivelmente aristocráticas dos banqueiros ("gente fina é outra coisa": viram o “Inside Job”?), da menorização da soberania (nunca o poder de reestruturação da dívida, mesmo da odiosa), da sujeição sabuja aos credores/exploradores, da aceitação da primazia do capital financeiro sobre o industrial - o fundiário há muito que se foi à vida -, da caricatura dos trabalhadores como preguiçosos e exploradores do Estado social, da aceitação acrítica do sistema económico considerado como dogma ou o "fim da história", muito mais. É em decorrência o discurso “big brother” dos economistas e ideólogos de serviço, “não podemos ser caloteiros”, “a economia política é como a economia doméstica de gente honrada”, “não há remédio senão a austeridade”, “quem nos ajuda é que manda”, “se não cumprirmos os memorandos, os mercados destroem-nos”, “cuidado com o nervosismo dos mercados”. Viva a troika! Mais, à ministro “nerd”, bom é ser mais troikista do que a troika. E tudo isto são os tais 80% de eleitores manipulados que, democraticamente, indiscutivelmente que têm razão.
Responderia com alguns factos básicos. Tão básicos que, não sendo eu economista, penso não andar muito longe da verdade ao enumerá-los. Isto quanto aos pontos 1-6. Os seguintes são de teor político, e aí eu cidadão não preciso de ter especialização académica em ciência política.
1. Na criação do euro, foram logo enviesadas as condições de concorrência. O marco e o franco foram desvalorizados, o escudo, a peseta, o dracma, a lira menos, foram sobrevalorizados. Foi o preço que a Alemanha exigiu, entre outros, para o negócio de aceitação pela França e outros da reunificação alemã (a meter algum medo, pensando no passado) e de aceitação pela Alemanha do fim do marco. Mas a Alemanha ganhou ainda mais. Um BCE à medida do Deutsche Bank, o triunfo das regras monetaristas de Maastricht aplicadas ao euro e ao BCE, de forma arbitrária (porquê o défice máximo de 3% do PIB e não 4%, como acabou por ter a própria Alemanha? E que também falsificou contas, como a Grécia, quando foi da reunificação). Também, nos dogmas neoliberais que impôs, a desregulação dos mercados financeiros, o pavor da inflação, a recusa de qualquer perspetiva keynesiana, a impossibilidade de monetarização da dívida (embora na prática o BCE tenha tido agora de comprar dívida dos PIGS no mercado secundário), etc.
2. Com isto, a pergunta sobre o porquê dos sulistas não exportarem para o norte fica em boa parte respondida. Além disso, grande parte da riqueza do sul foi destruída pela imposição política dos ricos, com a PAC e a política de pescas, inclusive o desmantelamento de frotas pesqueiras (porque é que a Noruega nunca quis entrar na CEE e depois UE? Para além de ter petróleo) e, por consequência, de boa parte do nosso setor secundário, com forte componente agro-alimentar. Lembram-se do que era a importância da nossa exportação de polpa de tomate? E os laticínios açorianos, hoje a jogar às escondidas com as quotas europeias?
3. A maior parte das exportações alemães são de indústria pesada e aí a Alemanha tem fatores históricos favoráveis. Um capitalismo industrial antigo e sólido (ou “O Capital” não tivesse sido escrito por um alemão, que nem sonhava que o “socialismo” nasceria aberrantemente num país de economia de “modo asiático”), mão de obra com mentalidade de exército, acima de tudo matérias primas, carvão e aço. Não se esqueça de que Jean Monet e os seus pares começaram por tentar equilibrar as coisas na Europa foi com a CECA, do carvão e do aço, antes da CEE.
4. Mais recentemente, a produtividade alemã e a competitividade nas exportações têm dependido fortemente de desvalorizações internas. Como não podem desvalorizar a moeda comum, desvalorizam o preço do trabalho, com os sindicatos a irem nisso. Aumento da idade de reforma, maior horário de trabalho, prestações e serviços sociais menos acessíveis. Os trabalhadores do sul, a meu ver, têm razão em não querer alimentar os seus tipos do Inside Job com esses sacrifícios. Pelo menos a resistirem enquanto podem.
5. A Finlândia é simplesmente a Nokia. A Holanda nem isso, um dia destes acorda atrelada à Alemanha, a viver só de outro tipo de competição com que a Irlanda se lixou, a desvalorização fiscal, em relação às empresas. Sabem quantas empresas portuguesas, a começar pelos bancos, Sonae, etc., têm sucursais na Holanda para circulação taxfree de capitais? Vamos ver como é, daqui a poucos anos.
6. Depois, todas as bocas sobre um euro do norte e um euro do sul, sobre a pressão para a Grécia (para já) sair do euro, etc., são mesmo só isso, bocas. Ou então ignorância crassa de políticos economicamente primários que desconhecem o que é a globalização, desde logo a nível europeu. Todo o sistema do euro está interligado, mesmo que com fios muito fracos, a ameaçar rotura. Mas se os PIGS romperem, vai-se à vida a estabilidade económica e financeira dos AAA. Cada vez mais economistas até agora servis ao sistema, gente do BCE ou dos bancos centrais, articulistas de jornal tão ortodoxo como é o Finantial Times, começa a dizer isto, como forma de protegerem o seu bom nome profissional e académico da burrice dos políticos.
7. E não vale só a economia. Também a política, talvez mais. O que se está a ver dos nortenhos, com sulistas a ajudarem de baraço ao pescoço, é um perigosíssimo nacionalismo, xenofobia, que se até agora era, já detestavelmente, contra o não-europeu, agora divide a Europa e abre portas sei lá a que aventuras neo-nazis (não digo que a Sra Merkel seja nazi, claro que não, mas da forma como isto vai… primeiro foram os comunistas, dizia Brecht, um dia serão os CDUs).  O que têm sido os resultados eleitorais nos últimos anos, nos países AAA? Eu tenho uns primos alemães que andam aterrados.

8. E também vale a ética, a gratidão, o reconhecimento. É certo que por interesse, lembrando-se das consequências de Versalhes, mas afinal os aliados é que reconstruiram a Alemanha do pós-guerra. Os malfadados gregos nunca conseguiram indemnizações de guerra, nem sequer a devolução do seu ouro confiscado (e em boa parte mandado para Salazar, para pagamento de volfrâmio). O mito do esforço alemão é isso, mito. Depois 1953 e a ponte de Berlim, uma fortuna. Depois, a reunificação, que desviou para a Alemanha rica uma parte muito considerável dos fundos estruturais de que tanto precisava a coesão europeia.
9. Finalmente, não aceito bem que pessoas de nível favorecido, como o meu, vivendo confortavelmente, desconhecendo o que são os sacrifícios dos milhões que estão agora a sofrer duramente a austeridade (eu ainda só minimamente, nada que já me tenha feito mudar os padrões de vida) venham lançar culpas sobre “os portugueses” que vivem acima das suas posses, ao contrário dos exemplares AAA. É injusto e é submisso. 
Injusto porque se toda essa gente se endividou, endividando o país, foi com crédito publicitariamente quase imposto dado pela banca com dinheiro que ela foi buscar a crédito mais barato aos AAA e conseguindo os lucros escandalosos de que nos lembramos, na década até à crise. Porque, entre muitos fatores de projeção psicológica ou de “standing” que não nego, esses portugueses (e esses gregos, e esses irlandeses, e esses espanhóis, e a coisa não ficará por aqui) tiveram que comprar a crédito a casa por não haver mercado de arrendamento ou o carro por a rede de transportes públicos ser terceiromundista. Claro que também compraram a TV gigante e as férias em Cancun, mas isto levava-nos longe, para uma discussão sobre os motins de Londres (que não desculpo de todo, mas que quero perceber, “cientificamente”).
E é submisso porque o cosmopolitismo, a vivência internacional, de uma certa camada  intelectual, académica e de quadros bem colocados está a levar para a tal projeção psicológica, agora a nível do padrão de “desenvolvimento e civilização”, do que não é "vergonhosamente" o provincianismo português. De certa forma, queirozianamente; porque os "vencidos" eram bastante snobs e não sei se, nesta crise, não alinhariam pelo "estrangeiro civilizado", que não é "esta choldra". Mas, ao menos o meu co-ilhéu Fradique tinha nível, bom gosto e boas maneiras. Todavia, no momento da verdade, os meninos tentarão apanhar o elétrico, enquanto a choldra vai sair à rua. Dito isto, há muita coisa que detesto no meu povo e não vou agora repentinamente virar "tuga". Não vou em patrioteirismos ao estilo anti-Moody’s, mas algum brio de identidade como povo não nos faz nada mal.

NOTA - E nunca um novaiorquino ou um californiano se atreve a falar de um arkansiano, seu "american fellow", como hoje fala um alemão de um grego. Aí está uma grande diferença, muito para além da diferença entre o dólar e o euro. É que, ao contrário do célebre dito de Clinton, não é verdade que "it's the economy, stupid!"

P. S. (13.9.2011, 00:25) - Descuidadamente, fui injusto para com Leif Lukander, o finlandês a quem o meu amigo JL respondeu. Faltou-me ler a sua última frase, essencial. Afinal, num comentário a um artigo da Time, "It’s Time to Admit the Euro Has Failed "ele estava a defender, sob a forma de uma pergunta, exatamente o que nós dizemos: “What is now being tested is the solidarity among member states. How far will the better-run countries be willing to go to help their weaker brethen nations? Let’s hope that selfishness does not get the upper hand”. Let’s hope, dear Leif! 

sábado, 3 de setembro de 2011

Eu, português, envergonhado

Segundo o Público: “O Governo português é contra as eurobonds. Esta é a posição oficial, garantiu ontem ao PÚBLICO Rui Baptista, assessor do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho: ‘A posição oficial do Governo é a que o primeiro-ministro disse ontem [quinta-feira].‘ (…) Passos Coelho declarou: ‘Acompanho em grande medida aquilo que disse a senhora Merkel. Não podemos olhar para um princípio de obrigações europeias como uma forma de resolvermos os problemas, que temos agora, de excesso de dívida.’ "
Isto é inacreditável. Já não bastava que o governo fosse mais troikista do que a troika, que esteja a carregar-nos com mais 6000 milhões de euros de impostos e cortes orçamentais (em sáude, educação e segurança social) do que está nos memorandos, que o inefável ministro Gaspar (essa figura psicologicamente estranha que fala com uma linguagem gestual bizarra e que anuncia aos “alunos”, em estilo “nerd”, as suas técnicas pedagógicas) afirme que a confiança dos mercados depende de sermos (nós quem?) mais papistas do que o papa.
Diga-se que nem o CDS vai tão longe, tendo Portas já manifestado simpatia por um instrumento como os “eurobonds”. Do outro lado, infelizmente para um PS agora em dificuldade de marcar diferença, Sócrates deu o exemplo de submissão à patroa prussiana, mas não a este ponto de Passos Coelho.
Recordemos o que são os “eurobonds”: mutualização da dívida, até certo limite que seja um compromisso entre a solidariedade europeia e o respeito pelos interesses razoáveis dos mais disciplinados em termos de dívida externa. Os “eurobonds” são emitidos centralmente, garantidos por toda a zona euro e, portanto, assegurados, em taxa de juro, pela confiança no conjunto, não no país isolado que emite dívida.
Não conseguiria indicar aqui um resumo legível de referências à defesa destes títulos, centenas que são, nos últimos tempos, de grandes economistas, incluindo prémios Nobel, ultimamente também dos países em situação de resgate e até da Espanha e da Itália. Também Juncker, o presidente do Eurogrupo, alguns dirigentes do BCE e até Durão Barroso têm mostrado alguma abertura subtil a esta solução, embora sem compromisso. Cá, ainda há minutos, ouvi Mário Soares defendê-los vigorosamente.
Em oposição irredutível mantém-se a senhora Merkel. Não porque tenha motivos técnicos e económicos contra os “eurobonds”, porque ela não dá mostras de ter alguma base sólida de pensamento económico, muito menos de pensamento estratégico em relação à defesa do euro e, afinal, do projeto europeu, que ela conduz para uma evolução suicidária acelerada. Pura e simplesmente, a senhora está apenas motivada pelo seu eleitoralismo, sabendo que passa hoje por toda a Europa rica do norte uma onda de egoísmo e sobranceria quase xenófoba em relação a outros parceiros europeus de que eles extraem, em boa parte, a sua riqueza. Eles estão a lutar na 3ª guerra, agora económica e, infelizmente, palpita-me que a vão ganhar.
Entre a solidariedade com os europeus periféricos, em dificuldades comuns, e a vergonhosa vassalagem ao governo alemão, Passos Coelho escolheu a segunda. Fê-lo, é verdade que se diga, com a autoridade que lhe deram os tais eleitores que, como aqui discuti, sendo maioria têm sempre razão.
Passos Coelho fez vergonhosamente o jogo do outro lado (apetecia-me dizer inimigo e acho que não estaria a exagerar). Se isto fosse mesmo guerra a sério, em termos militares convencionais, toda a gente sabe o que lhe aconteceria.

(Foto de Público)

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A maioria tem razão? (III)

Quando escrevi que ia concluir esta série de entradas com a discussão das alternativas, estava a pensar muito principalmente em termos de política interna e das escolhas que o eleitorado fez nas últimas eleições. Como tenho dito, essencialmente sim ou não em relação ao acordo com a “troika”. Todavia, não se esqueça que a divisão interna também tem muito a ver com a posição em relação à política europeia. Mas alguém se lembra de ter havido alguma discussão sobre a política europeia e sobre a política portuguesa na arena europeia que tivesse influenciado minimamente a tal “maioria que tem razão”?
Ia só dar algum relevo muito marginal a este tema, mas ele hoje avulta, no contexto de uma vertiginosa, acrobática e surrealista mudança a que se tem assistido ultimamente, culminando na cimeira da última semana. Por isto, ainda antes do encerramento, um imprevisto capítulo - e, desculpem, forçosamente longo - sobre o voto da maioria no contexto europeu.
“A maioria tem sempre razão”, logo os partidos que conquistaram essa maioria têm “obviamente” razão. Insisto: democraticamente, têm razão para aplicarem a política sufragada pela maioria, mas isto não quer dizer que ela seja a política acertada e que o critério de certo ou errado, cientificamente, seja o da maioria de votos. Até, se fosse assim, nem era preciso haver campeonato de futebol. Votava-se no princípio e o clube vencedor da eleição, com mais simpatizantes, era campeão.
Em Junho, nas eleições, os eleitores confrontaram-se com a posição minoritária do “não”, que rejeitaram por larga maioria, e a posição “oficial” de troika interna às ordens da externa: temos de pagar as dívidas como pessoas de bem; somos todos responsáveis e ninguém discute o que é “dívida odiosa”; o que será de nós sem os nossos bancos; vamos pagar juros altos, agiotas, porque nos portámos mal e os contribuintes alemães não têm a culpa; se não cumprirmos, os mercados nervosos e as agências de “rating” caem-nos em cima (mas quando a Moody’s nos caiu em cima, estritamente segundo essas tais regras que a maioria aceita, foi um coro “patriótico” só comparável ao caso de o Mourinho se naturalizar espanhol).
Todo este discurso tinha como base a “certeza” de que a UE tinha definido um conjunto de regras inflexíveis, um dogma, que condicionava a “ajuda” (!) aos periféricos mal comportados. Era uma autêntica filosofia político-económica da UE, religiosamente acatada, mas que já muita gente considerava irrealista e mesmo anunciadamente suicida para o euro: juros castigadores, para servirem de exemplo a esses mal comportados do lixo (oh gente, quem nos acha lixo são mesmo os alemães e amigos!); empréstimos do BCE só com garantia de “colaterais” bem cotados pelas agências de “rating”; impossibilidade de emissão de dívida europeia trans-nacional ou mutualizada (“eurobonds”); proibição de o fundo de resgate (FEEF) comprar dívida dos países em dificuldades; inimaginabilidade de taxas sobre os movimentos de capitais (ou taxa Tobin, quando envolvendo câmbio); poupar absolutamente os bancos credores a riscos, antes os apoiar e recapitalizar; inaceitabilidade de qualquer forma, mesmo que muito atenuada, de incumprimento da dívida; etc.
Alguém votou nas trindades, interna e externa, pensando ou sendo alertado para que estes pressupostos podiam não ser assim tão definitivos e que, portanto, a obrigação "patriótica" de nos vergarmos ao acordo podia ter muita flexibilidade? Que então talvez não houvesse assim tanta abismal diferença entre o “sim” e o “não”? Que a horrorosa reestruturação até podia vir a ser relativamente aceitável pela senhora prussiana? A maioria tem sempre razão, mesmo quando é assim tão descaradamente condicionada e desinformada? E, afinal, foi isto que se viu começar-se a passar, uma mudança considerável do contexto, embora o governo mantenha que nada mudou na obrigação de sermos atentos, veneradores e obrigados.
A crónica das piruetas das últimos dois meses é extensíssima. Vou tentar apenas fazer um resumo.
Já é admitido pelos economistas e políticos mais ortodoxos (até ouvi João Duque em Portugal) que a Grécia está mais afogada em dívida e em impossibilidade de cumprimento ao fim de um ano de ”ajuda” do que antes. Como nos vai acontecer (ah, mas Portugal não é a Grécia! De certeza?). Apesar de a Grécia não estar a ir ao mercado primário, o mercado secundário continua a aumentar aceleradamente os juros. Já está hoje a mais de 40% (!) para as maturidades a 2 anos, nós a 25% (na nossa idade média, um judeu era enforcado por usura com juros a metade disto). É evidente que a Grécia não pode ir ao mercado no fim do resgate e que este tem de ser prolongado. 

A pressão dos mercados é igualmente forte sobre Portugal e a Irlanda. Mais recentemente, sobre a Espanha e principalmente a Itália. Efeito dominó, mesmo que a Espanha diga que não é Portugal, que a França venha a dizer que não é a Espanha e finalmente a Alemanha a dizer que não é a França, e, a rirem-se, os ingleses com a sua libra esterlina! O euro está em risco, a Europa rica modera a sua arrogância porque os seus bancos começam a tremer. Os credores começam a pensar que mais vale conseguirem 50% do que 0%. Os governantes-governados começam a curvar-se.
Dia 29.5 - O governo grego e a oposição não chegam a acordo, o que era a exigência da “troika” para fornecer a fatia seguinte do empréstimo.
31.5 - Pela primeira vez, pela voz de J. C. Juncker, presidente do Eurogrupo, põe-se a hipótese de participação dos credores no resgate das dívidas, especificamente da grega. Mais surpreendentemente, fala na aceitabilidade de uma “reestruturação suave” (?) ao nível menos drástico, o da dilatação dos prazos de maturidade (“reprofiling”). Começam as divergências e o edifício neoliberal europeu a abrir rachas: o BCE declara-se frontalmente contra qualquer coisa que pareça reestruturação e considera um “conto de fadas” a participação dos credores. Consta que vários governos apoiam Juncker - ou ele falou por eles - e começam a preparar essa hipótese, falando-se principalmente do grupo alemão (Alemanha, Holanda, Áustria, Finlândia).
1.6 - O Ecofin discute a participação dos privados, estimando-a em 10-15 mM€ (mil milhões de euros) e fala-se num “espírito” da iniciativa de Viena, de 2009, que apoiou a banca dos países de leste. Volta a discutir-se o reescalonamento das maturidades e a renegociação da renovação de contratos.
2.6 - Trichet e Constâncio admitem que o euro será uma construção frágil sem governo económico europeu e propõem a criação de um ministro europeu das Finanças.
4.6 - Greve geral e grandes manifestações na Grécia.
4.6 - O governo grego vê aprovado um novo plano de maior austeridade e de privatizações. Prevê-se um corte de 6400 mM€, a agravar os já 20% de redução dos salários no último ano e o crescimento galopante do desemprego. Com isto, a “troika” descongela a fatia em falta do empréstimo.
11.6 - O parlamento alemão exige que os títulos gregos a vencer (80-90 mM€ até 2014) tenham de ser trocados por títulos a 7 anos. É a primeira afirmação oficial de reescalonamento, até então um tabu.
13.6 - É transferida para a Grécia a fatia de 12 mM€ sem a qual o país entrava em incumprimento imediato.
13.6 - O comissário Rehn alerta para a fragilidade da banca europeia como possível coparticipante dos resgates.
14.6 - A Standard&Poor’s prevê o incumprimento pela Grécia e baixa a notação para 1 nível só acima da falência.
14.6 - Os governos do grupo alemão e o BCE divergem publicamente em relação ao envolvimento dos credores nos resgates, defendidos pelos governos como forma de satisfazerem o eleitorado, cada vez mais egoísta e xenófobo, mostrando-lhes que não são só os contribuintes a pagarem as “culpas” dos periféricos. O que não dizem é que tanto contribuintes como credores lucraram muito com a dívida dos mal comportados.
18.6 - J. C. Juncker alerta para o forte risco de contágio da Itália e da Bélgica.
11.7 - Paul de Grawe, economista reputado, acusa o BCE de ser o maior fator de instabilidade dos mercados e considera que, se o plano para a Grécia não incluir a emissão de títulos europeus (“eurobonds”), o euro está condenado. Por esses dias, a crise do euro é discutida de forma convergente por grandes financeiros como Soros, economistas como Krugman, Galbraith ou Stiglitz, editorialistas do Finantial Times ou do The Economist. Com Roubini, o “profeta” da crise, todos defendem a “reestruturação ordenada” da dívida grega (e já começam a falar de Portugal).
13.7 - Notícias diversas acerca de pressões de governos europeus sobre o governo grego para que este reestruture a dívida (diriam os nossos eleitores maioritários: que seja caloteiro!).
13.7 - Sobem consideravelmente os juros das dívidas italiana e espanhola e a Europa treme com a ameaça a grandes economias irresgatáveis, não pequenos países periféricos. Portugal vai a 20% de juros na dívida a 3 anos. A Moody’s desce as notações das dívidas de Portugal e da Irlanda para Ba2 e Ba1, “lixo” (claro que um país não é lixo, não tem notação, a sua dívida é que tem).
14.7 - O BCE, representado cada vez mais a ortodoxia financeira europeia, até contra alguns sinais de flexibilização dos governos, considera que a participação dos credores será “uma explosão de crise bancária na Europa”. As agências de "rating" dizem que equipararão isso a incumprimento.
18.7 - Kohl declara que “ela [Merkel] está a destruir a minha Europa”.
20.7 - Obama pressiona Merkel para que esta se esforce para a resolução da crise do euro, que ameaça uma crise mundial. Merkel e Sarkozy reúnem-se em privado, na véspera da cimeira.
20.7 - O BCE atenua subitamente a sua posição rígida, na véspera da cimeira. O seu economista chefe defende que o FEEF possa ir aos mercados comprar dívida grega.
21.7 - Antes da cimeira, os bancos, que nos dias anteriores se tinham reunido - com destaque para os bancos franceses e alemães - fazem saber da sua disponibilidade para suportar perdas ”razoáveis”. Segundo o Spiegel, tal podia chegar a 50% de perda do valor da dívida.
21.7 - O BCE cede mais e anuncia que não continuará a exigir títulos de notação máxima como “colaterais” para empréstimos aos bancos.
21.7 - A cimeira concede à Grécia um novo empréstimo, de 109 mM€, a que se somam 37 mM€ de contribuição da banca, baixa a taxa de juro para 3,5% (a do FMI), maturidade de 15 anos (o dobro da atual) e aceita que o FEEF compre dívida - por agora só grega - no mercado primário e secundário e que financie a recapitalização de bancos. Reorienta os fundos europeus para o crescimento, a competitividade, formação e criação de emprego. Mas, aspeto crítico, continua excluída a emissão de “eurobonds” e nada se avança para o reforço orçamental e o governo económico, a não ser a intenção de voltar a discutir em 2012. A decisão quanto aos credores é um compromisso: o BCE cede na sua rejeição total dessa medida, a Alemanha cede aceitando que seja uma participação voluntária.
21.7 - No fim da cimeira, Sarkozy declara que as medidas (exceto a redução dos juros) só se aplicam à Grécia e que Portugal e a Irlanda garantiram que não reestruturarão as suas dívidas.
Tudo isto mostra uma coisa muito simples. O euro é vital para os países ricos europeus, que tudo farão para o salvar, mesmo tendo de engolir todas as juras e dogmas arrogantemente impostos aos mais fracos, mesmo sabendo que, quanto às tais garantias de Portugal e da Irlanda, logo se verá. Se ficarmos à beira da falência, são os ricos que nos vêm pedir para reestruturar, para sermos “caloteiros”. Nessa altura, os 80% vão mesmo sentir-se postumamente enganados por aqueles em quem votaram agora. Os gregos mostraram agora que vale a pena dizer não, encher a Sintagma e as avenidas de Atenas e sem o governo pôr excesso de zelo no já gravíssimo cumprimento do seu acordo com a "troika". 
E depois disto tudo, o que mudou em Portugal? Governo, imprensa, opinadores, compreensivelmente o homem da rua, a maioria de 80%, continuam a esquecer ou a fingir esquecer que a política de austeridade que nos impõem só é irremediável enquanto quisermos, que o quadro europeu em que nos submetemos à santa trindade está a mudar e tem brechas pelas quais podemos penetrar, principalmente se conseguirmos uma aliança eficaz com os outros periféricos, claro que com a Espanha e mesmo a Itália ou a Bélgica. A “Europa connosco” já começou a ver que o euro que os faz ricos precisa de todos, também de nós importadores e em boa parte por isso devedores. Quando (não é “se”!) chegarmos à situação grega atual, não nos podem deixar cair. 
O que será triste é, nessa altura, provavelmente se ver muita gente a fazer vénias de agradecimento por tanta generosidade.  Descontando algum exagero da comparação com este caso, “… também dos Portugueses / Alguns tredores houve algumas vezes.” (L., canto IV, 33).
NOTA - Todas as informações são de notícias de jornais do dia, mais frequentemente do Público. Podem ser consultadas na edição do dia respetivo, mas vou tentar colocar ligações, o mais brevemente possível.

P. S., 26-7 - E até Fernando Ulrich, CEO do BPI, vem hoje dizer que o esquema da "troika" em relação aos bancos se baseia numa "crença, numa fé", mas que "é caminho para problemas maiores". O navio, o naufrágio e os ratos...

terça-feira, 5 de julho de 2011

A maioria tem razão? (II)

Continuando. Numa coisa a maioria tem razão: em exigir informação útil e correta que lhe permita um mínimo de capacidade de escolha em relação a políticas que lidam com uma situação económica extremamente complexa. Esta última campanha eleitoral foi negativamente exemplar. Quando era indiscutível que O (com maiúscula) problema era o do resgate ou suas alternativas, a trindade interna do acordo falou de tudo e mais alguma coisa, abundaram-se em críticas e ataques colaterais, mas alguém ouviu uma discussão séria, esclarecedora, sobre o problema económico? Alguém já teve acesso a um resumo esclarecedor dos documentos do acordo, daquilo a que se chama eufemisticamente "programa de assistência económica e financeira" quando não, incrivelmente, "ajuda"?
Ainda é nas revistas semanais (mas não nos semanários) que, a meu ver, se vai conseguindo informação um pouco mais aprofundada. Mas quantos dos tais 80% de maioria tem meios e mesmo hábitos de leitura para acederem a essa informação? Mesmo os jornais diários são lidos, no total, por talvez 100.000 pessoas, 2% da tal maioria de quase 80%. E estes jornais estão longe de serem a fonte de informação minimamente suficiente e eficaz para habilitar alguma reflexão sobre o problema em causa. 
O seu fraco nível técnico, a impreparação de muitos jornalistas, a falta de espaços especializados, nada ajuda. Muito menos o quase total encerramento da imprensa de hoje ao debate aberto, à publicação de artigos de opinião, com autoridade e rigor. Generalizou-se a ideia de que opinião se restringe a um corpo fixo de colunistas, com dia certo, escolhidos para dar ideia de pluralismo mas, de fato, raramente debatendo entre si, tão ocupados que estão com as suas agendas próprias. Noutros casos, descurando coisas essenciais. Por exemplo, no jornal que ainda vou lendo, o Público, só há um único colunista regular situado na área política que se opõe ao acordo trinitário, Rui Tavares. No entanto, que me lembre, e talvez por influência da sua formação académica, não me recordo de ele ter abordado pedagogicamente a questão do euro e, mais especificamente, do resgate português. E é deputado europeu.
De qualquer forma, e para se ter sentido das realidades, informação é só TV, em termos dos grandes números, os que trabalhamos nesta coisa de maiorias de 80%. No entanto, esse alcance paga-se, em termos de limitação da aquisição de informação. Em relação à TV, é banalidade dizer-se que ela é passiva, menos crítica, mais rígida. Um jornal lê-se à velocidade adequada a cada um, volta-se atrás a compreender melhor, volta-se a pegar nele para se discutir com um amigo. 

A televisão vê-se à sua própria velocidade, apanha-se dela o que se pode e menos filtrado, não se pode ir reexaminar a informação, discute-se depois ao café da forma que cada um “desouviu”. Por isto, a televisão funciona em “sound bites”, obviamente com muito menor riqueza informativa e com prejuízo da complexidade. Não digo, como Popper, que a televisão é um perigo para a democracia, mas há que ter noção dos problemas.
Anote-se, no entanto, que, mesmo com o seu alcance, a maior influência “matraqueadora”, ao que me parece, é a dos canais de cabo informativos e estes estão longe de chegar aos tais 80%.
Mesmo assim, o problema é central para a democracia, uma democracia de gente informada e esclarecida. O panorama é tão conhecido que nem merece grande descrição: hegemonia absoluta de uma opinião dominante, que, em relação à economia, é vincadamente neoliberal e refletindo a visão europeia corporizada no eixo Berlim-Paris, na Comissão e no Banco Central; apresentação das opiniões sempre como indiscutíveis por natureza e milagre, com omissão sistemática de referências a alternativas ou a opiniões diversas; leque estreito de comentadores de serviço, um baralho só de Duques; apresentadores ou moderadores servis ou pelo menos mal preparados, colaborando neste “fazer o frete” ao sistema dominante; etc. E até, perversamente, os mesmos vícios exercidos pelos próprios objetos da informação quando se tornam sujeitos, nos variados programas com os telefonemas dos participantes.
É certo que há programas “de contraditório”, sempre com o cuidado que fica bem, de opor políticos de quadrantes diferentes. Todavia, programas limitados ou à política convencional ou então a generalidades, em que questões de fundo como a do acordo de resgate ficam para trás em relação à agenda partidária mais rasteira mas mais eficaz no dia a dia político. Para já não falar dos “debates” de gente muito inteligente que diz coisas muito engraçadas e em que todos coçam as costas de todos à volta da mesa.
Claro que tudo isto pode ser largamente compensado pela mãe das fontes de hoje, a “net”. Mas em relação a quantos dos tais 80% de maioria? E dos que têm acesso físico, quantos têm acesso mental, isto é, sabem colher informação “online”? E de que tempo dispõem, quando eu já me sinto limitado se não consigo, na minha situação de reforma ativa, ler o jornal português e os principais títulos, ao menos, de dois ou três estrangeiros, mais uma boa dúzia de blogues que me são de obrigação diária? 

E se a maioria das pessoas não tem acesso, nem tempo se tiver acesso, nem mestria se tiver tempo? Fica ainda pior do que sem informação, arrisca-se a ficar desinformado, a ler apenas, sem contraditório e crítica, o primeiro texto que o Google lhe apresenta, nenhuma opinião contrária; lê porque lhe agrada e cai bem nos seus preconceitos a mensagem em cadeia que lhe mandou um amigo que recebeu de e de. Pior, como tudo isto é moderno, é fortalecido e credibilizado por esta “autoridade” da alta tecnologia. Como alguém da minha meninice que assegurava “é verdade, porque ouvi na Pepe” (um café de moda na minha cidade).
Todas estas dificuldades colocadas à obtenção mínima de informação habilitadora de uma “razão” sobre as presentes alternativas de economia política também se pôem, de outra forma, em relação a pessoas de nível privilegiado, mas que sofrem de algumas insuficiências radicais na nossa cultura e educação. Ainda vivemos muito a célebre dualidade que já há quase um século C. P. Snow discutia no célebre livrinho “As duas culturas”. As pessoas da cultura humanística ou literária que ainda (cada vez menos) marcam posição na cultura têm aversão à ciência, à técnica, à racionalidade científica, detestam economia. Dá-lhes prazer intelectual a retórica, o formalismo, o jogo mental. Com isto, estão muito mais vocacionados para a crítica política convencional, sobre o facto político, a picardia, a habilidade. É o que mais se vê nos artigos de crítica política. É a versão erudita das “bocas” populares sobre os políticos.
Concluindo, há sinais cada vez mais visíveis de melancolia da democracia. Ainda há alguns anos, era fenómeno a preocupar apenas académicos ou pensadores políticos. Hoje, como toda a gente vê, transformou-se, para muita gente, nomeadamente gente jovem, em desgosto com a democracia. Os partidos estão preocupados, mas tentam combater isto (ou melhor, usam isto na agitprop) olhando para o que mais vem à superfície, a revolta dos cidadãos contra a corrupção, a leviandade dos políticos, os seus privilégios de casta. Tudo isto é importante, mas é necessário que os partidos - claro que estou a pensar principalmente nos que me interessam, os de esquerda - antecipem que, um dia destes, as pessoas vão compreender que a principal falha atual da democracia é, na sociedade do conhecimento, viver muito da desinformação das pessoas. Partidos, tornem-se também escolas!
Adenda à entrada de ontem - Numa crítica privada, entendeu um leitor que, no fundo, eu estava a usar um discurso aparentemente rigoroso para levar a água ao meu moinho, em termos políticos e, neste caso, de desvalorização do voto. Deixo este julgamento aos meus leitores, embora sempre clamando eu a minha “inocência”. Mas, já agora, escrevo alguma coisa mais, como exemplo da minha posição, da minha tese de que “as ideias não vão a votos”. Imaginem um referendo em que a pergunta era “acredita que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, ao 6º dia?”. Vamos fazer apostas sobre o resultado deste “referendo”?
Quero dizer que quem votou sim neste “referendo” é um cidadão menor? Uma das perversões que hoje se pode ter em relação à democracia é a de um desvio meritocrático, o de que o voto de um esclarecido e informado vale mais do que o voto de um ignorante. É uma ideia detestável, um retrocesso histórico a tempos (entre nós não muito longínquos) da exclusão do voto dos analfabetos, por exemplo. A democracia, como tudo, está sujeita à análise e à discussão, mas não se pode, sem graves riscos, pôr em causa coisas fundamentais. Há uma frase célebre que diz mais ou menos “morro pelas minhas ideias, mas mais importante é eu morrer para que possas ter as tuas, mesmo que eu as deteste”. É claro que isto tem limitações; nunca eu escreveria isto a Hitler.

P. S., 6.7.2011 - A desmentir-me, Rui Tavares escreve hoje a sua crónica tendo como tema a "política" financeira europeia.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Quem bem avisa amigo é

Paul Krugman é “bête noire” para os nossos economistas de serviço. Não é cómodo lidar com tal crítico áspero do neoliberalismo e da política económica europeia, ainda por cima quando é um Nobel da Economia. “When Austerity Fails”, o seu último artigo no “The New York Times” (22.5.2011) parece-me notável, apesar de eu ser leigo. Por isto me senti na obrigação de o traduzir, para leitura de muita gente. Afinal, o jornal “i” de hoje poupou-me trabalho, publicando “Quando a austeridade falha”. Para abrir o apetite, deixo aqui uma passagem:
Na Europa, pelo contrário, são eles que mandam há mais de um ano, insistindo que a estabilidade da moeda e o equilíbrio orçamental são a resposta a todos os problemas. Por trás desta insistência estão algumas fantasias económicas, em particular a da fada da confiança - isto é, a convicção de que cortar na despesa vai de facto criar emprego, porque a austeridade vai criar confiança no sector privado. Infelizmente, a fada da confiança está a fazer-se rogada e a discussão em torno da melhor maneira de lidar com esta realidade desagradável ameaça tornar a Europa o centro de uma nova crise financeira.
(…) a fada da confiança até agora ainda não apareceu. A crise económica nos países europeus com problemas de endividamento agravou-se, como seria de esperar, e a confiança, em vez de aumentar, está em queda livre. Tornou-se evidente que a Grécia, a Irlanda e Portugal não serão capazes de pagar as suas dívidas na totalidade, embora Espanha talvez se aguente.
(…) Se quiser ser realista, a Europa tem de se preparar para aceitar uma redução da dívida (…) aos credores privados, que terão de se contentar com receber menos em troca de receber alguma coisa. Só que realismo é coisa que não parece abundar.
Por um lado, a Alemanha adoptou uma atitude dura em relação a qualquer ajuda aos vizinhos em dificuldades - isto apesar de uma das principais motivações do actual programa de resgates ser proteger os bancos alemães de perdas. (…) Por outro lado, o Banco Central Europeu está a comportar-se como se estivesse determinado a provocar uma crise financeira. 
Vale a pena também a conclusão (tradução minha, por não concordar muito com a do jornal):
Então o que está o BCE a pensar? O meu palpite é que simplesmente não está disposto a encarar a falência das suas fantasias.E se isto pode parecer incrivelmente pateta, bem, quem é que disse que o mundo é governado pela sabedoria?

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Um bom debate

Não conhecia o programa da TVI Combate de Blogs. O debate 46, de ontem, sobre a crise económica, valeu bem a pena. Verdadeiro debate, em tudo diferente do coro uniforme de economistas de serviço que hoje ocupam a televisão; posições diversas e diferentes apresentadas francamente, com serenidade e sem manipulação demagógico-partidária. Participaram Miguel Morgado (Cachimbo de Magritte - é útil ouvir a jovem direita inteligente), Álvaro Santos Pereira (Desmitos) e Paulo Coimbra (Portugal Uncut)
Creio que este último será, porventura, menos conhecido e merece forte chamada de atenção, embora me devam dar desconto de uma simpatia minha particular por proximidade de posições. Insere-se no movimento internacional Uncut contra as políticas de austeridade e pelo crescimento e emprego.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Gato por lebre, ou um artigo a encher a net

Está em foco o artigo de Robert Fishing (RF), no New York Times, “Portugal’s Unnecessary Bailout”, frequentemente em versões de tradução muito pobre ou até falsa. Comecemos por algumas precisões. Ao contrário do que se diz, RF é sociólogo, não é economista. Isto não o diminui, mas é bom definir bem os termos de qualquer discussão.

Não me parece que o artigo seja tão interessante como estão a propagandeá-lo. É estreito em culpabilização, parece-me pouco fundamentado, come gato por lebre de propaganda governamental, no fundo quase que apoia o PEC 4. Entre a culpabilização dos mercados - muito bem - e a conclusão de que o resgate não era necessário, vai uma distância de falta de argumentação convincente.

Há quem tenha usado o artigo com pouca convicção. Por exemplo, João Rodrigues, no Ladrões de Bicicletas, divaga sobre o artigo do "cientista social" (?) mas tem a cautela de dizer que é excessivamente idealista, que se refere só ao período democrático (isto é, a seguir ao 25 de Abril), que o entusiasmo do autor não tem em conta as desigualdades salariais. Então o que fica do artigo?

Comece-se por isto: “this third national request for a bailout is not really about debt”.  Espantoso! O nosso principal problema, reconhecido por  toda  a gente e de todos os quadrantes,  não é mesmo o da dívida nacional, até mais  privada  do que  pública?

“Na Grécia e na Irlanda, o veredicto dos mercados refletiu profundos problemas económicos. A situação portuguesa é radicalmente diferente; não havia verdadeira crise estrutural.” Como é que algum economista sério, ou mesmo algum cidadão que se quer lúcido, merda, como eu, pode continuar a ler tal artigo?

O artigo é simpático para alguma esquerda - em que eu me situo, mas sou crítico! - porque o autor sonha toda a realidade portuguesa à luz da coisa estimável que é pensar que ainda hoje Portugal é a sua recordação revolucionária do 25 de Abril. Mas sou eu, homem de Abril, que não vou nessa. Já não tenho idade para infantilidades. Com isto, a maior das maiores infantilidades, o embevecimento com as palavras, e acima de tudo “socialismo”, “partido socialista”. "Words, words, words!"

Claro que o nosso “socialismo” recente, socrático, só fez coisas brilhantes, segundo RF, nenhuma documentada. A dívida não é importante, é menor do que a italiana. O défice orçamental é inferior ao de outros países europeus (e certamente menor do que o dos EUA!). A inovação, a qualidade do ensino superior (!), o crescimento das exportações, são notáveis. Essencial é que Portugal seja hoje invejado por quem percebe que mantém (?!) os padrões revolucionários de baixo desemprego, solidariedade social, economia mista (???) que ainda cheiram ao 25 de Abril. O homem conhece mesmo o Portugal de hoje? É bonito que ainda haja algures tal admirador do 25 de Abril, mas cuidado, quando se escreve assim no NYT!

Em relação aos últimos anos, de governação socrática, só elogios. “Domestic politics are not to blame. Prime minister José Sócrates and the governing socialists moved to cut the deficit while promoting competitiveness and maintaining social spending; the opposition insisted it could do better and forced out Mr. Sócrates this month, setting the stage for new elections in June. This is the stuff of normal politics, not a sign of disarray or incompetence as some critics of Portugal have portrayed it.”

E até mesmo a afirmação praticamente explícita de que, não fossem os malandros externos, o PEC 4 nos tinha defendido do resgate.

Sem querer alimentar ideias de conspiração, interrogo-me sobre uma coisa estranha à volta deste artigo. Tem havido dezenas de artigos muito mais interessantes, mais fundamentados, com maior autoridade económica, com assuntos verdadeiramente provocadores em termos de futuro próximo (por exemplo, prós e contras de uma reestruturação da dívida). Porque é que todos esses ficaram à margem da nossa net e estou a receber muitos mails sobre este?

Este artigo é coisa americana, académica, NYT, tudo muito recomendável. Também com o romantismo PC que só os americanos conseguem. Também, apesar de tudo isto, com a qualidade que nenhum socrático caseiro, medíocre, teria conseguido escrever. A quem interessa? Não será ao governo que assim tem uma defesa da sua excelente política até à crise, depois ter sido simples vítima dos bandidos e até ter sido obrigado (?!) a um resgate que não teria sido necessário?

Um artigo a elogiar e a divulgar por toda a net como está a ser? Nem tudo o que luz é ouro. Merda, quero ser lúcido!

Nota - Como se vê, a máquina PS está em pleno. “Está comigo todo o PS?” Está sim, querido líder! O mano Dupond começa a parecer-me, em comparação, menino de coro tonto. Começo a dar de barato que o PS vai ficar em primeiro lugar. E depois, Zé? Impossibilidade da grande coligação, porque ninguém aceita o sapatilhas? Magistratura ativa? Governo Cavaco por intermédio de Manuela ou Catroga? E viva a democracia!

P. S. (26.4.2011) - Veja-se uma carta de discordância com este artigo, também no New York Times (18 de Abril), de David R. Cameron, professor de ciência política na U. Yale e diretor dos estudos sobre a UE: "Portugal's Economy".

sábado, 19 de março de 2011

Desvalorização pelos salários


Vou, como aqui tanta vez escrevi, pela opinião dos economistas (principalmente americanos, porque infelizmente os europeus ainda vão maioritariamente pelo toque de corneta prussiana) que acham que a competitividade da economia alemã - e dos seus apêndices - se deve, na impossibilidade de utilização dos instrumentos cambiais, à desvalorização do fator trabalho. Será isto posição de antigermanismo primário, de que já me acusaram? Será que essa desvalorização interna não é verdade?
O quadro acima, que fui buscar a Paul Krugman, é eloquente. Alguém fica com dúvidas sobre a evolução dos custos do trabalho (tendo em conta o fator desemprego)? Ou o Nobel conferido a Krugman premiou um idiota neo-keynesiano e anti-ultraliberalismo? 
Há uma coisa comum entre a mitologia económica alemã e coisa deles mais próxima de mim biólogo, o remorso e o medo irracional do passado. Quanto à biologia, refiro-me a toda a visceral objeção alemã à inovação biotecnológica, à aprovação pela UE de meios comprovadamente seguros, testados já em todo o mundo, para resolução do grave problema alimentar que ameaça o mundo, principalmente o mundo mais pobre. É o complexo da “eugenia”, da genética nazi, que lhes ficou. Quanto à economia, a memória pânica do pesadelo da inflação de milhares por cento ao ano, nos tempos de Weimar.
Por isto, o BCE, que de independente nada tem e também marcha em ordem unida, avisou logo de um aumento da taxa de juro ao primeiro sinal de risco de um pequeno aumento da taxa de inflação. Quanto vamos pagar, os periféricos, por esse aumento da taxa de juro? E, para manter a competitividade, como vai evoluir com isto a curva mostrada por Krugman?

Nota final - Não sei compreender os dados de 2008 e 2009. Alguém versado em economia me explica e aos meus leitores?

terça-feira, 8 de março de 2011

Nunca digas nunca!

No Público, hoje, um exercício bem luso de retórica. Sempre manejámos melhor a língua do que a espada (isto dava para brejeirice...). Sócrates considerou que “entre vir ou não vir o FMI (…), há um país que perderia prestígio, além de perder também a dignidade de se apresentar ao mundo como um país que consegue resolver os seus problemas”, acrescentou. (…) Portugal está a enfrentar “a segunda fase da crise mundial, a fase da crise da dívida soberana” e, num momento como este, “o mais importante para um político é afirmar a defesa de Portugal” e a convicção de que o país saberá resolver os seus problemas sozinho. “Não precisará nem de ajuda externa, nem de nada mais que não seja confiança no povo português e no nosso país”.
(Entre parênteses, duas notas. "Um país que consegue resolver os seus problemas". Ora vamos lá discutir um pouco de história portuguesa, se é que o senhor sabe tanto de história como de engenharia. É verdade que sim, episodicamente, mas cada vez menos, estruturalmente, para quem refletiu com Antero, como V. Exa. não fez, sobre as causas da decadência. Outra nota, muito mais importante, "segunda fase da crise", como se a crise da dívida não estivesse intimamente associada ao que presumo que chama de primeira fase, a crise financeira e da banca.)
A generalidade dos analistas e agentes financeiros, mais agora que se anuncia a subida da taxa de juro pelo BCE, afirma sem dúvidas que a submissão do governo português é inevitável e que a posição de Sócrates não tem a ver com uma estratégia de economia política, só com a sua sobrevivência. Vão mais longe, apontam para a inevitabilidade de reestruturação da dívida, que se faz de cabeça erguida, à argentina, ou de mão à frente e mão atrás, provavelmente à Sócrates.

Quer isto dizer, se o governo tiver de pedir a ajuda externa, que conclusão tirará Sócrates? E desde já alertando para que não vale a batota de que não será o FMI. É que, neste março de grandes decisões europeias, é possível que, antes da previsão para 2013, a sargenta e seus cabos tenham de aceitar uma flexibilização imediata do fundo europeu, o FEEF, que disfarce o labéu de “aí vem o FMI”. É o meu palpite, embore contra ele possa jogar a política interna alemã, o seu próximo ciclo eleitoral e, com isto, nem sequer haver o rebuçado da “solidariedade europeia” que não é FEEF+FMI, não obstante ser, à mesma, desvalorização interna (salários e reformas), austeridade, redução extrema do défice orçamental, juros altos.

Lembram-se da célebre afirmação de Teixeira dos Santos, “o FMI virá mas quando nos obrigarem a juros superiores a 7%”?. Estamos, contas redondas, a 7,5%. E com o BCE cada vez mais renitente a soprar no balão de oxigénio, de emergência, baixando claramente, nas últimas semanas, o seu nível de compra da nossa dívida no mercado secundário.

Repito. O governo vai pagar como preço de um negócio complexo a 17/27 europeus, até ao fim do mês, o novo mecanismo de proteção do euro, europeus a olharem para a Espanha e a deixarem cair o nosso pequeno pião. Não é coisa que eu deseje, ao contrário da salivação gulosa dos nossos economistas de serviço, mas, objetivamente e apesar de não perito, é o que antevejo. Então, repito, vai o governo tirar conclusões, vai-se demitir?

Penso que será inevitável, com Cavaco a pressionar ao máximo, com o PSD a aparecer como salvador, sem o ónus do derrube de um governo “esforçado”. Mas o que virá a seguir? Muito provavelmente, eleições, muito possívelmente a substituir o rapazinho Sócrates pelo ainda pior rapazinho Passos Coelho. Não é coisa que me entusiasme.

Pelo contrário, vou tendo a patetice de pensar que ainda pode haver outra possibilidade, agora que o PS está em processo eleitoral interno. Que o PS, se não for um suicida compulsivo, gere urgentemente uma solução de alternativa a Sócrates, e, desejavelmente, com possibilidades de um entendimento à esquerda no parlamento. Já sei que estou a ser pateta, antecipo e aceito com inteira compreensão as críticas dos meus leitores lúcidos. Mas há alturas em que nos apetece ir contra a lógica e protestar, romanticamente, que “merda, não sou lúcido!”

Entretanto, vou reservando, apesar de tudo, alguma "merda de lucidez" para exigir que, com eleições à vista, os partidos respondam claramente quanto à sua análise, opinião de princípio, proposta programática, em relação a quatro questões fundamentais. 1. Alternativa realista a uma política económica neoliberal e austeritária. 2. Política europeia de concertação dos países periféricos. 3. Consequências e menorização delas, no caso de reestruturação da dívida. 4. No limite, saída do sistema do euro.

terça-feira, 1 de março de 2011

Portugal, capital Berlim

Já há algum tempo que queria escrever qualquer coisa sobre o que me parece essencial na política portuguesa de hoje - como já disse. É aquilo que exprime sempre, com a sua engraçadíssima exuberância gestual, um caro amigo meu: “vê no contexto!”. O contexto é indiscutivelmente o da economia global capitalista, mais abaixo o do consenso Washington/Frankfurt, com ele o euro, com o euro as regras que foram ditadas por quem lhe deu alguma solidez (alguma mas pouca, como se está a ver, e sem coerência): a Alemanha. Escrevo hoje porque não quero ser influenciado pelo que se passar amanhã em Berlim, na chamada de Sócrates ao paço.
Muita gente de esquerda, que estimo muito, parece-me estar desfocada deste contexto. Privilegiar a visão doméstica é legítimo em termos da capacidade de luta política, talvez ainda alguma a nível nacional, quase inimaginável a nível europeu, mesmo que, em primeira fase, por via de uma frente dos periféricos, contra os AAA. Também é aliciante porque temos à mão os culpados, e não há dúvida, também para mim, de que este governo é péssimo e é quase problema de saúde pública desratizá-lo. Mas é péssimo só porque governa mal em Portugal? Ou também, e principalmente, porque governa mal em total obediência aos ditames da economia política do sistema europeu?
Volto à questão do sistema. Entenda-se bem que não o aceito como desculpabilizante dos políticos concretos, que são seus instrumentos assumidos, convictos, não meros títeres. Mas entenda-se que considero infrutífera qualquer ação política, por maior que seja a sua virtude ideológica, social, fraterna, anímica, que não aponte a mira para os mecanismos essenciais do sistema, que são históricos, não são políticos (no sentido vulgar do termo).
Não sou economista - o que, nos tempos que correm, talvez seja uma vantagem política - mas sempre gostei de estudar economia, como amador aprendiz. Em época de crise como esta, com polarização extrema das escolas económicas, vou mais por uma certa vantagem minha, nada de particularmente revelador de qualidades pessoais, antes de mero traquejo profissional, de cientista: saber que não há verdades absolutas mas que, em cada momento, há uma teoria que a prática reforça, até refutação, e que quase sempre essa teoria não é a do senso comum ou da “verdade” escolástica; e não resistir a analisar criticamente qualquer afirmação, mesmo coisa tão “inegável” (e não é) como “o céu é azul”.
Muitas vezes, a crítica de “verdades indiscutíveis” exige um grande esforço de recolha de informação. Isto para se ter uma opinião contrária, fundamentada. Bem gostaria de a ter, porque, amador de economia, não tenho meios para fundamentar o meu keynesianismo, para não falar na minha matriz marxista, que me parece cada vez mais respeitável, nesta crise. 
Mas o esforço de recolha de informação, em tempos de sítios na net de toda a imprensa internacional e de “clubes” de economistas, não é assim tão pesado para, ao menos, nos fazer pensar que “afinal, há quem escreva coisas aparentemente disparatadas, se comparadas com todos os economistas oficiais. Alguns até são Nobel. Então os oficiais são indiscutíveis, mesmo com os carimbos CE, BCE, FMI, BB, etc.?”
Por exemplo. Alguém escreve hoje, na nossa net, que o combate ao défice não é tão absoluto como se pensa? O que leio, mesmo à esquerda, são críticas às versões concretas do combate ao défice, mas sempre dizendo que “claro que é preciso combater o défice”. Mas combater o défice tem de ser obrigatoriamente levá-lo aos 3% de Maastricht? Porquê? 3 é número mágico (é verdade, era no meu tempo, cuidado com perdê-los). Como é que os EUA estão a dar a volta à crise financeira com défice de 9%? E como é que se pode escrever - Alejandro Nadal - que “quando se quer reduzir o défice, nem sempre é uma boa ideia cortar o gasto público. (…) O governo só tem controlo sobre o gasto, não sobre o défice. O défice depende do que ocorre em toda a economia. Quando existe capacidade instalada ociosa (como é o caso na actualidade) um programa de investimento público é produtivo e gera maior actividade no sector privado por meio de um efeito multiplicador. Tudo isso gera maior arrecadação, reduz a necessidade de endividamento, assim como o pagamento de juros mais adiante.” (Cheguei até aqui por via dos Ladrões de Bicicletas),
Por exemplo. Parece indiscutível, mesmo para os nossos comentadores de esquerda tradicional, que temos de cumprir os compromissos da dívida, senão os mercados levam-nos à bancarrota, eramá, os mercados misteriosos, nervosos. Mas lembram-se da Argentina, da sua “revolução” financeira de 2003, da quebra da paridade com o dólar (não é a situação em relação ao euro e à sua eventual dissolução?), da reestruturação da dívida? Porque é que os nossos políticos e economistas oficiais não nos fazem refletir sobre isto? Porque só há a receita do consenso de Washington/Frankfurt? E não se pode parar um minuto, mesmo que não se sabendo nada de economia, para pensar “será que é maluco este e outros economistas, que dizem isso mesmo, que a solução para os europeus periféricos é ir corajosamente (a esquerda é corajosa, por definição) para a reestruturação da dívida?”
Por exemplo. É difícil pensar-se em termos à David Ricardo em coisa tão limpidamente simples como se escreve no Politeia, “a Alemanha também pensa que pode manter uma zona euro em que ela seja o principal país exportador, com moderação interna de salários, baixa procura interna, contenção de importações e ter como principais compradores os demais países dessa mesma zona. Mas se estes ou alguns destes não vendem o suficiente para poder pagar o que nela compram, como vão pagar?”.
Por exemplo. Com moeda única, nenhum país da eurolândia pode recorrer ao mecanismo clássico da desvalorização monetária para ganhar competitividade nas exportações. Só pode recorrer à “desvalorização interna”, à alemã, isto é, a baixa dos custos do trabalho, da segurança social, a “flexibilização” do mercado de trabalho. Os alemães e os seus sindicatos aceitaram, a troco de crescimento da economia nacional. Os outros povos aceitarão, sem saberem como será distribuído esse correspondente crescimento da economia nacional? Já os islandeses, ao contrário dos irlandeses, ficaram muito mais livres, sem as peias da política dominante dos eurofinanceiros, para para adotarem medidas "heterodoxas", sem veneração pelos credores dos seus bancos falidos. 
Com esta atitude largamente acrítica ou inadvertida em relação ao sistema político-económico europeu, é fácil o desvio da atenção. Por exemplo, 1., a luta contra a política de austeridade. Luta legítima porque a austeridade é mais para os desfavorecidos, porque os bancos ficam isentos, porque as mordomias continuam. Mas também luta inglória, porque exclusivamente ideológica, até mesmo demagógica, quando se trata frequentemente de amendoins, embora importantes no plano simbólico. Tudo obviamente importante, mas sempre com o sentido de que, mais importante historicamente - no processo histórico - a política de austeridade é um reflexo perverso e provavelmente anticientífico da ideologia (não ciência!) económica hegemónica. Fica para depois, a questão da hegemonia, mas entretanto, lembremo-nos de Gramsci
Por exemplo, 2., a ideia generalizadamente aceite de que o défice é exclusivamente o resultado do desvario gastador, eleitoralista, dos governos. Reflete a tradição da discussão política, pró e contra o governo. Mais uma vez, longe de mim negar a sua validade, quantas vezes eu profiro impropérios em relação a este governo e ao seu engenheiro chefe, mas hoje não basta. O défice é reflexo da dívida e mais importante do que a dívida pública é a privada. Em particular, direta ou indiretamente, a da banca, que estimulou a das famílias. 
Por exemplo, 3., e em consequência, a autopenalização de nós pecadores que exigimos uma solidariedade europeia imerecida, porque os civilizados, disciplinados, educados, nada amochados perante o poder, nunca historicamente manipulados, nunca historicamente dominadores, etc., alemães não têm nada que pagar com as suas virtudes privadas os nossos vícios públicos. Até acho que esta nossa auto-humilhação é hipocritamente freudiana. Afinal, quem tem toda essa culpa é o Zé, claro que não eu e os iluminados que sofrem este terrível destino de não termos políticos ao nosso nível, de não conseguirmos apanhar o elétrico, corre, menino!, porque os políticos voam depressa ao nível da sua ligeireza, não da nossa conselheiral lentidão sabedora.
Por exemplo, 4., a ideia acrítica de que a vinda da parelha Fundo Europeu  de Estabilização Financeira (FEEF) e FMI é uma ajuda, sempre vista ideologicamente (ou como discurso moral). Ou é coisa desejada, para pôr a casa em ordem, porque o Padre Malagrida (“aka” Medina Carreira, boa piada de um meu amigo) não o consegue fazer; ou porque, por natureza, evocando só José Mário Branco, o FMI é diabólico. 
Ora a questão essencial é que não se trata de nenhuma ajuda. Não é uma linha de crédito para o desenvolvimento e o investimento, não permite linearmente o resgate da dívida, mesmo no mercado secundário, os juros são altíssimos. As imposições austeritárias são viciosamente cíclicas, levando a recessão e a necessidade de novas “ajudas”. No caso da Irlanda, o sofrimento dos contribuintes vai pagar boa parte dessa “ajuda” destinada a salvar os bancos que criaram a crise com os seus produtos tóxicos (e a irresponsabilidade de negligência de regulação do governo).
Quando se tenta salvar a solvabilidade financeira de paises como a Grécia e a Irlanda, depois Portugal, quer-se garantir que eles cumprem a dívida, que os credores não vão perder. Quem são os credores? Os grandes bancos alemães e franceses. “So simple, stupid!”. Por isto, coisa entre banqueiros, curiosamente - ou não, porque ninguém os pode acusar de serem parvos - os nossos banqueiros não estão a ver com bons olhos o que todos os comentadores acham inevitável, a entrada dos homens da pasta de executivo.
Ainda uma nota politicamente incorreta. Este e outros meus escritos recentes podem cheirar a antigermanismo primário. Não é verdade. A cultura germânica é sublime. Muitos alemães elevaram ao cume a liberdade e a grandeza do pensamento humano. O luteranismo que, eu não religioso, admiro muito, ainda hoje marca tanto o profundo sentido ético dos alemães que me faz impressão, em amigos e familiares da minha geração, que não teve nada a ver com a guerra, o profundo sentimento de culpa e de remorso que transportam, tão diferente da forma como olhamos para o salazarismo, o colonialismo e a guerra colonial. Mas também é verdade que o nazismo não foi coisa de um bando de malfeitores. Caiu fundo na mentalidade e na maneira de estar (“Sein und Dassein”) alemães, é de facto uma culpa coletiva. E já nem falo de pagamento da dívida que têm para com toda a Europa felizmente vencedora do nazismo, mais os EUA, que financiaram a recuperação económica alemã do pós-guerra, mesmo dando de barato que não benevolamente, antes como jogo estratégico da guerra fria a começar. Fora, claro, todo o esbulho das riquezas dos países ocupados pela Alemanha durante a guerra. Estou a remoer no passado? Ou esquecer o passado é também esquecer que pode haver hoje uma 3ª Guerra Mundial em que as balas são notas de euro?
Aonde nos leva tudo isto? Voltando à ida vassálica de Sócrates a Berlim, a uma previsão fácil do que nos espera. Em si, a previsão é imediata, por tudo o que leio: mais semana menos semana, a tal “ajuda”, seja pela parelha FEEF/FMI ou, grande motivo para desavergonhada aldrabice do governo, nada de FMI, apenas o “novo” mecanismo decorrente do pacto de competitividade, se conseguirmos aguentar até ao conselho europeu de fim do mês. Entretanto, hipocritamente, continuam os governantes e outros dirigentes europeus a fazerem declarações sobre Portugal que, em vez de mostrarem de facto o apoio que sugerem, contribuem para açular os predadores do mercado financeiro.
Muitos leitores sabem o que isso quer dizer, o pacto de competitividade, mas não se perde nada em lembrar. Aumenta-se o montante do fundo, mas com contrapartidas pesadas exigidas pela sargenta prussiana (ou pela camponesa saxónica, como prefere o meu amigo JMCP): 1. Inclusão nas constituições nacionais de cláusulas de tipo Maastricht, limitando o défice e a dívida (já há bastante tempo que Luís Amado, babado, o defendeu). 2. Fim da indexação dos aumentos salariais à inflação. 3. Fixação da idade mínima de reforma ao valor alemão, 67 anos. 4. Uniformização das taxas fiscais, novamente que certamente pelo nível alemão. Entretanto, continua o governo alemão a recusar intransigentemente o aumento do orçamento europeu com transferências, a emissão de dívida europeia, a compra de dívida dos países em dificuldades pelo FEEF, o apoio comunitário à reestruturação das dívidas (neste caso, ase calhar será forçado a aceitar, se vir o incêndio a alastrar).
E nem sequer temos garantia de o governo alemão ficar por aqui. Depois da derrota de Hamburgo e com outras eleições regionais muito importantes a coincidirem com o conselho europeu, não me surpreende que haja endurecimentos de última hora.
Tenho o palpite triste de que, amanhã, vou ver Sócrates de regresso de Berlim e recordar a cena de Chamberlain a exibir o tratado de Munique, à saída do avião. Até já recordou antes de partir, com a incrível declaração de Teixeira dos Santos de que não se pode excluir um novo PEC. Declaração para uso da chancelerina, obviamente.

Mas qual é a alternativa? Dupont e Dupond? Volto à minha, alternativa à escala nacional conta pouco. Mas também qual é a alternativa para uma frente de “periféricos, uni-vos!”? Zapatero? E regressando da Europa ao Portugal de eleições próximas, PCP e BE também são alternativa ou debitam só o discurso político convencional, paroquial, sem visão global económica, que critiquei? Infelizmente, palpita-me que, mais uma vez, só me restará, como protesto quixotesco, o voto branco. Ou, quem sabe, mas acho que com riscos de que falarei um dia destes (Portugal não é o Norte de África e o Facebook português pode virar fascistado), as pessoas zangadas vão sair à rua e alguma coisa nova aparecerá. 

P. S. - Um comentador escreveu coisa curta, "que esterqueira de blog". Não tendo em conta que isto revela outra estória que eu conheço, folgo muito por ser lido por quem acha isto uma esterqueira. Água mole em pedra dura... Talvez daqui a tempos 10% dos que hoje dizem isto tenham começado a pensar melhor.