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quinta-feira, 7 de julho de 2011

Carta da Grécia

Há dias, perguntando se “Nós não somos gregos?”, reproduzi algumas coisas que gente séria anda a difundir por aí, até porque uma senhora jornalista, tendo levado para Atenas esse “trabalho de casa”, as reenviou de lá em noticiário. Tresandam a desinformação, mas enviei para comentário de amizade grega o tal parágrafo:
“Um hospital de Atenas emprega 45 jardineiros para cuidar de quatro palmeiras. Os cabeleireiros são considerados como profissão de risco, com a possibilidade de se aposentarem aos 40 anos (com reforma por inteiro). Mais de 25% dos gregos não pagam impostos. As filhas de funcionários públicos que morrem, recebem pensão vitalícia de € 1000, etc.”
Aqui vai a resposta. Lamento que em inglês, mas prometo traduzir logo que tenha tempo. Com esta resposta, respondo à tal minha pergunta: eu também sou grego.
While there is some truth in some of those statements, at the same time there is huge misinformation that borders mythology! Claims such as "A hospital in Athens employs 45 gardeners to care four palm trees. Hairdressers are considered professionals in risk and have a special retirement scheme, full pension at 40 year old" are utter lies. What is missing in commentary of this type, apart from truth and accuracy, is also some context. 
Greece has been a country with a savage taxing system even prior to the troika occupying the country. Greece has been governed and pillaged for the last 30 by the same few families and by the same corrupt political system that targets the small businesses and workers, while lets the big capital get away with the real tax evasion. It is these vulnerable, every day working people who are trying to defend themselves from a state that constantly fails them for decades, that constitute this 25% that you mention in your comment. 
In the early eighties and with a thirst for real political reform in Greece, people "bought" into the promises of the then first "socialist" prime minister of Greece, Andreas Papandreou (the father of the current prime minister George Papandreou), that he would indeed bring the desired political changes. Along these promises he also promised increased income for certain sectors in return for his election as a prime minister. That was the beginning of the end of the Greek sovereignty, as the state kept borrowing money to pay these promised increases (in return of votes by the voters), which led into the massive debt that Greece run into with all the current consequences.  This practice promoted a culture of nepotism and opportunism in a vicious circle with the state failing the majority of the working people, and the people trying to get as much from a state that fails them. This is the context that is needed to keep in mind when one makes statements about tax evasion by working people in Greece. In addition, I spend often considerable time in the UK. I have also seen similar attempts for tax evasion by the working people and abuse of the system in these countries too, as I have seen in Greece. 
During the past few months and with the momentous and historical events, even by European standards,  currently  unfolding in Greece there has been a campaign of anti-Hellenic propaganda at all levels of information, from the main stream media to the blogs. In Portugal, very disappointingly given that we are on the same boat on this, statements like those above are made, and in Germany or the Netherlands or the UK, people ask why their taxpayers should bail out Greece. Well, these are more lies and misinformation fed to the people of these co-European nations: the European tax payers DO NOT bail out Greece, when Greece and the rest of the PIIGS members are the ones keeping ALDI, LIDL, BMW, OPEL and so on in businesses, and in the case of Greece, the European military industries in prosperity. The fellow European citizens should know that for a single euro that is lent to Greece they are earning more in interest returns,  so effectively they are getting richer on the backs of the Greek people. So enough with the lies! It is the Greeks that they should be outraged with the behaviour of our fellow core Europeans, NOT the other way around!!
Instead of buying onto and being brainwashed by the the rampant  misinformation campaign by their media, the people of Europe should show some solidarity to this small peripheral nation that (1) provided the values and seed for what we now call Western Civilization, (2) changed the fate of Europe and its history from the battles of Thermopylae, Salamis and Marathon against the Persians to the battle of Crete against the Nazis, and (3)  if it falls it will take others with it.  
JVC: Claro que nada disto faz sentido, porque Portugal não é a Grécia, assim como a Espanha não é Portugal!...

Nota - Não está esquecido o "A maioria tem razão? (III)", sobre as alternativas. Esperem uns dias, façam favor.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Nós não somos gregos?

Ser colonizado sempre foi mau (nunca houve bom colonialismo). Ser colonizado, aceitar passivamente como ordem natural das coisas, é pior. Ser colonizado, aceitar a ordem colonial e ainda por cima pensar que, de facto, o colonizador é mais civilizado, mais evoluído, menos preguiçoso e mais sério, é muito pior. Ser colonizado e tudo isso mais e, ainda por cima, proclamar alto que se é mais venerador e admirador do dono do que o outro vizinho colonizado - não haja misturas com esse preto selvagem - é sórdido.
A tudo isto estamos a assistir, se olharmos em particular para Portugal e a Grécia. Portugal está a aceitar a nova ordem, como se viu pelos 78% de votantes na trindade interna espelho da trindade externa. A Grécia talvez tenha começado assim, mas agora que já alombou com um ano de austeridade, está a gritar na rua e, apesar de o plano sufocante de resgate ainda ontem ter sido ratificado no Parlamento, dizem as sondagens que cerca de 70% dos gregos estão contra.
Portugal acha que é mesmo mal comportado, merecedor de castigo, de juros de punição exigidos pelos seus “amigos europeus” mais altos do que os do FMI. Julga que não se pode comparar aos nórdicos trabalhadores, sérios, civilizados, como direi adiante. Muitos gregos acham já que, mais do que pagarem os erros dos seus governos, que reconhecem, estão a salvar os bancos franco-prussianos (expressão que, de guerra, passou a aliança).
Portugal (e já também a Espanha, a que se seguirá a Itália e sei lá quem mais) acha que ainda se pode safar se bater as todas as capelinhas dos poderes políticos e financeiros a garantir que “vejam bem, nós não somos a Grécia, até o programa de governo vai mais longe do que o memorando com a troika”. Os espanhóis vão dizer “nós não somos portugueses”, os italianos vão dizer “nós não somos espanhóis”, até os alemães acabarem a dizer “nós não somos europeus”.
Nos últimos dias, eu - e certamente que muita gente - tenho recebido informações “indiscutíveis”, daquelas que um mínimo de juízo crítico e sensatez levam, pelo menos, a dizer que quero primeiro confirmação. Confirmação que ainda não consegui em nenhum dos vários jornais europeus (ou o NYT) que leio diariamente, claro que na diagonal. Até me dizem que jornalistas da TV destacados em Atenas andam a reproduzir tais coisas.
“Um hospital de Atenas emprega 45 jardineiros para cuidar de quatro palmeiras. Os cabeleireiros são considerados como profissão de risco, com a possibilidade de se aposentarem aos 40 anos (com reforma por inteiro). Mais de 25% dos gregos não pagam impostos. As filhas de funcionários públicos que morrem, recebem pensão vitalícia de € 1000, etc.”
Ontem, ouvi um famoso economista dos que estão de serviço à TV dizer tudo isto e mais. Que, assim, os gregos não merecem a ajuda dos países amigos (!?). Passo melhor com os meus inimigos. Os nórdicos (digo assim para simplificar) estão a ajudar-se a si próprios. Em política, não há caridade, há defesa dos seus próprios interesses, muitas vezes dissimulando como interesses dos outros os seus próprios.
Não é preciso ser-se economista para se saber algumas coisas básicas. O euro é uma construção assimétrica, em que os periféricos entraram com sobrevalorização, e são o principal destino das exportações dos parceiros ricos, com os quais nem conseguem competir em relação a outros mercados. O euro foi um negócio franco-alemão em troca da unificação, mas em que a Alemanha impôs as regras viciosas do espaço do euro: falta de orçamento comum, obsessão com o controlo da inflação, falta de mecanismos de compensação intra-espaço euro, impossibilidade de emissão de dívida comum, etc.
A manutenção do euro não é vital para os periféricos, mas sim para os europeus ricos, que arriscam um desastre económico e financeiro se o euro ficar fragilizado, muito mais se desaparecer. Mas, note-se bem, o maior desastre não é, diretamente, para os estados e os povos. Só indiretamente, porque sujeitos ao domínio dos que seriam primeiramente atingidos, os bancos.
E a dívida dos PIGS (não consigo deixar de pensar na possível intenção ofensiva com que foi criada esta sigla)? Parece uma coisa abstrata, a entidades míticas que ninguém parece saber o que são, os tais “mercados nervosos”. Não, têm nome. No caso grego e português, não são Gekkos à Hollywood, são fundamentalmente bancos franceses e alemães (também espanhóis, no caso português). Afinal são esses tais nossos amigos? São os que vão ser “caridosos” quando forem confrontados com incumprimento? Para não encher isto de citações, apenas uma, com toda a informação e a mais autorizada no atual momento político: “Portugal na hora da verdade”, o recente livro de Álvaro Santos Pereira, ministro da Economia (2011, Gradiva, ISBN 978-989-616-413-3).
Mas também os bancos nacionais. Não tenho números, mas é voz corrente que detêm boa parte da dívida, como credores. Aliás, foi a sua decisão de não aceitar mais dívida que levou ao resgate pela “troika”. Também é público e não desmentido que essa dívida comprada pela banca portuguesa foi a que estava em leilão já a juros agiotas, de mais do que 10%, quando esses bancos a compraram com dinheiro emprestado pelo BCE a 1%. Grandes patriotas! Bem, emendo a mão: o que têm a ver os negócios com o patriotismo?
Passou-se o mesmo na Islândia. A sua enorme dívida, mas neste caso dos bancos islandeses, não estava difusa, era altamente centralizada em bancos ingleses e holandeses, a quem eles bateram o pé e não vão pagar sem grande discussão. Mas o que fizeram aos seus banqueiros? Nacionalizaram a banca e despediram-nos.
Centremos a atenção agora na nossa dívida. Muitas pessoas estão a incorrer no erro básico de só olhar para os cerca de 90% do PIB da dívida pública, do Estado. Com isto, dão ênfase, e obviamente com razão, às responsabilidades dos governos, pelo menos desde a época da adesão à então CEE. A despesa pública tem sido um escândalo, mas na velha tradição de toda a gente, no novo rotativismo, se “sentar à mesa do Orçamento”. Longe de mim desculpar o despesismo irresponsável dos sucessivos governos, sem exceção. Mas não é tudo. A dívida externa bruta, a nível nacional, é muito maior (ASP, pág. 222). Em 2010 era de 2235 do PIB, muito maior do que a da Espanha (164,7%) e mesmo, pasme-se, da falida Grécia (167,1%) (ASP, pág. 222). Mesmo em relação à dívida externa líquida, a nossa comparação com a falida Grécia é desfavorável: 109% contra 88% (ASP, pág. 227). Então em que é que somos diferentes dos gregos?
Voltando à dívida privada, quantas das pessoas que mandam mensagens e mais mensagens indignadas com os abusos do Estado ou com o consumismo dos gregos são grandes devedores, já não digo da casa, bem essencial (representando 75% da dívida das famílias, quase que única dívida das famílias de menores rendimentos; ASP, pág. 235), mas das férias anuais nos paraísos, dos cartões de crédito descontrolados, do plasma cada vez maior, do carro trocado ao fim de poucos anos, dos carros para cada um dos meninos? Isto não é dívida? E é a principal dívida, direta e indiretamente. Afinal, a dívida total (dívida externa bruta) vai para mais de 220% do PIB. Parte é de empresas (151% do PIB, ASP pág. 235), parte é dos particulares, através dos bancos (100% do PIB, ASP, pág. 235).
Quem foi na campanha agressiva de crédito feita pela banca, aos baixos juros permitidos pela adesão ao euro, não pensou - e nem sabe de economia política para pensar - que estava a alimentar esse monstro que é hoje a nossa dívida total. Claro que principalmente a dívida externa, porque os bancos, com pouco capital próprio (calcula-se que menos de 10% dos seus ativos), não alimentaram esses empréstimos com depósitos. Não estimularam a poupança, não a premiaram com retornos aliciantes, financiaram-se foi no exterior.
Portanto, senhores gastadores sem critério, com alto padrão de consumo, que hoje acusam o pobre zé de ter endividado o país, olhem primeiro para si e para os seus venerados banqueiros. Só depois digam que essas generalizações abstratas de “Portugal” ou da “Grécia” se portam mal, são irresponsáveis, merecem a falta de paciência e o castigo dos nórdicos bem comportados.
E será que os triplo-A são assim tão bem comportados? Em que se baseia o seu sucesso? Primeiro, houve momentos na sua história recente em que a propagandeada capacidade nacional de esforço patriótico, de construção da economia, escamoteia a grande participação financeira estrangeira (novamente, claro que por razões políticas, não desinteressadas): a grande ajuda à Finlândia depois da guerra com a URSS, a reconstrução das duas Alemanhas e da Áustria no pós-guerra, a ponte de Berlim, até a reunificação alemã.
Em segundo lugar, a competitividade destes países em relação às exportações, na impossibilidade de desvalorização da moeda, tem-se feito por desvalorização interna, por diminuição dos custos de trabalho, numa espécie de “dumping” social. Ser bem comportado, em termos do trabalhador alemão, é aceitar menores salários reais, menores benefícios sociais, menores regalias, em troca de um crescimento económico de que ele beneficia, é certo, mas em menor grau do que os empresários seus patrões.
Tudo isto só é possível pela hegemonia da ideologia dominante. De certa forma, cumpriu-se perversamente o “fim da história” anunciado por Fukuyama. Conjuntamente, o nascimento das ideias de Chigago que conduziram ao reaganismo-thatcherismo e a implosão do mundo comunista, perdendo-se a miragem de uma alternativa ao capitalismo, levaram a uma crença irracional no neoliberalismo, na primazia do capital financeiro, do papel “nacional” dos bancos. “Without you…”, já protestava Eliza no My Fair Lady.
E têm presente que essas santas instituições valem 47 mil milhões dos 78 que recebemos de empréstimo da “troika” (12 em recapitalização e 35 em garantias)? Estou a ser primariamente hostil aos bancos? Vejam o memorando trinitário e o programa do governo e tentem encontrar uma única medida de contenção dos lucros da banca, da distribuição de dividendos, do aumento dos impostos que pagam. Nem sequer o tal imposto extraordinário de que se falou no primeiro PEC e que ficou esquecido. Austeridade é para as pessoas.
Ninguém sabe o que vai ser a Europa e o seu euro daqui a um ano, daqui a um mês. A Grécia vai para o incumprimento? Ou, antes disso, para a reestruturação, "selvagem" ou controlada? E nós? Vai continuar a dizer-se na UE que os resgates tipo greco-português são dogma, que não há plano B, coisa que só pode ser afirmada por mentirosos, porque idiotas não são? Quem vai ganhar nesta divergência que se apercebe entre um governo alemão sem rumo e um BCE com rumo fixado por baias? Parece-me que, nesta incerteza, só haverá certeza no dia em que os bancos disserem “é assim que queremos que seja”.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A lição grega

A insensatez e a cegueira ideológica da União Europeia (UE), que se foi por “emprenhanço” no neoliberalismo, por mediocridade dos políticos, por incapacidade científica e mental dos seus conselheiros economistas, está “a dar o berro”. Como dizem e redizem os melhores economistas mundiais, o euro é uma construção tonta em que todos embarcamos, uma moeda única sem política orçamental e fiscal comum, com um orçamento comum ridículo, sem mecanismos de transferência para harmonização inter-estados (que exigem uma verdadeira união política, igual e solidária). E, como no caso português, muitas vezes com fixação de paridade sobrevalorizadora e lesiva da competitividade económica.
A crise mundial iniciada em 2008 foi principalmente uma crise financeira. Mal ou bem, os estados não-UE injetaram dinheiro no seu sistema financeiro, aplicaram medidas keynesianas de crescimento económico e saíram da crise, os EUA e os BRICS, com o resto do mundo a segui-los. Exceto a UE, que entrou numa crise só sua, a da dívida soberana. Espanta-me que todo o sistema instalado, cá e nos outros países europeus não discuta esta coisa elementar: porque é que a crise da dívida é só europeia?
A outra característica essencial da crise europeia é que a sua compreensão e resolução tem sido apenas reativa, não proativa. Novamente, acho que isto só se explica pela mediocridade que estamos a viver no sistema partidário, nos seus dirigentes, na primazia do marketing político, etc. Vendo bem, herança do homem mais nefasto das últimas décadas da política europeia, Tony Blair (mais os seus seguidores, portuguesmente falando Barroso e Sócrates).
O caso da Grécia é exemplar, e devemos tirar dele boas lições. Até porque, diferentemente da Irlanda e da Espanha, que são casos de dificuldade por crise bancária e bolhas especulativas, a Grécia, como nós, embora a nível muito mais elevado, era um caso de dívida, pública e privada, com consequente défice orçamental.
Recebeu financiamento de resgate em 2010, no valor de 110 mil milhões de euros, com meses de atraso devidos a considerações rasteiramente eleitoralistas da sargenta “össie” (coisa em que vale a pena pensar, a maior potência europeia governada por uma senhora “formatada” pela dialética antes-RDA-agora-RFA). 
Resgate como o nosso, com o mesmo tipo de condições impostas de austeridade, privatizações, desvalorização interna. Com este resgate, as “expetativas” eram de poder ir novamente financiar-se no mercado dentro de três anos. Vê-se. A taxa de juro sobre a dívida grega, no mercado secundário (a única coisa que o resgate faz é evitar ter de ir ao mercado primário) está a níveis fantásticos, na ordem dos 15%. Entretanto, não só paira a ameaça destes juros no fim do resgate como, entretanto, está já a pagar juros incomportáveis aos resgatantes, acima dos 5%, como nós. Os nossos juros no mercado secundário, depois do resgate, também andam nos 10%, o que significa, claramente, que os tais omnipotentes e omniscientes mercados não confiam em que Portugal possa ir em prazo aceitável ao mercado, mesmo com o resgate da “troika”. Bê-à-bá! Não é preciso ser-se economista para perceber isto.
A política de austeridade imposta à Grécia uma vez e mais uma vez e mais uma vez vai muito para além do que é o acordo português com a santa trindade, mas lá chegaremos. Diferentemente de nós, os gregos já estão na rua. Diferentemente de nós, em que a santa trindade interna alinha pelo ajoelhamento, a oposição grega (quero lá saber que seja a de direita, mas também apoiada pela esquerda) acabou de dizer “basta”, não há mais PEC.
Com isto, a UE ficou “à rasca”. Então esses gregos preguiçosos, incivilizados, estão a bater-nos o pé? Já não bastavam os islandeses, que ainda toleramos porque não são UE?  Mas porque ficou “à rasca” a UE? Porque, afinal, pensem bem naquilo que a gente de serviço político e económico não vos quer dizer: o incumprimento da dívida de um país (em termos mais brutais, a sua bancarrota) tem custos mas não só para esse país, também e muito para os seus credores que ficam a ver navios. E quem são esses credores? Os grandes bancos, investidores financeiros, fundos de seguros e de pensões, alemães, franceses e dos bem comportados outros países europeus AAA. Eles ameaçam, chantageiam, mas se lhes baterem bem o pé acabam por ser razoáveis, que entre perder alguma coisa e perder tudo sempre há muita diferença.
É claro que, nestas alturas, há muitas variantes de discurso. Há o discurso bruto do “jamé” tudesco (até que os bancos alemães digam à senhora saxónica que “veja lá, deixe alguma coisita para nós…”), há o do BCE de “reestruturação é uma catástrofe inimaginável”, há até, espantosamente, o da comissária europeia grega (Bruxelas tolda o patriotismo) a dizer que a recusa da Grécia de ir mais longe na austeridade e nas privatizações implicará a sua expulsão do euro (com base em que disposição dos tratados?).
Raposa velhaca, Juncker vai dando uma no cravo e outra na ferradura. Não pode esquecer o que todos os grandes economistas mundiais dizem. A Grécia precisa urgentemente de reestruturar a sua dívida. Então, diz num dia que talvez um “reprofiling”, isto é uma reestruturação muito suave, nada de não pagar ou de fazer “haircut”, só renegociar a taxa de juro com a sua “troika” e eventualmente dilatar os prazos.  Mas hoje já vem dizer que se a Grécia não ceder já, não recebe a próxima fatia do empréstimo e que se vá financiar pró maneta. Também diz que isto não será culpa das instituições europeias, mas do facto de alguns parlamentos europeus não irem nisso, pressionados pelos seus eleitores. 

A implosão da UE e desde logo do euro não vai ser coisa só de governos, economistas, burocratas da CE e do BCE. Vai ser coisa (manipulada) do proto-neo-fascismo que está a ameaçar a Europa da civilização, a bestialidade dos bons nórdicos que não toleram os selvagens do sul (que têm as praias e o sol a que eles não resistem para gastar as poupanças que os sulistas não sabem fazer, compensando a soturnez suicida dos seus invernais “sétimos selos” - os portugueses nunca foram fortes no xadrez).
Amanhã ou depois, a Grécia vai reestruturar a dívida (“renegociar”, como dizem agora as bem comportadas esquerdas nossas que não querem passar por “caloteiros reestruturadores”). Não sou eu que digo, pobre de mim que, parafraseando, “nada sei de finanças, embora tenha biblioteca”. São todos os grandes economistas mundiais que lemos diariamente, desde o “liberal” Krugman ao mais ortodoxo Roubini.
Com isto, a Grécia perdeu um ano, agravou durante este ano toda a sua situação económica e social (e com risco de uma grave crise política e de agitação social, e gente que se porta mal, parte montras e incendeia carros!). O que teria sido se tivesse ido logo para a reestruturação? 
E nós, vamos aprender com o seu exemplo? Vamos aguentar um ou dois anos de recessão (4% segundo a “troika”, de desemprego, de maior défice e dívida relativa por simples aritmética de diminuição do valor do denominador PIB, de maior dívida por juros incomportáveis que agravam o resgate da “troika”, para depois, à grega, irmos para reestruturação em piores condições do que as que podemos ter agora, quando ainda podemos olhar nos olhos os nossos credores agiotas e podemos decidir com dignidade sobre a nossa dívida odiosa?
Estou convencido de que, nas eleições que estão à porta, os campos estão definidos. Há o dos que vão gerir o acordo do resgate, manobrando à vista da costa pequenas mudanças de rumo que esse acordo, afinal o programa de governo, ainda minimamente permite. Há o campo do “não”, que para mim é o da reestruturação já. Mas sem habilidades de bem comportados, “renegociar só, só a taxa de juro, talvez o prazo, mas não ser caloteiro. Com jeito, deixemos a porta aberta à fantasia de Sócrates ganhar e vier fazer maioria connosco”.

P. S. (27.5.2011) - No Sol, hoje, escreve Inês Pedrosa: "à esquerda do PS encontra-se a radicalização do não-pagamento da dívida, que significa, diga-se o que se disser, o abandono da União Europeia". Onde é que IP já leu pretender-se o não-pagamento da dívida? E de onde lhe vem essa certeza sobre o abandono da UE? A liberdade de dizer asneiras é um direito...